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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.54 no.6 Belo Horizonte Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352002000600016 

COMUNICAÇÃO

[Communication]

 

Características de ovários de fêmeas zebu (Bos taurus indicus), colhidos em abatedouros

 

[ Characteristics of the ovaries of zebu cows (Bos taurus indicus) collected in slaughterhouses]

 

 

M.M. Neves, A.P. Marques Jr.*, C.V. Santana, F.P.C. Lima, W.J. Zambrano

Escola de Veterinária da UFMG

Endereço para correspondência

 

 


Segundo Perkins et al. (1954), as medidas de comprimento, largura e espessura de ovários obtidos em abatedouros, sem especificar a raça foram: do ovário esquerdo 3,44, 2,25 e 1,62cm e do ovário direito de 3,60, 2,40 e 1,75cm. Megale & Couto (1959) avaliaram ovários de vacas azebuadas obtidos em abatedouros e encontraram valores de 2,81, 1,49 e 1,72cm para o ovário esquerdo e 3,01, 1,57 e 1,85cm para o direito. Pimentel (1973) mediu os ovários de vacas Gir e encontrou as médias 2,31 ± 0,08cm, 1,40 ± 0,07cm e 1,10 ± 0,06cm, respectivamente para comprimento, largura e espessura do ovário esquerdo e 2,62 ± 0,27cm, 1,27 ± 0,11cm e 0,92 ± 0,08cm para o direito, enfatizando que deficiência nutricional e hipoplasia congênita podem causar diminuição no tamanho e na funcionalidade ovariana.

Poucos trabalhos analisaram as características macroscópicas do corpo lúteo (CL) de animais Bos taurus indicus. Elas foram avaliadas principalmente por meio de ultra-som, uma vez que não é grande a precisão na caracterização da fase lútea, ao se usar a técnica de palpação retal em animais com CL de pequeno diâmetro (Pathiraja et al., 1986). Figueiredo et al. (1997), ao analisarem o corpo lúteo de animais não-gestantes da raça Nelore por meio de ultra-som, encontraram diâmetro máximo de 1,85cm. Akinpelumi & Orji (1990) encontraram diâmetro máximo de 1,22 ± 0,25cm em vacas White Fulani não-gestantes.

Corpos lúteos que apresentam antro podem ser encontrados em animais gestantes (86%) e não-gestantes (77%), sendo sua provável origem atribuída à ocupação incompleta da cavidade folicular pelas células durante a luteinização (Kastelic et al., 1990).

Para este trabalho foram coletados ovários de 86 animais zebuínos da raça Nelore, abatidos em frigoríficos da Região Metropolitana de Belo Horizonte-MG. O trato genital foi retirado imediatamente após o abate observando-se o tônus da parede uterina e a presença de feto, de folículos antrais e de corpo lúteo. Os animais foram classificados em: grupo I, não-gestantes (n=43) e grupo II, gestantes (n=43). No grupo II avaliou-se a idade dos fetos utilizando-se a fórmula descrita por Richardson (1989): X = 2,5 ( Y + 21), em que: X é a variável estádio da gestação em dias e Y representa o comprimento ápico-caudal do feto.

Os ovários, devidamente identificados por grupo, foram mantidos refrigerados até serem mensurados. Eles foram seccionados longitudinalmente em toda a sua extensão. Os CL foram medidos e classificados quanto às suas características anatômicas como protruso e incluso, cavitário e não-cavitário.

O delineamento experimental foi inteiramente ao acaso, avaliando-se dois estádios fisiológicos (gestantes e não-gestantes) e duas localizações (esquerdo e direito), com 43 repetições cada, sendo as médias comparadas pelo teste t de Student (Sampaio, 1998).

Os ovários apresentaram formato de amêndoa com coloração rósea clara devido à presença da albugínea, semelhante ao relatado por Junqueira & Carneiro (1995). Os resultados das mensurações ovarianas e dos corpos lúteos e classificação lútea são apresentados nas Tab. 1 e 2.

 

 

 

 

Os valores encontrados para os ovários esquerdo e direito de animais não-gestantes e gestantes não diferiram entre si, exceto em relação à largura dos ovários esquerdos, maior nos animais gestantes. Todos os valores foram inferiores aos relatados por Perkins et al. (1954), enquanto Megale & Couto (1959) encontraram valores superiores apenas para a largura do ovário, sem especificar se os animais estavam gestantes ou não. Pimentel (1973) encontrou valores menores para todas as características avaliadas neste trabalho. Nos animais gestantes os valores do diâmetro lúteo foram superiores aos dos não-gestantes. Estes foram superiores aos relatados por Akinpelumi & Orji (1990) e inferiores aos encontrados por Figueiredo et al. (1997).

Cinquenta e três por cento das gestações ocorreram no corno esquerdo e 47% no corno direito, diferente do relatado por Megale & Couto (1959), os quais encontraram gestações predominantemente no corno direito. A maioria dos CL de vacas em gestação ocorreu no ovário correspondente ao corno uterino gestante. Verificou-se apenas um caso de CL gestacional no ovário contralateral ao corno gestante.

A porcentagem de CL foi igual para os ovários direito e esquerdo nos dois grupos, porém com maior número de CL no ovário esquerdo (51,2%), o que difere dos resultados descritos por Lagerlöf & Boyd (1953).

Quanto às características anatômicas dos CL, observou-se maior incidência de inclusos do que de protrusosem ambos os grupos, e GII apresentou maior porcentagem de inclusos do que GI. O contrário ocorreu com os protrusos. Não foram encontradas referências quanto à incidência dos aspectos incluso e protruso. Aparentemente durante o desenvolvimento lúteo, o tecido pode proliferar ocupando apenas a área interior do ovário, o que resulta no tipo incluso, ou pode proliferar de forma mais acentuada, extrapolando para fora do ovário e formando um ápice na sua superfície, formando o tipo protruso.

A presença de CL cavitário foi menor no GII, ao contrário do não-cavitário e nos dois grupos, o percentual de CL cavitário foi menor do que o não-cavitário, semelhante ao relatado por Tom et al. (1998), mas diferente dos resultados encontrados por Kastelic et al. (1990).

Apesar de não ter sido confirmado se a aparência cavitária do CL é temporária ou não ao longo de toda a gestação, considerando que foram avaliadas genitálias com estádios de gestação de 53 a 150 dias, média de 104,83 dias, os resultados deste trabalho sinalizam que o CL pode ser cavitário em qualquer estádio da gestação, ao contrário do sugerido por Kastelic et al. (1990), ao afirmarem que a cavidade do CL desaparece por volta do 20º dia.

Uma conclusão relevante é que em animais Bos indicus, o tamanho do ovário e a elevada incidência de CL incluso devem ser consideradas como fatores importantes quando da utilização de exame ginecológico por palpação retal, para minimizar erros inerentes a essa técnica de avaliação ginecológica.

Palavras-chave: Bovino, zebu, ovário, corpo lúteo


ABSTRACT

The ovarian characteristics of pregnant and non pregnant zebu cows (Bos taurus indicus) were studied. The ovaries were obtained in slaughterhouses, identified and divided into: group I, non pregnant animals (GI, n=43) and group II, pregnant animals (GII, n=43). The ovaries were measured and cut in their lenght for measuring and evaluation of the corpus luteum (CL) characteristics. For the GI the measures for the left ovary were 2.5 ± 0.70, 1.61 ± 0.32 and 1.22 ± 0.39cm, respectively for length, width and thickness, and 2.62 ± 0.54, 1.71 ± 0.36 and 1.21 ± 0.31cm for the right ovary. For the GII the measures for the left ovary were 2.78 ± 0.48, 1.80 ± 0.33 and 1.23 ± 0.35cm, respectively for length, width and thickness and 2.84 ± 0.50, 1.74 ± 0.45 and 1.21 ± 0.40cm for the right one. Both groups presented 51.2% of CL in the left ovary and 48.8% in the right one, with high incidence of CL enclosed and without cavity. The mean for the diameter of the CL was 1.59±0.32cm for GI e 1.82±0.35cm for GII. The results suggest the need to consider carefully the size of the ovary and the enclosed characteristics of the CL when performing gynecological examination of zebu cows via rectal palpation.

Keywords: Bovine, zebu, ovary, corpus luteum


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Endereço para correspondência
Caixa Postal 567
30123-970 – Belo Horizonte, MG
E-mail: ampinho@dedalus.lcc.ufmg.br 

Recebido para publicação em 8 de junho de 2001
Recebido para publicação, após modificações, em 29 de agosto de 2002

 

 

*Autor para correspondência

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