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Psicologia: Teoria e Pesquisa

versão impressa ISSN 0102-3772

Psic.: Teor. e Pesq. v.21 n.2 Brasília maio/ago. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722005000200008 

Compartilhar tarefas? Papéis e funções de pai e mãe na família contemporânea1

 

Sharing tasks: parent's roles and functions in contemporary family

 

 

Adriana WagnerI,2; Juliana PredebonII; Clarisse MosmannIII; Fabiana VerzaIII

IPontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
IIUniversidade Luterana do Brasil
IIIPontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

 

 


RESUMO

Este estudo apresenta uma análise do exercício e da divisão de papéis e funções desempenhados por progenitores na criação e educação de seus filhos em idade escolar. Utilizou-se uma amostra de 100 famílias de nível sócio-econômico médio residentes na cidade de Porto Alegre. Foi utilizado um questionário elaborado pelo grupo de pesquisa Dinâmica das Relações Familiares. Os resultados obtidos demostraram que, de forma geral, existe um bom nível de concordância entre as respostas de pais e mães (40%) no que se refere a divisão de tarefas na criação dos filhos. Além disso, a análise de Clusters permitiu identificar dois grupos quanto ao desempenho das principais tarefas realizadas na família em relação à educação dos filhos. O Grupo I (49%) caracterizou-se por ser a mãe a principal responsável, enquanto o Grupo II (51%) caracterizou-se por haver uma divisão igualitária das tarefas entre o pai e a mãe.

Palavras-chave: estrutura familiar; parentalidade; gênero.


ABSTRACT

This study presents an analysis of the division of family roles and functions performed by fathers and mothers on bringing their school-aged children. A sample of 100 families of an "intermediate" social class level resident in the city of Porto Alegre with school-aged children was investigated by this research. The technique used was a questionnaire elaborated by the group Dinâmica das Relações Familiares. The results showed that, in general, there is a good level of agreement between fathers and mothers (40%), with respect to the tasks in up bringing children. In addition, the Cluster's analysis allowed to identify two groups of families according to their main tasks in terms of children education: The Group 1 (49%) is characterized by the mother as the main responsible for children's education, while the Group 2 (51%) is characterized by an equal division of tasks between mothers and fathers.

Key words: family structure; parenting; gender.


 

 

Educar os filhos sempre foi uma tarefa complexa para os pais, embora isso não signifique que tais responsabilidades sejam compartilhadas de forma igualitária entre o casal. Diversas pesquisas apontam que as mães tendem a envolver-se mais do que os pais nas tarefas do dia-a-dia da criança e, geralmente, estão à frente do planejamento educacional de seus filhos (Gauvin & Huard, 1999; Stright & Bales, 2003). Em contrapartida, observa-se um número crescente de pais que também compartilham com a mulher ou até mesmo assumem as tarefas educativas e a responsabilidade de educar os filhos, buscando adequarem-se às demandas da realidade atual.

Essas situações parecem refletir aspectos do processo histórico que se sucedeu no decorrer do século XX acarretando transformações no exercício da tarefa educativa nas famílias. Durante a década de 1930 até meados da década de 1980, os pais, geralmente, desempenhavam suas tarefas educativas baseados na tradicional divisão de papéis segundo o gênero (Biasoli-Alves, Caldana & Dias da Silva, 1997). Principalmente, a partir da década de 1980 os papéis parentais passaram por transformações mais consistentes, apesar de suas representações ainda estarem relativamente marcadas por modelos tradicionais de parentalidade e paternidade (Trindade, Andrade & Souza, 1997).

Importantes fenômenos e movimentos sociais, tais como, a entrada das mulheres no mercado de trabalho e sua maior participação no sistema financeiro familiar acabaram por imprimir um novo perfil à família. Em contraponto à estrutura familiar tradicional, com o pai como único provedor e a mãe como única responsável pelas tarefas domésticas e cuidado dos filhos, o que vêm ocorrendo na maioria das famílias brasileiras de nível sócio-econômico médio é um processo de transição. Atualmente, em muitas famílias já se percebe uma relativa divisão de tarefas, na qual pais e mães compartilham aspectos referentes às tarefas educativas e organização do dia-a-dia da família.

Porém, essas mudanças parecem não estar ocorrendo com a mesma freqüência e intensidade em todas as famílias. O que encontramos hoje em dia são famílias com diferentes configurações e estruturas, o que implica diretamente na divisão de tais tarefas. Coexistem modelos familiares nos quais segue vigente a tradicional divisão de papéis; outros nos quais maridos e esposas dividem as tarefas domésticas e educativas e, ainda, famílias nas quais as mulheres são as principais mantenedoras financeiras do lar, mesmo acumulando a maior responsabilidade pelo trabalho doméstico e educação dos filhos (Fleck & Wagner, 2003).

Neste sentido, percebe-se que a divisão das tarefas domésticas, criação e educação dos filhos parecem não acompanhar de maneira proporcional as mudanças decorrentes da maior participação da mulher no mercado de trabalho e do sustento econômico do lar. O descompasso dessas mudanças se evidencia em suas mais diversas expressões, como por exemplo no fato de que o trabalho doméstico continua sendo freqüentemente denominado "trabalho de mulher" (Greenstein, 2000; Rocha-Coutinho, 2003).

A necessidade de analisar e compreender a coexistência dos aspectos modernos e tradicionais nas famílias contemporâneas nos últimos 15 anos, revelou um considerável aumento no número de pesquisas sobre a divisão de gênero nessas atividades domésticas.

Pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos têm constatado que a divisão das tarefas domésticas ainda tende a seguir padrões relativamente tradicionais. Mesmo nas casas onde as mulheres têm um ganho financeiro maior do que os maridos, ou mesmo naquelas onde os maridos estão desempregados, elas realizam uma quantidade muito maior de atividades no trabalho doméstico que eles. Ademais, homens e mulheres ainda desempenham distintas tarefas domésticas como se tais atividades fossem próprias de cada um deles. Assim, as mulheres seguem realizando tarefas como cozinhar, lavar e passar enquanto os homens desempenham tarefas como carpintaria e pequenos consertos (Cinamonm & Rich, 2002; Fleck & Wagner, 2003; Greenstein, 2000; Rocha-Coutinho, 2003; Strey, Blanco, Wendling, Ruwer & Borges, 1997).

Especificamente no contexto norte americano, Greenstein (2000) realizou uma pesquisa para comparar a quantidade de tarefas domésticas realizadas por mulheres que sustentam financeiramente suas famílias e mulheres que são dependentes economicamente de seus maridos. Para tanto, utilizou-se do National Survey of Families and Households (levantamento familiar nacional) com uma amostra de 2.912 casais. Os resultados mostraram que as mulheres contribuem com 64% do total de horas de trabalho doméstico, enquanto os maridos com 30%, sendo o restante desempenhado pelas crianças ou outras pessoas que vivem ou ajudam na casa.

Os dados dessa pesquisa indicam que quando maridos e esposas têm aproximadamente o mesmo ganho financeiro, as tarefas domésticas são divididas de forma mais igualitária. Entretanto, na medida em que a independência econômica das esposas, aumenta os maridos tendem a realizar menos trabalhos domésticos. As mulheres que sustentam a família referem que dispensam menos horas de trabalho doméstico do que realmente realizam, enquanto seus maridos que não trabalham dizem passar mais tempo nas atividades domésticas do que realmente o fazem. Ou seja, tanto esposas quanto esposos exageram na avaliação do trabalho doméstico que realizam.

Ademais, as mulheres que sustentam a casa desempenham mais tarefas domésticas do que as mulheres dependentes economicamente de seus maridos, proporcionalmente ao tempo disponível que possuem. Por outro lado, os maridos dependentes economicamente de suas mulheres, na mesma proporção, realizam menos tarefas que os que sustentam suas famílias. Greenstein (2000) discute esses resultados como sendo um mecanismo utilizado pelas famílias as quais as mulheres são as mantenedoras financeiras do lar, como uma forma de compensar a expectativa social de gênero.

Estudos com a população brasileira corroboram essa tendência (Fleck & Wagner, 2003; Rocha-Coutinho, 2003; Strey & cols. 1997). De acordo com Strey e cols. (1997), em um estudo sobre a construção de projetos profissionais de estudantes brasileiros, foi verificado que apesar de mudanças estarem ocorrendo, tanto os indivíduos, quanto o ambiente em si, ainda dificultam uma maior igualdade entre sexos e isso se percebe nos estereótipos de gênero. Em uma amostra de 555 sujeitos, 68,7% dos homens frente a 92,7% das mulheres concordam que as tarefas domésticas deveriam ser divididas de forma igualitária entre os dois sexos.

Estudos brasileiros com famílias de nível sócio-econômico médio nos quais a mulher é a principal responsável pelo sustento financeiro, mostram que ela ainda assume quase que totalmente a responsabilidade pelas tarefas domésticas. Mesmo ganhando mais que os maridos, parece que nestas famílias a divisão das tarefas domésticas segue sendo feita ainda de forma tradicional (Fleck & Wagner, 2003; Rocha-Coutinho, 2003).

Percebe-se nestas famílias que, mesmo vivenciando uma situação de sustento não tradicional, mantém-se um funcionamento bastante clássico. Ainda que a mulher tenha rendimentos maiores que o homem, estes ainda são considerados no discurso familiar como um complemento ao orçamento. Por outro lado, as tarefas domésticas desempenhadas pelos maridos são percebidas como uma "ajuda", expressando a isenção deste da responsabilidade no desempenho de tais atividades.

Entretanto, resultados de outros estudos (Cinamonm & Rich, 2002; Greenstein, 2000) demonstraram que a divisão do sustento da família entre marido e mulher é uma variável que contribui para uma divisão do trabalho doméstico mais igualitária.

Esse fenômeno pode ser compreendido levando-se em consideração que as tradições políticas, culturais e sociais extremamente arraigadas têm dificultado que a mulher consiga equilibrar responsabilidades familiares e profissionais e que atinja paridade com o homem no mercado de trabalho. Mulheres ganham em média, um a dois terços menos do que os homens, têm menos acesso à promoção e conseqüentemente a cargos de gerenciamento e poder e têm maior acesso a profissões menos valorizadas socialmente (Diniz,1999).

Essa divisão de papéis e funções não se restringe somente ao âmbito profissional e doméstico. A tarefa educativa que, historicamente, tem sido atribuída às mulheres, também tem acompanhado tais transformações. Estudos internacionais e com a população brasileira têm demonstrado que variáveis como a configuração familiar (Wagner & Féres-Carneiro, 2000; Wagner, Halpern & Bornholdt, 1999; Wagner & , Oliveira, 2000), o nível de escolaridade (Cinamon & Rich, 2002) e o envolvimento com o trabalho (Diniz, 1999) também são bastante relevantes na explicação de tal fenômeno.

No Brasil, pesquisas indicam que em famílias recasadas, por exemplo, os pais tendem a ser mais periféricos no que se refere à educação dos filhos(as), principalmente, se não coabitam com esses (Wagner & cols., 1999; Wagner & Féres-Carneiro, 2000; Wagner & Oliveira, 2000). No entanto, estudos têm mostrado que quanto maior o nível de escolaridade dos pais, mais visível é o afeto e o estabelecimento de um relacionamento positivo entre pai e filho(a). Outra conseqüência relativa ao aumento da escolaridade dos pais reflete-se na diminuição da dicotomia entre a função paterna, sendo o pai como provedor principal do lar, e a função materna, sendo a mãe como a responsável exclusiva dos cuidados com a casa e tarefas do dia-a-dia (Trindade & cols. 1997).

Essas considerações explicitam a complexidade que envolve a divisão das tarefas educativas na família atual. Na busca de uma compreensão mais aprofundada sobre essa questão, no presente estudo buscou-se conhecer a divisão das tarefas educativas desempenhadas pelo pai e pela mãe em famílias de nível sócio-econômico médio, com filhos em idade escolar, já que esta é uma faixa etária na qual ainda existe uma forte dependência dos filhos com relação aos pais, desde aspectos relacionados ao deslocamento destes para suas atividades formativas, até as tarefas primárias como o ensinamento de hábitos de higiene, por exemplo. Para tanto, investigou-se as principais semelhanças e diferenças quanto ao desempenho de tarefas educativas entre o pai e a mãe, e o nível de acordo dos progenitores na avaliação de quem é o principal responsável no desempenho de tais tarefas.

 

Método

Amostra

Participaram deste estudo 100 famílias de nível sócio econômico médio com, pelo menos, um filho em idade escolar, definida neste estudo desde os 7 aos 12 anos de idade.

Instrumento

O instrumento utilizado foi um questionário elaborado pelo grupo de pesquisa Dinâmica das Relações Familiares – PUCRS, a partir da literatura sobre funções e papéis familiares na educação dos filhos. O questionário está constituído de 23 questões fechadas, de escolha simples, que configuram os aspectos sócio-bio-demográficos das famílias e avaliam a participação do pai e da mãe no desempenho de tais tarefas e as suas responsabilidades diárias junto aos filhos.

Procedimentos

Inicialmente, fizemos contato com a direção de algumas escolas particulares de Porto Alegre, segundo o critério de escolha por conveniência. Mediante a autorização para a coleta dos dados, foram enviados pelos filhos(as), em idade escolar, questionários aos pais solicitando que fossem respondidos individualmente, pelo pai e pela mãe. Ao devolver à escola o instrumento respondido, pais e mães deveriam enviar, também assinado, o termo de consentimento informado, que foi anexado ao instrumento.

 

Resultados

Realizamos preliminarmente uma análise descritiva (porcentagens, freqüências, média, mediana e desvio padrão) a fim de observar o comportamento das variáveis do estudo. Posteriormente, com o objetivo de verificar o nível de acordo entre as respostas dadas pelo pai e pela mãe, calculou-se o índice Kappa. Por último, realizamos uma análise de Clusters para verificar que tipo de agrupamento familiar se encontraria na amostra investigada quanto à forma que o pai e a mãe organizavam e repartiam as tarefas de criação e educação dos filhos. Para todos os testes estatísticos foi adotado um índice de significância de 0,05.

Caracterização da amostra

Em relação à configuração, todas as 100 famílias participantes deste estudo eram intactas. Na sua maioria, os núcleos se caracterizavam por um nível sócio econômico cultural médio, possuindo, em média, dois filhos. Com relação ao pai, a idade média dos sujeitos foi de 41,7 anos (DP = 6,7), sendo que a renda pessoal distribuiu-se nos seguintes intervalos: 29,8% ganhavam até R$ 500,00 por mês; 47,9% recebiam entre R$1.000,00 e R$ 4.000,00 e 22,4% recebiam acima de R$ 4.000,00 até mais de R$ 6.000,00. Além disso, 90% dos pais trabalhavam fora e 55% possuíam terceiro grau completo e/ou pós-graduação, 26% ensino médio e 17% ensino fundamental. Dentre todas as ocupações identificadas, constatou-se que 43,4% eram profissionais de nível médio, 40,6% dos pais eram profissionais liberais, 8,2 % funcionários públicos, 3% profissionais de nível técnico, 2% professores; entre outros. Quanto à religião, 73% dos pais eram católicos, sendo que destes, 47,9% praticantes.

Com relação à mãe, a idade média foi de 38,2 anos (DP = 4,3), sendo que a renda pessoal da mãe variou no seguinte intervalo: 61,2 % ganhavam até R$ 1.000,00 por mês; 32,3 % recebiam mais de R$ 1.000,00 até R$ 4000,00 e 6,5% das mães recebiam de R$ 4000,00 até mais de R$ 6.000,00. Destas mães, 69% trabalhavam fora, enquanto 31% não. Quanto ao nível de escolaridade, 52% das mães possuíam terceiro grau completo e/ou pós-graduação, 26% ensino médio e 21% ensino fundamental. Dentre todas as ocupações identificadas, constatou-se que 25,7% das mães eram profissionais liberais; 17% donas de casa; 16,5% profissionais de nível médio; 15,4% profissionais de nível técnico; 14,6 % professoras; 4,2% bancárias e 4,2% eram funcionárias públicas. Quanto à religião, 73% das mães eram católicas, sendo que destas 69,8% praticantes.

Observa-se que os casais apresentam certa homogeneidade, sendo, em média, os homens mais velhos e com melhores ingressos econômicos que as mulheres. O nível de escolaridade também se apresenta mais elevado, percentualmente, na amostra de pais do que na de mães. Quanto a relação de conjugalidade, estas famílias são compostas por casais com um tempo médio de união de 14,27 anos (DP mulher = 4,2 e DP marido = 4,41). Na avaliação da relação conjugal 50% dos homens e 39% das mulheres consideram sua relação conjugal na atualidade como muito satisfatória, 43% dos homens e 53% das mulheres avaliam como satisfatória. A minoria (7% homens; 8% mulheres) considera pouco satisfatória ou insatisfatória.

Em relação ao convívio diário dos pais e mães com seus filhos, constatou-se que durante os dias da semana, um grande número de pais (60,2 %) convivem com o filho durante o turno da noite. Sendo que apenas 22,4 % dos pais conseguem conviver com o filho durante os turnos da tarde e da noite. Com relação à mãe, 52 % conseguem estar com o filho durante dois turnos diariamente. Enquanto que 27% das mães conseguem estar com o filho apenas no turno da noite e 12 % das mães conseguem estar com o filho durante os três turnos. Os pais passam, em média, 25,5 horas (DP = 15,6) com seu filho durante o final de semana, enquanto as mães 34,4 horas (DP = 13,1). Perguntamos aos pais e mães qual a relação que eles faziam entre a qualidade do seu relacionamento conjugal e o desempenho da tarefa educativa junto aos filhos. A maioria de homens (74%) e a maioria de mulheres (76%) consideraram que a qualidade da sua relação conjugal tem grande importância e influência no desempenho das tarefas educativas enquanto pais e mães. No que se refere à coparentalidade na educação dos filhos, 59% das mulheres consideram que a relação com o marido é de muita cumplicidade, 33% com momentos de cumplicidade e 7% com pouca cumplicidade. O mesmo pode ser observado quanto à relação com a esposa, uma vez que 58% dos homens consideram de muita cumplicidade, 32% com momentos de cumplicidade e 6 % com pouca ou sem cumplicidade.

A partir da análise descritiva podemos observar que a maioria dos casais tem bons níveis de satisfação conjugal e considera que a qualidade da relação de conjugalidade que estabelecem tem muita importância e influencia no desempenho de suas tarefas como pais e mães. Percentualmente, as mães têm mais tempo de convívio diário com os filhos que os pais.

 

Análise Inferencial

1. Divisão de papéis e funções familiares

A fim de verificar o nível de acordo entre o pai e a mãe sobre quem é responsável pelas tarefas que dizem respeito à criação e educação dos filhos, realizamos o cálculo do índice Kappa. Esse teste estatístico proporciona uma medida do grau de acordo existente entre os sujeitos de uma amostra sobre determinada situação (Cohen, 1960). Havia três alternativas de respostas (eu, meu marido/mulher, meu marido/mulher dividimos a tarefa). De forma geral, os pais e as mães apresentaram um bom nível de concordância (40%) no que se refere às tarefas e funções educativas exercidas com os filhos, uma vez que o valor do Kappa foi superior a 0,4 em quase todas as tarefas citadas. De acordo com a literatura, valores entre 0,4 e 0,75 refletem um bom índice de acordo entre os sujeitos (Landis & Koch, 1977).

No total das oito tarefas educativas avaliadas, identificou-se que os progenitores estão de acordo na divisão das responsabilidades em seis delas. Em apenas duas tarefas educativas os pais concordaram que a mãe é a principal responsável. A tarefa educativa que obteve o maior índice de concordância refere-se ao sustento financeiro dos filhos, na qual ambos concordaram que dividem essa tarefa (68,3%). E a tarefa educativa que obteve o menor índice de concordância foi a que se refere a quem é o principal responsável por acompanhar e proporcionar atividades de lazer do filho, tendo os progenitores avaliado, com um grau de 38% de concordância, que dividem essa tarefa.

 

 

2. Tipos de estrutura familiar

A partir da técnica exploratória de classificação denominada Cluster não hierárquico K-médias, chegou-se a dois grupos (clusters) que apresentaram características homogêneas com relação à forma como os pais e as mães dividem as tarefas educativas. Para perfilar as famílias que compõe cada grupo recorreu-se a técnicas descritivas. As famílias ficaram assim definidas:

a) Famílias do grupo I – A mãe como principal responsável pelas tarefas

Esse grupo caracterizou-se por apresentar a mãe como a principal responsável pelas tarefas que envolvem a criação e educação dos filhos.

b) Famílias do grupo II – As tarefas são compartilhadas pelo pai e pela mãe

Esse grupo caracterizou-se por haver uma divisão entre o pai e a mãe das tarefas referentes à criação e educação dos filhos.

A Tabela 2 ilustra a média e o desvio padrão de cada grupo de família. As médias das respostas foram calculadas segundo os seguintes escores: mãe (1 = 1; 2 = 0; 3 = 0,5) e pai (1 = 0; 2 = 1; 3 = 0,5)

 

 

Discussão

A amostra pesquisada de 100 casais apresentou características sócio-bio-demográficas que indicam um grupo de sujeitos, na sua maioria, católicos, de nível sócio-econômico-cultural médio da população brasileira. Nesse sentido, o fenômeno aqui investigado está circunscrito em um contexto definido por casais em que 90% dos homens e 69% das mulheres trabalham fora, sendo que os homens têm melhores ingressos -econômicos, maior nível de escolaridade e passam menos horas com seus filhos que as mulheres. A maioria dos casais entrevistados está de acordo que sua relação conjugal é satisfatória e tem grande importância no desempenho de suas tarefas educativas enquanto pai e mãe. Provavelmente, essa informação explica em alguma medida o fato de 60% dos entrevistados sentirem-se cúmplices na relação de coparentalidade.

Essa cumplicidade se ratifica no índice de 40% de concordância entre homens e mulheres sobre a responsabilidade das tarefas que dizem respeito à criação e educação dos filhos. Das oito tarefas investigadas, seis delas são compartilhadas pelo pai e pela mãe. Nesse caso, pode-se observar que o exercício da disciplina, o suporte afetivo, a educação básica em termos de higiene, o compromisso com a escola e o sustento econômico são tarefas as quais, na maioria das vezes, o pai e a mãe assumem de forma conjunta. É curioso, entretanto, observar que apesar de 69% da amostra de mulheres trabalhar fora e ter participação semelhante ao marido, principalmente, no que diz respeito ao sustento dos filhos, ainda aparece como trabalho feminino a função de nutrição e acompanhamento do cotidiano dos filhos (tarefas escolares). Este aspecto retoma as funções e papéis clássicos da família assinalados por Biasoli-Alves e cols. (1997) e Trindade e cols. (1997). Nesse caso, podemos constatar que, embora sejam evidentes as mudanças e a evolução das famílias de nível médio quanto a divisão das tarefas que se referem à educação dos filhos, encontramos a coexistência de padrões clássicos e contemporâneos com respeito a esse tema.

Essa coexistência se expressa de forma clara na análise dos tipos de estrutura familiar que a amostra compõe, na qual é possível identificar dois grupos distintos. No grupo I, a mãe é a principal responsável pelas tarefas que envolvem a criação e educação dos filhos e no grupo II, há uma divisão de tais tarefas entre o pai e a mãe. Conforme apresentamos na Tabela 2, é interessante assinalar que na perspectiva das Mães e dos Pais, o grupo do tipo I, revela a participação nula dos pais em tarefas tais como desenvolvimento de hábitos de higiene e cuidados com a alimentação dos filhos.

Em contrapartida, encontram-se também nesse grupo índices nulos ou muito inferiores (2,1%) da participação da mãe como a principal responsável pelo sustento econômico dos filhos. Nesse caso, ou o casal divide a tarefa ou o pai é o principal responsável. Esse quadro remonta o clássico padrão familiar da divisão de funções e tarefas familiares. O homem com a responsabilidade do que podemos chamar extra-lar (sustento econômico) e a mulher com as atividades intra-lar (cuidado de educação dos filhos) (Gauvin & Huard, 1999; Greenstein, 2000; Stright & Bales, 2003).

O grupo II que revela a estrutura familiar na qual as respostas de homens e mulheres se concentram maioritariamente na alternativa "dividimos a tarefa", expressa uma parcela da população que tem distanciado-se do modelo clássico da divisão de gênero dos papéis e funções familiares. Esse modelo aponta a integração que tais famílias vêm fazendo das demandas educativas, do trabalho e da conjugalidade, como uma forma de atender de melhor maneira tal complexidade.

Os dados refletem de forma clara que as mudanças nas funções e papéis na família contemporânea não vêm ocorrendo com a mesma freqüência e intensidade em todas os núcleos. Co-existem modelos familiares e há um descompasso nas mudanças. Essa realidade nos remete a refletir sobre a importância de considerar os aspectos históricos que têm organizado as funções familiares ao longo do tempo, no momento de avaliar e intervir na otimização dos recursos que cada família apresenta para enfrentar suas crises. Não podemos pressupor um modelo ideal, igualitário e equilibrado. Entretanto, é fundamental conhecer o contexto de cada família e a força que suas crenças, valores e atitudes têm na definição e distribuição das tarefas e papéis familiares.

 

Referências

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Recebido em 10.08.2004
Primeira decisão editorial em 17.03.2005
Versão final em 25.04.2005
Aceito em 06.07.2005

 

 

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