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Lua Nova: Revista de Cultura e Política

versão impressa ISSN 0102-6445versão On-line ISSN 1807-0175

Lua Nova  no.109 São Paulo jan./abr. 2020  Epub 05-Jun-2020

http://dx.doi.org/10.1590/0102-007010109 

Editorial

MOBILIZAÇÃO, POPULISMO E DIREITOS

Bruno Konder Comparato1 
http://orcid.org/0000-0001-9356-0362

1é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Guarulhos, SP, Brasil. E-mail: bruno.comparato@unifesp.br


Vivemos tempos realmente extraordinários. Enquanto uma pandemia mundial obriga o mundo todo ao isolamento forçado e a uma pausa para reflexão, não são poucos os atores políticos que privilegiam as ideologias às pesquisas científicas. O alcance e as consequências da pandemia provocada pelo Covid-19 vão muito além da inevitabilidade da saúde global como tema de importância, como nos alertavam Deisy Ventura e João Nunes (2016) no texto de apresentação ao dossiê “Por uma saúde global” que organizaram para a edição 98 desta revista: “A globalização parece ter tornado a saúde global um fenômeno inevitável, natural e necessário” (Ventura e Nunes, p. 7), pois

torna-se evidente que existem boas razões para adotarmos a saúde global como lente de análise para o estudo das doenças, dos determinantes e dos grupos e populações afetados. É no plano global que podemos verdadeiramente entender as condições estruturais que dão origem às doenças, e é também em nível global que são definidas as possibilidades de uma resposta adequada, na forma de ideias, instrumentos legislativos e políticos, e também na distribuição de recursos materiais. (Ventura e Nunes, 2016, p. 8)

Como já havia diagnosticado Albert Camus há mais de meio século, no romance que lhe valeu o prêmio Nobel e que agora está mais atual do que nunca:

As pragas, com efeito, são uma coisa comum, mas cremos dificilmente nas pragas quando elas nos caem sobre a cabeça. Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. Mesmo assim, as pestes e as guerras sempre encontram as pessoas tão desprevenidas. (Camus, 1947, p. 47)

Em tempos de crises e incertezas, há sempre quem prefira recorrer às crendices em detrimento da reflexão científica, afinal de contas “as hipóteses, na ciência como na vida, são sempre perigosas” (Camus, 1947, p. 59).

Os artigos reunidos neste número da revista Lua Nova iluminam, cada um à sua maneira, algum aspecto destas reflexões que dizem respeito, ora à participação e à mobilização, ora ao populismo e às suas consequências que passam pela perda de direitos e o encarceramento em massa. O número 109 da revista Lua Nova se inicia com um artigo de Lígia Helena Hahn Luchmann intitulado “Interfaces socioestatais e instituições participativas: dimensões analíticas”, no qual a autora destaca a necessidade de uma maior compreensão do papel das interfaces socioestatais para o desenvolvimento das instituições participativas a partir de um diálogo com os estudos sobre as instituições participativas, teoria democrática e políticas públicas. No artigo seguinte, “Da Formação Cultural à Mobilização Social: espaços de formação e mobilização ao longo de três gerações na periferia de São Paulo”, Leonardo de Oliveira Fontes analisa empiricamente como uma “cultura pública” foi formada e tornou-se capaz de dar forma e material às mobilizações coletivas nas periferias de São Paulo. No terceiro artigo deste número, “Populismo nas eleições presidenciais de 2018: uma análise dos discursos de campanha de Bolsonaro”, Eduardo Ryo Tamaki e Mario Fuks partem de uma análise dos discursos de Bolsonaro durante sua campanha oficial para a presidência e mostram que os traços populistas cresceram ao longo da campanha mesmo disputando espaço com o vocabulário nacionalista e patriótico. O trabalho integra uma pesquisa internacional coordenada pelo Team Populism que propõe uma abordagem ideacional sobre o populismo. Em seguida, Amélia Cohn nos brinda com “As políticas de abate social no Brasil contemporâneo”, um texto instigante sobre as políticas de abate social no Brasil contemporâneo, no qual percorre as trajetórias da construção e da desconstrução da rede de proteção social no Brasil até 2020. Populista ou não, o fato é que o governo atual promove uma destruição dos direitos sociais no país. Ao lançar foco para outro aspecto desta mesma realidade, no quinto artigo deste número, Laurindo Dias Minhoto nos mostra as relações enxergadas por ele entre o “Encarceramento em massa, o racketeering de estado e a racionalidade neoliberal” - para o autor, a análise da experiência brasileira permite explicitar o conceito de racionalidade neoliberal e o modo como ele configura o encarceramento em massa que é uma consequência dos regimes punitivos de países do Sul global. O sexto artigo, “Atualidade da reificação de Marx como instrumento da análise de relações jurídicas e sociais”, de autoria de Martonio Mont’Alverne Barreto Lima e Walquíria Leão Rego, é mais teórico e destaca a necessidade da atualização do conceito de reificação para a compreensão das relações sociais no desenvolvimento econômico e político do sistema capitalista a partir da reinserção do assunto no atual debate sociológico-jurídico contemporâneo. No artigo seguinte, “Do trabalho imaterial como valor: o exemplo da estrutura macroeconómica das indústrias criativas”, João Valente Aguiar traz uma reflexão sobre o trabalho imaterial como valor que desenvolve a partir das propriedades constitutivas do campo social e econômico das indústrias criativas. No oitavo artigo do número, “Panturquismo em Xinjiang e na Ásia Central: entre o separatismo e a integração”, Victor Carneiro Corrêa Vieira analisa o desenvolvimento do movimento radical islâmico na China e sua interação com outros grupos da Ásia Central e com a repressão estatal. Por fim, este número se encerra com um artigo de Deivison Mendes Faustino, “Revisitando a recepção de Frantz Fanon: o ativismo negro brasileiro e os diálogos transnacionais em torno da negritude”, que investiga a circulação das ideias de Frantz Fanon e os seus reflexos e particularidades na recepção às ideias deste autor no Brasil e a sua contribuição para o conceito de negritude e o ativismo negro brasileiro da década de 1950. Todos os nove artigos foram enviados espontaneamente por seus autores e receberam uma avaliação positiva dos nossos pareceristas, aos quais muito agradecemos.

Bibliografia

CAMUS, Albert. 1947. La peste. Paris: Gallimard. [ Links ]

VENTURA, Deisy; NUNES, João. 2016. Apresentação: por uma saúde global. Lua Nova, n. 98, pp. 7-13. [ Links ]

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