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Sociedade e Estado

Print version ISSN 0102-6992

Soc. estado. vol.26 no.1 Brasília Jan./Apr. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69922011000100013 

RESENHAS

 

De Elimar Pinheiro Nascimento, Alfredo Pena-Vega e Marcio Antonio Silveira (orgs.): interdisciplinaridade e universidade no século XXI

 

 

Fabiana Moreira Vicentim

Mestranda do Centro de Desenvolvimento Sustentável, Universidade de Brasília - CDS/UnB, fabi_vicentim@yahoo.com.br

 

 

(Brasília: Editora Abaré, 2008)

O livro reúne doze textos, de dezoito autores com áreas múltiplas de formação, o que possibilita compreender a interdisciplinaridade por diversos ângulos e torna o livro diversificado e interessante. Oferece ao leitor reflexões abrangentes sobre a temática. A discussão é pautada em três eixos: o resgate da subjetividade na pesquisa científica, a superação da uniformidade das disciplinas e a apresentação de experiências interdisciplinares. A obra agrega valor à discussão sobre interdisciplinaridade, por abordar desde aspectos teóricos e metodológicos, até exemplos de sua aplicabilidade.

A coletânea, composta por doze artigos, é a mais recente publicação resultante da parceria entre o Observatório Internacional das Reformas Universitárias - ORUS INT, o Centro de Desenvolvimento Sustentável - CDS/UnB e a Universidade Federal do Tocantins - UFT. Relaciona a interdisciplinaridade a diversos temas, dentre eles: paradigma transdisciplinar, metodologia de cenários, sustentabilidade, mudanças climáticas, recursos hídricos, agroecologia e produção energética.

A primeira parte do livro reúne textos de Alfredo Pena-Vega, Veronique Nahoum-Grape e Luis Manuel Flores-Gonzales, que tratam de alguns aspectos teóricos da interdisciplinaridade. Pena-Vega atinge o cerne da questão ao referir-se à necessidade de reorganização profunda do conhecimento. Para tanto, refuta a organização do conhecimento por meio de disciplinas e aponta a perspectiva transdisciplinar. Focaliza as contribuições dadas por essa nova forma de compreender as questões socioambientais. De forma clara e sucinta, contextualiza as influências mútuas entre as ciências humanas e as ciências naturais. Esclarece que a transdisciplinaridade é tratada nos estudos e pelos pesquisadores de forma marginal, sendo ainda apenas uma aposta. O texto auxilia no entendimento do pensar complexo e aponta a transdisciplinaridade como estratégia. O importante dessa abordagem é a contribuição dada para os leitores iniciantes dessa perspectiva de reforma do pensamento, uma vez que focaliza certas ameaças e oportunidades dessa concepção.

Véronique Nahoum-Groupe aborda o processo de democratização do saber e faz um breve histórico das transformações, tanto na sociedade, quanto na ciência. Relaciona a história das sociedades com as histórias das disciplinas. Na descrição desses processos, atenta para as influências políticas e teóricas que intervêm na produção do conhecimento. Defende a insuficiência da lógica linear e afirma que o pensamento complexo abre caminhos para a superação das fronteiras disciplinares e para o conhecimento do novo. Luis Manuel Flores-González trata a interdisciplinaridade por uma perspectiva relacional, construída pelo diálogo de saberes. Coloca o seu foco no princípio dialógico ao tratar de questões como subjetividade, não-linearidade, complementaridade e temporalidade. Defende a importância do resgate da subjetividade, ao crer na perspectiva de que a realidade se configura de acordo com os imaginários sociais e os seus desdobramentos. Conclui que não existe conhecimento sem um contexto subjetivo.

Os três autores procuram auxiliar a compreensão do que significa a transdisciplinaridade. Deixam subentendido que a transdisciplinaridade é precedida pelo exercício da interdisciplinaridade e da multidisciplinaridade. Contudo, o argumento central dessa primeira parte reside na transposição das fronteiras dos saberes disciplinares e na tomada de consciência da dimensão intersubjetiva, o que faz da transdisciplinaridade um desvio para o diálogo entre objetividade e subjetividade e para a produção de novas formas de conhecer, aprender e apreender. De forma didática, os três artigos expõem alguns princípios do pensamento complexo e facilitam o entendimento do que consiste a reforma do pensamento, o que nos faz concluir que a essência da transdisciplinaridade é provocar a reorganização do conhecimento.

A segunda parte do livro é composta por cinco artigos. Elimar Pinheiro do Nascimento apresenta a metodologia de cenários, que integra a incerteza e as projeções no planejamento do futuro. A visão de futuro como construção social valoriza as incertezas e as inflexões. A cenarização inclui o princípio da precaução e concilia a visão de futuro como sistema integrado com a visão do presente como similar. Isso favorece o entendimento e a percepção de visões que vão além dos vieses profissionais e disciplinares. Além de prever futuros, a metodologia de cenários favorece a participação, a articulação e o diálogo entre atores sociais. Marianne Cohen trata da biogeografia e enfoca o duplo olhar que essa disciplina propõe no sentido de integrar e articular saberes populares, científicos e naturais.

O artigo de Othon Leonardos e Renata Costa enfoca a troca de saberes científicos e indígenas, dentro da premissa da importância e da necessidade de valorizar os saberes populares como condição para a sustentabilidade. Propõe novas relações socioambientais, baseadas no amor, no respeito ao outro e no convívio harmonioso entre as diferenças. Martin de la Sourdière trata das distintas percepções sobre o clima, mesmo este sendo um bem comum. Ressalta a necessidade de se pesquisar mais sobre o clima, a biodiversidade e as distintas culturas que lhe atribuem diferentes significados.

O artigo de Saulo Rodrigues, Maria Berçot e Gabriela Litre defende a urgência de se elaborar políticas públicas de desenvolvimento sustentável. Afirmam que é necessário a integração de políticas setoriais e territoriais, formuladas com base na transversalidade e na interdisciplinaridade, de modo a possibilitar a sustentabilidade global, com vistas à conservação de biomas locais. Trata-se das mudanças climáticas como um eixo interdisciplinar e transversal, mote da formulação de políticas que minimizam os riscos locais e criam possibilidades para o desenvolvimento local. Diante das mudanças ambientais, é necessário repensar as formas de organização e produção. Portanto, a segunda parte do livro ressalta a necessidade de se exercitar princípios como a alteridade e a urgência da abertura para o diálogo entre as diferenças. Todos os autores estabelecem, em seus artigos, uma relação com a arte do convívio entre saberes e culturas diversas, fazendo alusão ao multiculturalismo, à interdisciplinaridade e à transversalidade das questões ambientais nas relações sociais.

Os quatro artigos da terceira parte do livro propõem algumas práticas interdisciplinares. No primeiro artigo, João Nildo Vianna, Laura Duarte e Magda Wehrmann discorrem sobre a sustentabilidade social e ambiental da cadeia produtiva do etanol. Enfocam o potencial dessa cadeia para a redução das emissões de gases de efeito estufa, enfatizam as práticas agrícolas, a estrutura do sistema produtivo e o uso do etanol nos veículos automotores brasileiros. Concluem que o uso da cana de açúcar e de resíduos no Brasil poderia contribuir para a mitigação do efeito estufa, mas ressaltam que o uso do etanol é insuficiente na garantia da sustentabilidade se não houver mudanças radicais no padrão de consumo da sociedade.

No artigo de Fernán Henrique Vergara Figueroa a cenarização é proposta como ferramenta para o planejamento estratégico do uso dos recursos hídricos. Atenta para a visão transversal da ferramenta, pois esta considera as possíveis relações externas e internas do sistema. Destaca as incertezas que compõem o processo, coloca exemplos de cenários para o contexto de Tocantins e reafirma a grande valia da cenarização para o planejamento do uso dos recursos hídricos. Elvino Quirino Pereira propõe, em seu artigo, a agroecologia como alternativa para o desenvolvimento rural sustentável. De forma sucinta, sustenta que o conceito de desenvolvimento sustentável é muito controverso. Sobre a agroecologia, coloca as suas potencialidades e contribuições para o desenvolvimento sustentável e afirma o seu caráter multidisciplinar. Marcio Antonio da Silveira aponta a batata doce como fonte alternativa para a produção de etanol e destaca a insustentabilidade do uso intensivo dos recursos fósseis não-renováveis.

O foco dos artigos da terceira parte do livro são as alternativas ao modelo de desenvolvimento vigente, as quais vão de encontro com a perspectiva do desenvolvimento sustentável. Tais alternativas buscam a reorganização das estruturas sociais e a consolidação de novos contextos. São de caráter multidimensional, assim como desenvolvimento sustentável.

Contudo, o livro aborda a perspectiva multidimensional de análise e atuação nos contextos socioambientais. Ressalta o papel da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade, que abrem brechas para novas formas de compreender, apreender e transformar a realidade. O texto é interessante, acessível e coerente. É destinado para estudantes de graduação, pós-graduação e especialistas na área de educação, ciências sociais, meio ambiente e desenvolvimento sustentável. Tem, como pano de fundo, uma discussão articulada entre ciências humanas e naturais.