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Psicologia & Sociedade

versão On-line ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. v.17 n.1 Porto Alegre jan/abr. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822005000100014 

O que estamos construindo: especialidades ou especialismos?

 

What are we building: specialties or specialisms?

 

 

Simone Maria Hüning; Neuza Maria de Fátima Guareschi

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

 

 


RESUMO

A proposta deste trabalho é apresentar algumas reflexões que entendemos necessárias para compreendermos como se chega hoje à discussão das especialidades no campo da Psicologia. Tal temática está amplamente relacionada com as esferas de ação e formação dos profissionais da área psi e, atualmente, tem ganhado repercussão frente à instituição do reconhecimento dos títulos de especialista pelo conselho profissional desta categoria. Propondo uma problematização destas implicações, pretendemos relacionar alguns aspectos que se articulam à emergência das especialidades no contexto atual da produção psi, apresentando quatro pontos de reflexão ou questionamento: a) especialidades como uma produção que se torna epistemologicamente possível a partir do paradigma da modernidade; b) alertas sobre os perigos que pensar o conhecimento em termos de especialidades pode apresentar para qualquer área do conhecimento, mas mais especificamente para a Psicologia; c) situar algumas características da contemporaneidade, para pensarmos em que medida estas podem sustentar a proposta das especialidades neste contexto; e d) alguns questionamentos que julgamos relevantes em relação ao atual debate sobre as especialidades para a formação em Psicologia.

Palavras chave: Psicologia; Práticas Psicológicas; Especialidades em Psicologia.


ABSTRACT

This work aims to present some reflections which are considered indispensable to comprehend how discussions about specialties are approached. This theme is widely related to both the practices in Psychology and the graduation of the professionals in this field. Nowadays, this issue has been prominent by the Psychology's Union in order to recognise the professional qualification of specialist. The study proposes the inquiring of this implications; it intends to relate some aspects that articulate themselves to the emergence of the specialties in the current context of the production in Psychology. For this, the study presents four reflective issues, such as specialties as a production which become epistemological feasible from the paradigm of modernity; alerts to the dangers that may occur by considering the knowledge in terms of specialties found in any cognitional field, but mainly in Psychology; the determination of some characteristics of contemporaneity, to understand in which ways these can support the proposal of specialties in this context; and, some inquiries which are understood to be relevant and related to the debate about specialties for the psychologist's qualification.

Key-words: Psychology, psychological practices, specialties in Psychology.


 

 

A proposta deste trabalho é apresentar algumas reflexões que entendemos necessárias para compreendermos como se chega hoje à discussão das especialidades no campo da Psicologia. Pretendemos relacionar alguns aspectos que se articulam à emergência das especialidades no contexto atual da produção psi, apresentando quatro pontos de reflexão ou questionamento: a) primeiro situamos a discussão das especialidades como uma produção que se torna epistemologicamente possível a partir do paradigma da modernidade; b) em seguida, lançamos alguns alertas sobre os perigos que pensar o conhecimento em termos de especialidades pode apresentar para qualquer área, mas especificamente para a Psicologia, especialmente se pensarmos nesta como uma disciplina do campo da saúde; c) em terceiro lugar, consideramos necessário situar algumas características da contemporaneidade, para pensarmos em que medida estas podem sustentar a proposta das especialidades neste contexto; e d) percorrida esta trajetória, fazemos, alguns questionamentos que julgamos relevantes em relação ao atual debate sobre as especialidades e, portanto a formação (de psicólogos e de especialistas) em Psicologia.

Para começar nos remeteremos brevemente a uma discussão que é realizada por vários autores que discutem o projeto da modernidade, mas que entendemos ser muito bem apresentada por Bauman (1998), no livro "O mal-estar da pós-modernidade". Trata-se de como a modernidade ocupou-se do compromisso de alavancar o "progresso" da humanidade, de ordenação do mundo, de sua a ambição em eliminar as ambigüidades. Para eliminar as ambigüidades, os chamados conhecimentos científicos sempre operaram e ainda operam como ferramentas centrais: eles constituem categorias, classificam, ordenam e determinam os lugares para cada coisa. E se cada coisa tem UM lugar, estabelecido segundo critérios "científicos", "confiáveis", a ambigüidade estaria eliminada, gerando uma fórmula simplista que diz: o que não estiver no lugar certo, está no lugar errado. Nisso se pautam grande parte das dicotomias que vemos permear a área psi e que mais adiante retomaremos neste texto. É importante destacar que no paradigma da modernidade a ambigüidade é aquilo que ameaça a ordem: ordenação, a classificação, a eliminação da ambigüidade, trabalham a favor da busca da limpeza, da pureza da ordem, assim, o que "não se enquadra", que não pode ser precisamente "arquivado" em uma categoria, perturba, incomoda e ameaça. No entanto, a ambigüidade permanece sempre à espreita, alimentando a incessante busca pela segmentação da "realidade".

Porém, a categorização, a compartimentalização, não incide apenas sobre aquilo que costumamos chamar de objetos do saber, do conhecimento. A mesma lógica incide sobre as disciplinas, aliás, é por esta lógica que elas se constituem: quem pode/deve falar sobre o quê. O que vai se criando, então, são delimitações de domínios de conhecimento, dispositivos de inteligibilidade, campos de competência, de "agentes autorizados", especialidades e especialistas. Ou seja, temos aqui, como condição e efeito, a demarcação de categorias e fronteiras nítidas que nos assegurariam, segundo o projeto da modernidade, a melhor forma de conhecer e dominar a "realidade" para podermos melhor guiar nossas intervenções sobre esta.

Embora pudéssemos seguir refletindo sobre os modos como este conhecer foi construído e seus efeitos na constituição da Psicologia como ciência e prática (se é que podemos fazer essa divisão), buscaremos centrar nossa argumentação na emergência das especialidades e suas implicações. Assim, entendemos já ser possível passar para o segundo ponto dessa discussão apresentando o que chamaremos de alguns alertas sobre a concepção das especialidades, principalmente, no que diz respeito à Psicologia. São três os perigos que gostaríamos de assinalar, que na verdade são indissociáveis e agem em um sentido de complementaridade. Vamos enumerá-los em três tópicos, mas enfatizamos que não se pode perder de vista o imbricamento existente entre eles:

- em primeiro lugar, colocamos o risco da compartimentalização, da esquadrinhamento da vida, da fragmentação do ser humano, a fragmentação da dimensão social em que o sujeito se constitui e as oposições entre físico e mental; racional e emocional. O individual foi cindido do social que, por sua vez, foi separado em várias instâncias: o social escolar, o social do trabalho, o social do lazer, e assim por diante.

- em segundo lugar, temos a preocupação de quanto as especialidades nos falam da privatização das diferentes instâncias da vida. Não é por acaso que as profissões, por exemplo, constituem-se definindo quais são seus atos privativos. Também as disciplinas privatizam seus objetos, mas neste momento, pretendemos visibilizar o como isto se implica no âmbito das práticas profissionais e do mercado. A Psicologia, por exemplo, faz isso em relação a algumas práticas como os testes psicológicos. Atualmente vemos uma tentativa de isso ser feito em relação não apenas a atos ou práticas, mas à própria vida e saúde. A reação da classe médica na formulação do projeto lei do Ato Médico, representa a ação que objetiva regulamentar restringir as ações no campo da saúde ao domínio médico. Ou seja, tenta-se tornar privativo de certo especialista, não mais uma prática, mas as pessoas e suas vidas.

- em terceiro lugar, e este talvez se vincule mais intimamente com o segundo, diz respeito ao perigo da lógica das especialidades prestarem-se mais à mercantilização da vida do que a um suposto aprimoramento dos cuidados com a saúde ou a vida. Então cada especialista deve defender sua especialidade, a privatização de seu objeto de saber, para assegurar exclusividade ou, no mínimo, maior competitividade no mercado de trabalho.

Elencados os perigos que identificamos no propósito de ordenação, categorização, classificação ou se preferirem, especialização, o que pretendemos fazer agora é dimensionar esta discussão no contexto da contemporaneidade. De alguma forma, já mencionamos algumas das características dessa contemporaneidade ao enunciarmos questões como privatização do objeto de saber e a competitividade no mercado de trabalho. E isso evidencia, justamente, o ponto que queremos destacar: a impossibilidade de se tratar da contemporaneidade com referências "a cada coisa em seu devido lugar". A inviabilidade de se continuar a pensar o conhecimento ou a prática profissional dentro das tais fronteiras nitidamente delimitadas.

A contemporaneidade nos coloca a questão da diluição de fronteiras: de tempos, de espaços, de saberes. Em relação aos últimos podemos referir hoje, uma "miscigenação" dos saberes, que a linguagem acadêmica chama por nomes como inter, trans, multidisciplinaridade. Independente das especificidades e críticas que possa haver em relação a essas denominações, o que nos interessa é perceber a pulverização das disciplinas constituídas, por saberes "externos" às mesmas. Cabe-nos perguntar se essa postura ou opção está relacionada às novas propostas na construção de conhecimento, ou se isso diz respeito à própria impossibilidade de delimitação dos domínios e fronteiras que manteriam nos "devidos lugares", os "devidos objetos" com seus "saberes correspondentes". Exemplo disso é a discussão sobre questões da criminalidade ou de infrações nos campos jurídico e psi. Frente às condições e problemáticas do mundo contemporâneo fica cada vez mais difícil, senão impossível, delimitar o que em uma situação de criminalidade situa-se na área do direito ou da Psicologia ou Psiquiatria. Em outras palavras, o que pretendemos assinalar, é a impossibilidade, seja pela complexidade, pela instabilidade, pela fluidez, como diria Bauman (2001), seja pela incerteza, dessa demarcação "territorial" que tanto os campos disciplinares e, mais especificamente dentro destes, as especialidades pretendem marcar.

Podemos pensar em outros exemplos dessas indefinições, em algumas das tentativas que têm sido empreendidas neste sentido. Uma delas refere-se à Psicopedagogia, a qual se constitui em uma especialidade que busca (desculpem a redundância) uma especialização de conhecimentos tomados da Psicologia e da Pedagogia: terapêuticos e educativos. A questão é: em que medida pode-se marcar essa diferença? Onde se pode situar a especificidade do que é educar, tratar, curar, corrigir?... Podemos tomar ainda outros exemplos mais específicos da Psicologia: a tradicional divisão teórica entre o social e o individual: por acaso a noção de indivíduo não se constitui no social? Conseguiríamos demarcar com exatidão o que é da ordem do trabalho ou da educação? O que é da ordem da saúde ou do trabalho? O que é da ordem da educação ou da saúde? Podemos delimitar o que concerne ao especialista em Psicologia do Trabalho ou, ao especialista em Psicologia Clínica ou, ao especialista em Psicologia Escolar, em Psicologia Social...

Parece-nos desnecessário estender mais argumentações sobre esse ponto, embora pudéssemos continuar a enumerar estas oposições que vêm sendo construídas pelas formalizações dos saberes. Encaminhamos-nos agora para o quarto ponto que nos propusemos a abordar, levantando a partir do que já discutimos, alguns questionamentos em relação à questão das especialidades em Psicologia.

Começaremos por uma pergunta nem um pouco original, mas pouco respondida, mesmo pelos próprios profissionais da área. O que é a psicologia? Ou outras perguntas, constantemente presentes em debates, seminários, congressos da área psi: O que são as psicologias? A psicologia ou as psicologias? É importante que deixemos claro que não pretendemos aqui responder a essas questões, mas buscaremos evidenciar justamente a dificuldade em uma resposta às mesmas.

Debatemos-nos tentando responder e às vezes justificar o que fazemos sob esse nome que nos dá unidade: Psicologia. Não conseguimos responder a essa questão de forma satisfatória e ao mesmo tempo propomos fazer dessa suposta unidade campos de especialidades. Alguém poderia alegar que essa dificuldade estaria justamente relacionada à questão da unidade como: a psicologia não é uma, são muitas, idéia com a qual não discordaríamos, mas não visibilizamos como a compartimentalização possa resolver esse problema. Pensamos que talvez essa dificuldade diminuísse na medida em que nos tornássemos mais reflexivos sobre o que se pretende sob o nome Psicologia, independente de como a nomeamos. Talvez uma boa questão seja: a serviço do que colocamos a Psicologia?

Sem considerarmos esse propósito e as condições de emergência das especialidades, podemos estar produzindo as mesmas como meros dispositivos de controle e não de qualificação profissional como comumente é argumentada a relevância da especialização. Referimo-nos em como estas podem operar na regulação sobre os sujeitos, sobre profissionais ou usuários dos serviços profissionais, sobre as esferas de produção de conhecimento, sobre as práticas, mas também sobre a regulação de mercado de trabalho e preservação de nichos de atuação profissional. Aliás, não é mera coincidência que a proposta das especialidades em Psicologia emirja com tanta força neste momento em que o número de psicólogos desempregados ou sem trabalho, em situação de instabilidade profissional e o nível de competitividade são bastante elevados.

Encaminhando-nos para o final, utilizaremos um trecho de Borges que Foucault (1999) cita no prefácio do livro "As palavras e as coisas". O texto fala de "uma certa enciclopédia chinesa" que apresenta uma classificação de animais. Acreditamos que ele nos ajuda a levantar algumas interrogações importantes sobre a questão das especialidades. O texto diz o seguinte:

os animais se dividem em a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas.

Foucault fala, entre outras coisas, do quanto isso pode nos soar exótico, absurdo. Fala da impossibilidade dessa classificação ser pensada pela lógica da modernidade ocidental. Não iremos nos deter mais, até para não corrermos o risco de reduzir toda a complexa argumentação que Foucault faz a partir deste texto. Queremos tomá-lo com o intuito de propor uma provocação. Pensar uma "certa enciclopédia de especialidades psicológicas" que poderia definir que as psicologias dividem-se em: a) pertencentes aos especialistas, b) embalsamadas, c) domesticadas, d) fabulosas, e) em liberdade, f) incluídas na presente classificação, g) que se agitam como loucas, h) inumeráveis, i) desenhadas com um pincel muito fino de pêlo de camelo, j) et cetera, k) que acabam de quebrar a regra, l) que de longe não parecem psicologia. Ou talvez em a) hospitalares, b) escolares, c) clínicas, d) sociais, e) incluídas nessa classificação, f) etc.

Foucault (1999, p. XI) questiona, sobre as categorias dos animais da enciclopédia chinesa:

Onde poderiam estas se justapor, senão no não-lugar da linguagem? Mas esta, ao desdobrá-los, não abre mais que um espaço impensável. A categoria central dos animais "incluídos na presente classificação" indica bem, pela explícita referência a paradoxos conhecidos, que jamais se chegará a definir, entre cada um desses conjuntos e aquele que os reúne a todos, uma relação estável de conteúdo e continente: se todos os animais classificados se alojam, sem exceção, numa das casas da distribuição, todas as outras não estarão dentro desta? E esta por sua vez em que espaço reside?

A partir disso, encerramos este texto com algumas questões: e a psicologia, em que espaço reside? Poderia ela justapor as fronteiras das especialidades dentro deste território, por sua vez, com fronteiras tão imprecisas? E por fim, mesmo se considerarmos que em alguns momentos possamos ter tido a demarcação das diferenças de áreas de atuação como uma estratégia produtiva de resistência frente a discursos hegemônicos da psicologia, que contribuições, neste sentido, poderíamos ter ao transformá-las em titulações institucionalizadas?

 

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.         [ Links ]

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.         [ Links ]

FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 8ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.         [ Links ]

 

 

Recebido: 14/03/2005
1ª revisão: 25/05/2005
Aceite final: 2/06/2005

 

 

Simone Maria Hüning é Mestre em Psicologia Social e Doutoranda do PPGP - Faculdade de Psicologia - PUCRS/CNPq. O endereço eletrônico da autora é: simonehuning@yahoo.com.br.
Neuza Maria de Fátima Guareschi é professora/pesquisadora do PPGP - Faculdade de Psicologia - PUCRS; Coordenadora do Grupo de Pesquisa Estudos Culturais e Teorias Contemporâneas. O endereço eletrônico da autora é: nmguares@pucrs.br