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Psicologia & Sociedade

Print version ISSN 0102-7182

Psicol. Soc. vol.24 no.2 Belo Horizonte May/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822012000200001 

Editorial

 

 

No último dia 04 de julho, a Revista Psicologia & Sociedade lançou convocatória para seu número especial de 2012 de artigos de língua inglesa, convidando todos os interessados para participar por meio da apresentação de trabalhos em psicologia social e disciplinas afins. Para este número, serão recebidos artigos redigidos em inglês que, por meio de relato de pesquisa, revisão da literatura, reflexões metodológicas, se dediquem a analisar problemas da sociedade brasileira e latino-americana, por meio do arcabouço teórico da psicologia social crítica. A data limite para envio de artigos é 30 de setembro, e a convocatória completa pode ser acessada na página da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO).

A publicação de números especiais temáticos tem sido uma prática recorrente na Revista Psicologia & Sociedade nos últimos anos. Tivemos nos anos anteriores, por exemplo, o número sobre psicologia social e saúde, sobre psicologia social e psicanálise, sobre modos de pesquisar no cotidiano, sobre trabalho e constituição do sujeito na contemporaneidade etc. A escolha do tema da psicologia social crítica para este número especial guarda relação com o escopo geral da Revista Psicologia & Sociedade, que, desde a sua criação, busca impulsionar, promover e divulgar produções e reflexões críticas na interface entre psicologia e sociedade. Sabemos que as posições sobre a psicologia social crítica no Brasil e América Latina abarcam perspectivas heterogêneas, e nos interessa que esse debate se presentifique no número proposto.

A escolha de um número temático especial sobre a psicologia social crítica se dá por entendermos que podemos e devemos participar do debate internacional que tem acontecido em torno dessa perspectiva em psicologia social, ampliando o raio de difusão, mas sobretudo as problematizações e o debate. Afinal de contas, é o confronto de ideias, perspectivas, conceitos e teorias que possibilita a mudança de pensamento, as reconsiderações, as complexificações do pensamento, e não a sua imobilidade. Em outros contextos, como na Europa, por exemplo, a psicologia social crítica tem se desenvolvido em torno da desconstrução e problematização de perspectivas em psicologia social de caráter mais positivista, individualista e também empiricista. Muitas dessas produções têm sido divulgadas no Annual Review of Critical Psychology, que é uma importante revista que circula desde 1999. Também na África do Sul a agenda da psicologia social crítica tem ganhado fôlego desde meados dos anos 1980. A revista Psychology in Society vem sendo publicada desde 1983 e também reúne produções que, desde o seu início, buscaram problematizar os fundamentos da psicologia social estândar, com atenção, como aconteceu na América Latina, aos efeitos coloniais que a importação a-crítica de uma psicologia social norte-americana e europeia tiveram e continuam tendo no contexto sul-africano. Na América Latina, também encontraremos fortes iniciativas de constituir um marco crítico da psicologia social: seja por meio do debate no campo da psicologia social comunitária, psicologia política, psicologia de la liberación, a preocupação com uma posição de ciência que contribua para a problematização das relações de poder na sociedade, mas que esteja continuamente fazendo a crítica a si mesma. As posições são heterogêneas, pois interpelam realidades diferentes e se desenvolvem em contextos variados, além de tomarem fundamentações epistemológicas, teóricas e metodológicas distintas, mas nos interessa reunir e colocar em debate essa pluralidade de perspectivas críticas.

Este número especial tem outra especificidade que se refere à publicação de artigos em língua inglesa. Essa é uma das iniciativas da Revista Psicologia & Sociedade que tem como objetivo ampliar a difusão das produções da área realizadas no Brasil e em outros países da América Latina. A justificativa para tal proposta não deixa de reconhecer a importância da língua portuguesa para a ciência, e temos assistido nos últimos anos um movimento de valorização dessa língua no mundo a partir da constituição da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que atualmente reúne oito países. Por outro lado, a língua inglesa segue tendo grande alcance no campo científico e tem possibilitado o intercâmbio no campo da ciência entre contextos sociais, universidades e associações científicas diversas. Entendemos que a proposta da publicação em inglês possibilita a manutenção das especificidades contextuais e também editoriais da Revista Psicologia & Sociedade espelhada em outro idioma, com ampliação de seu alcance e divulgação da produção brasileira e latino-americana em psicologia social. Assim, pesquisadores e estudiosos no Brasil e outros países da América Latina poderão ter seus trabalhos divulgados dentro da linha editorial da Psicologia & Sociedade e em inglês, ampliando o campo de interlocução e impacto. Entendemos que tal iniciativa se relaciona com o movimento por internacionalização sem tomar essa como caminho natural e inquestionável dentro do cenário científico internacional, mas que pretende inserir-se de forma mais propositiva e com mais autonomia nesse processo tomado por muitos como irreversível.

A proposta do número especial pretende, como dito anteriormente, contribuir com a ampliação da difusão das produções brasileiras e latino-americanas e tal iniciativa se associa a outras que estão sendo realizadas concomitantemente, como o esforço por ampliar a indexação da Revista Psicologia & Sociedade junto a bases distintas, dentre outras. Recentemente, a revista foi inserida no Dialnet, um importante portal bibliográfico com grande alcance junto a países da América Latina e Europa, indicando que nossa posição como editores, sobre a ampliação da difusão do conhecimento juntamente com a internacionalização, privilegia tanto as relações norte-sul como sul-sul. A busca de estratégias para dar maior visibilidade e acesso às produções brasileiras e latino-americanas é uma preocupação que vem sendo transformada em iniciativa por instituições diversas. Recentemente, foi anunciado pela divisão de Propriedade Intelectual e Ciência da Thompson Reuters sua associação com o Scientific Library Online (SciELO) para albergar a base de dados do SciELO no Web of Knowledge, uma das plataformas de busca e acesso mais potentes do mundo. Tal associação tem como objetivo ajudar a dar maior visibilidade e acesso melhorado para a pesquisa das chamadas economias emergentes, particularmente América Latina, o Caribe, África do Sul e também outros países como Portugal e Espanha.

Assim, reforçamos o convite para o envio de artigos para o número especial em inglês, a partir do arcabouço teórico da psicologia social crítica.

No segundo número de 2012, o leitor encontrará artigos teóricos e baseados em pesquisas empíricas que propõem análises sobre problemáticas de relevância acadêmica e social a partir de perspectivas teóricas e metodológicas diversas. A perspectiva interdisciplinar e a relação da psicologia social com outros campos da psicologia marcam vários dos artigos aqui reunidos. Os métodos nas pesquisas realizadas são diversos: envolvem entrevistas semi-estuturadas, pesquisa documental, questionários, pesquisa participativa, teste de associação livre, uso de desenho no caso de pesquisa com crianças, análise de conteúdo, análise hierárquica descendente, análise histórica, etnografia e método dialético e grande parte dos trabalhos aqui apresentados se caracterizam como estudos de caráter qualitativo.

No primeiro artigo deste número, intitulado "Acepções de identidade na obra de Jünger Habermas: subsídios para uma psicologia social criticamente orientada", Aluísio Ferreira de Lima analisa como a noção de identidade é trabalhada por Jürgen Habermas antes e depois da proposição de sua Teoria da Ação Comunicativa, com especial atenção à releitura que esse autor faz da psicologia social de G. H. Mead e de suas teorizações sobre os processos de socialização e individuação. Em seguida, o leitor encontrará uma análise histórica acerca da psicologia soviética no artigo intitulado "Reflexões sobre o desenvolvimento da Psicologia Soviética: focando algumas omissões da interpretação ocidental", em que Fernando Gonzáles Rey foca elementos e pensadores que foram secundarizados ou omitidos nas interpretações ocidentais feitas sobre a psicologia soviética. Tais análises são feitas em diálogo com o pensamento de L. S. Vygotsky. O conceito de identidade é novamente foco de reflexão no artigo "El concepto de identidad como recurso para el estúdio de transiciones", em que o histórico desse conceito, as transformações que sofreu nos últimos tempos, bem como os desafios para pensá-lo no contexto atual são analisados por José Ángel Vera Noriega e Jesús Ernesto Valenzuela Medina a partir dos conceitos "capital de identidade" e "estilo de identidade" formulados por James Marcia, propagados por  James Côté e por Michael Berzonsky e utilizado para o estudo das transições. Ainda de cunho mais teórico, o leitor encontrará no artigo intitulado "Historicizando a teoria da atividade: do embate ao debate" a apresentação, análise e reflexões históricas feitas por Gustavo Martins Piccolo acerca da teoria da atividade derivada dos estudos de Vygotsky e sistematizada por Leontiev, com foco nos elementos teóricos, epistemológicos e ideológicos. Nesses quatro primeiros artigos teóricos realizam-se análises sobre teorias e conceitos importantes do campo da psicologia social, tomando a historicização e a crítica como eixos norteadores de suas reflexões.

No artigo "Assistência social e Psicologia: sobre as tensões e conflitos do psicólogo no cotidiano do serviço público", Carmem Magda Ghetti Senra e Raquel Souza Lobo Guzzo abordam questão atual e bastante relevante do contexto brasileiro: a inserção da psicologia na assistência social de forma mais ampla e a atuação do profissional de psicologia no serviço público de forma mais geral. Contribuições teóricas e também de caráter metodológico são identificadas e analisadas como contribuições importantes da psicologia para esse campo das políticas públicas, e desafios e tensões foram identificados. Nos dois próximos artigos, "Tem que ser uma escolha da mulher": representações de maternidade em mulheres não mães por opção" e "Violência doméstica contra a mulher: realidades e representações sociais", as mulheres e suas representações sobre a maternidade e sobre a violência doméstica vivida são tomadas como objeto de reflexão e análise. Naiana Dapieve Patias e Caroline Stumpf Buaes, autoras do primeiro texto, e Denire Holanda da Fonseca, autora do segundo, indicam, respectivamente, que a não maternidade pode ser uma escolha orientada por críticas às prescrições sobre feminilidade presentes e cristalizadas nas sociedades e que uma das principais violências vividas pelas mulheres entrevistadas se refere à violência psicológica, com efeitos contundentes no seu processo de subjetivação.

Baseado nos estudos sobre gênero e sexualidade, Eloisio Moulin de Souza, Alfredo Rodrigues Leite da Silva e Alexandre de Pádua Carrieri, no artigo "Uma análise sobre as políticas de diversidade promovidas por bancos", a partir de entrevistas com funcionários bancários homossexuais, analisam a presença e implementação de políticas em relação às questões da diversidade nos bancos, apontando complexidades importantes para os direitos de homossexuais nessas instituições. Luís Augusto Vasconcelos da Silva, no seu texto "Redução de riscos na perspectiva de praticantes de barebacking: possibilidade e desafios", analisa as possibilidades de diminuição de riscos na prática do sexo anal desprotegido e problematiza os limites de modelos de prevenção alternativos no cotidiano de diversas pessoas, considerando as preferências sexuais, dinâmica dos relacionamentos, crenças, discursos, experiências e contextos interativos.

O professor, a construção de seus corpos e masculinidade e também as representações sobre a sua identidade profissional são abordados nos artigos "Docência e subjetivação: cartografia das forças que criam um corpo-masculino-menor", de Rogério Machado Rosa, e "What do yo mean by "teacher"? Psychological research on teacher professional identity", de Luca Tateo. Nos dois artigos analisa-se que as dinâmicas escolares, a relação entre professores e discentes são processos marcados por relações de gênero e a representação do papel social do professor. Ainda sobre a temática da educação, no artigo "Escolha e orientação profissional de estudantes de curso pré-vestibular popular", Luciana Albanese Valore e Luiza Helena Raittz Cavallet analisam os elementos envolvidos no processo de escolha profissional de jovens estudantes de classes populares e indicam processos que devem ser considerados na educação desses jovens para que a mesma seja mais inclusiva.

No artigo "Representações sociais de professores sobre o autismo infantil", Michele Araújo Santos e Maria de Fátima de Souza Santos discutem as ancoragens e os repertórios de professores sobre o autismo infantil, destacam suas principais dificuldades e a presença de conhecimentos da neurociência e da psicanálise entre as representações sociais dos professores. Finalizando o grupo de artigos que tomou a educação e os professores nesse contexto social como campo ou objeto de reflexão, o texto "Cartografias da escola: controle e práticas de comunicação em análise" de Bruno Deusdará e Marisa Lopes da Rocha, analisa as relações entre professores e seus sentidos do trabalho em momentos não formais da escola, mais especificamente no momento dos intervalos. Esses artigos enfatizam a importância da escola e de suas dinâmicas heterogêneas nos processos de inclusão, subjetivação e socialização desses diversos atores.

Nos próximos seis artigos, o leitor encontrará estudos envolvendo adolescência e infância em contextos e processos sociais distintos. No texto "Juventude transgressiva: o advento da adolescência", Amadeu de Oliveira Weinmann, articulando conhecimentos da psicanálise e da psicologia social, analisa o filme de Nicholas Ray destacando os elementos históricos que marcaram a emergência da noção de adolescência. Vanuzia Costa e Sheyla Christine Santos Fernandes, em seu artigo "O que pensam os adolescentes sobre o amor e o sexo? Um estudo na perspectiva das representações sociais", identificam as distintas representações entre homens e mulheres sobre o amor e o sexo e fazem diferenciações considerando também idade e nível de escolaridade.

Nos textos "Violência doméstica contra crianças e adolescentes: prevenção e enfrentamento", de Marco Antonio de Oliveira Branco e Eduardo Augusto Tomanik, e "Abuso sexual intrafamiliar: as mães diante da vitimização das filhas", de Joana Azevêdo Lima e Maria de Fátima Pereira Alberto, as representações sociais de atores envolvidos em uma política de garantia de direitos de crianças e adolescentes e a posição da mãe diante do abuso vivido pela criança são analisados de forma detalhada e revelam alguns desafios na promoção e garantia de direitos das crianças.

A infância é também abordada em mais dois artigos. Em "Significações imaginárias da infância contemporânea: mídia, pais e especialistas", Adriana Carrijo analisa o papel e a articulação entre a mídia, os pais e os especialistas na construção das concepções sobre a infância nas sociedades contemporâneas. Já Michelle Regina da Natividade e Maria Chalfin Coutinho, no texto "O trabalho na sociedade contemporânea: os sentidos atribuídos pelas crianças", discutem como os sentidos das crianças sobre o trabalho são marcados por suas experiências no cotidiano e também pelo capitalismo que marca as sociedades contemporâneas.

Em seguida, o leitor encontrará artigos que contribuem para a interface da psicologia social e o campo de estudos sobre o trabalho. No texto de Eduardo Marquez e Isabel Leon, intitulado "Dynamique identitaire, implication et representations sociales du travail", examina-se o impacto das modalidades da ancoragem da representação social do trabalho de acordo com o estatuto profissional (gerentes e empregados) para uma população de funcionários (assalariados) do serviço público francês. Em "Ocupações do movimento dos sem-teto e a psicologia do trabalho", Patrícia Tomimura e Hélder Pordeus Muniz analisam a dimensão do trabalho coletivo nas ocupações realizadas pelo movimento dos sem-teto.

Em "Representação social de capixaba: identidade em processo", Lídio de Souza, Thaís Caus Wanderley, Mariane Ranzani Ciscon-Evangelista, Milena Bertollo-Nardi, Mariana Bonomo e Paola Vargas Barbosa, a partir de pesquisa realizada junto a sujeitos nascidos no Espírito Santo, discutem e analisam a relação entre território, identidade e grupo social na representações sociais sobre os capixabas. Para terminar a seção dos artigos, Maria Xavier de Araújo e Margarida Isabel Rangel Santos Henriques Henriques, Isabel Brandão e António Roma Torres apresentam pesquisa histórica realizada sobre os discursos predominantes sobre a anorexia nervosa da Idade Media até a contemporaneidade.

Para terminar, Mary Jane Spink apresenta reflexões sobre o "Dicionário Histórico de Instituições de Psicologia no Brasil", organizado por Ana M. Jacó-Vilela, através da resenha intitulada "Verbetes de dicionários como tramas em narrativas históricas: reflexões sobre a contribuição potencial de obras de referência". O livro de Álvaro Rebouças Fernandes "O poder nas relações conjugais: uma investigação fenomenológica sobre as relacões de poder no casamento" é apresentado através de resenha realizada por Georges Daniel Janja Bloc Boris.

Como o leitor poderá observar, este número é marcado por análises de conceitos e teorias que constituem e/ou contribuem para o campo da psicologia social e também por estudos e discussões de problemas centrais das sociedades contemporâneas em diversos aspectos da vida social. Esperamos que o leitor possa usufruir dessas produções e que as mesmas contribuam para ampliação do debate e estímulo do pensamento. Tenham todos uma boa leitura!

 

Claudia Mayorga
Emerson Rasera
Marco Aurélio Máximo Prado

Editores