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Psicologia & Sociedade

On-line version ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.25 no.3 Belo Horizonte  2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822013000300018 

ARTIGOS

 

Poder e identidade grupal: um estudo em corporações musicais da região das vertentes

 

Power and group identity: study on musical organized groups in the vertentes region

 

 

Marcos Vieira-Silva; Sheila Ferreira Miranda

Universidade Federal de São João del-Rei, São João del-Rei/MG, Brasil

 

 


RESUMO

A investigação produzida buscou compreender a constituição histórica das formações identitárias e suas articulações com as relações de poder, no desempenho das atividades cotidianas de três corporações musicais mineiras. Percebeu-se que o processo identitário dos músicos é permeado pelo prestígio e valor que a tradição musical imprime na região. As diferenciações na produção de identidades individuais e coletivas podem exercer influências nas relações de poder inter e intragrupais. Também, as diversas formas de estabelecimento das relações de poder entre os agentes exercem influências no desenvolvimento do processo grupal e na atividade musical. Atividade, esta, que legitima tanto as identidades coletivas quanto as individuais, mantendo a vida musical da Região das Vertentes viva e intensa através dos tempos.

Palavras-chave: atividade; identidade; música; processo grupal; relações de poder.


ABSTRACT

The research focused on the historical constitution of the relationships between power and identity, which are embedded in daily activities of three organized musical groups in Minas Gerais. It was identified that the musicians process of identity is permeated by the status and the value traditionally allocated to musical activities in the Vertentes region of Minas Gerais. The differences related to production of collective and individual identities seem to exert influence on inter and intra groups power relationships. Furthermore, the different ways in which power relationships are established among the agents also have influence on the group development and their musical activity. The musical activity, in its turn, legitimates individual and collective identities, contributing for keeping musical life in Vertentes very alive and intense throughout its history.

Keywords: activity; identity; music; group process; power relationships.


 

 

Considerando a perspectiva contemporânea de investigação dos grupos, fenômenos ou processos grupais, desenvolvida tanto pela Psicologia Social quanto pelas Ciências Humanas e Sociais, a necessidade e importância da abordagem das relações de poder e suas articulações com o processo de produção de identidades se tornam relevantes.

Em estudos anteriores (Vieira-Silva, 2000), pôde-se perceber que os grupos se caracterizam como lócus de contradições, propiciando vivências de dificuldades, momentos de apatia e constantes negociações. É em meio a este ambiente complexo e difuso que ocorre o processo de produção das identidades, de forma que as experiências grupais entram em confluência com aquelas subjetivas, em um movimento de constante metamorfose, como em Ciampa (1987).

Essas vivências estão permeadas por relações de poder, relações que ocorrem em todos os aspectos da vida cotidiana, configurando tanto a conformação da ordem social vigente como os papéis a serem exercidos por cada sujeito (Martín-Baró, 1989).

As relações de poder produzem um efeito indiscutível no delineamento das relações sociais, por exercerem um papel fundamental sobre o comportamento humano (Martín-Baró, 1989). Portanto, as reflexões sobre as relações de poder podem possibilitar o entendimento do sentido das ações e dos papéis desempenhados por cada ator social, no que tange aos aspectos subjetivos e objetivos das situações grupais.

E é precisamente a partir da compreensão da relevância dos elementos teóricos já delineados em relação à investigação dos grupos que o presente trabalho foi produzido e se justifica. Tal produção compreendeu um recorte da segunda etapa da pesquisa: A Música e Suas Articulações Identitárias: Um Estudo Histórico-Analítico em Corporações Musicais de São João del-Rei e Região. Esta inicialmente propôs a investigação da constituição histórica das formações identitárias em bandas e orquestras de São João del-Rei, MG, e cinco cidades da região, bem como suas articulações com os fenômenos de afetividade, relações de poder e identidade no desenvolvimento do processo grupal e no cotidiano destas corporações musicais.

As corporações investigadas foram sendo mapeadas na medida em que a equipe avançou nos contatos com os grupos musicais da região. Tendo avançado na seleção dos grupos pesquisados, foi necessário rever também as categorias de análise inicialmente propostas. Martín-Baró (1989) propõe três categorias temáticas, dialeticamente articuladas e consideradas essenciais para a compreensão dos grupos humanos:

Daí que os principais parâmetros para as análises de um grupo sejam três: (1) a identidade do grupo, quer dizer, a definição do que é e o que lhe caracteriza como tal frente a outros grupos; (2) o poder de que dispõe o grupo em suas relações mais a significação social do que produz essa atividade grupal (p. 208, grifos nossos).

Dessa maneira, identidade, poder e atividade configuram o recorte proposto de categorias a serem analisadas no presente trabalho. O problema que orientou as análises produzidas nesta pesquisa diz respeito aos contornos da constituição histórica das formações identitárias e suas possíveis articulações com as relações de poder, no desempenho das atividades cotidianas, isto é, no fazer musical de três corporações musicais: Orquestra Ribeiro Bastos, Banda do 11º Batalhão de Infantaria de Montanha e Sociedade de Concertos Sinfônicos (corporações localizadas na cidade de São João del-Rei/Minas Gerais).

 

A dialética dos pequenos grupos: articulações entre identidade e poder

Escolheu-se a abordagem dialética dos grupos apresentada por Pichon-Rivière (1991), Lane (1984a) e Martín-Baró (1989) como referencial para as análises teóricas deste texto pelo fato de proporcionar, mais especificamente, a compreensão desses grupos enquanto processo, permitindo a observação e análise das contradições emergentes em situações concretas, isto é, no próprio cotidiano das corporações musicais.

Como este enfoque aponta para uma dupla dimensão, estrutural e pessoal, macro e micro como ponto fundamental para se realizar análises dos grupos, a perspectiva das investigações deve incorporar, necessariamente, tanto seu caráter histórico como a pesquisa dos fenômenos grupais (Lane,1984a; Martín-Baró,1989).

Tem-se o grupo enquanto um lugar privilegiado de produções, onde as influências mútuas entre os aspectos singulares e as múltiplas determinações sociais (Lane,1984a) remetem à possibilidade de compreensão de um todo, através da análise das partes, tal como na análise dialética (Konder, 1990).

Neste complexo, a análise dos grupos implica percebê-los em um permanente movimento de produção e reprodução, um processo que permita elucidar as contradições constitutivas de uma das categorias fundamentais da Psicologia Social: identidade.

Lane (1984a), ao rever alguns estudiosos dos pequenos grupos, menciona concepções nas quais a situação grupal é considerada condição necessária ao desenvolvimento das identidades. Martín-Baró (1989, p. 213, tradução nossa), reitera que "a pertença subjetiva de uma pessoa a um grupo supõe que o indivíduo tome a esse grupo como uma referência para sua própria identidade ou vida". De tal modo que a produção das identidades ocorre praticamente em todas as situações cotidianas, indicando a possibilidade de cada sujeito assumir vários papéis, pelo fato de participar, ao mesmo tempo, de múltiplos grupos e ambientes sociais (Pichon-Rivière, 1991).

Essa dinâmica dos papéis ocorre pelo constante fazer-se do sujeito, isto é, pelas suas ações, atitudes diversas tomadas diante dos diferentes grupos e contextos sociais. Assim, "as possibilidades de diferentes configurações de identidade estão relacionadas com as diferentes configurações da ordem social" (Ciampa, 1984, p. 72). O que evidencia uma noção de sujeito que se produz pelas suas atitudes concretas. Essas atitudes são desdobramentos da condição de pertencimento a um ou a vários grupos sociais, e não simplesmente da reposição de uma identidade pressuposta, cristalizada. Trata-se, portanto, de considerar a identidade enquanto categoria essencialmente dialética, como metamorfose, uma infindável transformação (Ciampa, 1984), que perpassa tanto as vivências pessoais como aquelas coletivas.

A identidade grupal advém da sua coerência com os interesses sociais pessoais e/ ou coletivos, de maneira que exista uma totalidade, uma unidade de conjunto, ao mesmo tempo em que ocorra uma diferenciação com outros grupos da mesma categoria. Essa diferenciação se configura através das relações estabelecidas com os demais grupos, tanto nos vínculos positivos quanto nos negativos, nas relações de pertença ou exclusão no interior de uma determinada sociedade (Martín-Baró, 1989) e, portanto, nas relações de poder.

A analítica do poder focaultiana postula essa dimensão da vida social como uma situação estratégica de correlações de força, da qual ninguém é titular, de forma que tais relações são capilares e onipresentes, no sentido de que se produzem a todo instante e em todos os lugares, partindo de múltiplos pontos, permeando relações móveis e produtivas (Foucault, 1980). Seguindo essa perspectiva, o autor assume a existência de certo efeito de assimetria nas relações de poder quando nos diz da sua característica de onipresença:

O poder não é substancialmente identificado com um indivíduo que o possuiria ou que o exerceria devido a seu nascimento; ele torna-se uma maquinaria de que ninguém é titular. Logicamente, nesta máquina ninguém ocupa o mesmo lugar; alguns lugares são preponderantes e permitem produzir efeitos de supremacia. De modo que eles podem assegurar uma dominação de classe, na medida em que dissociam o poder do domínio individual. (Foucault, 1979, p.219, grifos nossos)

O poder não é visto como um objeto ou uma coisa abstrata que se possa possuir (Foucault, 1980); trata-se de uma qualidade de pessoas ou grupos em relação com outros, constituindo um fenômeno social, e não de caráter individual (Martín-Baró, 1989). Fenômeno que traz em suas raízes a própria tensão do processo, já que, segundo Foucault (1980), onde há poder, há resistência, e as vicissitudes dessas relações são determinadas e modificadas através de estratégias imanentes ao próprio poder. Dessa forma, as estratégias de resistência não estão em exterioridade em relação ao poder. Elas são o seu "outro termo", ou seja, são pontos móveis presentes em toda relação de poder que "representam o papel do adversário, de alvo, de apoio, de saliência que permite a preensão" (p. 91). Significam não um reverso passivo ou um subproduto da dominação social, mas pontos estratégicos e transitórios dos quais a análise deste campo de correlações de força deve partir para trazer luz à possibilidade de leitura dessas relações (Foucault, 1995).

Segundo Martín-Baró (1989), um dos aspectos mais importantes do poder é sua tendência a se camuflar, ocultar-se e negar-se como tal. Bourdieu (1989b) reitera a necessidade de tornar visível essa faceta do poder, explicitar esse lado oculto, ignorado e, portanto, alienante. Conceitua este poder irreconhecido como poder simbólico: "esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo o exercem" (p.78). O poder, percebido através dessa perspectiva, reproduz ideologias e pode proporcionar consequências históricas nas relações humanas.

Mas o que determina o quantum de poder de um grupo em relação a outro? Para assinalar essa situação, Bourdieu (1998) propõe o conceito de capital social, baseado nas relações em que os indivíduos podem obter vantagens e que geralmente conduzem a uma possibilidade de desigualdade nas relações econômicas ou sociais. O capital social pode ser definido como um:

conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de inter-reconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros ou por eles mesmos) mas também são unidos por ligações permanentes e úteis. (Bourdieu, 1998, p. 67)

A base para o capital social repousa sobre a posse de recursos materiais ou simbólicos, entendida através da posse individual e vinculação a um determinado grupo de semelhantes. Nessa concepção, o volume de capital de um determinado indivíduo está estreitamente relacionado à dimensão da sua rede de relações, bem como ao volume do seu capital simbólico, econômico ou cultural (Bourdieu, 1989a).

O capital cultural pode demonstrar como essas desigualdades ocorrem e são implementadas tanto no contexto educacional formal como em uma rede de instâncias culturais muito mais ampla (teatro, obras de arte, concertos, cinema, etc.), estreitando, portanto, as conexões entre a educação formal e informal e incluindo os aspectos educativos do universo musical.

Assim, as relações sociais estabelecidas são fundadas tanto em relações compartilhadas quanto em trocas materiais e simbólicas (Bourdieu, 1998). Dessas trocas, resultam os sistemas sociais, que atuam como um resultado de forças entre grupos de interesses (Martín-Baró, 1989).

 

A atividade musical e suas articulações com identidade e relações de poder

A situação grupal constitui um complexo processo de múltiplas produções, nas quais a tarefa indica, de acordo com Pichon-Rivière (1991), o propósito comum de um grupo, isto é, a busca pela concretização de seus objetivos ou finalidades.

Essa trajetória que o grupo empreende através de uma relação produtiva entre os seus integrantes constitui a atividade grupal, um fato empírico que implica o encadeamento de ações entre os indivíduos, possibilitado pela comunicação e pela articulação conjunta de um plano de atuação, que geralmente procede de uma reflexão sobre outras ações anteriormente empreendidas. É a partir dessa reflexão sobre o fazer-se enquanto grupo e o confronto com as consequências de suas próprias ações que se processa a consciência, de maneira que as relações grupais podem permitir a percepção sobre as determinações sociais às quais os indivíduos estão submetidos, o que pode gerar ações para a superação das dificuldades vivenciadas, ou seja, a emergência de um grupo-sujeito (Lane, 1984b).

Refletindo nesta direção, a atividade musical pode ser vista historicamente como uma expressão universal, sobre a qual o homem cria uma linguagem que representa e transforma um determinado contexto (Maheirie, 2001). Dessa forma, a música pode ser produtora de significados sociais/culturais e individuais, como também divulgadora e reprodutora de vários significados (Maheirie, 2001).

A música é capaz de construir identidades singulares e coletivas, atuando como elemento que pode operar na constituição do sujeito, enquanto mediação social (Maheirie, 2001). Isso revela que o processo de construção do sujeito é realizado no coletivo e que a identidade é construída por oposições, conflitos e negociações, estando sempre em produção (Maheirie, 2001). Esse pensamento vai ao encontro ao trabalho de Ciampa (1987), segundo o qual a identidade é contraditória, múltipla e mutável, mas, ao mesmo tempo, um vir-a-ser sempre inacabado, em metamorfose. Além disso, a identidade se faz presente em um grupo social como escudo e defesa de si, envolvendo relações de poder numa articulação dialética e revelando, também, seu caráter político (Souza Santos, 1995, citado por Maheirie, 2001).

 

Metodologia

Como estratégias de coleta de dados realizaram-se análise de bibliografia específica e de documentos históricos sobre as corporações musicais, além de gravações de entrevistas semiestruturadas e registros em vídeo de algumas apresentações, ensaios e espetáculos. Essas gravações foram submetidas a análises com a consequente produção de quadros descritivos ou mapas de registro de fenômenos grupais (Vieira-Silva, 2000). Entrevistas semiestruturadas foram realizadas com músicos e regentes e analisadas por categorias temáticas.

Para além do trabalho de compilação dos dados obtidos, torna-se necessário o esclarecimento sobre a postura dos pesquisadores e os pressupostos que nortearam este trabalho. Em função da natureza do trabalho de pesquisa, priorizou-se o uso de metodologias qualitativas participativas, baseando-se nos pressupostos da pesquisa-participante (Brandão, 1984) e dos grupos operativos de Pichon-Rivière (1988, 1991), o que implica uma estreita vinculação entre pesquisa, intervenção e a permanente participação da população investigada no processo da investigação (Vieira-Silva, 2000).

Assim, durante o processo de investigação há duas questões relevantes que devem ser demarcadas: a aproximação com as corporações musicais e as relações estabelecidas entre pesquisadores e grupos-clientes. Em um contexto de aproximações graduais e cuidadosas, percebeu-se que o trabalho com a pesquisa-participante apresenta como principal desafio o manejo do vínculo (Brandão, 1984), situação que foi frequentemente discutida e revista durante muitas das reuniões de debate do projeto, principalmente em relação à Banda do 11º Batalhão de Infantaria, como demonstrado no item análise dos resultados.

Acerca das relações estabelecidas, o acesso a estes sujeitos teve que ser mediado por outras corporações ou músicos da rede de relações dos integrantes da pesquisa. Quando necessária alteração no grupo de pesquisadores, foram realizadas pelos bolsistas atuais apresentação dos futuros bolsistas, que acompanhavam os trabalhos na condição de estagiários, durante pelo menos dois meses, mesmo antes da vigência da bolsa, buscando diminuir a sensação de estranhamento ao grupo-cliente, causada pelo impacto da mudança (Brandão, 1984).

Adotou-se, portanto, a compreensão dos participantes de grupos musicais enquanto sujeitos da pesquisa, utilizando-se de estratégias metodológicas que permitiram aos pesquisadores um maior comprometimento com os grupos pesquisados. Isso porque, em uma pesquisa desta natureza, a condição da prática torna-se essencial, na medida em que "o primeiro fio da lógica do pesquisador deve ser não o seu, o de sua ciência, mas o da própria cultura que investiga, tal como a expressam os próprios sujeitos que a vivem" (Brandão, 1984, p. 12).

 

Análise dos resultados

Durante as investigações realizadas, percebeu-se que a intensa atividade musical da antiga Comarca do Rio das Mortes (atual região dos Campos das Vertentes) exerce, desde o século XVIII, um papel significativo na formação das identidades dos músicos e nas mais tradicionais festividades da região. Compreendeu-se também, a partir das peculiaridades dos eventos observados durante a presente etapa de pesquisa, um pouco do funcionamento das corporações, bem como o papel que cada uma delas conforma nesta dinâmica social, delineadas no material a seguir.

A primeira corporação observada, Orquestra Ribeiro Bastos, apresenta tradição bicentenária e participa diariamente dos eventos sacros da cidade, incluindo a tradicional Semana Santa. Anualmente apresenta-se em todas as celebrações da Igreja Matriz local, incluindo o Ofício de Trevas, evento que conta com a presença de autoridades civis e religiosas, além de apresentar um prestígio musical pela tradição na execução do repertório. Nas relações entre os músicos durante os ensaios e apresentações, observou-se uma atitude rígida da regente, acarretando vários tipos de comportamentos no corpo musical como: risos, concentração, ajuda mútua e nervosismo. Entretanto, alguns depoimentos de músicos revelam compreensão em relação à sua atitude, entendendo que o bom funcionamento da Orquestra e a qualidade de sua performance musical são, em grande parte, produtos da postura que ela assume.

Com Relação à Banda do 11º Batalhão de Infantaria, houve uma dificuldade de acesso ao cotidiano da corporação. Inicialmente, os integrantes da Banda se negaram a conceder entrevistas e as filmagens só foram autorizadas nos ensaios formais e apresentações. Após uma reunião com o Comandante do Batalhão, os obstáculos de acesso foram amenizados, apesar da grande preocupação evidenciada em "preservar" a imagem da instituição.

Já a Sociedade de Concertos Sinfônicos preparou-se durante o ano e comemorou o seu 75º aniversário através de um concerto no Teatro Municipal. O evento contou com esforços de toda a corporação, através da realização de um maior número de ensaios da Orquestra, que foram acompanhados pela equipe de pesquisa. A participação e esforço do Regente foram essenciais, buscando o apoio de outras Orquestras para a realização do evento. Nesses momentos, surgiram conflitos entre o Regente da Sinfônica e o arquivista da Lira Sanjoanense, que se negou a emprestar uma partitura rara do acervo da orquestra para a realização da festividade. Nos ensaios e entrevistas, observou-se a identificação dos músicos para com o Regente e seu empenho para conduzir relações mais harmônicas, motivando os integrantes da Orquestra.

As peculiaridades do processo grupal e a qualidade do vínculo estabelecido com os pesquisadores são elementos essenciais para a compreensão do universo relacional (Pichon-Rivière, 1991) desses grupos. Até porque se percebeu que, mesmo diante dos conflitos e negociações, a tradição musical da região atua como fator determinante no processo de produção das identidades dos músicos, que se espelham na importância histórica da vivência musical intensa para constituírem, ao mesmo tempo, identidades pessoais e coletivas:

a gente toca porque ama a música ... Porque se você for olhar é um compromisso de 200 anos que está nas nossas costas. Você pensar que nossa Ribeiro Bastos lá em mil oitocentos e tantos fazia isso e eu tô fazendo igual agora. Então é uma coisa que recompensa... o fato de eu estar podendo contribuir, estar participando para história, estar participando para a Igreja, colocando o meu serviço, o meu saber em proveito da festa religiosa numa cidade tão religiosa quanto São João del-Rei. (Entrevista realizada com violinista da orquestra Ribeiro Bastos, 2004)

A fala da violinista ilustra perfeitamente o caráter dialético dos grupos, no qual as vivências pessoais entram em confluência com as vivências coletivas, caracterizando o processo de produção de identidades. O sentimento de pertença evidenciado pela violinista demonstra que ela tomou este grupo (a Orquestra Ribeiro Bastos) como referencial para sua identidade pessoal (Martin-Baró, 1989), uma identidade de musicista.

eu comecei de baixo e construí a minha casinha na orquestra, eu comecei cantando lá nos baixos. Hoje em dia estou regendo a orquestra e amanhã eu tô voltando lá pros baixos, porque a vida ela é cíclica, né? Amanhã eu vou tá voltando pra lá e eu vou estar feliz, sabe por quê? Porque eu vou tá contribuindo com o pouco que eu posso dar e isso é o mais importante. (Regente da Sociedade de Concertos Sinfônicos, em ocasião das comemorações do 75º aniversário da Orquestra, 03/07/05)

Ambos os depoimentos demonstram a importância de contribuir para a sustentação da tradição musical da região, trabalhando para manter um acervo cultural, e também atuando como multiplicadores desta realidade. O processo de produção da identidade desses músicos é legitimado em função da manutenção da tradição musical da cidade. Para a maioria dos músicos, o simples fato de estar contribuindo para essa tradição, independentemente de uma posição de destaque, legitima o sentimento de pertença que, como lembra Pichon-Rivière (1991), é um elemento central da identidade do grupo.

 

Relações de poder: relações de dominação e/ou elementos do processo de produção de identidades

As identidades relacionam-se constantemente, em intercâmbio com a sociedade, na medida em que se constituem a partir dela e são constituídas por ela. Essa transformação, a metamorfose das identidades, ocorre num interjogo de trocas, trocas de equivalências. Pensar identidades significa sempre um jogo de igualdades e diferenças (Ciampa, 1987).

Dessa forma, as corporações musicais, no processo de produção de identidades, podem estabelecer vínculos com outros grupos da mesma categoria, justamente para se diferenciar dos mesmos. Essa diferenciação ocorre aos níveis inter e intragrupal, o que significa que as relações de poder nos grupos ocorrem sempre pela diferenciação, quer seja entre os próprios integrantes, quer seja nas relações com os demais grupos:

Então, existe a partitura orquestral ... na Ribeiro Bastos .... e na Lira Sanjoanense. A partitura da Ribeiro Bastos foi emprestada; até queria agradecer em público a maestrina, que nos emprestou a partitura, mas que a partitura era uma escrita antiga, não dá pra se ler, não dá prá tocar... Eu não tenho nada contra a Lira Sanjoanense, só que eu fui pedir momentos há pouco ao arquivista da orquestra e ele me disse que não era possível ser emprestada a partitura porque não tinha autorização ... Na verdade, falta boa vontade. Então, eu quero que todos pensem que, o não fazer com a orquestra não está prejudicando a mim, está prejudicando à entidade Sinfônica, à memória do ... [fundador e regente da Sinfônica] que não regia com clave nova, regia uma orquestra. (depoimento do Regente da Sociedade de Concertos Sinfônicos, em ocasião das comemorações do 75º aniversário da Orquestra, 03/07/05)

O Regente da Sociedade de Concertos Sinfônicos questiona publicamente a atitude do arquivista da Orquestra Lira Sanjoanense, que se negou a emprestar uma partitura para o evento de comemoração dos 75 anos de existência da Orquestra e, nesse mesmo depoimento, agradece à Maestrina da Orquestra Ribeiro Bastos pela partitura emprestada, embora ilegível.

As relações de poder entre os grupos ocorrem em função dos recursos de que dispõem, quer sejam riquezas morais e humanas, quer sejam recursos materiais para a realização da atividade, do fazer musical. Se tais recursos oferecem vantagens para a realização da atividade musical, um grupo terá certas vantagens nas relações sociais (Martin-Baró, 1989). Em acordo com esta afirmação, Bordieu (1998) define as relações de poder por relações de forças entre posições sociais alcançadas, através de uma notoriedade social ou a posse de capital. Especificamente nesta situação, estamos falando da posse do capital cultural, objetivado através da posse de partituras raras que ambas as corporações musicais (Lira e Ribeiro) detêm.

Situação que ilustra também a natureza relacional do poder (Foucault, 1980), pois, nesse sentido, as relações sociais têm por característica essencial um caráter de oposição e conflito e são determinadas pelo quantum de notoriedade pode emergir dessa circunstância. O poder social das corporações musicais, a importância e distinção de cada grupo podem ser percebidos através dessas relações. O poder social é produto das relações de poder, pois ele se configura no plano das relações formais, institucionais, e caracteriza o pensamento das classes dominantes em um determinado sistema estabelecido (Martins, 2003). E se o processo de produção da identidade grupal requer uma diferenciação dos grupos musicais diante dos demais, será também através das relações de poder intergrupais que as identidades coletivas irão se constituir.

Mas as relações de poder também podem ser analisadas no âmbito intragrupal, isto é, entre os próprios músicos e regentes de uma corporação musical. Um exemplo claro dessa situação ocorreu com a Banda do 11º Batalhão de Infantaria, que apresenta a peculiaridade de ter suas relações hierárquicas organizadas de forma bastante explícita. Tal peculiaridade é relativa à própria estrutura do exército, na qual se pode observar uma hierarquia de patentes bem delimitada e objetiva.

Castro (1990) menciona as consecutivas dificuldades de acesso ao cotidiano das academias militares pelos pesquisadores, articulando os obstáculos encontrados à peculiaridade de fechamento dessa instituição, uma relativa autonomia em relação à sociedade civil. Essa dificuldade de acesso foi percebida pela equipe nos contatos com a Banda do Batalhão. Tanto pela preocupação explícita do Comandante em preservar a imagem do exército como no fato de que, em um primeiro momento, alguns integrantes da Banda se negaram a conceder entrevistas e tentaram vetar o acesso às filmagens dos ensaios, a menos que houvesse a presença de um oficial.

Esses obstáculos de acesso, contudo, foram amenizados no momento em que a equipe percebeu a hierarquia como fator essencial ao funcionamento daquela instituição. Uma das estratégias utilizadas pelo grupo de pesquisa foi a organização de uma reunião com a presença do Orientador, na qual os objetivos da pesquisa foram esclarecidos ao Comandante. Após essa reunião, os componentes da Banda se mostraram mais disponíveis a conceder entrevistas, que, entretanto, revelaram-se bastante contraditórias em relação às entrevistas informais prestadas anteriormente:

O músico D. reclama do cotidiano de pressão na Banda, e da falta de liberdade para dizer o que pensa devido à questão hierárquica. Também menciona a dificuldade de aceitação das composições dos praças: - Todos aqui têm total liberdade para compor, a diferença vem é na aceitação ... cabo e soldado precisam passar pela aprovação do Regente e dos demais, já com o oficiais a coisa é mais fácil. (Diário de Campo, 2005)

O mesmo músico, em entrevista formal, faz a seguinte declaração, quando questionado sobre as diferenças hierárquicas na Banda:

Pesquisador S. E tem facilidade, assim, de um soldado, um cabo que fez o arranjo, de ser inserido no repertório da Banda, como que é isso?

Militar D. Aquela música ser inserida? Tem!

Pesquisador S. A hierarquia, ela...

Militar D. Não, não impede. Não interfere.

Pesquisador S. Mas essa patente, ela influencia na criação musical? Por exemplo: o sujeito que é Oficial, que compôs um arranjo que não está tão legal assim, tem mais aceitação do que um Cabo?

Militar D. Ah, não. O pessoal reconhece. Não só porque ele é o oficial que o pessoal vai ... não tem esse negócio, não. Porque fica na cara, né, no seu ouvido. Não precisa falar sobre o que existe, existe. (Entrevista com Músico D., 2005)

Essa situação confirma a proposição de Castro (1990), para quem o processo de produção da identidade militar, que ele denomina de espírito militar, ocorre através de uma contradição. Ao mesmo tempo em que as relações entre os militares são fracionadas pela hierarquia, fazendo com que os praças percebam seus superiores como aqueles que pressionam e que punem, esses mesmos sujeitos entendem os oficiais como modelos do que pretendem vir-a-ser. E passam a assumir atitudes e comportamentos apropriados aos valores militares.

As relações de poder estabelecidas na Banda Militar possuem um caráter diferente das relações estabelecidas no âmbito das corporações musicais civis. A hierarquia das patentes produz um fracionamento mais explícito das relações de poder, de modo que o processo de produção das identidades dos músicos da Banda do 11º Batalhão de Infantaria é explicitamente carregado de contradições, pois, ao mesmo tempo em que a hierarquização das posições constitui fator insuportável aos subordinados, esses mesmos sujeitos buscam assumir atitudes apropriadas aos valores militares, tendo em vista a possibilidade real de atingirem patentes mais altas na categoria militar.

As relações entre Regente e demais músicos também aparecem explicitamente demarcadas pela hierarquia. Em ensaios informais, quando os oficiais estão ausentes, os músicos parecem bastante entrosados e o ambiente é bem descontraído. Nesses momentos, a atividade musical parece mais fluida, e os músicos improvisam arranjos do repertório da Banda. Nos momentos de ensaio formal (em que os Oficiais - incluindo Regente e 2º Regente - estão presentes), o ambiente exprime bastante tensão e um claro fracionamento das relações entre oficiais e demais músicos. Isso não significa que não haja amizade entre militares hierarquicamente distintos, mas que "existe uma experiência totalizadora e básica para a identidade militar: a da preeminência da coletividade sobre os indivíduos" (Castro, 1990, p.43).

Do mesmo modo, para que haja um funcionamento efetivo dessa instituição como corpo, deve haver também aqueles que comandam e aqueles que obedecem. Concordando com Martín-Baró (1989, p.95), "o poder define de antemão os comportamentos requeridos e, portanto, as ações possíveis no interior de cada um dos âmbitos sociais", inclusive numa instituição militar.

Essa primazia do coletivo em detrimento do individual, ao mesmo tempo em que padroniza as expressões do fazer musical, através de atitudes claras de conformismo vindas dos músicos, torna as relações de poder explicitamente hierarquizadas, principalmente no que se refere aos oficiais e praças. Tal situação evidencia-se, sobretudo, por uma pressão psicológica implícita na própria dinâmica da instituição, fator característico do cotidiano militar (Castro, 1990).

Assim, a relativa autonomia desta instituição sobre as civis demarca peculiaridade das relações de poder na Banda do 11º Batalhão de Infantaria. A identidade militar ou, segundo Castro (1990), o espírito militar, atua como fator determinante no fazer musical, na constituição e no formato das relações de poder estabelecidas na Banda.

 

Diferentes formas de estabelecimento das relações de poder: influências no processo grupal e na atividade musical

Prosseguindo as análises das relações de poder intragrupais, podemos perceber paradoxos, se confrontarmos relações estabelecidas entre os músicos e Regentes das corporações musicais estudadas.

Na bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos, durante os ensaios e apresentações, observou-se uma postura rígida da Regente, acarretando vários tipos de comportamentos no corpo musical como: risos, concentração, ajuda mútua e nervosismo. A exigência de trabalho é intensa, e os ensaios geralmente ocorrem por uma ou duas horas com pouquíssimas pausas, seguindo-se uma música à outra. A postura da Regente pode ser ilustrada principalmente nos momentos de ensaio e apresentações da Semana Santa, através de algumas falas e exclamações características:

- "A partir de agora, quero que o ensaio prossiga sem interrupções e sem erros, tá entendido?" (Diário de Campo, 2005)

- "Psiu! Cala a Boca!" (Solene Ação Litúrgica, 25/03/05)

- "Não posso dar moleza, senão eles começam as brincadeiras e o ensaio não anda!" (Diário de Campo, 2005)

Nesses momentos, são perceptíveis expressões de tensão e concentração, buscando atingir o resultado satisfatório ao Grupo e às determinações da Maestrina. Geralmente, a meta de trabalho é atingida, sendo perceptível a qualidade da atividade musical desta corporação. Os músicos utilizam-se de brincadeiras como estratégias de resistência em momentos críticos. Outra estratégia utilizada pelos músicos nesses momentos é apoiar-se no outro, na cumplicidade e na ajuda do colega de trabalho, na busca de compartilhar as dificuldades.

Entretanto, alguns depoimentos de músicos revelam compreensão em relação à atitude da Maestrina, entendendo que o bom funcionamento da Orquestra e a qualidade de sua performance musical são, em grande parte, produtos da postura que assume. Alguns deles defendem essa postura, alegando que a atitude mais enérgica é necessária e interfere positivamente no fazer musical em relação a outras corporações, cujos Regentes assumem atitudes mais democráticas.

Nesse grupo, o estabelecimento das relações de poder entre Regente e músicos possui tendências autocráticas. Essa situação atua como fator decisivo na dinâmica grupal, dificultando as expressões de alteridade, fazendo com que a apropriação das técnicas do fazer musical ocorra de maneira bastante eficiente, entretanto explicitamente conflitiva. Os músicos lançam mão de estratégias de resistência (risos, brincadeiras) para administrar a situação de pressão.

Já na Sociedade de Concertos Sinfônicos as relações de poder assumem um caráter mais democrático. O Regente costuma dividir com todos os músicos da Orquestra os problemas encontrados e propõe soluções, aceitando as opiniões dos demais. Ele tenta motivar o Grupo, dizendo que o mérito desse comprometimento é do Grupo, e não dele:

- Então vamos ver, porque nós estamos com uma missa nova aí, pra daqui a um mês e quinze dias ... Nós vamos ralar, tá certo? Eu agradeço em nome da Sociedade ... Não é mérito meu, é mérito nosso. Mas aí é que tá, o empenho também tem que ser meu. Eu tenho que ficar dando gás porque senão não dá faísca e aí não pega fogo não! (Ensaio Sinfônica 15/05/05)

- "Eu sou o motivador, não sou o Maestro, nem o Regente, eu sou o motivador desse Grupo..." (Depoimento do Regente da Sociedade de Concertos Sinfônicos, em ocasião das comemorações do 75º aniversário da Orquestra, 03/07/05)

- "Mais! Vontade! Tan, tan ... [cantado] Tá muito comportado, tá certo?" (Ensaio Sinfônica 29/05/05)

Perceberam-se, no cotidiano da Orquestra, relações de poder com tendências democráticas. Essa situação atua como fator determinante na dinâmica grupal, facilitando situações de ajuda mútua entre os músicos, as expressões de opiniões individuais, fazendo com que a atividade deste grupo ocorra de maneira mais fluida, admitindo uma apropriação das técnicas do fazer musical menos conflitiva, nas quais as expressões de dúvidas e erros são comumente vistas como parte do processo de aperfeiçoamento dos músicos.

Desse modo, as relações de poder estabelecidas entre Regentes e músicos são objetivadas pela postura desses agentes e irão atuar como fatores determinantes no desenvolvimento do processo grupal, bem como na apropriação do fazer musical de cada sujeito.

Os Regentes, atuando com os mais diversos estilos de lideranças, são detentores de uma espécie de capital político, o capital pessoal de notoriedade (Bourdieu, 1998). Atuam como catalisadores das angústias e esperanças, retirando suas forças da confiança e notoriedade que exercem sobre os demais, através de uma relação de identificação. Entretanto, as opiniões sobre a postura desses personagens podem divergir no contexto intragrupal; ora são designados como carismáticos, ora podem ser completamente desacreditados. Essa natureza lábil do capital cultural de notoriedade representa a necessidade de um trabalho constante de produção e reprodução da própria imagem, do carisma, na busca de manter uma posição de crédito e evitar o descrédito perante os demais (Bourdieu, 1998).

Independentemente de uma postura mais democrática ou autocrática, esses líderes atuam para produzir a representação da confiança, do retrato positivo de cada instituição e suas potencialidades. Essa atuação visa principalmente à qualidade do resultado, isto é, à qualidade do fazer musical desses grupos. Portanto, é a partir da atividade musical que estes Grupos irão legitimar a própria identidade.

 

Conclusões

A intensa vida musical de São João del-Rei e região pode ser evidenciada através do valor que essa tradição imprime como fator determinante do processo de produção das identidades dos músicos, historicamente edificado. Essa identidade é legitimada pela participação das corporações musicais nos eventos mais significativos da região, isto é, Bandas e Orquestras continuam atuando e sendo prestigiadas pela comunidade, autenticando seu pertencimento não só no que diz respeito à qualidade da produção musical, mas principalmente à tradição e ao enraizamento historicamente materializado pelo meio social.

Para a maioria dos músicos, o fato de contribuir para a manutenção da tradição musical da região, de ser um multiplicador dessa realidade com sua atuação profissional é suficiente, mas importante, para legitimar o sentimento de pertença à sua corporação, contribuindo para a sua formação identitária individual, bem como para a formação identitária coletiva de músico de uma corporação musical da Região dos Campos das Vertentes.

Outro fator essencial neste processo de produção das identidades é a diferenciação, tanto no que diz respeito a outros grupos musicais quanto às individualidades intragrupais. Os vínculos estabelecidos entre as Bandas e Orquestras servem tanto à formação de uma identidade coletiva - músicos de uma região que tem como característica histórica e inclusive turística a intensa atividade musical - como às diferenciações, que revelam o estabelecimento das relações de poder e das identidades de cada sujeito nas corporações musicais. Dessa forma, confirma-se o pensamento de Ciampa (1987), de que o processo de produção das identidades se dá "através da articulação de igualdades (equivalências de fato) e diferenças" (p. 170), de modo que a existência do sujeito represente a unidade da multiplicidade.

O estabelecimento de relações de poder é fator essencial no processo de produção das identidades e ocorre sempre por uma tensão nos movimentos, em que podemos identificar algumas estratégias de resistência (Foucault, 1980) e a busca por alteridade na relação com outros músicos ou outras corporações, a nível inter e intragrupal.

As distinções intergrupais, isto é, entre as corporações musicais, ocorrem em função dos recursos de que dispõem, sejam eles materiais ou morais. Quaisquer recursos que ofereçam vantagens a um grupo, principalmente no que diz respeito à atividade, ao fazer musical, poderão representar a possível superioridade de uma corporação sobre outra. Assim, características que diferenciam cada grupo musical e revelam sua alteridade, consequentemente, irão exercer influências sobre o processo de produção das identidades coletivas, que perpassa o estabelecimento das relações de poder. Da mesma forma, as características de produção das identidades coletivas de cada grupo, como por exemplo a tradição musical, poderão exercer influências no estabelecimento das relações de poder intergrupais: um grupo musical pode ser superior a outro se é tradicionalmente mais antigo e participa dos eventos de maior importância na sociedade.

Quanto às distinções intragrupais, pode-se refletir acerca das diferenciações na própria relação entre regentes e demais músicos e mesmo entre os próprios músicos, como no caso da corporação musical militar. As diferentes atitudes tomadas por regentes podem gerar variadas posturas e reações que configuram a formação de estratégias de resistência, muitas vezes vistas como atitudes de transgressão às normas.

No caso específico da Banda do 11º Batalhão de Infantaria, ocorre uma hierarquização mais evidente nas relações de poder estabelecidas, tanto nas relações entre o Regente e demais músicos como nas relações entre músicos praças e oficiais. Isso se deve à relativa autonomia desta instituição sobre a sociedade civil e da primazia do coletivo em detrimento do individual, características marcantes das instituições militares (Castro, 1990).

A prioridade do coletivo, ao mesmo tempo em que homogeneíza e cria um ideal de militar a ser seguido, serve como ideologia à necessidade do estabelecimento de uma hierarquia, que fraciona as relações e torna sua assimetria mais evidente. De tal modo que o processo de produção das identidades dos músicos militares ou o espírito militar é marcado por uma contradição peculiar, reflexo das características da própria instituição (Castro, 1990), atuando como fator determinante no fazer musical, na constituição e na visível característica hierárquica das relações de poder estabelecidas. Essas questões ajudam a explicar os depoimentos paradoxais de alguns músicos.

As diferentes formas de estabelecimento das relações de poder entre os agentes - neste caso, os regentes e músicos - podem exercer influências no desenvolvimento do processo grupal e na atividade musical. Os posicionamentos assumidos por regentes e músicos diante das mais diversas situações são fatores determinantes na dinâmica grupal, podendo facilitar ou dificultar situações de ajuda mútua, expressões de alteridade e influenciar no processo de apropriação das técnicas do fazer musical, de modo que ele seja mais ou menos conflitivo (Martín-Baró, 1989; Pichon-Rivière, 1991).

Esses Regentes, independentemente da postura mais ou menos democrática, são detentores de um capital pessoal de notoriedade (Bourdieu, 1998), atuando como catalisadores das angústias e esperanças do grupo. E, para se manter numa posição de carisma diante dos demais e evitar situações que possam remeter a um descrédito, trabalham constantemente, num movimento de produção e reprodução da própria identidade.   

A estratégia encontrada pelos regentes para a produção de uma identidade que represente confiança aos demais músicos visa principalmente à qualidade do trabalho, isto é, à qualidade da execução musical coletiva. Dessa forma, a atividade legitima tanto as identidades coletivas como as individuais, mantendo a vida musical da Antiga Comarca do Rio das Mortes viva e intensa através dos tempos.

 

Agradecimento

À FAPEMIG – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais e CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico pelo apoio.

 

Referências

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Recebido em: 14/07/2011
Revisão em: 06/05/2012
Aceite em: 14/05/2012

 

 

Marcos Vieira-Silva é Psicólogo, Mestre em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais e Doutor em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da Universidade Federal de São João Del-Rei no período de agosto de 2008 a julho de 2012. Professor associado II da Universidade Federal de São João del-Rei, Coordenador do LAPIP - Laboratório de Pesquisa e Intervenção Psicossocial do Departamento de Psicologia. Endereço: LAPIP /Departamento de Psicologia. UFSJR. Campus Dom Bosco. Praça Dom Helvécio, 74. Dom Bosco. São João del-Rei/MG, Brasil. CEP 36.301-160 . E-mail: mvsilva@ufsj.edu.br
Sheila Ferreira Miranda é Psicóloga, mestre em Psicologia (UFSJ), Doutora em Psicologia Social (PUC/SP)  e membro do NEPIM – Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre Identidade-Metamorfose. Docente Orientadora do Núcleo de Educação à Distância/UAB-UFSJ. Atualmente pesquisa relações raciais e docência universitária. E-mail: sheilaze@gmail.com

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