SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.25 número3Os sentidos e significados no trabalho de controlador de tráfego aéreoRelações de prazer em análise textual: o discurso pornográfico índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Psicologia & Sociedade

versão On-line ISSN 1807-0310

Psicol. Soc. vol.25 no.3 Belo Horizonte  2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822013000300025 

ARTIGOS

 

Práticas identitárias da autoajuda no mundo contemporâneo do trabalho

 

Identity practices of self-help in contemporary world of work

 

 

Samuel Cavalcante Silva; Grenissa Bonvino Stafuzza

Universidade Federal de Goiás, Catalão/GO, Brasil

 

 


RESUMO

Cada vez mais presente no mundo do trabalho, a literatura de autoajuda busca oferecer aos seus leitores práticas para que se tornem profissionais de sucesso. O presente artigo orienta-se pelo diálogo teórico entre a noção de identidade que pode ser estudada em diversas áreas do conhecimento, dentre as quais destacamos a Psicologia Social e os pressupostos foucaultianos sobre modos de subjetivação e práticas disciplinares. Nesse sentido, propomos estabelecer uma análise das práticas identitárias na literatura de autoajuda Os 7 hábitos das pessoas muito eficazes, de Stephen R. Covey, observando como o autor recomenda aos seus leitores o desenvolvimento de hábitos que os tornarão muito eficazes como profissionais. A análise possibilita-nos relacionar o discurso de autoajuda com o discurso econômico-capitalista que considera o sujeito preso a uma identidade produtiva sendo, ao mesmo tempo, flexível e aberto às mudanças, orientando-se pelas diretrizes da economia de mercado.

Palavras-chave: identidade; trabalho; autoajuda.


ABSTRACT

Increasingly present in the working world, the self-help seeks to provide its readers practices to become successful professionals. This article is guided by the theoretical dialogue between the notion of identity that can be studied in various areas of knowledge, among which we highlight the Social Psychology, Foucault´s premises about modes of subjectivity and disciplinary practices. In this sense we propose an analysis of identity practices in the self-help literature of The 7 Habits of Highly Effective People by Stephen R. Covey, watching as the author recommends to its readers to develop habits that will make them very effective as professionals. The analysis enables us to relate the self-help discourse and capitalist-economic discourse that considers the person confined in a productive identity while at the same time, flexible and open to change, guided by the guidelines of the market economy.

Keywords: identity; work; self-help.


 

 

Introdução

As transformações sociais, econômicas e tecnológicas trazem implicações no modo de ser e de agir dos sujeitos na sociedade. Em meio a essas transformações, observamos, em especial, um contexto caracterizado pela transitoriedade que afeta diretamente o mundo do trabalho, marcado pela exigência da alta especialidade profissional nos diversos setores de atividades, tornando a função trabalho cada vez mais sofisticada. Na contemporaneidade, o trabalho pode ser observado como elemento fundante na constituição da identidade e, talvez por isso, de acordo com Antunes (2002), podemos visualizar conjunturas propícias para uma "crise identitária" do sujeito trabalhador.

A autoajuda insere-se nesse contexto, perfazendo-se como um instrumento de auxílio (psicológico e social) no universo do trabalho ao buscar relacionar trabalho à questão do sucesso. Boa parte desse tipo de literatura relaciona-se à questão do sucesso profissional, assim como as ditas "palestras motivacionais", que utilizam conteúdos de livros de autoajuda, tornando-se "febre" no meio empresarial. Podemos mencionar seu alto índice de vendagem que, de certa forma, revela a necessidade que o indivíduo tem de tornar-se um profissional de sucesso. Daí a importância de se investigar esse fenômeno, principalmente sobre a perspectiva da influência da autoajuda nas subjetividades quando relacionadas à temática do trabalho na contemporaneidade.

Os livros de autoajuda constituem-se como verdadeiros manuais de orientação ao leitor em como alcançar o sucesso, seja profissional, familiar ou nos relacionamentos interpessoais. Tais manuais oferecem aos seus leitores a promessa de felicidade cujo princípio é o de que cada pessoa tem em seu interior os recursos necessários para chegar ao sucesso, basta seguir as orientações apresentadas, adequando-se e automodelando-se, a fim de atingir determinados objetivos.

Ao considerar o universo do trabalho como de fundamental importância na constituição dos sujeitos na sociedade, percebemos que a autoajuda infiltrou-se nesse universo ao propor, para o sujeito, técnicas e condutas que disciplinam com a promessa de tornar o sujeito um profissional de sucesso. É por causa desse enfoque supracitado que elegemos para a análise a obra Os 7 hábitos das pessoas muito eficazes, observando, especialmente, como são construídas as práticas identitárias nesse tipo de literatura.

Nesse sentido, objetivamos analisar as práticas identitárias referentes ao sujeito profissional/trabalhador que se configura na obra escolhida como corpus de análise. A partir disso, intentamos explicitar práticas de subjetivação presentes na obra, refletindo sobre enunciados que revelam uma proposta de constituição identitária do sujeito profissional. Assim, propomos identificar o lugar do qual o autor fala e as relações de poder que perpassam o discurso de autoajuda na referida obra.

Algumas questões surgem como de fundamental importância na viabilização do desenvolvimento da discussão aqui pensada: quais práticas identitárias são divulgadas na/pela obra em análise? Que tipo de profissional a obra apresenta? Que tipo de relação a literatura de autoajuda em análise comporta entre o profissional que ela almeja e seu trabalho?

Ao pensar em uma proposta transdisciplinar, elegemos os postulados da Análise do Discurso (AD) de linha francesa como caminho teórico-metodológico para o diálogo com a Psicologia Social. A AD, como é comumente chamada, surgiu na França nos anos de 1960 e tem como grande fundador Michel Pêcheux (1938-1983), que propõe como objeto de estudo o discurso.

A AD pêcheutiana fundamenta-se em três epistemes: o Materialismo Histórico, a Psicanálise e a Linguística. Sobre essa base epistemológica, Pêcheux (2008, p. 45) afirma que "o efeito da trilogia Marx-Freud-Saussure foi um desafio intelectual, engajando a promessa de uma revolução cultural, que coloca em causa as evidências da ordem humana como estritamente bio-social".

Nesse sentido, ao efetivar como fundamento epistêmico da área uma teoria da língua (Saussure), uma teoria do sujeito (Freud) e uma teoria da história e da sociedade (Marx), Pêcheux concentra esforços em pensar uma área transdisciplinar que se oriente pela subjetividade, discursividade e descontinuidade ciências/ideologias. Isso significa dizer que o sujeito pêcheutiano é o sujeito social, atravessado pelo inconsciente, pela ideologia e pela linguagem.

Ao promovermos uma discussão teórica sobre a questão da identidade profissional divulgada pela literatura de autoajuda, buscamos também investigar o porquê do indivíduo, na atualidade, apoiar-se por meio dessa leitura. Essa observação advém do fato dos best sellers serem, consideravelmente, em sua grande maioria, obras de autoajuda.

Outro ponto teórico que alimenta a discussão reside nos pressupostos de Michel Foucault (1926-1984) sobre a constituição do sujeito, em especial, sobre as noções de modos de subjetivação e mecanismos disciplinares. Sob essa perspectiva de estudo, analisaremos alguns enunciados da obra intentando verificar como o tema sobre trabalho é abordado pela literatura de autoajuda.

Não temos a pretensão de esgotar o assunto, nem tampouco fazer uma análise exaustiva da obra. Tomamos como foco de análise os enunciados reveladores de práticas disciplinares, que fazem emergir tipos identitários idealizados de profissionais. Logo, entendemos que a análise de outros aspectos relativos à obra emergirá em outros momentos e será realizada por outros tantos pesquisadores.

 

Engenharia da alma: a noção de identidade na relação autoajuda e capital

O conceito de identidade tornou-se objeto de reflexão em vários campos do saber, como a Antropologia, a Filosofia, a Sociologia, a Linguística, a Psicanálise, a Psicologia Social. Tal conceito é complexo e pode ser visto e pensado por vários aspectos. De forma geral, a identidade tem sido pensada de forma dinâmica, num sentido de movimento, fluidez e metamorfose.

Ciampa (2001) apresenta a visão de identidade como metamorfose. Em seu livro A estória do Severino e a história da Severina, ele descreve as mudanças ocorridas na identidade do personagem Severino na medida em que novas situações lhe são apresentadas a partir do contato com pessoas e lugares diferentes. Para o autor, o papel da relação com o outro é fundante na constituição da identidade quando afirma que "a identidade do outro reflete na minha e a minha na dele" (Ciampa, 2001, p. 59) e, assim, "o processo de permanente transformação do sujeito humano... se dá dentro de condições materiais e históricas dadas" (Ciampa, 1998, p. 88). Nesse sentido, o autor reafirma a ideia de movimento e, ainda, de metamorfose em relação ao conceito de identidade, sendo essa a visão do conceito apresentada pela Psicologia Social.

Coutinho, Krawulski e Soares (2007, p. 30) apontam que "a noção de identidade como um processo construído individualmente, pressupondo um sujeito autônomo e unitário, vem sendo questionada por teóricos do campo dos Estudos Culturais". Entre esses teóricos temos Bauman, que apresenta profundas reflexões sobre identidade na sociedade contemporânea. Para este autor, a identidade não é dada a priori, não é imutável, não se apresenta oculta à espera de ser descoberta. O teórico discorre sobre identidades incertas, fluidas e transitórias, uma vez que, na "modernidade líquida", as instituições antes tidas como sólidas foram dissolvidas. Nessa perspectiva, a identidade, para Bauman,

só nos é revelada como algo a ser inventado, e não descoberto; como alvo de um esforço, "um objetivo"; como uma coisa que ainda se precisa construir a partir do zero ou escolher entre as alternativas e então lutar por ela e protegê-la lutando ainda mais – mesmo que essa luta seja vitoriosa, a verdade sobre a condição precária e eternamente inconclusa da identidade deva ser, e tenda a ser, suprimida e laboriosamente oculta. (Bauman, 2005, pp. 21-22)

Quando colocamos em debate o atual contexto social do universo do trabalho em relação à noção de identidade, observamos que essa fluidez que perpassa as incertezas profissionais contribui decisivamente para a fragmentação dos sujeitos, tendendo a reforçar essa condição transitória e eternamente inconclusa da identidade, como aponta Bauman. Isso faz com que o indivíduo busque, "lute", por uma identidade, ou por um referencial identitário, que possa lhe completar, mesmo que tal completude seja uma ilusão.

Woodward (2008) aponta as posições-de-sujeitos que os sistemas de representação produzem e como nós, enquanto sujeitos, podemos ser posicionados em seu interior. A autora afirma que "o foco se desloca dos sistemas de representação para as identidades produzidas por aqueles sistemas... os discursos e os sistemas de representação constroem os lugares a partir dos quais os indivíduos podem se posicionar e a partir dos quais podem falar" (Woodward, 2008, p. 17). Nesse sentido, a autoajuda, no contexto contemporâneo em que os indivíduos devem ser, cada vez mais, competentes, capacitados e especializados para exercerem sua profissão, aliada às leis do mercado econômico, produz discursos e sistemas de representação que buscam construir os lugares a partir dos quais os sujeitos profissionais possam ser atuantes e competitivos.

Hall (2006), por sua vez, observa que as identidades fixas que estabilizavam o mundo social encontram-se em declínio, portanto, o sujeito da pós-modernidade descobre-se fragmentado e sem um referencial estável:

A assim chamada "crise de identidade" é vista como parte de um processo mais amplo de mudanças, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. (Hall, 2006, p.7)

As mudanças nas sociedades modernas trazem como resultado a fragmentação das estruturas sociais que, outrora, tinham uma definição sobre sexualidade, nacionalidade, religiosidade e forneciam uma "sólida" localização identitária. Essa fragmentação das estruturas sociais levou os indivíduos à chamada "crise de identidade".

Essa "crise de identidade" provocada por falta de um referencial é apresentada por Rüdiger (1996) como "perda de identidade" e, para o autor, essa perda explica a necessidade que indivíduos modernos têm de procurarem a autoajuda. A "perda de identidade" ocorre porque os princípios normativos transmitidos pela tradição foram retirados do contexto social em que vive o indivíduo. Esses princípios são as "representações coletivas que outrora lhe engessavam a identidade e prescreviam-lhe um conceito com pretensão de validade para toda vida" (Rüdiger, 1996, p. 14). A falta de um referencial gera, no indivíduo, a necessidade de recorrer a outros meios que o leve a encontrar uma identidade com a qual se identifique; entre esses meios temos a autoajuda, exercendo esse papel norteador. A autoajuda foca-se no individualismo e no princípio de que cada pessoa tem dentro de si um poder que pode ser empregado na solução de todos os problemas, mesmo que tais problemas se originem em fatores sociais.

Somando-se a essa "perda de identidade" do indivíduo na modernidade, temos a divulgação das práticas de si deflagradas pela indústria cultural, o que leva à criação de verdadeiras empresas de engenharia da alma.

Os movimentos de auto-ajuda, surgidos em nosso século, representam uma vanguarda desse projeto e constituem fenômeno vinculado a verdadeiras empresas de engenharia da alma que, recorrendo às mais diversas mídias, terminam transformando o desenvolvimento da personalidade e a procura por auto-realização em motivo de prática popular, dependente do moderno mercado da cultura. Através dos mesmos, as técnicas de si realmente passaram a se difundir sob a forma de clichês sobre o sucesso: seu conteúdo foi facilitado para o consumo e seus conceitos se tornaram fórmulas de propaganda. As práticas de autocultivo, noutros termos, ingressam, assim, no esquema do planejamento mercadológico, da produção em série e da circulação em massa. (Rüdiger, 1996, p. 16)

Em uma perspectiva geral, o homem moderno demonstra ser necessário que alguém lhe diga como fazer amigos, como ser um bom profissional, como se relacionar com seu cônjuge, como ganhar dinheiro. Rüdiger (1996) faz menção a Horkheimer (1976) que trata a autoajuda como um fenômeno em que se fabrica "um estilo de comportamento para os homens que, privados de sua espontaneidade pelo processo industrial, necessitam de que lhes digam como fazer amigos e influenciar pessoas." (Horkheimer, 1976, citado por Rüdiger, 1996, p. 15).

O capitalismo enseja o movimento de massas que condiciona as rotinas, produzindo no sujeito necessidades que antes ele não possuía e, ao mesmo tempo, oferece- lhe o produto para satisfazer tais necessidades. Nesse contexto, afirma Rüdiger (1996, p. 16):

as respostas para os problemas de identidade, os recursos para descobrir e explorar os segredos da alma, do corpo e do sexo e as fórmulas para ter sucesso na vida e relacionar-se com as pessoas foram se tornando mercadoria de consumo de massa.

Rüdiger, a partir do estudo das articulações textuais da literatura de autoajuda, apresenta três direções bem definidas que estão presentes nesses textos. A primeira relaciona-se às dificuldades que o indivíduo tem em conviver consigo mesmo:

Através dessas práticas, os indivíduos propõem-se a descobrir uma identidade associativa no interior da qual possam desfrutar da tranqüilidade consigo mesmos. A racionalidade em que se baseia, por sua vez, não é mística nem ascética, fundamentando-se na figura típico-ideal de um indivíduo que não busca o sucesso social, nem a salvação coletiva, mas a consecução de um sentimento de bem-estar consigo mesmo, o suprimento de suas necessidades imediatas e a resolução dos conflitos íntimos que perturbam o funcionamento regular de sua subjetividade. (Rüdiger, 1996, p. 19)

A segunda direção, segundo Rüdiger (1996, p. 18), "reúne as práticas das quais os indivíduos procuram constituir-se em sujeitos morais de uma conduta, conduzir-se com sucesso nos terrenos de uma profissão, da família e do convívio social, através da exploração da personalidade." Aqui, autorrealização e sucesso se confundem, estabelecendo uma relação direta com a primeira direção, pois o sujeito que busca o sucesso, se autorrealiza por meio dele. Não se reduz sucesso a dinheiro e posição, nem muito menos a bem estar psicológico ou ainda à capacidade de produzir personalidades bem sucedidas.

Rüdiger apresenta a terceira direção da seguinte forma:

A concepção de mundo dominante em que ambas se baseiam é, por isso mesmo, constantemente tentada a revestir-se de um caráter ao mesmo tempo técnico e narcisista, completamente esvaziado de conteúdo moral, definidor de uma terceira direção, conforme o qual ‘o sucesso depende de manipulação psicológica e de que tudo na vida, até mesmo a esfera ostensivamente orientada à realização do trabalho, centraliza-se na luta pela vantagem interpessoal, o jogo implacável de intimidar amigos e seduzir pessoa’. (Rüdiger, 1996, pp. 20-21)

Sob essa perspectiva de estudo, observamos que a obra em análise neste artigo leva-nos para a segunda direção, pois propõe práticas relacionadas à constituição de sujeitos morais bem sucedidos nos terrenos de uma profissão. O título da obra nos revela, sem rodeios, esse posicionamento, uma vez que ao considerar Os 7 hábitos das pessoas muito eficazes, os leitores são levados ao "aprendizado" de "hábitos", que são oferecidos com a pretensa justificativa de que a constituição de um profissional capaz (identidade profissional), competente, "muito" eficaz e, portanto, bem sucedido depende do aprendizado desses "hábitos".

As reflexões de Rüdiger sobre o sujeito leitor de autoajuda nos remetem à questão apresentada anteriormente: que tipo de relação a literatura de autoajuda em análise comporta entre o profissional que ela almeja e seu trabalho?

As análises de Coutinho et al. (2007) sobre o mundo contemporâneo do trabalho, somando-se às reflexões apresentadas por Rüdeger podem, talvez, nos ajudar a compreender tal questionamento:

Incorporando intensas modificações a partir da prevalência do valor econômico na sua definição e nos seus propósitos, inegavelmente o desenho do trabalho apresenta, na contemporaneidade, características como precariedade, vulnerabilidade e fragmentação, impondo dificuldades para que se processem as identificações por seu intermédio e se construam identidades profissionais. (Coutinho et al., 2007, p. 33)

Essas modificações no mundo contemporâneo do trabalho que lhe impõem características como precariedade, vulnerabilidade e fragmentação e que dificultam que o sujeito vivencie um processo de identificação que lhe constitua a identidade profissional se relacionam ao processo de "perda de identidade", apresentado por Rüdeger (1996), já que os referenciais do trabalho, antes bem definidos, diluíram-se, provocando no indivíduo a sensação de estar à deriva, sem lugar, sem suporte identitário.

Antunes (2002, p. 67) afirma que "as metamorfoses em curso no mundo do trabalho... afetaram a forma de ser da classe trabalhadora, tornando-a mais heterogênea, fragmentada e complexificada." (grifos do autor). Sendo assim, reafirmamos o que antes dissemos: o sujeito trabalhador/profissional enfrenta uma "perda de identidade" acometida na contemporaneidade. Nesse sentido, esse sujeito parte para a busca de um referencial identitário, um porto seguro em que possa se ancorar; entre as possibilidades disponíveis tem-se a autoajuda exercendo esse papel norteador.

Para Rolnik (2000), a globalização da economia e os avanços tecnológicos intensificaram as misturas e pulverizaram as identidades, sendo assim, "as identidades locais fixas desaparecem para dar lugar a identidades globalizadas flexíveis que mudam ao sabor dos movimentos do mercado e com igual velocidade." (Rolnik, 2000, p. 18). Porém, essa situação não implica no abandono da referência identitária. O sujeito se vê obrigado a adaptar-se à lógica do mercado e a buscar uma referência, principalmente no campo de uma profissão. Surge, então, a autoajuda como uma droga que sustenta e produz uma demanda de ilusão identitária, atuando como referência para a identidade profissional, produzindo sujeitos dóceis e úteis.

O que vimos até o momento é que o sujeito não é homogêneo, pelo contrário, ele é fragmentado, cindido e afetado pelas condições de produção que cercam sua vida. O sujeito encontra-se em construção, como em um continuum e nunca está pronto. As práticas identitárias no mundo do trabalho que estão presentes na literatura de autoajuda atravessam o sujeito-leitor da autoajuda.

A seguir, tentamos compreender melhor o processo de constituição do sujeito a partir dos pressupostos foucaultianos.

 

A constituição do sujeito em Michel Foucault

Para discutirmos sobre a constituição identitária do sujeito não podemos deixar de mencionar as considerações de Michel Foucault, pois, segundo o teórico: "não é o poder, mas o sujeito, que constitui o tema geral de minha pesquisa." (Foucault, 1995, p. 232). Embora o autor afirme que não é o poder o tema central de sua pesquisa, ele se envolveu bastante com a questão do poder, pois "enquanto o sujeito humano é colocado em relações de produção e de significação, é igualmente colocado em relações de poder muito complexas." (Foucault, 1995, p. 232).

Dessa forma, podemos entender que o sujeito profissional/trabalhador, que se encontra ligado a uma relação de produção, está, portanto, colocado em uma relação de poder. Sendo assim, a autoajuda entra em cena disciplinarizando o sujeito profissional e atuando sobre a constituição do mesmo. Assim, devido às relações de poder estabelecidas sobre esse sujeito, o trabalho aparece como elemento fundante de sua constituição.

Foucault (1995) apresenta três modos de objetivação que transformam os seres humanos em sujeitos: o primeiro é denominado pelo autor como "modo de investigação", em que objetiva o sujeito produtivo, transforma o sujeito em objeto; o segundo é designado pelo autor como "práticas divisoras", em que o sujeito é dividido no seu interior em comparação aos outros, na diferença com os outros; o terceiro é "o modo pelo qual o ser humano torna-se um sujeito" (Foucault, 1995, p. 232), é o processo em que os indivíduos se reconhecem como sujeito.

Foucault apresenta três domínios em seus escritos: do saber, do poder e da ética. O domínio do saber estabelece relações do sujeito sobre as coisas; o domínio do poder estabelece relações sobre a ação dos outros; o domínio da ética, por sua vez, estabelece relações do sujeito sobre si mesmo. Sob essa perspectiva teórica, podemos pontuar que essas relações dos domínios descritos encontram-se ligadas a dois processos de constituição dos sujeitos: da objetivação dos sujeitos nos eixos do saber e poder, e da subjetivação dos sujeitos na perspectiva da ética.

Fonseca (2003) apresenta os processos de objetivação e subjetivação do sujeito, descritos por Foucault, da seguinte forma:

os processos de objetivação e de subjetivação a que Foucault se refere constituem procedimentos que concorrem conjuntamente na constituição do indivíduo. Os primeiros fazem parte dos estudos em que Foucault se dedica a mostrar as ‘práticas que dentro da nossa cultura tendem a fazer do homem um objeto’, ou seja, os estudos que mostram como, a partir dos mecanismos disciplinares, foi possível constituir o indivíduo moderno: um objeto dócil e útil. Os segundos, por sua vez, localizam-se no âmbito dos trabalhos em que Foucault procura compreender as práticas que, também dentro de nossa cultura, fazem do homem um sujeito, ou seja, aquelas que constituem o indivíduo moderno, sendo um sujeito preso a uma identidade que lhe é atribuída como própria. (Fonseca, 2003, p. 25)

Esse sujeito preso a uma identidade é constituído por disciplinas e regimes específicos que se configuram como modos de subjetivação que, por sua vez, se desenvolvem através das relações de poder. Essa teia de poder engendra e/ou impõe práticas discursivas que estabelecem representações sobre o corpo, sobre a subjetividade e sobre o sujeito. Sobre isso, Campilongo (1999, p. 65) afirma que "o sujeito subjetivado, o corpo disciplinado (dócil), os regimes de verdades e as tecnologias do si (interdições e sujeições) definem os enunciados que dão fundamento às formações discursivas que atuam sobre o corpo e seus poderes".

Para Foucault, há uma estreita relação entre poder e saber, de tal forma que "não há uma relação de poder sem constituição de um campo de saber, como também, e, reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder" (Machado, 2006, p. 177). Foucault "desenvolve a idéia de relações de forças que induzem, produzem prazeres, produzem coisas, formam saberes e produzem discursos em detrimento da noção de poder como aparelho que apenas reprime" (Fonseca, 2003, p. 34). Nesse sentido, as relações de poder para Foucault estão relacionadas à ideia de suscitar, incentivar, fazer falar, diferentemente da ideia do poder instituído que proibi, inibe, reprimi, silencia, faz calar.

Foucault afirma, ainda, que qualquer mudança da sociedade não poderá ser efetuada "se os mecanismos de poder que funcionam fora, abaixo, ao lado dos aparelhos de Estado, em um nível muito mais elementar, cotidiano, não forem modificados" (Foucault, 2007, pp. 149-150). Isso significa que não se trata de partir de uma dominação global, mas de partir dos mecanismos sutis das relações de poder que ocorrem em nível mais elementar, no cotidiano; o que ele chama de "micropoderes". Nesse sentido, para o teórico em estudo, os mecanismos disciplinares objetivam dissimular, de forma desinstitucionalizada, processos flexíveis de controle, com a pretensão de fabricar indivíduos em série, homogeneizando-os.

Nessa concepção, as disciplinas funcionam e circulam de forma difusa e múltipla em toda a sociedade. Durante a Idade clássica, essas disciplinas circulavam de forma fechada e institucionalizada, tornando-se, na contemporaneidade, uma rede de dispositivos dissimulada por toda a sociedade. Para Foucault (2010, pp. 197-198), "o arranjo panóptico dá a fórmula dessa generalização. Ele programa, ao nível de um mecanismo elementar e facilmente transferível, o funcionamento de base de uma sociedade toda atravessada e penetrada por mecanismos disciplinares".

Foucault apresenta duas imagens da disciplina: a disciplina bloco, fechada, institucionalizada que pretende fazer romper o mal; e a disciplina mecanismo, que funciona de forma generalizada em que busca melhorar o exercício de poder, todos se tornam agentes, formando uma malha complexa que se multiplica por todo o corpo social e, assim, se torna mais eficaz e rápida. Mesmo sem um olhar controlador para vigiá-lo (panóptico), o sujeito sente-se preso e busca adaptar-se e autocontrolar-se para não cometer erros.

Ao pensar na literatura de autoajuda como um mecanismo que dissimula a autodisciplina com o intuito de alcançar o sucesso no trabalho, consideramos, neste trabalho, o mesmo efeito de controle disciplinar sendo desenvolvido de forma desinstitucionalizada, uma vez que cabe ao sujeito autodisciplinar-se para ser bem sucedido. Isso nos remete a Foucault, quando ele afirma que há dois significados para a palavra sujeito: "sujeito a alguém pelo controle e dependência, e preso à sua própria identidade por uma consciência ou autoconhecimento." (Foucault, 1995, p. 235). A autoajuda, nesse sentido, seria uma forma de poder que "aplica-se à vida cotidiana imediata que categoriza o indivíduo, marca-o com sua própria individualidade, liga-o à sua própria identidade, impõe-lhe uma lei de verdade, que devemos reconhecer e que os outros têm que reconhecer nele" (Foucault, 1995, p. 235).

Pensar o sujeito tomando por base determinadas práticas que o objetivam/subjetivam é a grande questão de Foucault, portanto, faz-se necessário refletir também sobre as relações de poder que estariam atravessando tais práticas, as quais capturam os sujeitos modalizando-os. Enquanto práticas, as relações de poder não agem diretamente sobre os sujeitos, mas sobre suas ações, disciplinando e regulando determinadas ações.

 

"Os 7 hábitos das pessoas muito eficazes": práticas identitárias na autoajuda

Stephen R. Covey, em Os 7 hábitos das pessoas muito eficazes, apresenta o que na contracapa é chamado de "síntese das ideias que podem conduzir a melhorias no desempenho profissional e na satisfação pessoal". A proposta é "ensinar" aos leitores princípios norteadores que funcionem como práticas profissionais e de relacionamentos familiar e interpessoal, almejando o sucesso do indivíduo leitor.

A obra é dividida em quatro partes que buscam, em sua totalidade, orientar princípios de mudanças de hábitos com o objetivo de obter satisfação pessoal e sucesso perante os outros. Na primeira parte, o autor faz um panorama geral sobre os sete hábitos, apresentando aos leitores o poder de um paradigma e a necessidade de estar aberto às mudanças de paradigmas; na segunda parte, Covey (s.d.) apresenta os três primeiros hábitos que estão relacionados às mudanças e adaptações internas do indivíduo para conquistar o que ele chama de "vitória interna"; na terceira parte, o autor revela os hábitos 4, 5 e 6, que se encontram ligados às relações que o indivíduo estabelece em níveis sociais; e a quarta e última parte, Covey apresenta o 7º hábito, em que fala da necessidade do indivíduo sempre buscar a renovação de forma equilibrada em termos físico, mental, social, emocional e espiritual. O autor encerra o livro com dois apêndices: no primeiro, o autor mostra um quadro sobre as percepções possíveis em várias áreas da vida; no segundo, o autor disponibiliza um exercício "prático" para que seus leitores desenvolvam os hábitos "ensinados".

Observamos na obra um discurso engenhoso que traz em seu interior um mecanismo persuasivo que busca convencer os leitores a desenvolverem determinadas práticas com a promessa de que se tornarão,assim, profissionais bem sucedidos: os mecanismos discursivos fazem emergir tipos identitários idealizados. Nesse sentido, o discurso de autoajuda que fundamenta a obra volta-se para o sujeito profissional/trabalhador de sucesso, caracterizado pelo autocontrole, equilíbrio emocional, liderança etc.

Stephen R. Covey é apresentado na obra da seguinte forma:

STEPHEN R. COVEY é diretor do Covey Leadership Center, empresa que desenvolve programas de aprimoramento de lideranças em mais de cem empresas listadas entre as 500 maiores pela revista Fortune. Mestre em administração de empresas pela Harvard, doutor pela Brigham Young University e professor-adjunto na Marriot School of Management, Stephen Covey é autor de diversos livros e artigos sobre liderança, eficácia pessoal e relacionamento familiar e interpessoal. É casado e tem nove filhos (orelha do livro).

Observamos nesta apresentação do autor uma relação de "saber-poder". Quando Stephen Covey é apresentado como diretor de uma "empresa que desenvolve programas de aprimoramento de lideranças em mais de cem empresas listadas entre as 500 maiores pela revista Fortune", mestre e doutor em administração de empresas e professor de uma universidade, ele estabelece uma relação de poder sobre seus leitores, uma vez que ele fala do lugar do saber, e não apenas do saber teórico, mas também do lugar da experiência, pois é diretor de uma empresa que torna as empresas bem sucedidas e, com isso, pode tornar seus leitores profissionais bem sucedidos.

A informação "é casado e tem nove filhos" reforça o que o autor pontua durante todo o livro: a questão dos valores familiares e a importância da boa relação com a família para ser bem sucedido. Covey além de profissional bem sucedido, ée também bem sucedido como esposo e pai, "líder" de uma grande família, com "nove filhos".

Essa apresentação busca expor uma "verdade" sobre o autor, comprovada cientificamente, uma vez que o enunciador é alguém que detém o saber sobre o assunto posto em questão, portanto, o que o autor apresenta é tido como verdade. Esse poder produzido por um suposto saber científico tem o objetivo de fabricar sujeitos normalizados, individualizados e idealizados. Podemos, então, pensar a relação entre sujeito e poder na obra a partir das posições-sujeitos ocupadas pelo enunciador, que se utiliza de uma prática apresentada como científica para escrever sobre a verdade de como ser um profissional de sucesso.

Há, sobretudo, a promessa de uma identidade profissional bem sucedida, o que vai ao encontro das necessidades surgidas na contemporaneidade, uma vez que os referenciais identitários estáveis encontram-se diluídos, ao mesmo tempo em que o profissional deve atender às demandas de um mercado de trabalho cada vez mais exigente. Portanto, esse discurso encontra-se calcado na concepção de identidade fixa e no pressuposto de que o indivíduo pode encontrar dentro de si um referencial identitário estável.

Temos, então, um enunciado que culpa o indivíduo acerca do seu próprio insucesso profissional: "Pense na palavra responsabilidade – respons-abilidade – a habilidade para escolher sua resposta. Pessoas superproativas acostumam-se com a responsabilidade. Não colocam a culpa por seu comportamento nas circunstâncias, condições ou condicionamentos. Seu comportamento é produto de sua própria escolha consciente" (Covey, s.d., p. 75).

O primeiro hábito que Covey apresenta é da "pro-atividade" que implica na questão do indivíduo ser responsável pelos seus atos e tomar a iniciativa, "tomar as rédeas de sua vida". Isso o tornará uma pessoa "supereficaz". Tal concepção torna-se complexa quando pensamos em uma sociedade que marginaliza uns para que outros sejam bem sucedidos. Não se pode culpar o sujeito em uma sociedade onde as oportunidades são diferenciadas. Esse enunciado mostra o atravessamento do discurso econômico-capitalista no funcionamento do discurso de autoajuda, que individualiza e culpa os indivíduos por suas escolhas, como formas de controle.

Listamos, a seguir, os "7 hábitos", apregoados por Covey (s.d.), das pessoas muito eficazes:

Ser proativo - princípios de Visão Pessoal;

Começar com objetivo na mente – princípios de Liderança Pessoal;

Primeiro o mais importante – princípios da Administração Pessoal;

Pense em vencer/vencer – princípios de Liderança Interpessoal;

Procure primeiro compreender, depois ser compreendido – princípios de Comunicação Empática;

"Sinergizar" – princípios de Cooperação Criativa;

Afinando o instrumento – princípios de Auto-renovação Equilibrada.

Vemos nos "hábitos" listados que os profissionais para serem bem sucedidos devem se adequar a determinadas disciplinas. É importante ressaltar que, a cada hábito listado, Covey apresenta um princípio, como se os princípios fossem norteadores dos hábitos que as pessoas devem praticar para serem bem sucedidas: as pessoas não devem praticar os hábitos por praticarem, devem compreender os princípios que os norteiam, pois, segundo o autor, são princípios válidos não apenas para uma carreira profissional, mas para vida.

Ao propor determinadas técnicas/disciplinas, o enunciador sugere elementos que constituirão sujeitos profissionais bem sucedidos, adaptados e homogeneizados. É como se o autor propusesse a construção em série de profissionais/trabalhadores bem sucedidos: são práticas identitárias estabelecidas pela disciplina que, para Foucault (2010, p. 143), "‘fabrica’ indivíduos; ela [a disciplina] é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumento de seu exercício".

As práticas disciplinares descritas por Foucault são observadas no todo da obra e implicam a construção de uma identidade profissional ao criar saberes que interferem nas subjetividades, como podemos observar na lista dos hábitos supracitada.

As práticas apresentadas por Covey não se restringem às questões ligadas à carreira profissional, pois, para o autor, tais hábitos devem ser praticados em todos os aspectos da vida, seja nas questões familiares, nas de amizades, nas de finanças pessoais ou em qualquer outro âmbito. O numeral utilizado para enumerar os hábitos de certa forma nos revela isso, uma vez que são 7 os hábitos, e são 7 os dias da semana, a prática deve ser constante, como sugere o sentido de "hábito", algo que seja comum, inerente, para torna-se um indivíduo com uma identidade de profissional de sucesso. De acordo com Covey (s.d.):

"Começar com o objetivo na mente significa começar tendo uma compreensão clara do destino. Significa saber para onde você está seguindo, de modo a compreender melhor onde está agora, e dar os passos sempre na direção correta" (Covey, s.d., p. 105).

"Além da autoconsciência, da imaginação e da consciência, é o quarto dom humano – a vontade soberana – que realmente torna possível a administração pessoal e eficaz" (Covey, s.d., p. 161).

Os enunciados trazem a ideia de que o sujeito tem dentro de si tudo o que precisa para ser profissional bem sucedido, sendo assim, ele independe dos outros, de oportunidades, de políticas públicas, sociais e econômicas para conseguir sucesso. Segundo o autor, o sujeito tem que ter "o objetivo na mente" e "compreensão clara do destino", como se esses requisitos fossem claros e fáceis de serem empreendidos. Outra questão importante é que Covey apresenta as noções de "autoconsciência", "imaginação", "consciência" e "vontade soberana", como dons humanos, que estão disponíveis no interior de cada pessoa e prontos para serem acessados. São questões muito complexas e subjetivas colocadas de forma muito simplificada, por vezes generalizadora. Que "vontade soberana" o sujeito preso a uma malha ideológica tem? "Soberania" determinada pela ideologia dominante?

Durante toda a obra, observamos uma exposição de técnicas que pretendem ensinar os leitores a serem profissionais bem sucedidos e, para tanto, disciplinados. São técnicas de autocontrole disciplinar que pretendem, a nosso ver, tornar os sujeitos corpos dóceis e úteis.

Expressões como "pense em vencer/vencer", "primeiro compreender para depois ser compreendido", "ouvir com empatia", "abrindo seu coração, sua mente e seu modo de expressão para novas possibilidades, novas alternativas e novas opções", multiplicam-se por toda a obra e revelam-se como práticas disciplinares constituintes de modos de subjetivação que prendem o sujeito em um terreno identitário moldado, a fim de que o sujeito não escape ao controle do mercado econômico. Sendo assim, a autoajuda configura-se como um modo contemporâneo de subjetivação, estabelecendo práticas identitárias por meio de mecanismos disciplinares que se engendram em sua malha discursiva, com a pretensão de tornar os sujeitos adaptados e produtivos para servirem ao capital.

 

Considerações finais

O trabalho, conforme pontuamos no início deste artigo, tornou-se, na contemporaneidade, elemento fundante na constituição dos sujeitos. A autoajuda, nesse sentido, utiliza-se de mecanismos disciplinares, que estabelecem práticas identitárias, com o objetivo de adequar, adaptar os indivíduos às exigências do mercado.

A "crise de identidade" que ronda a contemporaneidade seduz o sujeito leitor da literatura de autoajuda, uma vez que o sujeito encontra-se sem um referencial identitário seguro. Sendo assim, a autoajuda acaba por exercer esse papel norteador, dizendo ao indivíduo como ser um profissional de sucesso.

Tal discurso é caracterizado por culpar o próprio sujeito por seu insucesso profissional, pois o discurso de autoajuda apregoa que todos os mecanismos que o profissional precisa para ser bem sucedido encontram-se em seu interior. Essa prática da autoajuda é infundada, visto que despreza o contexto sócio-histórico-ideológico em que o sujeito encontra-se inserido, uma vez que as novas tecnologias e a globalização precarizaram o mundo do trabalho, tornando o desemprego e a instabilidade comuns. E, em uma análise bem superficial, já que vivemos, em nosso país, com um déficit na educação em todos os níveis, isso contribui para limitar o acesso a uma boa formação, às oportunidades.

Através das contribuições de Michel Foucault sobre a constituição do sujeito, em especial, as concepções sobre poder/saber, modos de subjetivação e práticas disciplinares, percebemos que o discurso de autoajuda se constitui como um modo contemporâneo de subjetivação, utilizando-se de práticas disciplinares, pressupondo um suposto saber científico que estabelece uma relação de poder sobre seus leitores.

Portanto, tal literatura visa moldar e produzir subjetividades, ou seja, práticas identitárias que pretendem transformar os sujeitos, individualizados, em corpos dóceis e úteis ao mercado de trabalho, servindo assim, aos interesses do capital. Concordamos com Foucault (1995, p. 239), quando ele afirma que "temos que promover novas formas de subjetividade através da recusa deste tipo de individualidade", com o objetivo de romper com tais práticas ilusórias que jamais darão aos indivíduos o referencial identitário que procuram, já que autoajuda funciona como uma "droga" de ilusão identitária.

 

Referências

Antunes, R. (2002). Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e centralidades no mundo do trabalho (8ª ed.). Campinas, SP: Editora da Unicamp.         [ Links ]

Bauman, Z. (2005). Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.         [ Links ]

Campilongo, M. A. (1999). A noção de sujeito em Michel Foucault. Educação, Subjetividade e Poder, 6, 63-72.         [ Links ]

Ciampa, A. C. (1998). Identidade humana como metamorfose: a questão da família e do trabalho e a crise de sentido do mundo moderno. Interações, 3(6), 87-101. Acesso em 31 de maio, 2012, em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-71822007000400006&script=sci_arttext        [ Links ]

Ciampa, A. C. (2001). A estória do Severino e a história da Severina. São Paulo: Brasiliense.         [ Links ]

Coutinho, M. C., Krawulski, E., & Soares, D. H. P. (2007). Identidade e trabalho na contemporaneidade: repensando articulações possíveis. Psicologia & Sociedade, 19(1), 29-37.  Acesso em 31 de maio, 2012, em http://www.scielo.br/pdf/psoc/v19nspe/v19nspea06.pdf        [ Links ]

Covey, S. R. (s.d.). Os 7 hábitos das pessoas muito eficazes (C. Nogueira, Trad.). São Paulo: Best Seller.         [ Links ]

Fonseca, M. A. (2003). A preocupação com o sujeito e o poder. In M. A. Fonseca (Org.), Michel Foucault e a constituição do sujeito (pp. 22-38). São Paulo: EDUC.         [ Links ]

Foucault, M. (1995). O sujeito e o poder. In H. L. Dreyfus & P. Ravinow, Michel Foucault: uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica (pp.231-249). Rio de Janeiro: Forense Universitária.         [ Links ]

Foucault, M. (2007). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal.         [ Links ]

Foucault, M. (2010). Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis, RJ: Vozes.         [ Links ]

Hall, S. (2006). A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A.         [ Links ]

Machado, R. (2006). Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.         [ Links ]

Pêcheux, M. (2008). O discurso: estrutura ou acontecimento. Campinas, SP: Pontes.         [ Links ]

Rolnik, S. (2000). Toxicômanos de identidade: subjetividade em tempo de globalização. In D. Lins (Org.), Cultura e Subjetividade: saberes nômades (pp. 18-24). Campinas, SP: Papirus.         [ Links ]

Rüdiger, F. R. (1996). Literatura de auto-ajuda e individualismo. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS.         [ Links ]

Woodward, K. (2008). Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In T. T. Silva (Org.), Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais (pp. 7-72). Petrópolis, RJ: Vozes.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 01/09/2012
Aceite em: 24/06/2013

 

 

Samuel Cavalcante Silva é Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) e em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG/CAC); Mestre em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal de Goiás - Campus Catalão; bolsista FAPEG e membro do Grupo de Estudos Discursivos GEDIS/UFG. Endereço: Av. das Américas, 1105, apto 713 – Bairro Leblon. Catalão/GO, Brasil. CEP 75704-850. E-mail: cavalcante.psi@gmail.com
Grenissa Bonvino Stafuzza é Professora e pesquisadora do Departamento de Letras da Universidade Federal de Goiás, Campus Catalão. Orienta pesquisas em Análise do Discurso de iniciação científica e pós-graduação. É líder do GEDIS - Grupo de Estudos Discursivos (http://www.letras.catalao.ufg.br/gedis/). E-mail: grenissa@gmail.com