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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.13 n.1 Porto Alegre  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722000000100006 

Levantamento de questões sobre a relação entre percepção e linguagem

Glória Maria Monteiro de Carvalho1 
Universidade Federal de Pernambuco

 

 


Resumo
No estudo da percepção humana, tem sido privilegiado seu caráter de fenômeno mediado pela linguagem, destacando-se nesse campo o trabalho de Luria. Entretanto, a tentativa de discussão sobre o tema, no presente artigo, apontou para vários impasses decorrentes de uma concepção instrumental da linguagem que está por trás dessa hipótese de mediação. Nesse sentido, o levantamento de questões sobre a relação entre os dois fenômenos, no campo da aquisição da linguagem - bem como a análise de produções verbais da criança em momentos iniciais de seu percurso lingüístico - retornaram ao campo da Psicologia da Percepção. Com fundamento nessa perspectiva, pode-se formular a seguinte proposta: a substituição do estatuto instrumental da linguagem por seu estatuto de objeto autônomo se constitui como o ponto de partida para se poder levar adiante o compromisso com a hipótese de mediação lingüística do fenômeno perceptual.
Palavras-chave: Percepção; linguagem; mediação.

Issues about the relationship between perception and language

Abstract
In the study of human perception its phenomenal character mediated by language has been privileged. The work of Luria stands out in that field. However, any  attempt to discuss this issue in runs across several impasses, derived from an instrumental conception of the language which underlies that mediation hypothesis. Thus, the rising of issues concerning the relationship between the two phenomena in the field of language acquisition - as well as the analysis of children’s verbal productions in the early moments of their linguistic course - returned to the field of Perceptual Psychology. Therefore, based on this perspective, a proposal can be made for the  substitution of the instrumental status of language for one which takes its autonomy into account. This could be the starting point to achieve coherence with the hypothesis of linguistic mediation of the perceptual phenomenon.
Keywords: Perception; language; mediation.


 

 

Este estudo propõe-se a colocar em discussão o estatuto atribuído à linguagem em algumas abordagens do fenômeno perceptual, conduzindo a discussão para o campo da Aquisição da Linguagem. O recorte da percepção, enquanto objeto de estudo, é antigo e se reveste de grande importância, especialmente no âmbito dos processos psicológicos, pelo papel desempenhado na história da constituição da Psicologia. A esse respeito Luria (1976) afirma que: "Uma análise de certas características da percepção é capaz de fornecer evidências bastante claras sobre o modelo histórico dos processos psicológicos" (p. 27, tradução minha). Esse autor, cujos estudos se constituem, na Ciência Psicológica, como referência indispensável à investigação do objeto em foco (ver, por exemplo, Luria 1976; 1979; 1987; 1988; Luria & Yodovich, 1985, entre outros) pretendeu desnaturalizar a abordagem tradicional de tal objeto, isto é, procurou subtraí-lo à concepção clássica de Ciência Natural. De acordo com esta concepção, as leis perceptuais, sobretudo com relação à cor e à forma, constituem fenômenos naturais, sendo portanto, universais, comuns a toda a humanidade e inalteradas durante o curso da história social, como é o caso dos padrões de percepção de estruturas geométricas, formulados na teoria da Gestalt. Para Luria (1976), a própria história da investigação psicológica, nas últimas décadas, invalidou as noções naturalistas sobre a relativa simplicidade, a rapidez e a natureza imediata da percepção, sugerindo que se trata de um processo complexo que envolve atividades de diversos tipos como as de orientação e de tomada de decisões. A partir daí, propõe que a percepção é uma atividade cognitiva bastante complexa e mediada, sustentando tal proposta em grande número de trabalhos empírico-experimentais:

"O psicólogo americano Jerome S. Bruner recentemente observou que toda percepção é inerentemente um processo complexo e ativo de nomear informações adquiridas, colocando-as em uma categoria familiar, um evento intimamente associado com as funções de abstração e generalização da linguagem." (Luria, 1976, p. 21)

Nesse sentido, com fundamento em Vygotsky - embora seguindo caminhos diferentes desse autor, em sua abordagem dos processos cognitivos - Luria afirma que existe uma relação íntima entre os fenômenos lingüístico e perceptual, destacando o primeiro como mediador do segundo:

"Uma vez reconhecido que a percepção é uma atividade cognitiva complexa que emprega recursos auxiliares e pressupõe um íntimo envolvimento com a linguagem, devemos radicalmente alterar as noções clássicas de percepção como sendo um processo não mediado que depende unicamente das leis relativamente simples da ciência natural.(...) Nossa análise começa com a visão de Vygotsky de que a natureza semântica dos processos psicológicos se aplica tanto à percepção quanto a outras atividades mentais." (Luria, 1976, pp. 1-2, tradução e grifos meus)

Trata-se, portanto, de um compromisso assumido pelo investigador com o movimento de desnaturalização do estudo da percepção, sustentando-se na hipótese de que o enfoque da linguagem constituiria o caminho a ser trilhado para que esse compromisso pudesse ser cumprido. Em outras palavras, supõe-se que não se poderia, satisfatoriamente, levar adiante a investigação do objeto perceptual sem se confrontar, de forma primordial, com as questões colocadas pelo enfoque do objeto lingüístico.

Enfim, pode-se dizer que Luria (1976; 1979; 1986) teve o mérito de se constituir, na Psicologia, como um representante de peso da referida hipótese de mediação. Situa-se, portanto, posição supostamente contrária a alguns autores, como Piaget (1980), que apesar de tornarem visível a grande complexidade do fenômeno perceptual, não o focalizam do ponto de vista de sua medição lingüística. A proposta piagetiana de uma íntima relação entre percepção e ações (ou operações), no sujeito epistêmico, em consonância com sua postura genérica sobre o desenvolvimento cognitivo, não contempla algum papel significativo desempenhado pela linguagem. Assim, num determinado ponto do desenvolvimento, a percepção é claramente determinada pela operação, como no caso da percepção dos simples comprimentos lineares. Segundo Piaget (1980), ocorre nesse domínio, em crianças com menos de sete anos, um "defeito" na atividade exploratória sistemática em relação ao objeto ou, melhor dizendo:

"Os movimentos de transportes e comparação, passando de um segmento a outro, são proporcionalmente menos freqüentes nos pequenos do que os simples movimentos de índole aleatória". (Piaget, 1980, p. 38)

Para explicar essa diferença (defeito?) diz o autor que:

"De modo geral, vê-se, dessa maneira, que as atividades perceptuais se desenvolvem com a idade até poderem dobrar-se às diretivas que lhe sugere a inteligência em seus progressos operatórios. Mas antes que se constituam as operações do pensamento, é a ação inteira que exerce o papel de orientação". (Piaget, 1980, pp. 40-41)

Numa outra direção, Luria (1976) concebe que a proposta de mediação da percepção pela linguagem a qual reflete, por sua vez, aspectos culturais, configura uma posição já considerada clássica e, nesse sentido, faz referência, dentre outros, a estudos decorrentes da chamada hipótese Sapir-Whorf. Segundo esta hipótese, ocorre uma determinação lingüística sobre a percepção, especialmente de cor, no sentido de que as línguas possuem termos distintos para nomear certas diferenças de matizes, enquanto que ignoram outras diferenças. Com relação ao desenvolvimento, Luria (1979) refere-se ao "grande papel desempenhado na percepção da criança pela linguagem e constitui um dos fatos mais importantes da Psicologia atual." (p.77)

 

O Estatuto Instrumental da Linguagem na Abordagem da Percepção: Questões e Impasses

Recortando da discussão acima os pontos que interessam mais de perto ao presente trabalho, pode-se formular, agora, a pergunta relativa ao objetivo colocado no início: Qual o estatuto atribuído por Luria à linguagem, ao propor seu "íntimo envolvimento" com a percepção? Uma resposta clara a esta pergunta é apresentada pelo próprio autor, quando, em seus experimentos, aponta para a influência da nomenclatura sobre a percepção:

"Todos os sujeitos, exceto aqueles que freqüentavam escolas de professores, usavam predominantemente nomes específicos orientados a objetos mais do que nomes categóricos. (...) Para os alunos da escola de professores, nomes categóricos mediaram suas percepções claramente sistemáticas das figuras geométricas" (Luria, 1976, pp. 33-34, tradução e grifos meus)

Num de seus estudos, Luria (1976), localiza a subordinação histórico-cultural da percepção de cores e formas e traz à tona fundamentos empíricos para a hipótese de que o processo perceptual varia qualitativamente na dependência da maneira como, em culturas diversas, se constituem os sistemas de nomeação daquelas dimensões. Nesse mesmo estudo, o autor concluiu que o modo como grupos (culturalmente distintos) percebem, por exemplo as cores, está intimamente relacionado ao sistema de termos usado para nomeá-las o qual, por sua vez, depende da experiência prática de cada grupo. Assim, aqueles sujeitos cujo sistema de nomeação é caracterizado pelo que o autor chama de nomes de objetos diferiram, significativamente - quanto a seus padrões de percepção - daquele grupo que usou, de forma preponderante, a nomeação categórica. No primeiro caso, por exemplo, o termo pistache é usado para nomear a cor que, em outras culturas é nomeada pelo termo categórico verde-amarelado. Neste sentido, afirma Luria:

"Os fatos acima nos sugerem que as condições da maioria das investigações sobre percepção de cor e forma de hoje em dia se aplicam, de fato, apenas aos indivíduos modelados por influências acadêmicas e culturais, isto é, pessoas com um sistema de códigos conceptuais para os quais tais percepções se adaptam. Em outras condições a experiência de vida é basicamente determinada por experiências práticas. Sem a influência modeladora dos efeitos da escola, o processo de codificar é diferente porque as percepções de cor e forma ajustadas a um sistema diferente de experiências práticas são denotadas por um sistema diferente em termos de fala e são sujeitas também a leis diferentes." (Luria, 1976, p. 22)

Com esses resultados, pretendeu-se que a antiga hipótese Sapir-Whorf (citada por Luria, 1976), bem como os muitos estudos que lhe são seguidores, tivessem sido de algum modo abalados, na medida em que, embora se tenha confirmado um papel determinante da linguagem sobre a percepção, esta não estaria, de modo universal, na dependência do sistema de nomeação categórico. Nesse sentido, poderia também a percepção ser determinada por um outro tipo de sistema, como é o caso dos nomes de objetos. Por sua vez, o sistema de nomenclatura a ser mobilizado, em tal processo, iria depender do tipo de atividade em que se envolveu cada grupo de indivíduos, ao longo de sua história.

No entanto, pode-se propor que a hipótese Sapir-Whorf (citada por Luria 1976) não se viu, suficientemente, abalada pela de Luria (1976), uma vez que ambas se encontram num determinado ponto fundamental: aquele que diz respeito à concepção de linguagem que lhes é subjacente. Explicando melhor, a íntima relação entre percepção e linguagem proposta nas duas hipóteses, limita-se a uma perspectiva instrumentalista desta última, isto é, restringe-se a um destaque dado a sua concepção enquanto nomenclatura, enquanto meio de expressão. Como diz Lier-De Vitto (1994), trata-se de uma concepção de "instrumento externo-expressivo de uma condição interna." (p.136). Pergunta-se então: a concepção expressivo-instrumental da linguagem não implicaria o reconhecimento de seu estatuto secundário no que se refere ao fenômeno, de natureza diferente, para o qual ela funciona como instrumento?

No caso específico de Luria (1976), questiona-se, inclusive, se a linguagem nessa concepção poderia, realmente, desempenhar o papel fundamental de mediação. Dizendo com outras palavras: a proposta em foco parece configurar um impasse que consiste em destacar a linguagem como determinante da percepção e, ao mesmo tempo, reduzi-la a uma função secundária de instrumento no processo em questão.

Nessa perspectiva, não se poderia discutir a natureza da relação que o processo lingüístico mantém com outros processos, ou melhor, não seria sequer possível levar adiante uma discussão sobre a natureza mesma da linguagem enquanto objeto de investigação, desde que lhe faltaria o caráter de autonomia. E mais ainda, como coloca Benveniste (1988) se recairia numa "petição de princípio, pois a natureza desse ‘instrumento’ se explica pela sua situação como ‘instrumento’." (p. 284)

Benveniste (1988) aponta para o fato de que essa concepção instrumental implica uma equiparação da linguagem a outros meios de expressão como o gesto e a mímica:

"Quanto ao papel de transmissão desempenhado pela linguagem, não podemos deixar de observar, de um lado que esse papel pode caber a meios não lingüísticos - gestos, mímica - e, de outro lado, que nós nos deixamos enganar falando aqui de um "instrumento", por certos processos de transmissão que nas sociedades contemporâneas são, sem exceção, posteriores à linguagem e lhe imitam o funcionamento. Todos os sistemas de sinais, rudimentares ou complexos, se encontram nesse caso." (Benveniste, 1988, pp. 284-285)

Este fato, por sua vez, remete a um impasse, considerado clássico, já delineado por pensadores da antigüidade - como é o caso de Sto. Agostinho (citado por Garcia-Roza, 1990) - e que toca na questão de como as palavras adquirem significado. Para esse filósofo, o problema da significação não se resolve pela relação expressiva que a palavra possa ter com a coisa significada, pois o signo possui um caráter de ambigüidade que lhe é inerente pelo fato de não manter qualquer vínculo natural com a coisa. Continuando, argumenta que se a apreensão do significado se resolvesse por aquele tipo de relação, seria legítimo substituir a palavra, no processo focalizado, por um seu equivalente, como o gesto de apontar, visando a diminuir seu caráter ambíguo. Tal substituição, entretanto, traria a ambigüidade à tona de forma muito mais visível, ao invés de diminui-la, comprometendo, assim, a concepção de linguagem enquanto nomenclatura.

Convém ainda relembrar que, segundo a proposta de Luria ora discutida, os nomes dados às cores e formas percebidas pelo sujeito estariam na dependência da história do grupo a que pertence, do ponto de vista da atividade que vem sendo desenvolvida pelo grupo, atividade esta que intermediaria, por conseguinte, a relação da palavra com a coisa/objeto da percepção.

A forma de nomear traria, portanto, à tona a atividade do sujeito a qual é considerada fundamental, desde que, como foi colocado, determina a modalidade predominante na percepção desse sujeito. Dizendo com outras palavras, a linguagem, nessa abordagem, seria concebida, em última análise, como um meio de expressão, historicamente determinado, do modo como um grupo de pessoas se relaciona com os objetos, ou seja, como um instrumento expressivo da ação desse grupo sobre o mundo.

Nesse sentido, pode-se dizer que Luria (1976) — como Piaget (1980) — de algum modo, estaria supondo, como modeladora da percepção, uma ação do sujeito, embora esta se diferencie, radicalmente, em cada um deles, seja quanto aos processos que ela engendra no quadro teórico geral, seja quanto a sua natureza mesma. Dentre outras diferenças, o segundo autor destaca o estatuto epistêmico da ação, enquanto que o primeiro focaliza sua natureza sócio-histórico-cultural. Por sua vez, é justamente essa natureza sócio-cultural da ação, e portanto da percepção, que implicaria uma participação da linguagem na constituição tanto de uma como de outra, localizando-se aí a diferença crucial no tocante a Piaget.

Sobre esse ponto, ao discutir as diferenças culturais na classificação de objetos, Luria (1988) afirma:

"O pensamento classificatório não é apenas um reflexo do pensamento individual, mas uma experiência partilhada, que a sociedade pode comunicar através de seu sistema lingüístico." (p.48)

Pergunta-se, contudo: Como seria possível à linguagem - na perspectiva instrumentalista - tomar parte na constituição da ação e da percepção se, para exercer um papel de nomeação, teria que expressar aspectos desses fenômenos os quais, consequentemente, já deveriam estar, previamente, constituídos?

 

Percepção e Aquisição da Linguagem

Trazendo a questão para o campo da aquisição da linguagem, vale mencionar o trabalho de Peters (1983; 1985), em cuja abordagem da relação entre os dois processos — percepção e linguagem — destaca-se um movimento diferente, que é caracterizado pelo papel da atividade perceptual em momentos iniciais da linguagem da criança. Pretende-se que tal proposta — embora tenha sido formulada em outra área, distanciando-se pois das que se vêm discutindo até agora - assuma a função heurística de permitir uma maior visualização de impasses e de questões decisivas sobre o estatuto atribuído à linguagem na relação em foco.

Segundo Peters (1985), a criança adquire a linguagem por um mecanismo basicamente perceptual que envolve a realização de três operações: a extração de unidades da fala que a criança vem ouvindo em torno de si desde o nascimento; a segmentação das unidades extraídas em sub-unidades e a segmentação de estruturas morfo-sintáticas. As operações de extração e segmentação iniciais estão na dependência de pistas, que podem ser internas ou externas, basicamente de natureza fonológica, percebidas automaticamente pela criança. Apenas uma pista (interna) não se reduz a sua natureza fonológica que é a clareza semântica, isto é, a extração de seqüências de sons que têm uma clara conexão com um contexto. As pistas internas dizem respeito à informação contida dentro de uma unidade particular, como por exemplo, o ritmo, a entonação, o silêncio limitando porções (palavras ou frases) da fala, a posição inicial ou final da sílaba, o acento da sílaba. Tais pistas interagem entre si e com a freqüência com que as unidades são ouvidas, como no caso da segmentação de meas da palavra measure (medida) - por um sujeito destacado por Peters - onde foram levados em conta duas pistas (o acento e a posição inicial da sílaba) e a emissão freqüente da palavra. As pistas externas referem-se à informação que se torna disponível no processo de comparar duas unidades semelhantes mas não idênticas, como por exemplo, a segmentação de have da expressão to behave (comportar-se) pelo emparelhamento, por exemplo, com to be good (estar bem). Para Peters, de início, a criança extrai unidades maiores (frases ou palavras), para segmentá-las em sílabas e depois em unidades menores (fonemas).

Neste sentido, seguindo a posição estruturalista americana em Lingüística, da qual um dos principais representantes é Bloonfield (1933), Peters (1985) baseia-se numa separação e hierarquização das unidades lingüísticas: uma unidade se decomporia em suas partes componentes que seriam depois colocadas juntas para formar uma unidade mais complexa .

Por fim, a segmentação de estruturas morfossintáticas se baseia numa análise distribucional pela qual a criança percebe as palavras que se substituem num determinado lugar da frase. Nesse caso, pela posição variada ou fixa em que uma unidade ocorre na frase, bem como pela co-ocorrência de unidades, vão se encontrando - através de um processo de generalização indutiva - as propriedades comuns dessas unidades, descobrindo-se, portanto as categorias gramaticais (verbos, nomes, etc.).

Dois pontos são destacados, pois, nessa posição: o primeiro consiste no papel crucial desempenhado pela segmentação das unidades lingüísticas, no processo de aquisição da linguagem. Tal papel é reconhecido por investigadores da área, como por exemplo, Bowerman (1974; 1982) e Karmillof-Smith (1986; 1992), tendo sido destacado que os blocos verbais, inicialmente, produzidos pela criança, isto é, as formas não segmentadas ou não analisadas vão sofrendo cortes ou rupturas. De acordo com essas autoras, é neste segundo momento que aparecem os erros, os quais passam a se constituir como indicadores de segmentação e de reorganização ou de recombinações dessas unidades, por tornarem visíveis a realização de uma análise da substância fônica em suas unidades.

O segundo ponto reside na posição central que Peters (1985) concede à percepção, nas atividades inicialmente envolvidas na segmentação verbal. Essa autora destaca, assim, os erros de segmentação interpretados, de acordo com sua proposta, como falhas provocadas pelos mecanismos perceptuais envolvidos na atividade lingüística de segmentação de porções da fala ouvida pela criança. Conforme foi descrito acima, Peters destacou, em seus dados, o uso (inadequado?) de meas em lugar de measure e de be e have em lugar de behave, o que revelou uma dependência de pistas perceptuais. No primeiro caso, a criança parece ter segmentado a sílaba tônica (meas) do termo do adulto (measure), a qual é também a sílaba inicial deste termo. No segundo caso, os enunciados I want you to be good e I want you to behave, freqüentemente ouvidos pela criança, podem ter sido emparelhados, de modo a levá-la a dizer o último enunciado de modo análogo a: I’m going to be very /heyv/. Explicando melhor, alguns tipos de produções verbais erradas deste período são atribuídos a características da atividade dos mecanismos perceptuais sobre o input lingüístico, podendo-se propor então que Peters tratou a linguagem em seus momentos iniciais de aquisição, basicamente, como objeto da percepção da criança.

Entretanto, na abordagem em discussão, a linguagem - e mais especificamente os erros - é também apontada, nesses primeiros momentos, como um instrumento para atingir mecanismos perceptuais, ou seja, como um instrumento de expressão de tais mecanismos, sendo, portanto, destacado o estatuto secundário da linguagem em relação a esses últimos:

"Não há razão para acreditar que a aquisição da linguagem é eficiente, inclusive porque não conhecemos os mecanismos com que a criança vem equipada. (...) É preciso ter a evidência de ensaios e erros, pois é a natureza desses erros que vão permitir inferir esses mecanismos." (Peters, 1985, p. 1031, tradução e grifos meus)

A esse respeito, a própria autora apresenta um impasse de natureza metodológica, quando afirma que:

"Estamos num campo movediço, pois a evidência é indireta - temos somente a produção da criança das quais inferir o que a criança percebeu. (.....) Pelas limitações da produção da criança, esta percebe muito mais do que produz." (Peters, 1985, p. 1031).

Pode-se, no entanto, apontar para um impasse maior implicado nessa posição, desde que o meio de expressão dos mecanismos perceptuais (a linguagem) é ao mesmo tempo concebido como objeto da percepção da criança, ou melhor como um objeto sobre o qual esses mecanismos incidem.

Vale destacar que a discussão do trabalho de Peters (1985), em detrimento da discussão de outras abordagens de fundamental importância para o campo da Aquisição da Linguagem, deve-se a limitações de espaço, o que exige o estabelecimento de certos recortes. Nesse campo, a segmentação da corrente da fala pela criança tem se constituído como uma área muito frutífera de investigação, devendo-se, pois, fazer referência a alguns estudos, embora brevemente, restringindo-se a uma amostra daqueles que tomam como base a percepção da fala, em virtude dos objetivos do presente trabalho. Vêm se destacando, nessa área, as pesquisas sobre os aspectos supra-segmentais da fala, como diferenças de duração, de freqüência, grupos de entonação, padrões de acento, pausas, dentre outros.

Nesse sentido, demonstrou-se que o bebê humano prefere a voz com grandes altos e baixos em relação à pouca variação de freqüência (Fernald, 1985; citado por Locke, 1995), bem como é capaz de discriminar, aos nove meses, a sílaba forte da sílaba fraca de palavras em inglês (ver Jusczyk, Cutler & Redans, 1993). Foi apontada também uma preferência do bebê, aos seis meses, pelos enunciados em que a integridade dos limites oracionais foi mantida ao invés daqueles em que essa integridade foi alterada (Jusczyk, Hirsh-Pasek, Nelson, Kennedy, Woodward & Piwoz, 1992). Por sua vez, vem sendo focalizada a sensibilidade do bebê a pistas supra-segmentais (como as pausas) que correspondem a limites de unidades sintáticas, destacando-se a importância de tal sensibilidade para o processo de aquisição da linguagem (Gleitman, Gleitman, Landau & Wanner, 1988; Jusczyk e cols., 1992). Os aspectos supra-segmentais são, especialmente, recortados nas investigações que focalizam a fala dirigida à criança a qual, frequentemente exagera certas marcas, tais como, contorno entonacional, pausa e duração (Fernald, Taechner, Dunn, Papousek, Boysson-Bardies & Fukui, 1989; Jusczyk e cols., 1992). A esse respeito, tem sido destacado o papel desempenhado, no processo de aquisição da linguagem, pela preferência que o bebê demonstra no tocante à fala a ele dirigida ao invés da fala dirigida ao adulto (ver Fernald, 1985; Fernald & Kuhl, 1987). Com relação à fala dirigida à criança, tem-se também abordado seus aspectos interacionais e comunicativos como é o caso de Barton e Tomasello (1994), que apontam para diferenças entre a fala dirigida pela mãe e a fala dirigida pelo pai ou pelos irmãos.

Deve-se ainda referir à grande heterogeneidade nas abordagens da segmentação, pois, como afirmam Kent e Miolo (1995), os investigadores têm utilizado uma série de categorias e medidas, podendo tal variação confundir comparações entre os diversos estudos publicados (ver Kent & Miolo, 1995, para uma discussão sobre a questão metodológica, nestes estudos). Por sua vez, as diferenças (teóricas e metodológicas) entre os vários estudos que tomam por base a percepção da fala fazem com que se privilegie um ou outro aspecto da complexa questão da segmentação. Pode-se propor, entretanto, que apesar da heterogeneidade, esses estudos se encontram num determinado ponto: o recorte da linguagem enquanto objeto sobre o qual incidem as capacidades perceptivas da criança, na atividade de segmentar a corrente da fala. Neste trabalho, entretanto, a linguagem é focalizada do ponto de vista de seu funcionamento, o qual produz efeitos sobre a atividade de segmentação, no processo de aquisição da linguagem. Nessa direção, quando são levantadas questões sobre a abordagem da percepção feita pelo grupo soviético liderado por Luria, tem-se, como base, tal enfoque. A fim de ilustrar os referidos efeitos do funcionamento lingüístico, vão ser discutidos alguns casos de erros, na produção verbal da criança. Estes casos foram extraídos de um conjunto rico de dados obtidos através de registro longitudinal, em situações de diálogo espontâneo de díades mãe/criança, com duração de 30 minutos, estando as crianças, no início da gravação, em torno de um ano de idade. Os exemplos em questão foram retirados deste amplo corpus que faz parte do Banco de Dados do Projeto de Aquisição da Linguagem do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Assim como no estudo de Peters (1985), foram destacadas as produções verbais erradas da criança. Entretanto, diferentemente dessa autora, que se deteve nos tipos de erros previsíveis de acordo com um padrão lingüístico, foram também focalizadas as produções nas quais, segundo Bowerman (1982), não é óbvio que a criança esteja respondendo a um padrão estrutural da língua. Trata-se de uma maneira singular de combinar significantes pertencentes a várias cadeias, caracterizando-se por seu estatuto de imprevisível. Neste sentido, a unidade de análise foi ampliada, passando a abarcar o diálogo, ou melhor, fragmentos de diálogo que contêm o erro. O critério utilizado para demarcar tais fragmentos foi o critério do tema o qual, segundo Minayo (1994) está ligado a uma afirmação sobre determinado assunto, comportando um feixe de relações e podendo ser formalmente/graficamente representado através de uma palavra, uma frase, um conjunto de frases.

Convém indicar que alguns tipos de erros acentuam o impasse discutido com relação à abordagem de Peters (1985), ao colocarem em questão a proposta dessa autora sobre a centralidade da percepção na segmentação verbal, dentre os quais vale discutir aqueles que aparecem nos fragmentos de diálogos seguintes:

Episódio 1: (C = criança; M= mãe)
(C - 2.0.8 - Está pronta para ir ao aniversário de um amiguinho.)
M- "De onde é essa chave?"
C- "fom fom dá"
M- "Da onde é essa chave?"
C- "fom fom"
M -"Do carro? Bonito esse chaveiro da Cristina. Verde."
C -"deceu vede /esse num é/ esse/ maon"

M -"Esse é marrom?"
C -"é"
M -"Não, é verde. Abre a boca p’rá tomar remédio."
C - tô coçan/ tá coçando"

Episódio 2
(C - 2.0.15 - Depois do almoço, M. acorda C.)
M – "Num pode não. Quando a gente levanta
precisa...cê ficou descalça antes de dormir, é?"
C - "é"
M – "Tá se vendo"
C – "tá se vendo"
M – "Tá se vendo que você ficou descalça antes de dormir"
C – "eu achuvia agu"
M – "Vai chover logo?"
C – "é"
M – "Ahn"
C – "tá muito fio"

Episódio 3: (C - 2.5.23)
M- "A água ‘tá guardada nas nuvens"
C – "Tá sovendo ele num abiu"
M- "Num abriu porque num tá chovendo"
C – "cumasu"

Episódio 4: (C - 2.1.2 - Tentando manter em pé um boneco de plástico)
C – "vamo tilá ele de pé
tila ele de pé
ai, eu seguro, tá encostado?"
(Um pouco mais tarde)
C – "põe/põe minha aqui o péto"
M - "Que ?"
C – "ah, ugustado assim"

Deve-se relembrar que, segundo a posição de Peters (1985), a atividade dos mecanismos perceptuais da criança, no processo de segmentação, depende de pistas, como por exemplo o acento da sílaba, as pausas que, na linguagem corrente limitam porções da fala (as quais podem ser uma palavra ou numa frase), ou semelhanças fonológicas entre frases (ou expressões) e entre palavras emparelhadas.

Portanto, as pistas são definidas dentro dos limites das unidades formalizadas pela Lingüística (fonema, sílaba, palavra, frase). Consequentemente, se a criança depende, de modo preponderante, da percepção de pistas para poder segmentar, é necessário que, nesse processo, ela tenha percebido os limites das unidades lingüísticas. Desse modo, os cortes no bloco verbal — bem como a recombinação das partes resultantes — não poderiam desfazer tais limites, até porque, como se pode inferir, ao percebê-los, a criança já estaria realizando, em sua essência, a própria atividade de segmentação. Não é demais repetir que, nessa posição, a preservação dos limites deverá ocorrer mesmo (e sobretudo) em se tratando dos erros resultantes, considerando que estes constituem indicadores da atividade de segmentação e, portanto da atividade de percepção. Trata-se, então, de um processo previsível que é indiciado por erros também previsíveis, desde que respondem claramente a um padrão ou a uma estratificação da língua. No entanto, os exemplos de diálogos acima apontam para o fato de que nas rupturas e recomposições realizadas no material verbal, acontece justamente uma quebra desses limites, num ponto imprevisível, podendo-se supor um comprometimento da posição ocupada pelos mecanismos perceptuais, conforme concebidos por Peters.

Por exemplo, na produção de M: "Deceu vede" (episódio 1), o erro indica que o bloco "deixe eu ver" (tão freqüente no corpus dessa criança) foi rompido e recombinado, abrindo um lugar X (Deixe eu X) que foi ocupado por "vede" (verde).

Pode-se propor então que a maneira como a criança cortou a substância fônica, neste caso específico, não poderia ser atribuída a um mecanismo meramente perceptual, segundo uma visão clássica, uma vez que foram desrespeitados os limites da unidade maior "deixe eu ver". Não poderia, tão pouco ser atribuído a uma generalização indutiva que se baseia, em última análise, na apreensão de semelhanças e diferenças categoriais entre termos que são percebidos naquela posição da cadeia. Nesse caso, à violação da exigência de um respeito aos limites das unidades lingüísticas, acrescenta-se o fato de que, provavelmente, o termo "verde" não foi percebido na posição X da cadeia Deixe eu X, mas sim, na posição X da cadeia Esse é X , como é o caso de "Não, (esse) é verde" emitida pela mãe no exemplo selecionado. Não se mantém, pois, uma relação distribucional de semelhança (categorial) entre os termos ("ver" e "verde"). Deve-se ainda destacar que é a dissolução dos limites de cadeias como "deixe eu ver", num ponto imprevisível pela formalização lingüística, que trouxe à tona o fato de que a segmentação e recombinação discutidas precisou da participação de várias cadeias (como, por exemplo, "deixe eu ver" e "este é verde") as quais se submetem, portanto, a um tipo de atividade que não poderia ser reduzida a um mecanismo puramente perceptual. Com fundamento em De Lemos (1992, 1995, 1997) - que ressignifica, no campo da Aquisição da Linguagem, os processos metafóricos e metonímicos concebidos por Jakobson (1971) na Lingüística - teria sido necessária uma atividade lingüística de aproximação e cruzamento entre cadeias. Tal cruzamento teria dado lugar à ruptura de blocos já em circulação na fala da criança (ver De Lemos, 1992; 1995 e 1997, sobre a ressignificação dos processos metafóricos e metonímicos, em aquisição da linguagem). Não se poderia, portanto, conceber o papel da percepção fora dessa atividade, no processo inicial de segmentação da substância fônica. Melhor dizendo, num determinado momento do percurso de aquisição da linguagem, segundo aquela autora, predomina um movimento da língua, ou um espelhamento da língua pelo qual uma cadeia (pôr ele em pé) convoca, na fala da criança, uma outra cadeia (por exemplo: tirar ele do lugar), provocando o cruzamento e a segmentação dos blocos, o que pode ser visualizado na produção "tila ele de pé" (episódio 4).

No episódio 2, o enunciado "eu achuvia agu" apontou para o fato de que a repetição da criança "tá se vendo" não consiste apenas numa reprodução do que foi percebido na fala da mãe, mas sinaliza para um espelhamento entre as cadeias "tá se vendo" e "tá chovendo". Explicando melhor, a produção da mãe "tá se vendo" espelhou uma expressão incorporada pela criança " sovendu" ("tá chovendo"), produzindo-se, na fala desta última, uma homofonia, ou seja, uma aproximação contingente das duas formas verbais por uma semelhança de sons. Por sua vez, esse espelhamento implicou também a aproximação e o cruzamento com outras cadeias, como por exemplo, "Agora eu acho que vai chover" a qual teria sido decomposta e recombinada, dando lugar a uma produção singular, imprevisível ("eu achuvia agu"). Em outras palavras, a decomposição e recomposição mostraram uma violação de limites das unidades em jogo, em pontos imprevisíveis. No caso, por exemplo, de "eu acho" e "vai chover", a quebra de seus limites tornou-se ainda mais visível, através da fusão dessas formas na produção "errada" ("eu achuvia").

Ao analisar o enunciado "errado" de uma criança: "A Fávia é nananda", De Lemos (1997) afirma que:

"O que aparece como "erro", isto é a presença do auxiliar ser com o gerúndio na forma progressiva e concordância do gerúndio com a FN feminina-sujeito, resulta de um processo metafórico. Esse processo metafórico estabelece pela substituição, uma relação de semelhança entre ser e estar e entre cadeias que, do ponto de vista da descrição lingüística, são classificáveis como formas progressivas e frases predicativas com cópula mais adjetivo. Esse efeito de semelhança é, contudo, apenas a contraparte do que essas substituições revelam sobre o cruzamento da cadeia manifesta com cadeias latentes e de seu deslocamento de outros textos." (De Lemos, 1997, p. 8, ênfase minha)

Por sua vez, as cadeias que se cruzam, algumas vezes, deixam vestígios, na cadeia resultante - como no caso dos exemplos em foco - os quais tornam visível o fato de que a segmentação não se reduziu à percepção de unidades previamente constituídas pela Lingüística, podendo, por isso mesmo, provocar recombinações inesperadas e estranhas entre suas partes (ver Carvalho, 1995; Lemos, 1994).

 

Considerações Finais

Conforme foi discutido, as produções verbais erradas, destacadas na análise acima, não poderiam funcionar como meio de expressão lingüística de mecanismos perceptuais, uma vez que elas indiciam, antes de tudo, um movimento lingüístico de aproximação e cruzamento entre cadeias, em relação ao qual a percepção seria entendida.

Em outras palavras, as produções lingüísticas da criança, sobretudo os erros, indicariam não um fenômeno de natureza diversa, como a generalização indutiva, mas sim, um fenômeno da mesma natureza, ou melhor, o movimento da língua. Nesse sentido, não se poderia falar da linguagem como instrumento externo-expressivo de uma condição interna, sendo possível, então, investigar sua relação com outros tipos de fenômeno.

Interroga-se: Nesta análise, o estatuto secundário/instrumental atribuído à linguagem (em relação à percepção) - por autores como Peters (1983; 1985), no estudo do percurso lingüístico da criança - não teria dado lugar ao reconhecimento de seu estatuto de objeto autônomo de investigação? E mais ainda: Não seria nesse lugar que se tornaria possível à linguagem, tanto ser discutida como colocar questões para outros objetos de estudo?

Nesse sentido, pode-se dizer que, na abordagem da relação entre os dois tipos de fenômeno, o deslocamento da discussão, do campo da Psicologia para o campo da aquisição da linguagem, implicou um retorno ao campo de origem. Esse retorno consistiu em dar maior visibilidade à necessidade de se discutir o enfoque da percepção enquanto processo mediado, o qual vem sendo pressuposto, tranqüilamente, na Psicologia, nas últimas décadas. Por sua vez tal discussão não poderia ser levada adiante sem se colocar em questão o estatuto da linguagem nesse enfoque. Ou melhor, não se poderia conceber de uma forma natural, auto-evidente, o caráter mediado da percepção, desde que uma reflexão sobre o estatuto da linguagem, nessa mediação, aponta para alguns impasses.

Finalmente, com base nos pontos aqui discutidos, propõe-se que a substituição do estatuto instrumental atribuído à linguagem, pelo seu estatuto de objeto autônomo, constitui o ponto de partida para se fazer face ao compromisso assumido por um grupo de investigadores do objeto perceptual, no campo da Psicologia. Trata-se de um compromisso com a hipótese segundo a qual não se poderia levar adiante, de modo satisfatório, o estudo da percepção sem se confrontar com as questões colocadas pelo objeto lingüístico. E somente sendo fiel a esse compromisso, é que se poderia trilhar o caminho na direção de subtrair o fenômeno perceptual a uma abordagem naturalista que tem marcado, historicamente, a investigação desse fenômeno.

 

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Recebido em 02.03.99
Revisado em 10.08.99
Aceito em 21.10.99

 

 

Sobre a autora:

Glória Maria Monteiro de Carvalho é Psicóloga, Doutora em Ciências pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP, Professora do Curso de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, Pesquisadora na Área de Aquisição da Linguagem - UFPE/FACEPE.

 

 

1 Endereço para correspondência: Universidade Federal de Pernambuco, Pós-Graduação em Psicologia, CFCH, 8º andar, Cidade Universitária, Rua Acadêmico Hélio Ramos, s/n, 50670-901, Recife-PE, Brasil. Fone: (81) 2718272 ou (81) 2710599; Fax: (81) 4239800. E-mail: Jotavio@elogica.com.br.