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Acta Cirurgica Brasileira

Print version ISSN 0102-8650On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol. 14 n. 1 São Paulo Jan. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86501999000100001 

EFEITOS DA RESSECÇÃO PARCIAL DA CARTILAGEM DO SEPTO NASAL NO DESENVOLVIMENTO DOS OSSOS DA FACE DE COELHOS EM CRESCIMENTO. 1

 

Milton Nakao2
Celso Massachi Inoue3
Ricardo Dutra Aydos4
Iandara Schettert Silva5
Saul Goldenberg6

 

 

Nakao M, Inoue CM, Aydos RD, Silva IS, Goldenberg S. - Efeitos da ressecção parcial da cartilagem do septo nasal no desenvolvimento dos ossos da face de coelhos em crescimento. Acta Cir Bras [serial online] 1999 Jan Mar; 14(1). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.htm

RESUMO: O presente experimento teve como objetivo estudar os efeitos da ressecção parcial da cartilagem do septo nasal de coelhos em crescimento. Dez coelhos foram submetidos ao trauma operatório, grupo experimento( E ), no 28º dia de idade e a eutanásia ocorreu no 140º dia de idade. Como grupo controle ( C ) foram utilizados 10 coelhos sem trauma no septo nasal. Na avaliação comparou-se as medidas obtidas nos ossos entre os referidos grupos. A análise estatística mostrou haver diferenças estatisticamente significantes quando comparados os grupos E e C.
DESCRITORES: Septo Nasal. Cirurgia. Crescimento. Coelhos.

 

 

INTRODUÇÃO

A obstrução nasal nas crianças, induzidas pelo desvio do septo nasal, dependendo do grau, pode determinar aparecimento de quadro de cianose, dificuldade de deglutição, mudança no posicionamento da língua na boca e respiração bucal. Este quadro irá favorecer o aparecimento de deformidades faciais no 1/3 médio da face com conseqüente alteração estética. A resolução cirúrgica dessa deformidade septal na criança tem sido objeto de estudo, quanto ao seu benefício e quanto aos seus possíveis efeitos deletérios no desenvolvimento dos ossos da face nas crianças.

Ainda não há estudos conclusivos à respeito dos efeitos da septoplastia nas crianças.

SARNATe col.7,8,9,10,11,12 e VERWOERD e col.14,15,16,17 estudaram os efeitos da ressecção parcial da cartilagem do septo nasal de coelhos jovens, encontrando alterações no desenvolvimento dos ossos do crânio, quando esses animais atingiam a idade de 20 semanas. Porém esses autores utilizaram vias de acesso que não são habitualmente empregadas nas septoplastia em crianças: vias sublabial e dorsal com osteotomia do osso nasal.

Já STRENSTRÖM e col. 13 utilizando a cobaia como amostra, não encontraram alterações no desenvolvimento dos ossos do crânio, após amplas ressecções da cartilagem septal.

O presente experimento preconizou estudar os efeitos da septoplastia no desenvolvimento dos ossos da face em coelhos em crescimento, utilizando como via de acesso a cavidade nasal, sem necessidade de osteotomias ou incisões que não as no septo nasal.

 

ANATOMIA DO CRÂNIO DO COELHO

A Nômina Anatômica Animal (NAV) de 1983 divide o crânio em ossa cranii (ossos crânicos), com ossos occipital, interparietal, basiesfonóide, pteriogóide, pré-esfenóide, temporal parietal, frontal, etmóide e vômer e em ossa facie (ossos faciais), com os ossos nasal, maxilar, concha nasal, incisivo, palatino, zigomático, mandíbula e hióide.

 

MÉTODO

Amostra

Foram utilizados 20 coelhos brancos da linhagem Nova Zelândia, (Oryctolagus cuniculus), machos, com a idade de 28 dias, com peso médio de 400g, provenientes do Biotério da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Os animais foram mantidos em gaiolas individuais, ciclo de luz de 12 horas, temperatura ambiente aproximadamente de 19º C e oferecidos água e alimento próprio para a espécie ad libitum.

No 28º dia de idade os animais foram anestesiados com a associação de xilazina e quetamina na dosagem de 10 mg.kg–1 e 30 mg.kg–1 respectivamente, na pata traseira esquerda, via intramuscular. Após latência de 10 minutos, foram levados à mesa operatória.

Procedimento operatório.

Introdução de algodão embebido em adrenalina 1.1000–1 na cavidade nasal esquerda. Infiltração de cloridrato de lidocaína à 2% no vestíbulo nasal. Sorteio dos grupos em: controle (C) no qual não se realizava mais nenhum procedimento e experimento (E) no qual realizava-se incisão do mucopericôndrio, com bisturi lâmina nº11, com auxílio do microscópio cirúrgico e ressecção de 0,5 mm de cartilagem com conservação do mucopericôndrio (figura nº 1), a um centímetro do vestíbulo nasal.

 

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Figura 1- Desenho esquemático do perfil de crânio, mostrando o local do septo nasal de onde foram retirados 5 mm(seta).

 

A eutanásia foi realizada na 20ª semana de vida (140º dia de idade). As partes moles foram desprezadas e o crânio submetido ao processo de maceração.

Critérios de avaliação macroscópica para medida dos ossos do crânio.

A avaliação macroscópica dos ossos do crânio foi realizada mediante a medição das distâncias entre pontos estabelecidos, baseados em elementos anatômicos.

Na região ventral foram avaliados as distâncias: I/MC - entre o dente incisivo labial (I) e a parte mais cranial do complexo molar(MC); MC/MC- entre os pontos MC/MC; FL- entre os bordos laterais do forame incisivo; FI – distância entre os pontos mais cranial e o mais lateral do forame incisivo(Figura 2).

 

f2.GIF (29330 bytes)

Figura 2 Fotografia da região ventral do osso do crânio de animal no 140º dia de idade, mostrando as estruturas anatômicas e os pontos de referência preestabelecidos: F – ponto médio do bordo caudal do forame magno; FL - ponto de união da parede lateral e caudal do forame incisivo; MC – Ponto mais cranial do complexo molar; FA – ponto mais cranial do forame incisivo; FI distância entre os pontos FL e FA; I - ponto médio da inserção do dente incisivo labial.

 

Na região dorsal foram avaliados as distâncias: N/P – entre a intersecção da sutura frontonasal(SFN) e a internasal(SIN), o ponto (N) e o ponto mais cranial do osso nasal (P); L/C – entre a intersecção da sutura lamdoidal com sutura interparietal (SP), o ponto (L)e a intersecção da sutura coronal (SC) com a interfrontal (SIF) (Figura 3).

 

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Figura 3 – Fotografia mostrando a região dorsal do crânio. ON-osso nasal; SIN-sutura internasal; SNF-sutura nasofrontal; OF-osso frontal; SIF-sutura interfrontal; SC-sutura coronal; OP-osso parietal; SP-sutura interparietal; C – intersecção da sutura coronal com a interparietal; L – intersecção da sutura lambdoidal com a interparietal; N – inetersecção das suturas frontonasal e internasal; P – ponto mais cranial do osso nasal.

 

 

f4.GIF (31395 bytes)

Figura 4 – Fotografia mostrando os crânios dos coelhos dos grupos Controle(superior) e Experimento (inferior) com alteração no desenvolvimento dos dentes incisivos.

 

Foram avaliados também os diâmetros dorso-ventral (A1) e latero-lateral (A2) da abertura nasal óssea.

 

RESULTADOS

 

TABELA I – Coelhos dos grupos E e C, segundo os valores das medidas dos ossos do crânio, em milímetros (mm), nos pontos anatômicos estudados; I/MC, MC/MC, FL, FI, N/P, L/S, A1 e A2.

Coelho

I/MC MC/MC FL FI N/P L/S A1 A2

exp con exp con exp con exp con exp con exp con exp con exp con

1

10,0 09,5 12,5 11,0 09,0 09,0 21,0 23,0 32,0 37,5 28,0 30,0 10,0 09,5 10,0 10,0

2

08,0 11,0 13,0 11,0 08,5 09,0 20,0 24,0 36,0 36,0 32,0 34,0 08,0 11,0 09,5 10,0

3

08,5 11,5 13,0 12,0 09,0 10,0 20,0 23,0 34,0 36,0 29,0 33,0 08,5 11,5 09,0 09,0

4

09,0 11,0 14,5 12,0 09,5 09,0 20,0 23,0 34,5 38,0 31,5 34,0 09,0 11,0 11,0 11,5

5

10,0 10,0 13,0 12,0 08,5 09,5 20,5 20,0 35,0 34,0 33,0 33,0 10,0 10,0 09,5 10,0

6

10,5 11,0 14,5 12,0 10,0 09,5 21,5 22,5 33,5 34,5 29,0 32,0 10,5 11,0 10,0 10,0

7

10,0 11,0 15,0 12,0 10,0 09,0 20,0 21,5 34,5 37,0 30,0 34,0 10,0 11,0 10,5 11,0

8

08,5 11,0 14,0 12,0 08,5 09,5 22,0 22,0 35,0 36,0 29,0 30,0 08,5 11,0 10,0 11,0

9

10,5 11,0 13,5 12,0 08,5 09,5 23,0 24,0 34,0 35,0 32,0 30,0 10,5 11,0 08,5 10,5

10

09,5 10,0 13,0 12,0 10,0 10,0 20,0 23,0 32,0 36,0 32,0 31,0 09,5 10,0 10,5 10,0
média 9,45 10,7 13,6 11,8 9,15 9,40 20,8 22,6 34,0 36,0 30,5 32,1 9,45 10,7 9,85 10,3

Teste "t" de Student (Experimento X controle) T crítico =2,10

Image913.gif (1095 bytes)Image914.gif (1135 bytes)Image917.gif (1017 bytes)Image918.gif (1054 bytes)Image919.gif (1081 bytes)Image920.gif (1046 bytes)Image921.gif (1063 bytes)Image922.gif (1046 bytes)

Fixou-se em 0,05 ou 5% (a £ 0,05) o nível de rejeição à hipótese de nulidade.

Foi aplicado o teste "t" de Student que mostrou diferença estatisticamente significante quando comparados os grupos experimento e controle para as medidas das distâncias I/MC, MC/MC, FI, N/P e A1.

 

DISCUSSÃO

O papel do septo nasal no desenvolvimento dos ossos do crânio tem sido objeto de pesquisa e discussão e ainda não se alcançou um denominador comum.

SARNAT7-12, VERWOERD14-17 e EVANS1,2 relataram que o septo nasal tem papel preponderante no desenvolvimento dos ossos do crânio de coelhos em crescimento. Entretanto MOOS6 e KVINNSLAND5 tendo como amostra o rato jovem não encontraram alteração no desenvolvimento dos ossos do crânio após ressecção parcial do septo nasal . STRENSTRÖM13 usando cobaia como amostra, concluiu que a retirada parcial da cartilagem do septo nasal não induzia a alterações no crescimento do nariz.

O presente experimento ao resseccionar 0,5 mm da cartilagem do septo nasal de coelho, por via endonasal, cavidade nasal esquerda, com auxílio do microscópio cirúrgico, utilizando material de microcirurgia otológica humana, procedendo a incisão da mucosa do septo nasal a 1 cm do vestíbulo nasal e conservando o mucopericôndrio, apresentou, ao atingir a idade de 4 semanas, alterações no desenvolvimento dos ossos da face. O encurtamento do nariz, diminuição da distância entre os complexos molares do lado esquerdo com o do direito, crescimento excessivo dos incisivos labiais foram as alterações encontradas. O teste "t" de Student mostrou diferenças estatisticamente significantes dessas distâncias (I/MC, MC/MC, FI e A1), quando comparados os grupos controle e experimento (tabela I). Estes dados são concordantes com os dos experimentos de SARNAT7-12, VERWOERD14-17 e JEFFRIES3.

Estes dados demonstram a necessidade de tomarmos precauções quando da intervenção cirúrgica em nariz em crescimento, com o risco de interferirmos no desenvolvimento dos ossos nasais. Portanto é recomendável prudência e parcimoniosidade ao intervir cirurgicamente septo nasal em crescimento, como os das crianças. Quando da ressecção da cartilagem, é imperativo que o sejamos o mais econômico o possível.

 

CONCLUSÃO

A ressecção de aproximadamente 0,5 cm da cartilagem do septo nasal de coelhos em crescimento induz a alterações no desenvolvimento dos ossos da face.

 

REFERÊNCIAS

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14. Verwoerd CD, Urbanus NA, Mastenbroek GJ, Verwoerd-Verhoef HL. The influence of partial resection of the nasal septum on the growth of nose and upper jaw. Orl J Otorhinolaryngol Relat Spec 1977a; 39:174.        [ Links ]

15. Verwoerd CD, Urbanus NA, Mastenbroek GJ, Verwoerd-Verhoef HL. The role of the septal cartilage and praemaxillo-maxillary sutures in the outgrowth of the upper jaw proceedings. Acta Morphol Néerl Scand 1977b; 15:277-8.        [ Links ]

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Nakao M, Inoue CM, Aydos RD, Silva IS, Goldenberg S. The effects of partial resections on the nasal septum cartilage in the development of cranial bones in growings rabbits. Acta Cir Bras [serial online] 1999 Jan Mar; 14(1). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.htm

SUMMARY: Ten four weeks old rabbits underwent partial resection of the septal cartilage in which the mucoperichondrium was elevated and retained in position. The rabbits were operated at fourth week age and euthanasia was carried out in the twentieth week and cranial analysis showed alteration in growth of cranial bones.
SUBJECT HEADINGS: Nasal Septum. Surgery. Growth. Rabbits.

 

 

 

Endereço para correspondência:
Milton Nakao
Rua Paraíba, 499
79020-050 Campo Grande - MS

 

 

 

1. Trabalho realizado no Laboratório de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul -UFMS.
2. Professor Mestre Adjunto da Disciplina de Otorrinolaringologia da UFMS.
3. Professor Mestre Adjunto da Disciplina de Ortopedia da UFMS.
4. Professor Doutor Adjunto do Departamento de Clínica Cirúrgica da UFMS.
5. Professora Mestre Adjunta da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal.
6. Professor Livre Docente Titular do Departamento de Cirurgia da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina.

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