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Revista Paulista de Pediatria

Print version ISSN 0103-0582

Rev. paul. pediatr. vol.31 no.2 São Paulo June 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-05822013000200001 

EDITORIAL

 

Obesidade e asma

 

 

Dirceu Solé

Professor Titular da Disciplina de Alergia, Imunologia Clínica e Reumatologia do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, São Paulo, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 

O aumento da prevalência da asma e da obesidade em muitas partes do mundo, sobretudo em países desenvolvidos e de língua inglesa, tem chamado a atenção da comunidade científica. Esse fato tem motivado iniciativas para controlar o impacto da obesidade sobre a saúde da criança(1), assim como da asma(2). Na última década, estudos com crianças e adultos documentaram haver associação muito frequente entre a obesidade, avaliada pelo índice de massa corpórea (IMC), e a asma. O excesso de peso é apontado como fator de risco para desenvolver asma, piorar seu controle, aumentar as exacerbações e a procura por serviços de emergência e, além disso, é responsabilizado pelo desenvolvimento futuro de outras doenças crônicas(3). Segundo alguns autores, há evidências de que tais efeitos sejam gênero-dependentes(4), principalmente quando se avalia a repercussão da obesidade sobre a função pulmonar(5). A asma, devido à possibilidade de facilitar o aparecimento dos sintomas induzidos por esforço físico, gera sedentarismo, o qual, por sua vez, determina queda de condicionamento físico e torna cada vez mais fácil o desencadeamento de sintomas com os esforços. Recentemente, foi proposta a existência de um fenótipo clínico distinto, denominado de asma grave obesidade, para algumas formas graves de asma que se caracterizam por serem de difícil tratamento e controle(6).

Tanto a asma como a obesidade são doenças inflamatórias sistêmicas(7), porém, a relação entre ambas ainda é motivo de controvérsia. Na obesidade, possivelmente a desregulação hormonal associada ao tecido adiposo contribui para o estado inflamatório crônico, e a inflamação sistêmica presente aumenta o risco de morbidades associadas, tais como doenças cardiovasculares e diabetes. Tal inflamação, alojada na via aérea, poderia explicar a associação com a asma(8). Acredita-se que mediadores inflamatórios produzidos no tecido adiposo, leptina e baixos níveis de adiponectina, regulariam a proliferação de células T e desempenhariam um papel importante na fisiopatologia de doenças pulmonares, contribuindo também para o agravamento da inflamação sistêmica e para o descontrole na produção de radicais livres(9). A redução nas defesas antioxidantes pode piorar o quadro, com estresse oxidativo e consequente comprometimento sistêmico e da via aérea(10). Um estudo recente documentou, em adolescentes asmáticos obesos, aumento dos níveis de proteína C reativa sérica, sem elevação de outros marcadores de estresse oxidativo, quando comparados aos obesos(11).

Neste número da Revista Paulista de Pediatria, Andrade et al(12) publicaram uma pesquisa a respeito da associação entre obesidade, determinada pelo IMC, e asma, levando-se em consideração: idade, gênero, classificação inicial, controle da asma e valores espirométricos (volume expiratório forçado no primeiro segundo – VEF1 e fluxo expiratório forçado entre 25 e 75% da capacidade vital forçada basal – FEF25-75%) em adolescentes asmáticos. A casuística avaliada foi representativa e sem diferença entre os gêneros em relação à classificação inicial da asma e ao seu nível de controle. A quase totalidade dos pacientes apresentava forma persistente de asma e, em mais de 85% deles, a mesma estava parcialmente ou totalmente controlada. A análise das medidas espirométricas não mostrou correlação significante com o IMC quando foram avaliados pacientes com sobrepeso ou obesos. Assim, à semelhança de outros autores, não houve correlação significante entre sobrepeso/obesidade e asma com parâmetros clínicos, antropométricos e espirométricos.

Desse modo, ainda há muito a se investigar sobre a forma como a obesidade pode causar ou agravar a asma. É evidente que o ganho de peso e a obesidade são particularmente problemáticos em pacientes asmáticos. Portanto, estudos randomizados controlados são necessários para determinar as melhores abordagens de tratamento para asma em obesos.

 

Referências bibliográficas

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3.  Kattan M, Kumar R, Bloomberg GR, Mitchell HE, Calatroni A, Gergen PJ et al. Asthma control, adiposity, and adipokines among inner-city adolescents. J Allergy Clin Immunol 2010;125:584-92.         [ Links ]

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6.  Gibeon D, Batuwita R, Osmond M, Heaney LG, Brightling CE, Niven RM et al. Obesity associated severe asthma represents a distinct clinical phenotype - Analysis of the British Thoracic Society Difficult Asthma Registry patient cohort according to body mass index. Chest 2012. In press 2012.         [ Links ]

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9.  Kilic H, Oguzulgen IK, Bakir F, Turktas H. Asthma in obese women: outcomes and factors involved. J Investig Allergol Clin Immunol 2011;21:290-6.         [ Links ]

10. Lugogo NL, Bappanad D, Kraft M. Obesity, metabolic dysregulation and oxidative stress in asthma. Biochim Biophys Acta 2011;1810:1120-6.         [ Links ]

11. Ferreira CA. Vitamina A, estresse oxidativo, inflamação e componentes da síndrome metabólica em crianças obesas com asma [tese de Mestrado]. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina; 2012.         [ Links ]

12.   Andrade LS, Araújo ACTB, Cauduro TM, Watanabe LA, Castro APBM, Jacob CMA et al. Obesidade e asma: associação ou epifenômeno? Rev Paul Pediatr 2013;31:138-44.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Dirceu Solé
Rua dos Otonis, 725 – Vila Clementino
CEP 04025-002 – São Paulo/SP
E-mail: sole.dirceu@gmail.com

Recebido em: 6/12/2012
Aprovado em: 17/12/2012
Conflito de interesse: nada a declarar

 

 

Instituição: Disciplina de Alergia, Imunologia Clínica e Reumatologia do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP, Brasil

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