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Estudos de Psicologia (Campinas)

versão impressa ISSN 0103-166X

Estud. psicol. (Campinas) v.21 n.2 Campinas Maio/ago. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-166X2004000200010 

RESENHA

 

Psicoterapias psicodinâmicas breves: propostas atuais*

 

Brief psycodynamic psychotherapy: actual purposes

 

 

Wilma Magaldi Henriques

Professora da Universidade de Mogi das Cruz, Psicóloga mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Campinas, Doutoranda em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano pela Univesidade de São Paulo. Endereço para correspondência: R. Coronel Cardoso de Siqueira, 3232 – Residencial Real Park – lote 02 quadra 28 – Bairro Vila Oliveira – Mogi das Cruzes – SP CEP 08790-420

 

 

O campo das psicoterapias emerge, nas últimas décadas, portador de problemáticas de uma complexidade crescente, pois diante das demandas, as instituições se vêem obrigadas a adotar terapêuticas breves.

Preocupadas com estas e outras questões, Elisa Medici Pizão Yoshida (doutora em Psicologia pela USP; Pós-Doutorado na Université de Montréal; professora do curso de Pós-Graduação em Psicologia e da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas; líder do grupo de pesquisa do Diretório do CNPq: Psicoterapia Breve Psicodinâmica: avaliação de mudança e instrumentos de medida), e Maria Leonor Espinosa Enéas (doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas; especialista em Psicologia Clínica e Hospitalar pelo CRP 6ª Região; professora e supervisora da Universidade Presbiteriana Mackenzie; membro do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Psicoterapia Breve) decidiram organizar este livro.

Nesta obra, são abordados os desenvolvimentos ocorridos no campo das psicoterapias breves nos últimos 20 anos, reunindo técnicas de terapia que constituem amostra representativa do universo das psicoterapias psicodinâmicas praticadas na atualidade, tendo como eixo norteador de todas as propostas o conceito de foco, pedra angular das chamadas psicoterapias breves psicodinâmicas.

Quanto à estrutura, esta obra é composta de três capítulos de revisão da literatura sobre o assunto, cinco capítulos com as propostas de seus autores originais e um capítulo final sobre considerações acerca das diferentes propostas apresentadas.

No capítulo 1, escrito por Elisa M. P. Yoshida, é oferecido um panorama retrospectivo das psicoterapias breves de orientação psicanalítica, desde os seus primórdios até os dias atuais.

O capítulo 2, escrito por Maria Leonor E. Enéas, trata das técnicas desenvolvidas nos Estados Unidos pelos grupos da Universidade Vanderbilt chamadas Terapia Dinâmica de Tempo Limitado (TLDP).

A aplicabilidade do modelo da TLDP estende-se a uma ampla variedade de pacientes e o processo terapêutico pode ser entendido e usado como um novo modelo de aprendizagem. A psicoterapia é definida como um conjunto de transações interpessoais e, portanto, a mudança é obtida durante e por meio das dinâmicas do relacionamento terapêutico. O foco está baseado no Padrão Mal-Adaptativo Ciclo (CMP) do paciente que abrange os papéis complementares em que ele lança os outros com quem se relaciona e os comportamentos e afetos decorrentes desta interação.

Ainda neste capítulo a autora nos fala dos critérios de seleção de pacientes, mostrando que a TLDP não seria benéfica para indivíduos que apresentem um estado psicótico desorganizado, bem como para aqueles cujas experiências afetivas e relação de objeto sejam cronicamente incoerentes, difusas e desorganizadas. Enfatiza também os aspectos técnicos do processo, salientando que o objetivo primordial da técnica da TLDP é o exame sistemático e aprofundado dos padrões de ação mal-adaptativos do paciente e dos efeitos destas ações na interação (transferência e contratransferência no aqui e agora).

O capítulo seguinte, elaborado por Gláucia M.A. da Rocha, trata das técnicas desenvolvidas na Universidade da Pensilvânia, inicialmente chamada Terapia Suportiva e Expressiva, que deu origem ao Método do Tema Central de Relacionamento Conflituoso-CCRT, modelo operacionalizado da transferência, em que o padrão central que cada pessoa segue ao conduzir seus relacionamentos é formulado a partir de suas narrativas de interação com outras pessoas, cujos componentes são: desejos, necessidades ou intenções expressos pelo sujeito, respostas dos outros e respostas do Eu. Os componentes identificados mais freqüentemente nas narrativas de interação do paciente configuram um padrão central de relacionamento conflituoso.

Os capítulos 4 e 5 mostram a contribuição de dois grupos latino-americanos: do Chile e do Uruguai, evidenciando o sólido trabalho ali desenvolvido e seus desdobramentos para o ensino e pesquisa.

Elaborado por Guilhermo de la Parra, o capítulo 4 apresenta um valioso esquema para processo de primeiras entrevistas (adaptado de Balint). Tudo isso voltado ao motivo da consulta, situação desencadeadora, dados biográficos e interação terapeuta-paciente, dando sentido à articulação do foco.

Denise Defey, Juan H. Elizalde e Jorge Rivera relatam no capítulo 5 as experiências desenvolvidas no Instituto Agora (Montevidéu), tendo como propósito o testemunho do que fazem, como e por que fazem, produto de uma experiência de trabalho de mais de dez anos com pacientes institucionalizados. Reportam-se a Balint para defenderem a Psicoterapia Focal e mostram como desenvolvem suas práticas na configuração do modelo do Instituto Agora, revelando como aspectos técnicos: a versatilidade, a criatividade e a flexibilidade. Os autores mostram-se preocupados em estudar o processo e os resultados dos trabalhos realizados e revelam neste capítulo a atenção à investigação.

São responsáveis pelo capítulo seguinte Vera Lemgruber, Andréa Junqueira, Ana Stingel e Elizabeth Agostini. As autoras apresentam sobre a Psicoterapia Psicodinâmica Breve Integrada (PPBI), desenvolvida no atendimento dos pacientes do Setor de Psicoterapia da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, e defendem a idéia de que a PPBI é uma técnica ativa, focalizada, com um planejamento terapêutico efetuado a partir da avaliação diagnóstica nosológica e psicodinâmica da pessoa. A PPBI agrega à compreensão psicodinâmica do paciente o conhecimento de processos de mudança afetiva envolvidos na experiência emocional e utiliza técnicas cognitivas e comportamentais e/ou medicamentosas, baseando-se para tanto na Experiência Emocional Corretiva, no Foco e na maior atividade e flexibilidade do terapeuta. As autoras propõem a PPBI como a quarta geração da psicoterapia breve, baseada no novo paradigma da integração cérebro/mente e na teoria das emoções.

Escrito pelas organizadoras do livro o capítulo 7 apresenta a proposta do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Psicoterapia Breve (NEPPB) para adultos, que enfatiza os recursos adaptativos do cliente e a qualidade do vínculo estabelecido com o terapeuta como requisitos para a mudança. Enfocam ainda os aspectos técnicos do processo, bem como mostram preocupação com a investigação empírica. Ressaltam que, no que se refere à modalidade de psicoterapia de adultos, trata-se muito mais de uma atitude do que propriamente de uma técnica. Revelam trabalhar com padrões de respostas adaptativas, utilizando-se da teoria da adaptação de Simon, porém não deixam de mostrar a relevância de outras variáveis como a qualidade da aliança terapêutica e a motivação para a mudança.

No capítulo 8, escrito por Tereza I. H. Mito e Elisa M. P. Yoshida, encontramos a Psicoterapia Breve com criança e seus pais, fruto das experiências no NEPPB e do trabalho das autoras enquanto supervisoras de estágios clínicos em clínicas-escolas de cursos de Psicologia. São enfatizados: a base teórica, os critérios de indicação e contra-indicação e o tratamento propriamente dito.

As autoras apresentam os antecedentes históricos da Psicoterapia Breve Infantil (PBI), bem como revelam que a base teórica da PBI no NEPPB se encontra alicerçada na Escola de Genebra, em que o suporte psicodinâmico permanece ainda como referência básica. Ainda nos falam das estratégias utilizadas durante o atendimento e das recomendações quanto ao término do tratamento, ilustrando suas premissas com exemplos clínicos.

No último capítulo as organizadoras fazem uma apreciação geral das técnicas, apresentando um quadro com as principais características de cada uma das propostas de psicoterapia breve para adultos, enfatizando o fato de que os princípios das psicoterapias breves psicodinâmicas são universais e que deverão continuar sendo respeitados, a despeito de todo progresso que se venha a obter no campo das psicoterapias.

Como evidenciado no digesto acima, a metodologia utilizada pelas organizadoras torna este livro um manual acessível ao leitor que se interesse pelas psicoterapias breves da atualidade.

Cada capítulo revela inúmeras experiências enriquecedoras voltadas ao desafio de oferecer atendimento adequado às populações carentes.

É uma obra indicada a alunos de graduação que se iniciam no estudo das psicoterapias breves, bem como indicada para psicólogos, psiquiatras e psicoterapeutas em geral. Todos encontrarão na leitura deste livro não só inspiração para se aprofundarem em suas práticas, mas também diretrizes para suas pesquisas.

O livro foi muito bem organizado, pois os diversos autores apresentam textos de fácil leitura e compreensão, apresentando citações das pesquisas de maior repercussão nos temas discutidos e localizando suas fontes.

 

 

Recebido para publicação em 8 de março de 2004 e aceito em 4 de maio de 2004.

 

 

(*) Yoshida, E.M.P. e Enéas, M.L.E.(org.) (2004). Psicoterapias Psicodinâmicas Breves: propostas atuais. Campinas, SP: Alínea Editora.         [ Links ]