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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070On-line version ISSN 1809-4554

Tempo soc. vol.2 no.2 São Paulo July/Dec. 1990

http://dx.doi.org/10.1590/ts.v2i2.84807 

Artigos

NARCISISMO: SINTOMA SOCIAL?

Narcisism: a social symptom?

Paulo Silveira* 

*Professor do Departamento de Sociologia da FFLCH - USP.

RESUMO

Este ensaio procura proceder uma articulação entre os conceitos de "alienação" de Marx e o de "narcisismo" da psicanálise. E através desta articulação indicar: 1) que, do ponto de vista teórico, não existe uma radical incompatibilidade entre aquelas duas teorias; 2) que um aprofundamento da questão da estruturação mesma dos sujeitos, e, por extensão, do caráter das relações sociais sob condições capitalistas-mercantis, requer uma articulação entre uma história social e uma história individual (edípica), sem a qual se corre o risco de se assumir ou um reducionismo sociológico (sociologismo-objetivismo) ou um reducionismo psicológico (psicologismo-subjetivismo) em detrimento de uma dialética entre o subjetivo e o objetivo, entre o social e o psíquico.

Palavras-Chave: alienação; narcisismo; falta; outro; eu; sujeito; objeto

ABSTRACT

This essay tries to develop an articulation between Marx's "alienation" concept and that of "narcisism" in psychoanalysis. Through this articulation it aims at showing: 1) that from the theoretical point of view, a radical incompatibility between those two theories does not exist; 2) that a deeper analysis of the structuring of the subjects, and by extension of the character of the social relationships under merchant-capitalist conditions, requires an articulation between the social history and the individual (oedipical) history, otherwise there is a risk of accepting, either a sociological reduccionism or a psychological reduccionism, with no consideration of the dialectics between the subjective and the objective, between the social and the psychic.

Key words: alienation; narcisism; fault; other; ego; subject; object

Texto completo disponível em PDF.

1"Desejo é o movimento pelo qual o sujeito é descentrado, isto é, que a busca do objeto de satisfação, do objeto da falta, faz o sujeito viver a experiência de que seu centro não está nele mesmo, que está fora de si num objeto do qual está separado (...)" (Green, 1988, p. 23).

2"Um ser que não tenha sua natureza fora de si não é um ser natural. Um ser que não tem nenhum objeto fora de si não é um ser objetivo. (...) Um ser não objetivo é um não ser. (...) é um ser não efetivo, não sensível, somente pensado, isto é, apenas imaginado, um ser da abstração" (Marx, 1974. P. 47).

3Uma discussão teoricamente exemplar dessa situação é feita por Hegel na dialética entre o senhor e o escravo. Nesta o completo domínio do senhor sobre o escravo retira deste último a dignidade subjetiva que o senhor precisamente requeria para confirmar-se em sua dignidade de sujeito. (V. Hegel, 1939: v. I, cap. IV, esp. item A, "Independência e Dependência da Consciência de Si; Dominação e Servidão".)

4S. Freud, Introdução ao Narcisismo (1914). Uma sugestiva análise da conjuntura teórica que animava a elaboração deste texto de Freud é feita por Jurandir Freire Costa, "Narcisismo em Tempos Sombrios". In: FERNANDES, Heloisa R. (org.). Tempo do Desejo. São Paulo, Brasiliense, 1989.

5Em contexto diverso, discutindo a questão da ideologia, Althusser se refere a essa mesma estrutura que estamos analisando como correspondente ao narcisismo: "(A ideologia) é profundamente inconsciente, mesmo quando se apresenta sob uma forma refletida (...) Na ideologia, os homens expressam, não as suas relações nas suas condições de existência, mas a maneira como vivem a sua relação às suas condições de existência: o que supõe, ao mesmo tempo, relação real e relação vivida, imaginária. (...) Na ideologia, a relação real está inevitavelmente, investida na relação imaginária." (Althusser, 1967, p. 206-207, grifos no original). Trata-se apenas de uma coincidência, ou ao contrário, de existirem correspondências estruturais efetivas, práticas, entre processos sociais, coletivos (como a ideologia) e processos subjetivos (como o narcisismo)?

6Ainda sob esse aspecto a dialética do senhor e do escravo de Hegel é exemplar; trata-se aí de um desejo de reconhecimento do Eu por um outro desejo, que leva a uma luta (com risco de morte) para submeter, subjugar, dominar o desejo (do outro) do qual se requer o reconhecimento. Pode-se notar aqui não apenas a forte influência hegeliana sobre o pensamento de Lacan, mas, simultaneamente, a diferença que o separa do flósofo, ao estabelecer a distinção entre demanda (por reconhecimento do Eu) e desejo do sujeito.

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Received: May 1990

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