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Tempo Social

versão impressa ISSN 0103-2070versão On-line ISSN 1809-4554

Tempo soc. vol.4 no.1-2 São Paulo jan./dez. 1992

https://doi.org/10.1590/ts.v4i1/2.84913 

Artigos

MODOS DE SER E DE VIVER: A Sociabilidade Urbana

Maria Ângela D'Incao* 

*Professora de Sociologia da UNESP, campus de Marília, SP.


RESUMO

O artigo trata de formas de sociabilidade encontradas em dois períodos históricos no sul do País: a sociabilidade ampla que pressupunha uma convivência com diferentes grupos sociais, uma relação ampla com as ruas e uma ausência de privacidade dos corpos e dos espaços e, a sociabilidade restrita, ou burguesa, a qual, por oposição, afasta os homens e as manifestações sociais da rua relegando os contatos sociais a contatos de classe social, instalando-se o cultivo da domesticidade e a privacidade dos espaços sociais, da mente e dos corpos.

Palavras-Chave: sociabilidade urbana; espaço urbano; casa-rua; público e privado; modos de vida; brincadeiras de crianças

ABSTRACT

This article is concerned with kinds of sociability found in two different historical periods in the South of the Country: the wide sociability which is related to the day-by-day life intra different social groups, a wide relationships with streets and an absence of privacity of bodies and spaces, and, the restrict or bourgeois sociability, which, by oposition, prevent men and its social celebrations from streets restricting the social contacts to a social class contact, instauring the cultivation of domesticity and privacy of bodies, mind and social spaces.

Key words: urban sociability; urban space; house-street; public-private; ways of living; childrens'plays

Texto completo disponível em PDF.

1Ver entre outros, especialmente: Sevcenko, 1983, cap. I; Needell, 1983; Costa, 1983.

2Brincadeiras que envolviam em geral muitas crianças de diferentes idades, sexo e classe e que são variantes do esconde-esconde, e que eram praticadas ao entardecer c à noite, porque a escuridão das ruas de então ajudavam as crianças a se esconderem melhor.

4Essa questão precisa ser melhor estudada na sociedade brasileira e nas sociedades latino-americanas em geral. O modelo europeu de desenvolvimento que essas sociedades procuraram seguir no século XIX foi de certo modo suplantado pelo modelo norte-americano de desenvolvimento. Suplantar a pobreza cultural sempre foi um valor alcançado.

5O crescente repúdio à escola pública em cidades pequenas, bem como o aparecimento e disseminação de escolinhas especializadas em dança, pintura, música, natação e mesmo educação integral, etc., são sintomas da necessidade de convivência entre pares de classe social.

6Dulce Whitaker, em discussões e considerações sobre a Alta-Sorocabana, chamou a atenção para esse ponto.

7Toda a Psicologia da Educação e Pedagogia ensinada e aprendida nas escolas de formação do professor primário (a Escola Normal) sublinharam este aspecto: a importância da criança na escola e no lar. Tomo a década de 60 por entender que, no Brasil, é nesse período que se dá um alargamento das classes médias e uma procura maior de instrução como via de ascensão social. Uma série de modificações e inovações no tocante à família ganha um número cada vez maior de adeptos nesse período; entre elas, a concepção do casamento por amor e a igualdade entre os cônjuges, onde o trabalho da mulher fora de casa passa a ser um valor a se procurar, em oposição ao casamento por interesse e a hierarquia por sexo.

8Que eu saiba, não existe ainda um estudo que tenha feito essas comparações históricas entre as horas de lazer desorganizado, digamos assim, e o trabalho escolar e lazer organizado entre as crianças. Seria importante medir essas mudanças comparativamente, uma vez que elas tiveram, sem dúvida, um papel na conformação do homem requerido pela sociedade em questão.

9Quando se mora no interior, e talvez em bairros operários de São Paulo, pode-se observar melhor a força de dois movimentos: o da modernização a que estou me referindo e o da antiga sociabilidade que se manifesta ainda em hábitos tais como o de brincar na rua, mesmo com o risco de atropelamento, e o bater papos na calçada e nas varandas. Deve-se notar que as pessoas das classes baixas ainda circulam pelas praças e ruas e em locais tais como as rodoviárias e bares que são locais de encontro.

10O arquiteto Carlos Lemos, falando sobre casas, modernismo dos quartos e privacidade, observa que antigamente a família rezava junta e que hoje ouve separada.

11Refiro-me à sociedade ocidental moderna, a seus valores e modos de ser, com os estados de alma tendendo a prevalecer sobre os do corpo. E como resultante ou determinante disso, temos a necessidade de privatização da vida bem como o cultivo da individualidade. Ver Elias, 1982.

12Sobre a sociabilidade burguesa, ver especialmente Elias, 1982 e 1987.

13Se não por outros motivos, pelo econômico certamente. Elias, para o caso europeu, fala dos manuais de educação que circulavam entre os aristocratas.

14Não há como negar o papel e influência da ciência e do pensamento racional na conformação do modo de ser civilizado, no qual, por exemplo, o próprio distanciamento dos corpos passa a significar uma condição de higiene e saúde. Ver Elias, 1982, sobre ciência e educação.

15Ver, por exemplo, Lukes, 1979.

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Recebido: Maio de 1992

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