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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070On-line version ISSN 1809-4554

Tempo soc. vol.4 no.1-2 São Paulo Jan./Dec. 1992

http://dx.doi.org/10.1590/ts.v4i1/2.84917 

Artigos

ESTRUTURAS FAMILIARES E SISTEMA PRODUTIVO: Famílias Operárias na Crise *

Helena Hirata** 

John Humphrey** 

**Research fellow no I.D.S. (Institute of Development Studies), University of Sussex, Inglaterra.

**Professora visitante no Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo e no Departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas e é chargée de recherche no CNRS, França


RESUMO

O artigo analisa as relações entre a esfera doméstica c a esfera do trabalho profissional, levando em conta a divisão social e sexual do trabalho. Procura mostrar até que ponto as estruturas e as relações familiares têm influência sobre a atividade econômica das mulheres e dos homens e também até que ponto esta última pode ter uma influência sobre as relações familiares. Trabalha com dados dc duas pesquisas efetuadas em Santo Amaro, São Paulo, em 1982 e 1986, ressaltando as conseqüências da crise sobre o emprego, fornecendo justamente indicações sobre as diferenciações e as contradições que operam no interior das famílias operárias e seu peso sobre a evolução do emprego na crise.

Palavras-Chave: famílias operárias; divisão sexual do trabalho; emprego; desemprego; mulheres; maternidade; crise

ABSTRACT

The article analyses relations between domestic and professional spheres, taking the social and sexual division of labor into account. It attempts to show to what degree family structures and relationships influence the economic activity of men and women, and also, to what degree the latter can influence fami ly relationships. The work is based upon data collected from research carried out in Santo Amaro, São Paulo, in 1982 and 1986, stressing the impact of crisis on jobs, supplying indications on the differences and contradictions that take place inside working class families and theireffect on the evolution of jobs during crisis.

Key words: working class families; sexual division of labor; employment; unemployment; women; maternity; crisis

Texto completo disponível em PDF.

*Este texto sintetiza os principais resultados de uma pesquisa realizada pelos autores em São Paulo, em meados de 1986, sobre "Crise econômica e divisão sexual do trabalho no Brasil", patrocinada pelo Programa francobritânico de pesquisas ESRC (Economic and Social Research Council) - CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) (Subvenção ESRC n2101230023).

1Título do grupo ad hoc constituído no X Congresso Mundial de Sociologia (México, 1982). Os trabalhos seguindo tal orientação metodológica foram agrupados no livro Lesexedutravail, 1984 (trad. em português, 1987).

2Sobre essa pesquisa realizada em 1982, cf. parte I.

3Delphy & Kergoat, s/d. Deve-se notar que os estudos sobre desemprego procuram geralmente explicações apenas do lado do trabalho profissional e do contexto econômico, e, em geral, se referem aos homens. Quando se trata de mulheres, como no estudo de R. Martin e J. Wallace (1984), também a explicação é procurada apenas do lado do emprego e sem referência à situação familiar.

4Para uma apreciação crítica desses estudos, "enfocando padrões de comportamento econômico ao nível do domicílio", cf. Schmink, 1984, p. 88.

5Contra essa idéia de uma recuperação econômica com efeitos positivos generalizados sobre o emprego, o Boletim PED (Pesquisa Emprego-Desemprego), editado pela SEADE, discute porque continua a existir desemprego concomitantemente à abertura de oportunidades, e aponta para o fato de que estas não são oferecidas a todos indistintamente. Cf. PED, SEADE, São Paulo, nº 25, 1986.

6Essa pesquisa se desenrolou numa empresa industrial do ramo eletrônico, onde entrevistas foram realizadas com 60 operárias e 40 operários de produção. Apresentações pormenorizadas dos resultados dessa pesquisa foram objeto de publicações de Hirata & Humphrey na França (1984a), na Inglaterra (1985) e no Brasil (1984b).

7Ver a tabela "Taxas de estabilidade por sexo, ocupação e status parental", in: Hirata & Humphrey, 1984b: 100.

8Para um maior desenvolvimento dos aspectos metodológicos, cf. comunicação feita ao Deuxième Rencontre Sociologie du Travail, Lille, 12-13 mars. 1987, (Hirata & Humphrey, 1987b).

9Cf. nota 5.

10Essa tese é desenvolvida por Ruth Milkman (1976).

11Conseguimos encontrar portanto um operário(a) correspondendo aos critérios citados acima em cada dez domicílios visitados. Cf. para apresentação de diferentes aspectos da pesquisa de 1986, Hirata & Humphrey, 1987a, 1987c, 1988.

12

Apesar das dimensões reduzidas da amostra, os grupos de mulheres e de homens entrevistados tinham um perfil bastante próximo da distribuição etária dos operários industriais da Região Metropolitana de São Paulo em dezembro de 1981, quando comparamos com os dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais, Ministério do Trabalho) de 1981, ponderação feita da predominância, na amostra, de operários de indústrias metalúrgicas e correlatas.

Também quanto à estrutura familiar, nossa amostra, que indica a predominância da família nuclear de 4,3 membros, se assemelha às características dos domicílios da pesquisa realizada pelo DIEESE na Grande São Paulo cm 198. (Cf. texto dc Lilian Montalli e Vera Telles nessa coletânea). Essa correspondência entre as características domiciliares e de distribuição etária da amostra e os resultados de pesquisas mais amplas permitenos considerar nossa amostra como representativa da área altamente industrializada da Região Metropolitana de São Paulo.

Finalmente, a amostra não selecionou grupos particulares de trabalhadores, como ex-mulheres casadas ou esposas em famílias nucleares, pois nossa hipótese era justamente a de que as respostas ao desemprego seriam diferentes segundo as diferentes categorias de trabalhadores.

13Por emprego de referência entendemos o primeiro emprego industrial encerrado por decisão do empregador após setembro de 1980.

14Tal afirmação (Cf. Comia, 1987) não leva em conta a rigidez relativa da família nuclear (pequeno número de membros da família, em geral composta de marido, mulher e filhos pequenos) já apontada na nota 10. As estratégias alternativas para a obtenção de uma renda familiar, apontadas por outras pesquisadoras, tais como a entrada na força de trabalho de "homens, mulheres e crianças" (cf. Moser, 1981, p.20) estão sujeitas, como na nossa amostra, ao mesmo tipo de limitações.

15Como poderiam fazer supor as teses da estratégia familiar de sobrevivência, apontando para outras variáveis além das exclusivamente econômicas, ligadas à sobrevivência material, como, por exemplo, a correlação de forças entre os sexos no âmbito familiar.

16Sobre o comportamentos das esposas dos operários despedidos na crise e seu acesso ao mercado de trabalho em conseqüência do desemprego dos seus maridos, cf. H. Hirata e J. Humphrey, 1987a., 1987c.

17Nossa pesquisa não pôde apreender a proporção de empregadas dormindo no emprego e as que se deslocam diariamente ao domicílio do empregador, pelo fato de a pesquisa ter sido realizada em bairros operários. Os moradores não eram empregadores e as trabalhadoras dormindo no domicílio dos patrões não teriam sido encontradas por nós.

18A paternidade ou não-paternidade era um fator explicativo mais relevante que o fato de ser qualificado ou nãoqualificado no caso dos homens; no caso das mulheres também a qualificação não explicava o comportamento perante o emprego (Cf. Hirata & Humphrey, 1984a e 1984b).

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Recebido: Maio de 1992

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