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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070On-line version ISSN 1809-4554

Tempo soc. vol.31 no.2 São Paulo May/Aug. 2019  Epub Aug 29, 2019

http://dx.doi.org/10.11606/0103-2070.ts.2019.157918 

DOSSIÊ – GRAMSCI HOJE: NOVAS AGENDAS DE PESQUISA

Entre Boulanger e Dreyfus Luzes e sombras da Terceira República francesa na reflexão dos Quaderni1

Between Boulanger and Dreyfus: lights and shadows of the Third French Republic in the reflection of the Quaderni

*Université de Lyon, Lyon, França.

Resumo

Como testemunhado por numerosos trechos dos Quaderni del carcere, a França é para Antonio Gramsci um laboratório político excepcional. A análise pretende explorar a sua compreensão de dois momentos específicos da história francesa recente: a tentativa de golpe de estado pelo general Georges Boulanger em 1889 e o caso Dreyfus. Através de uma análise filológica cuidadosa dos textos e de uma reconstrução precisa das fontes e referências historiográficas, serão investigadas as reflexões históricas e teóricas que o pensador sardo desenvolve a partir destes dois momentos da Terceira República Francesa, lançando também uma nova luz sobre a relação entre Gramsci e França.

Palavras-Chave: Cesarismo; Georges Boulanger; Caso Dreyfus; Antonio Gramsci; Terceira República Francesa

Abstract

As witnessed by numerous passages of the Prison Notebooks, France is for Gramsci an exceptional political laboratory. The analysis aims to explore his understanding of two specific moments in recent French history: the attempted coup d’état by General Georges Boulanger in 1889 and the Dreyfus affair. Through a careful philological analysis of the texts and an accurate reconstruction of the sources and historiographical references, I will investigate the historical and theoretical reflections that the Sardinian thinker develops starting from these two moments of the Third French Republic, by also shedding a new light on the relationship between Gramsci and France.

Key words: Cesarism; Georges Boulanger; Dreyfus affair; Antonio Gramsci; Third French Republic

Introdução

Como evidenciam as numerosas passagens dos Quaderni del carcere, a França é para Antonio Gramsci – como já havia sido para Karl Marx – um verdadeiro laboratório da política: um paradigma da modernidade por excelência, a nação francesa é, em certo sentido, o papel de tornassol das transformações políticas e sociais que, entre os séculos XIX e XX, abalaram o continente, além de um excepcional observatório sobre o que acontecia em outros países. Esse caráter pioneiro foi sublinhado por estudiosos, que investigaram a maneira como os eventos franceses moldaram a concepção gramsciana da Europa moderna, em um confronto contínuo entre a França e os países mais “atrasados” como a Alemanha e, acima de tudo, a Itália2.

No entanto, é inegável que esse foco na macro-dinâmica histórica e em eventos históricos catalíticos resultou em que momentos políticos menores e nas fases mais complexas da história francesa tenham permanecido na sombra, embora notados e conhecidos por Gramsci. Minha análise visa preencher essa lacuna, tanto quanto possível, estudando alguns aspectos da história francesa entre os séculos XIX e XX que, embora secundários, são importantes para ter uma visão completa da relação de Gramsci com a cultura, a sociedade e a política desse país3.

Em particular, pretendo concentrar-me em dois momentos específicos da história recente da França, que ocorreram com poucos anos de diferença. Em primeiro lugar, aquele ligado ao boulangismo, o movimento nacionalista que gozou de amplo consenso entre 1886 e 1889, e em particular em janeiro daquele ano, quando um golpe de Estado do general Georges Boulanger parecia próximo, para declinar depois rapidamente. Posteriormente, o Affaire Dreyfus, ou seja, aquele conjunto de conflitos políticos e sociais que, entre 1894 e 1906, dividiram a França em relação ao destino do capitão Dreyfus4. Ambos os episódios – e em particular o caso Dreyfus – foram citados várias vezes por Gramsci já antes do encarceramento e fornecem o ponto de partida para observações historiográficas e teóricas importantes dentro de sua reflexão, como tentarei mostrar aqui.

Escritos pré-carcerários e interpretação “moralista”

Para compreender plenamente a reflexão sobre essas questões nas notas da prisão é necessário partir dos fatos, isto é, tomar o ponto de partida dos escritos pré-carcerários, nos quais, desde os anos 1910, aparecem referências a Dreyfus (de Boulanger, por enquanto, não há traço). As ocorrências que localizei, apesar de sua diversidade, parecem desenvolver a mesma chave de leitura do Affaire.

Esta, de fato, já se encontra nucleada nos dois primeiros artigos sobre o assunto, ambos publicados em 1916, no jornal Avanti!: “I moventi e Coppoletto” e “Carlo Péguy e Ernesto Psichari”5. O primeiro é um artigo polêmico sobre Giuseppe Dardano, jornalista da Gazzetta del Popolo de Turim, cujo diretor, o conde Delfino Orsi, estava envolvido em um complexo caso judicial com reflexos sobre o confronto político que ocorria entre nacionalistas e socialistas. Além do conteúdo imediato do texto, é interessante a citação do livro de Charles Péguy sobre a “campanha pela libertação de Dreyfus”, Notre Jeunesse (1910), que Gramsci definiu como “um livro que tanto amamos” (Gramsci 1980, p. 265). O significado dessa referência encontra-se na oposição entre a corrupção política e moral descrita no artigo e o “sentido religioso místico do socialismo [e] da justiça” de Péguy, que era uma das divindades tutelares dos socialistas de Turim (Gramsci, 1980, p. 265)6.

Uma referência mais ampla ao caso Dreyfus e ao significado “de princípio” que ele pressupõe no pensamento de Péguy está presente no segundo artigo citado, que se baseia em uma recente conferência em Turim de Maurice Vaussard sobre Péguy e Psichari. Aqui o contraste é entre “a França tradicional, provinciana e industriosa, produtora de riqueza e fé na moral e na justiça” e a “França dos políticos, demagogos, aqueles que contrapõem a razão de Estado à justiça, o triunfo de sua facção à moral, do mundo estreito de seus interesses imediatos” (Gramsci 1980, p. 291). O texto de Péguy, “chei[o] do ardor da luta por Dreyfus”, propõe, portanto, uma visão “regeneradora” da política, que se liga idealmente à França “moral” e “mística” mencionada acima (Gramsci 1980, p. 292). Já em 1916, o dreyfusismo aparece como um emblema de pureza ética e intelectual que o próprio Gramsci aspira nesses anos e, nesse contexto, Notre Jeunesse de Péguy é um texto chave7.

Este uso da referência a Dreyfus como um termo de comparação a ser contrastado com uma situação de crise política e moral (principalmente com um olhar que se volta para a Itália) também retorna em outros artigos jornalísticos gramscianos. Em dois casos, em 1918, a Itália depois de Caporetto foi avizinhada ao caso Dreyfus8. Como Gramsci escreve, “Caporetto deve se tornar na Itália o que o caso Dreyfus foi na França: um processo da classe dirigente, uma acusação contra as seitas, contra os maus costumes, contra o colapso moral e pela restauração dos valores ideais, da humanidade trabalhadora e beneficamente ativa”9. E em abril, mais sucintamente: “Uma questão talvez mais importante e avassaladora do que a de Dreyfus na França terá que ser levantada na Itália para os eventos de outubro de 1917”10.

Um discurso análogo também retorna em outro texto de alguns anos depois, significativamente intitulado “La caduta del fascismo”11. Aqui, o equivalente ao caso Dreyfus na França era representado, nas esperanças de Gramsci, pelo assassinato de Matteotti12. Em 1924, Gramsci esperava que, na esteira do escândalo sobre o assassinato do parlamentar socialista, pudesse ser lançada uma discussão sobre a verdadeira conduta do governo Mussolini, que levasse em última analise ao fim do fascismo13. Gramsci escreveu que “‘a oposição moral’ [pode ser] muito mais importante e eficaz, em certas ocasiões, do que qualquer oposição política” e acrescentou, pouco depois, que “por algo semelhante e muito menos grave, na época do julgamento de Dreyfus, a sociedade francesa e o Estado foram levados ao limite de uma revolução” (Gramsci, 1971, p. 209)14.

Dreyfus, portanto, na produção jornalística de Gramsci, foi como uma chave para interpretar a situação italiana, bem como um símbolo de sua possível renovação político-intelectual, segundo uma visão que caracterizou profundamente seus escritos pré-carcerários15.

Essa interpretação em uma chave “moral” do Affaire retorna também no começo dos Quaderni, marcando a continuidade entre a produção pré-carcerária e a da prisão. No Q 1, § 2, Gramsci, abrangendo todo ou quase o arco de tempo da Terceira República, de fato menciona a “confusão moral da sociedade francesa que a partir dos anos [18]70 culmina no dreyfusismo”, definindo este último como a “saída coletiva” dessa sociedade (Q 1, § 2, p. 7)16. Na segunda redação, ressignificando a fórmula de Romain Rolland, ele fala da “perplexidade moral e intelectual que corroeu a sociedade francesa, de [18]71 ao dreyfusismo, na qual ela encontrou uma saída coletiva” (Q 16, § 23, p. 1897).

Kulturkampf, hegemonia, partidos

Se essa interpretação do caso Dreyfus em termos “moralistas” continuava mesmo após a prisão, ela permanece, entretanto, como o pano de fundo da análise de Gramsci, que, nos Quaderni, concentra-se sobretudo em outros aspectos desse momento da história recente da França.

Ainda na esteira de uma visão em chave latu sensu cultural do Affaire, há em primeiro lugar sua leitura em termos de um embate entre clericalismo e secularismo ou, como diz de outro modo, de Kulturkampf, aplicando à França da Terceira República uma categoria da história contemporânea alemã. Os textos para lembrar a esse respeito são diversos. Em primeiro lugar, o Q 1, § 48, retomado na segundo redação no Q 13, § 37; daí Q 4, § 49, retomado no Q 12, § 1; nesse mesmo quadro se insere também o Q 10, I, § 13, que contém as “Notas” de Gramsci relativas ao seu projeto de ensaio sobre Benedetto Croce e no qual a referência a Dreyfus é uma inovação no que diz respeito às primeiras versões do texto (Q 8, §§ 220 e 225). Vejam-se as seguintes citações:

No affaire Dreyfus, culminou a luta para paralisar o influxo clerical-monárquico no aparelho estatal e dar ao elemento secular a clara prevalência (Q 13, § 37, p. 1640)17.

Pode-se dizer em geral que nessas regiões americanas [América do Sul] ainda existe uma situação de Kulturkampf e do processo Dreyfus, isto é, uma situação em que o elemento laico e burguês ainda não atingiu a fase de subordinação dos interesses e da influência clerical e militarista à política laica do Estado moderno (Q 12, § 1, p. 1529)18.

Li que, durante o caso Dreyfus, um cientista francês, maçom e ministro, explicitamente disse que seu partido queria destruir a influência da Igreja na França, e, já que a multidão tinha necessidade de um fanatismo (os franceses usam em política o termo ‘mystique’), seria organizada a exaltação do sentimento patriótico (Q 10, I, § 13, p. 1237).

Se deixarmos de lado o último texto, no qual a anedota evocada por Gramsci é funcional para sublinhar a importância das ideias de pátria e nação na história política moderna, em oposição à exaltação croceana da categoria de “liberdade”, vê-se que as outras notas citadas propõem um mesmo esquema, aplicado ora à França, ora, através de um procedimento analógico, à América do Sul. Pensando na questão do choque entre Igreja e Estado, Gramsci está, de fato, concentrando-se em uma passagem fundamental na criação do estado secular moderno e, portanto, na afirmação da burguesia.

Numa perspectiva mais geral, o quadro dentro do qual essas reflexões estão inseridas nada mais é do que o nascimento e a consolidação da hegemonia de um grupo dentro do Estado. O que aqui é declinado em termos puramente historiográficos e com referência específica aos assuntos franceses é, em suma, uma questão muito complexa, que, como se sabe, constitui a pedra angular de toda a reflexão filosófico-política de Gramsci19. O interessante aqui é, acima de tudo, como, nesses textos, a dinâmica evolutiva geral delineada nos Quaderni (que após uma fase expansiva, prevê um entrincheiramento nas posições hegemônicas alcançadas) é em certo sentido revisada e corrigida à luz da realidade histórica20.

O que emerge dessa referência ao caso francês (como se vê principalmente a partir do Q 13, § 37), é o fato de que, na França, a hegemonia burguesa não chega inteiramente ao fim mesmo após encerrada a longa fase revolucionária e pós-revolucionária, isto é, mesmo depois do início da chamada “crise orgânica” da modernidade, cujo início é colocado pelo mesmo Gramsci por volta de 1870, em correspondência com a derrota da Comuna de Paris e com a abertura da “época do imperialismo” (Q 13, § 37, p. 1637)21.

Como Gramsci escreve, por outro lado, na França “a hegemonia burguesa é muito forte e tem muitas reservas” (Q 13, § 37, p. 1640). Não é coincidência, portanto, que no mesmo texto do Q 1 e em sua segunda versão, Gramsci fale sobre a “lentidão dos desenvolvimentos” da crise na França, traçando a causa na multiplicidade de partidos que historicamente caracterizaram a política francesa, “muito numerosos, mesmo antes de 1914” (Q 13, § 37, p. 1639). Como afirma a este respeito, “sua multiplicidade formal depende da riqueza dos eventos revolucionários e políticos na França, de 1789 ao Affaire Dreyfus” (Q 13, § 37, p. 1639). Também no Q 4, § 49 e no Q 12, § 1, Gramsci faz alusão a essa diversidade, inserindo uma referência à “França não só depois da guerra, quando a multiplicação de partidos se tornou um fenômeno geral” (não parece improvável ler nessa alusão uma referência implícita ao clima histórico do caso Dreyfus) (Q 12, § 1, p. 1527).

Diante disso, o Affaire Dreyfus se insere como emblema de uma certa forma de hegemonia política, entendida como a persistência da capacidade hegemônica em contextos de crise e como tal, ilumina não só a análise histórica, mas também e sobretudo a reflexão propriamente política dos Quaderni, lançando uma luz muito significativa sobre as dinâmicas hegemônicas da contemporaneidade22.

Finalmente, há uma outra questão relacionada com isto, sobre a qual não me detenho, mas que gostaria de mencionar, nomeadamente a conexão entre estas observações sobre a multiplicidade de partidos e a vivacidade da vida política francesa até Dreyfus (bem como, em geral, sobre a questão da hegemonia) e o tema dos intelectuais23. Essa conexão, explicitada a partir do título nas notas dos cadernos 4 e 12, mas claramente também presente nos outros dois textos mencionados, representa uma peça fundamental da análise gramsciana da hegemonia burguesa na França e está intimamente ligada à avaliação do caso Dreyfus24.

Boulanger e o líder carismático

Isso diz respeito a Dreyfus. Mas que papel o boulangismo desempenha nesse contexto? O episódio do fracassado golpe de estado do general Georges Boulanger é, em geral, contabilizado por Gramsci entre os eventos salientes da Terceira República francesa juntamente com o caso Dreyfus e, nessa perspectiva, representa um momento fundamental da “longa duração” do domínio liberal-burguês na França.

Antes de analisar esse aspecto com mais detalhes, gostaria de relembrar brevemente um texto em que a referência é apenas a Boulanger, e no qual Gramsci se refere a essa figura para ilustrar uma posição teórica mais geral. Embora rápidas e entre parênteses, essas alusões a Boulanger de fato levantam uma ordem de reflexões interessantes, que vão além do julgamento de Gramsci sobre o caso histórico específico.

Refiro-me ao § 21 do Quaderno 8, retomado na segunda versão da nota, que inicia o caderno especial sobre Maquiavel (Q 13, § 1)25. O quadro é o da análise das características do príncipe moderno e, em particular, de sua natureza como entidade coletiva, que não é incorporada em personagens individuais. Para demonstrar isso, Gramsci escreve:

No mundo moderno, apenas uma ação histórico-política imediata e iminente, caracterizada pela necessidade de um processo rápido e fulminante, pode ser miticamente incorporada em um indivíduo concreto: a rapidez só pode tornar-se necessária diante de um grande perigo iminente, um grande perigo que cria precisamente, de modo fulminante, o aquecimento das paixões e do fanatismo, aniquilando o senso crítico e a corrosividade irônica que pode destruir o caráter “carismático” do condottiero (o que ocorreu na aventura de Boulanger) (Q 13, § 1, p. 1558).

Claramente, na referência ao carisma do condottiero (em que “carismático” é colocado significativamente entre aspas) lê-se uma referência à teoria do líder carismático de Robert Michels, sobre a qual Gramsci já se firmara longamente no § 75 do segundo caderno e que representa o ponto de partida (em negativo) para a elaboração da concepção gramsciana do cesarismo (Antonini, no prelo). Como claramente emerge da terminologia irônica adotada por Gramsci (“aquecimento das paixões”, “fanatismo”, “condottiero”, “aventura”, o último termo acrescentado na segunda redação) também nesse contexto o juízo sobre os personagens à la Boulanger certamente não é positivo. Como acrescenta imediatamente, de fato, “uma ação imediata desse tipo, por sua própria natureza, não pode ser de amplo alcance e de caráter orgânico; será quase sempre do tipo restauração e reorganização e não do tipo próprio à fundação de novos Estados e novas estruturas nacionais e sociais” (Q 13, § 1, p. 1558).

Deixando de lado a reflexão de Gramsci sobre dinâmicas cesaristas no sentido estrito, o que é interessante notar é antes a referência à não ascensão do movimento boulangista, ao fracasso da tentativa de golpe de Estado, mais que o próprio putsch. Parece-me que essa lembrança, deslocando a atenção de Boulanger para sua derrota, coloca uma questão diferente, mas em certo sentido, igualmente importante, a saber, o que poderia ter sido e o que não foi e, portanto, as razões que fizeram que uma solução histórico-política específica não se realizasse. Precisamente essa questão das possibilidades não realizadas e das causas desse fracasso está no centro das referências combinadas de Boulanger e Dreyfus a que me referi anteriormente.

O economicismo versus movimento histórico real

Essas referências aparecem em alguns textos cruciais dos Quaderni e lançam uma luz significativa sobre alguns pontos-chave da reflexão gramsciana na prisão. Refiro-me aqui, em particular, ao famoso § 38 do Quaderno 4 e à sua retomada no Q 13, § 18 (como se sabe, no segundo rascunho, o longo texto retirado da primeira série dos Appunti di filosofia é dividido em três partes; uma dessas partes compõe, precisamente, o § 18 do Quaderno 13, intitulado Alcuni aspetti teorici e pratici dell’”economismo”).

É no contexto da crítica do materialismo histórico degenerado em “economicismo histórico” que Gramsci usa, de fato, exemplos da história recente da França (Q 13, § 18, p. 1592). A princípio, na primeira redação da nota, o boulangismo é considerado como “arquétipo” dos eventos que não podem ser explicados numa perspectiva historiográfica de estilo economicista, ao lado do qual é colocado o golpe de estado de Napoleão III26. É claro, porém, que é sobretudo sobre o primeiro evento que recai a atenção de Gramsci quando, para demonstrar a falsidade da busca do interesse imediato por trás das perspectivas políticas, convida-nos a analisar fenômenos que, embora sejam possíveis, não foram finalmente realizados, desenvolvendo assim uma análise mais complexa e articulada da conjuntura, que leva mais em conta o papel das várias forças no campo. Nessa perspectiva, significativas são também as referências ao movimento filofascista francês promovido por Georges Valois entre 1925 e 1928 e ao general Radola Gajda, chefe da Comunidade Fascista Nacional da Checoslováquia e alegado autor de um golpe (frustrado) em 192627.

É mais interessante, no entanto, insistir na segunda redação do texto e nas mudanças feitas por Gramsci. Se o argumento, no todo, permanece o mesmo, existem algumas mudanças significativas e adições de relevo. Veja-se a seguinte passagem:

Seria possível fazer uma pesquisa sobre as opiniões emitidas à medida que certos movimentos políticos se desenvolviam, tomando como típico o movimento boulangista (aproximadamente de 1886 a 1890), ou o processo Dreyfus, ou mesmo o golpe de 2 de dezembro (uma análise do livro clássico sobre o 2 de dezembro, para estudar a importância relativa que é dada ao fator econômico imediato e o lugar que nele ocupa, ao contrário, o estudo concreto das “ideologias”). Diante desse evento, o economismo levanta a questão: a quem a iniciativa em questão beneficia imediatamente? (Q 13, § 18, p. 1596).

Por um lado, Gramsci insere entre parênteses uma referência ao “livro clássico sobre o 2 de dezembro”, uma referência clara ao Dezoito brumário marxiano, substituindo a referência direta a Napoleão III, bem como a alusão, sempre contida entre parênteses, à questão de ideologia, também digna de nota28.

Por outro, a adição do processo de Dreyfus entre os casos históricos que não podem ser explicados em termos meramente “econômicos” é muito significativa, e não apenas para enriquecer as referências aos eventos históricos franceses. De fato, se o boulangismo continua sendo o “tipo” por excelência desses fenômenos (“Quando um movimento de um tipo boulangista é produzido” etc.) (Q 13, § 18, p. 1596), essa combinação me parece indicativa do desenvolvimento de uma visão mais ampla e complexa de Gramsci dessa fase da história da França, que, como mencionado anteriormente, cai formalmente na fase de declínio da hegemonia burguesa, mas não sem relevantes “segundos pensamentos” e “retornos” que tornam esse processo particularmente conturbado e instável. A referência final ao “próprio boulangismo, que falhou como tal e foi finalmente esmagado definitivamente pelo movimento dreyfusardo” é, nessa perspectiva, particularmente esclarecedora (Q 13, § 18, p. 1597).

Em suma, podemos dizer que o que o boulangismo representa “em negativo”, o dreyfusismo representa “em positivo”; isto é, se o fracasso do general Boulanger constitui a pars destruens do argumento gramsciano contra o economismo historiográfico, a referência às forças residuais canalizadas pelo movimento em favor de Dreyfus é a pars construens (e não é por acaso, creio eu, que Boulanger ceda caminho a esta nas notas seguintes dos Quaderni).

No Q 13, § 18, vários dos temas abordados anteriormente retornam, desde a atenção dada à rápida queda do general Boulanger, até as observações sobre a riqueza e a vitalidade da vida política francesa. Em resumo, a impressão é que existe uma ligação entre os textos de segunda redação em que esses tópicos são tratados, todos incluídos no Quaderno 13 (§§ 1, 18, 37), uma ligação representada precisamente por essa atenção aos aspectos “latamente progressistas” da Terceira República Francesa.

Para sublinhar a convicção de que o Q 13, § 18 representa um ponto crucial para a análise do boulangismo e do dreyfusismo nos Quaderni del carcere, há finalmente também a sua conexão com os desenvolvimentos subsequentes da reflexão política gramsciana, assim como é esboçada nos últimos cadernos miscelâneos. Se nesses cadernos há textos que contêm referências explícitas e pontuais a Dreyfus (refiro-me ao § 23 do Quaderno 14 e ao § 57 do Quaderno 15; de Boulanger, não se fala mais nada), parece-me significativo notar como a reflexão sobre esse episódio assume nesse contexto um significado teórico muito mais amplo, entrelaçando-se com alguns dos mais complexos e significativos temas ali desenvolvidos.

Entre a Itália e a França

Antes de passar para Q 14, § 23 e à análise da conexão com o pensamento político do Gramsci maduro, gostaria de me debruçar brevemente sobre o texto do Quaderno 15, pois oferece a oportunidade de fazer algumas considerações dispersas em relação aos “precedentes” da reflexão gramsciana sobre a Terceira República francesa.

A nota, em si, é bastante linear e consiste em um trecho de uma carta (de 1898) de Sorel a Lagardelle publicada na revista Educazione Fascista de março de 1933. Na passagem relatada por Gramsci fala-se de Gabriel Deville, político e publicista socialista, e sua concepção da situação política francesa na época do caso Dreyfus, concepção que não compreende totalmente as dinâmicas que animam o movimento histórico real (neste sentido, a nota parece querer recordar, mutatis mutandis, as reflexões metodológicas do Q 13, § 18). Ao fazê-lo, Sorel usa alguns termos-chave, como os de “reação”, “socialismo” e “cesarismo”, e traça a imagem de uma estrutura política incerta e conturbada, que oscila entre soluções radicalmente opostas e antitéticas29.

É interessante notar como esse léxico e essa visão de política como “oscilante” e “radicalizada” também retornam em um dos textos mais importantes sobre o Affaire, o já citado livro de 1910 de Péguy. Desse ponto de vista, parece particularmente significativa uma passagem em que Péguy estabelece uma série de comparações entre o Primeiro e o Segundo Império, o boulangismo e o dreyfusismo, e outras mais. Nesse contexto, o cesarismo ou sua ausência é o critério para distinguir um fenômeno de outro, sua marca reacionária ou progressiva. A história recente da França é retratada como uma alternância de momentos cesaristas e anticesaristas, numa contínua oposição de ideologias e posições políticas30.

Se esses são exemplos da discussão na França, no contexto italiano o quadro intelectual de referência é constituído acima de tudo pelo debate realizado na revista La Voce de Giuseppe Prezzolini, que, na virada da primeira para a segunda década do século XX, tratou extensivamente dos eventos relativos ao processo Dreyfus e seu eco na França31. É em La Voce, uma revista muito conhecida por Gramsci e frequentemente citada nos Quaderni, que surgem as opiniões de figuras como Péguy, Halevy, Rolland e Sorel e, claro, Prezzolini, que intervém na discussão sobre os acontecimentos da Terceira República francesa.

Mutatis mutandis, nessa perspectiva, também pode ser útil recordar como a questão Boulanger-Dreyfus foi então tratada em uma obra que, se Gramsci tivesse tido a oportunidade de ler em sua totalidade, certamente teria despertado nele ainda mais interesse, a saber, a Storia d’Europa nel secolo decimonono, de Benedetto Croce, o qual dedicou o nono capítulo do ensaio ao período de 1871 a 1914, à era liberal32. Croce abre o parágrafo afirmando: “no período que se seguiu a 1870 já não se via na Europa nem a retomada das antigas monarquias absolutas, nem explosões de novos cesarismos” (Croce 1991, p. 249). E um pouco mais adiante, em relação à França, depois de falar de Mac-Mahon: “duas vezes ainda o perigo ou a insensatez do golpe de Estado reacionário foi renovado na França, ambos frustrados; e o primeiro foi entre [18]86 e [18]89, com Boulanger [...]. A segunda vez foi dez anos depois, no longo confronto em torno do caso do capitão Dreyfus e da justiça ou injustiça de sua condenação” (Croce 1991, p. 250).

Não continuo na citação da passagem, exceto, no entanto, para notar como, apesar da diferença radical da estrutura geral da pesquisa, é possível encontrar algumas consonâncias interessantes entre a argumentação croceana e aquela desenvolvida por Gramsci nos Quaderni. Além da clássica “tríade” de eventos – 2 de dezembro-Boulanger-Dreyfus –, cabe sobretudo ressaltar como Croce, à sua maneira, propõe uma análise não econômica da Terceira República e, em particular, da situação histórico-política à época do Affaire Dreyfus (em contraste, em parte, com as distinções mais claras de Sorel ou Péguy), destacando a resistência do sistema burguês e o entrelaçamento de forças liberais, republicanas e socialistas que tornaram possível evitar a deriva reacionária defendida pelos nacionalistas monarquistas e clericais.

À luz de tudo isso, três diferentes ordens de reflexão podem ser formuladas. A primeira diz respeito ao interesse vivo de Gramsci pelas vicissitudes políticas e intelectuais da Terceira República francesa, um interesse que, com base no que acaba de ser exposto (bem como na pesquisa existente sobre a “francofilia” de Gramsci e, mais genericamente, da cultura italiana do início do século) aparece como um fato incontroverso33. O fato de esse ser para Gramsci um assunto bem conhecido, mesmo nos detalhes, emerge claramente também das observações que faz em relação às leituras realizadas sobre o assunto. Se é tranchant o julgamento do volume de Michels, Francia contemporanea34, Gramsci está de fato igualmente insatisfeito com um volume francês de 1926, cujo título traduziu para o italiano nas cartas – o livro de Alexandre Zévaès, Histoire de la Troisième République: 1870-1926 – descrito como “muito superficial, mas divertido”35.

A segunda ordem de reflexão diz respeito às influências na análise gramsciana. Já falei a respeito de Croce. No que diz respeito aos outros testemunhos citados acima, embora sem estabelecer conexões demasiadamente precisas, podemos certamente afirmar que esses, sem dúvida, desempenharam um papel no estímulo à análise de Gramsci. Se, por exemplo, as referências a Notre Jeunesse contidas nos escritos pré-carcerários gramscianos não podem ser entendidas sem levar em conta a mediação da revista florentina de Prezzolini, acredito que também seja possível afirmar isso para os Quaderni, embora com as devidas distâncias. Parece-me que essa influência ainda é claramente rastreável na prisão, em que ora emerge mais explicitamente (por exemplo, nas acepções “moralísticas” dos Quaderni 1 e 16, mas também, em certa medida, na reflexão sobre o Kulturkampf), ora mais implícita, constituindo, juntamente com outros elementos, o ponto de partida para a reflexão gramsciana sobre o tema da hegemonia. No caso da citação de Sorel do Quaderno 15, é claro que ela lembrava a Gramsci toda uma série de questões sobre as quais havia refletido por muito tempo e que, em parte, ainda eram a base de sua presente análise histórico-política.

Finalmente, o terceiro aspecto é o da profunda consonância entre a reflexão gramsciana e a concepção geral que emergiu desse breve exame. É evidente, de fato, que, apesar das diferenças óbvias, Gramsci compartilha com os autores citados acima a convicção de que a Terceira República francesa (e em particular o período que vai do golpe fracassado do general Boulanger aos episódios do caso Dreyfus) se caracteriza por tendências extremas e diferentes, até mesmo opostas, que tornam toda a situação histórica turbulenta e instável36 – de fato, descrevendo as perturbadas “oscilações hegemônicas” na França entre o final do século XIX e o começo do século XX, Gramsci apenas sublinha esse aspecto.

Forças marginais, cesarismo, parlamentarismo

À luz do que acaba de ser apontado, as observações gramscianas sobre Dreyfus contidas no § 23 do Quaderno 14 parecem ainda mais significativas37. Nessa perspectiva, a conexão entre essa análise dos assuntos franceses e a reflexão política do último Gramsci mereceria uma investigação mais detalhada (refiro-me aqui em particular aos Quaderni 13, 14 e 15, associando o caderno especial sobre Maquiavel com os dois cadernos miscelâneos, na convicção de que Quaderno 13 não é simplesmente um receptáculo de notas de “bela” escrita, mas uma importante sede para a reflexão histórico-política)38. No entanto, este não é o lugar para tal estudo, portanto, tentarei ser breve e limitar-me a esboçar as coordenadas gerais das principais linhas de investigação, que giram em torno de três temas.

O primeiro tema está relacionado com as forças “marginais” de uma formação sociopolítica. Parece-me, de fato, que a questão que no Q 13, § 18 é colocada em uma chave metodológica e, por assim dizer, “negativa”, de critérios para a análise de um “movimento do tipo boulangista” (Q 13, § 18, p. 1596), encontra no Q 14, § 23 sua contraparte concreta ou de conteúdo e, de certa forma, “positiva”, na medida em que toda a nota pretende explicar como um momento histórico não pode ser concluído até que o grupo dominante consiga manter o poder com a ajuda de “forças auxiliares” que “introduzem na vida do Estado e nas atividades sociais uma equipe diferente e mais numerosa do que a anterior”, quebrando assim “cristalizações estatais sufocantes” (Q 14, § 23, pp. 1680-1681)39. O principal exemplo relatado por Gramsci é precisamente o caso Dreyfus, embora, com base no que foi mostrado até agora, não esteja excluído que essa indicação implique uma referência a um arco histórico-político mais amplo na história francesa, ou pelo menos à sucessão-oposição Boulanger-Dreyfus, já mencionada no Q 13, § 1840.

A esse respeito, deve-se notar que as referências ao tema das forças marginais também podem ser encontradas em outras notas do Quaderno 13 e do Quaderno 14. Veja-se, por exemplo, o Q 13, § 27, em que se fala de “possibilidades latentes e imanentes”, bem como “possibilidades marginais de desenvolvimento e sistematização organizativa” (Q 13, § 27, pp. 1621-1622). Além disso, no Q 14, § 76, há uma passagem que me parece claramente aludir ao § 23 desse mesmo caderno e aos temas ali desenvolvidos, quando Gramsci escreve que “deve-se notar que muitíssimas vezes se confunde ‘não fazer época’ com a pouca duração ‘temporal’; é possível ‘durar’ muito tempo, relativamente, e não ‘fazer época’; as forças de viscosidade de certos regimes são muitas vezes insuspeitas, especialmente se forem ‘fortes’ perante a fraqueza dos outros, mesmo quando induzida” (Q 14, § 76, p. 1744)41. Em geral, mesmo quando não há referências explícitas à questão das forças latentes ou marginais, é claro que a perspectiva gramsciana é a de uma concepção do movimento histórico como algo complexo e articulado, no qual as reações não são dadas tout court. Nesse contexto, o apelo do Q 14, §23 a Dreyfus é, portanto, emblemático.

Em segundo lugar, essa questão está intimamente ligada àquela, que já emergiu várias vezes durante o curso da pesquisa, do cesarismo. O cesarismo é um verdadeiro leitmotiv do Quaderno 13 e tem desenvolvimentos significativos também no Quaderno 14, principalmente no § 23, no qual aparece a nova fórmula do cesarismo de “caráter episódico intermediário”, muito importante para compreender a maneira pela qual Gramsci interpreta regimes autoritários contemporâneos (Q 14, § 23, p. 1680). Sem entrar nos detalhes dessa questão, gostaria apenas de lembrar como o cesarismo, entendido dessa maneira, está conectado, em um nível teórico, à reflexão sobre a revolução passiva, que encontra amplo desenvolvimento, especialmente em Quaderno 15. Do ponto de vista da análise histórica, ela lembra a interpretação gramsciana do fascismo, visto como uma forma de cesarismo moderno não completamente regressivo e, de fato, sob diferentes pontos de vista, em sintonia com as necessidades dos novos tempos42.

Nesse contexto, entre os casos históricos lembrados por Gramsci para ilustrar, positiva ou negativamente, suas posições, abundam as referências aos assuntos franceses e entre elas se destacam aquelas a Boulanger (relembre-se também a esse respeito o Q 8, § 21 e o Q 13, § 1) e Dreyfus, perdendo apenas para as citações sobre golpe de Estado de Napoleão III. Nesse sentido, também pode ser interessante notar que, no § 57 do Quaderno 15 mencionado acima, Gramsci estabelece imediatamente uma conexão entre a “questão da ofensiva e da defensiva” evocada pelo Affaire e a situação política italiana entre os anos 1910 e 1920, momento em que o fascismo se torna um regime que derrota o movimento operário (ver em particular a referência ao “modo de definir a narrativa dos eventos de 1918-[19]19-[19]20 etc.”), esclarecendo desse modo seu primeiro e verdadeiro objeto de interesse (Q 15, § 57, p. 1819).

A terceira e última macro-questão que gostaria de mencionar é a do sistema partidário, do parlamentarismo e sua crise. Esse é um tema que, como vimos na questão da Kulturkampf, é intrínseco à reflexão sobre o boulangismo e o dreyfusismo nos Quaderni, talvez até mesmo antes (já no artigo de 1924, Gramsci avançou a hipótese de que, além de questão moral, no caso de Dreyfus estava “em jogo um problema de rotação de classes e categorias sociais no governo”). Desse ponto de vista, esses dois episódios são sintomáticos de uma riqueza da paisagem política característica do contexto francês desde o início da era moderna, como lembrou várias vezes Gramsci.

Entre o Quaderno 13 e o Quaderno 15, essas reflexões sobre os partidos retornam muitas vezes, também e sobretudo declinadas em termos da crise do sistema parlamentar clássico e das “alternativas” a ele43. Entre os aspectos mais relevantes, o da “quebra da legalidade parlamentar”, da “função do partido” e do “parlamentarismo negro”. Mesmo nessa conjuntura, os casos de Boulanger e Dreyfus oferecem a Gramsci visões interessantes, especialmente no que diz respeito à questão dos limites do parlamentarismo tradicional (para ser entendido tanto como dificuldade de adaptação à nova situação sociocultural, quanto como ambiguidades que permitiram o surgimento de figuras “carismáticas”) e da ruptura (em última instância frustrada) da legalidade parlamentar44.

Conclusões

O objetivo deste trabalho foi mostrar, por meio de uma análise dos textos de Gramsci, mas não apenas, como sua reflexão sobre Boulanger e Dreyfus se insere dentro de uma interpretação precisa da Terceira República difundida na Itália e na França, entre os séculos XIX e XX, mas como, ao mesmo tempo, Gramsci sabe destacar-se desta, desenvolvendo uma interpretação cada vez mais original e inovadora desses eventos, que encontra seu lugar pleno dentro da reflexão histórico-política dos Quaderni, desenvolvendo-se em várias e fascinantes direções analíticas, até então não totalmente investigadas pelos críticos.

Especificamente, depois de me deter nas referências pré-carcerárias e em uma chave interpretativa “moralista” do Affaire, mostrei como, na produção carcerária, Gramsci desenvolve três linhas principais de pesquisa a esse respeito: a do caso Dreyfus como um exemplo da Kulturkampf; a de Boulanger e a figura do líder carismático; e a dos golpes de Estado fracassados como convites para desenvolver uma análise fiel do “movimento histórico real”, contra todo o economicismo. Com base nesse último elemento, tentei destacar como a reflexão gramsciana sobre Dreyfus e Boulanger se insere de maneira profícua na análise política do Gramsci maduro, sublinhando a ligação com alguns dos principais temas desenvolvidos nos Quaderni 13, 14 e 15, num contraponto de referências textuais aqui necessariamente apenas esboçados, mas, creio eu, absolutamente dignos de nota.

À luz do que surgiu, parece-me que posso concluir que a importância de refletir sobre a Terceira República se deve especialmente à sua “instabilidade”, muitas vezes assinalada, e que é precisamente o que faz dela, para Gramsci, um extraordinário laboratório político para interpretar eventos contemporâneos. Em outras palavras, é precisamente a partir, entre outras coisas, do que aconteceu na França de Boulanger e Dreyfus que Gramsci refletiu sobre o que aconteceu na Itália entre os anos 1910 e 1920 e, mais genericamente, sobre as radicais transformações que ocorreram no panorama político europeu e mundial do primeiro pós-guerra, que os Quaderni, em última análise, propuseram-se a entender.

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1. Este texto é a tradução de um ensaio que aparecerá em breve em um volume organizado R. Descendre e J.-C. Zancarini (La France d’Antonio Gramsci. Lyon, ENS Editions, no prelo). Agradecemos aos organizadores por permitirem a reprodução do ensaio aqui.

2. A esse respeito, por exemplo, ver as reflexões de Burgio (2014). Sem prejuízo do importante papel dos assuntos franceses na elaboração histórico-política dos Quaderni, deve-se lembrar que a temporalidade europeia é, na concepção gramsciana, intimamente “plural”, isso significa que cada país se desenvolve de acordo com seu próprio tempo, o qual difere do de outras nações e interage com eles. Ver a esse respeito Thomas (2018).

3. Deve-se notar que, embora a questão da relação entre Gramsci e a França seja referida em numerosos trabalhos, ainda falta uma análise específica e verdadeiramente exaustiva do assunto em questão. Uma exceção parcial é representada por Gervasoni (1998), que, no entanto, pode perfeitamente ser retificada em muitos aspectos.

4. Dado o corte teórico-interpretativo deste trabalho, optei por não me deter na dimensão histórica stricto sensu desses dois momentos da história recente da França, para os quais me referi ao extenso e articulado debate no contexto historiográfico.

5. A. Gramsci. “I moventi e Coppoletto”. Avanti!, 19 apr. 1916 (Gramsci, 1980, pp. 265-266); A. Gramsci, “Carlo Péguy ed Ernesto Psichari”. Avanti!, 6 mag. 1916 (Gramsci, 1980, pp. 291-292).

6. Sobre os modelos politico-culturais dos socialistas de Turim, ver Rapone (2011).

7. Sobre a relação entre Péguy e Gramsci, ver especificamente Forcina (1980); ver também Carofiglio (1978, pp. 607-615). Indicações sobre o assunto também estão contidas em vários outros trabalhos relacionados com a concepção política e intelectual do “jovem” Gramsci (ver, por exemplo, o livro de Rapone acima mencionado) ou a sua relação com a cultura francesa (ver Gervasoni, 1998).

8. Sobre a figura de Luigi Cadorna e o significado político da derrota na batalha de Caporetto, ver D’Alessandro (2011). Sobre a questão me permito, além disso, de remeter a Antonini (no prelo).

9. A. Gramsci. “La botte senza cerchi”. Il Grido del Popolo, 9 mar. 1918 (Gramsci, 1982, p. 719).

10. A. Gramsci. “Elementi minimi di un processo. Una figura balzacchiana”. Avanti!, 11 apr. 1918 (Gramsci 1982, p. 818).

11. A. Gramsci. “La caduta del fascismo”. L’Ordine Nuovo, 5 nov. 1924 (Gramsci 1971, pp. 208-210).

12. No dia 10 de junho de 1924 o deputado socialista Giacomo Matteotti foi raptado e assassinado por uma squadra fascista, provavelmente a mando do chefe de governo Benito Mussolini. O episódio deu origem a uma séria crise parlamentar (N. do T.).

13. Sobre a convicção, alimentada por Gramsci durante toda a segunda metade de 1924 de que a crise aberta com o delitto Matteotti teria provocado o fim do regime fascista, ver Paggi (1984, pp. 215-222).

14. Por outro lado, deve-se notar que desde esse artigo Gramsci parece ir além da interpretação puramente moralista da comparação com o processo Dreyfus, já sugerindo uma leitura “partidária” do fenômeno (em termos de alternância no governo) que será depois retomada e desenvolvida nos Quaderni. Embora colateral, essa anotação destaca a distância entre os escritos jornalísticos dos anos 1910 e meados dos anos 1920, nos quais a visão gramsciana é indubitavelmente mais complexa e articulada.

15. Sobre a questão da “renovação” no pensamento pré-carcerário de Gramsci, ver Rapone (2011).

16. A referência aqui e a seguir é a Gramsci (1975).

17. Para a primeira redação Q 1, § 48, p. 60: “No affaire Dreyfus culminou a luta para paralisar a influência clerical-monárquica no aparelho estatal e dar ao elemento secular a clara prevalência”.

18. Para a primeira redação Q.4, § 49, p. 482: “Pode-se dizer em geral que na América meridional e central ainda existe uma situação de Kulturkampf e do processo Dreyfus, isto é, uma situação em que o elemento laico e civil ainda não superou a fase de subordinação do clero e da casta militar à política laica”.

19. A bibliografia sobre a concepção gramsciana de hegemonia é muito ampla. Ver, mais recentemente, Cospito (2016, pp. 49-88) e Vacca (2017, pp. 21-93).

20. Metodologicamente falando, isso destaca os “limites” da mesma varredura cronológica proposta por Gramsci nos Quaderni (ou talvez, melhor dizer, das leituras que com base nos Quaderni têm sido propostas – ver novamente Burgio, 2014), assim como a singularidade das histórias nacionais.

21. Sobre a fratura história de 1870-1871, ver Burgio, (2014, pp. 157-164). Sobre a questão da “crise orgânica” (em conexão com a questão afim da “crise de autoridade”), ver os verbetes relativos em Liguori e Voza (2009, pp. 179-182). De modo mais geral, ver o verbete Crisi (Idem, pp. 175-179).

22. Sobre a transformação da hegemonia na passagem da idade moderna à contemporaneidade, ver Frosini, (2016b, pp. 126-166).

23. Sobre essa questão ver, em particular Gervasoni (2009, pp. 123-146). Sobre a temática mais ampla dos intelectuais ver, entre outros, Frosini (2011b, pp. 905-924) e Thomas (2014, pp. 71-106).

24. Também vale a pena mencionar outra nota que contém uma referência en passant a Dreyfus: é o Q 6, § 42, um texto de única redação no qual Gramsci comenta um artigo de Arrigo Cajumi sobre Giovanni Cena que apareceu na Italia letteraria de 1929. A referência a Dreyfus está contida nas citações de Gramsci e não é objeto de novas revisões.

25. Sobra a passagem dos Q 8, § 21 ao Q 13, § 1, com particular referência à questão do moderno príncipe, ver Thomas (2017).

26. “Seria possível fazer uma pesquisa sobre as opiniões emitidas sobre o desenvolvimento de certos movimentos políticos, tomando como arquétipo o chamado boulangismo (aproximadamente de 1886 a 1890) e até mesmo o golpe de Estado de 2 de dezembro de Napoleão III. Pode-se descobrir que o raciocínio estereotipado do economicismo histórico é geralmente muito simplista: quem se beneficia imediatamente?” (Q.4, § 38, p. 464).

27. Compare toda a passagem: “É claro que enquanto esses movimentos não chegaram ao poder, pode-se sempre pensar que eles falham e alguns falharam (o boulangismo em si; Valois-Gayda): a pesquisa então deve ir em busca dos elementos de força e os elementos de fraqueza que eles contêm dentro de si: a hipótese ‘econômica’ afirma um elemento de força, a disponibilidade de uma certa ajuda financeira direta ou indireta (um jornal que apoia o movimento é ajuda financeira indireta) e isso é tudo. Muito pouco. A pesquisa, portanto, como eu disse, deve ser feita na esfera do conceito de hegemonia” (Q.4, § 38, p. 464).

28. Com relação à chave de leitura “antieconomicista” encarnada no Dezoito brumário de Marx, permito-me encaminhar a Antonini (2018), bem como Antonini (no prelo).

29. Ver Q 15, § 57, p. 1819: “Deville argumenta em grande medida que a campanha em defesa de Dreyfus fortalece os militares e pode ameaçar uma reação. O infeliz não vê que o contrário é verdadeiro: a reação se expressou e foi interrompida por uma resistência inesperada na qual os progressistas foram auxiliados pelos moderados. As pessoas que não perceberam o movimento real, detidas pela aparência enganadora das eleições, acreditavam que a França marchava para o socialismo; eu vi sempre que caminhava para o cesarismo. O movimento aparece agora porque existe uma pedra na engrenagem, seus dentes rangem e se rompem; mas esta não é a pedra que deu origem à máquina, mas a força que obriga o cego a enxergar”.

30. A passagem em Notre Jeunesse é a seguinte: “Em outras palavra, o Primeiro Império não foi o que chamamos de cesarismo, o Segundo Império foi. O boulangismo foi um cesarismo, existia muito cesarismo no antidreyfusismo e nenhum na defesa de Dreyfus. A dominação combista foi realmente cesarista e perigosa pois foi se apresentou como republicana. A dominação radical e radical-socialista é uma forma de cesarismo, a saber, um ‘multicesarismo’ dos comitês eleitorais” (Péguy 1910, p. 37; é essa a edição que muito provavelmente Gramsci leu, muito embora em seu Fundo documental localizado na Fondazione Gramsci de Roma não se encontrem obras de Péguy). [A “dominação combista” é uma referência aos partidários de Émile Combes, artífice de lei de separação entre Igreja e Estado adotada na França em 1905. Nota do Tradutor.]

31. Sobre a questão, ver Gentile (1998, pp. 497-511) e Matard-Bonucci (1998, pp. 103-114), bem como a bibliografia contida nos respectivos ensaios. Deve ser notado que o estudioso francês também menciona uma análise da interpretação gramsciana que antecipa, ainda que resumidamente, alguns dos pontos mais amplamente desenvolvidos neste trabalho.

32. Deve-se excluir que Gramsci possa ter lido o capítulo da Storia d’Europa no qual a Terceira República francesa é analisada. Com base no Fundo Gramsci sabemos, contudo, que ele tinha outra memória em suas mãos, intitulada Contrasti d’ideali politici in Europa dopo il 1870 (Croce, 1928), definida no texto introdutório como um “corolári[o] dos Elementi di politica”, no qual os temas contidos são parcialmente sugeridos, embora de maneira mais sintética e com uma inclinação mais teórica (Croce, 1928, p. 6). Sobre a leitura croceana de Gramsci e sua interpretação da Storia d’Europa, ver em particular Frosini (2012, pp. 141-62) e Frosini (2013, pp. 545-89, em particular p. 547n); por último, ver Frosini (2016a, pp. 759-766).

33. Ver, a respeito, o verbete Francia no Dizionario gramsciano (Liguori e Voza 2009, pp. 333-334), mas principalmente Rapone (2011), Gervasoni (1998) e Paggi (1970). Especificamente dedicado ao tema é o artigo de Bellingeri (1975, pp. 63-80). Mais amplo sobre os laços culturais entre a França e a Itália entre o final do século XIX e o início do XX, ver Mangoni (1985).

34. Ver Michels, 1927. Ver a seguinte passagem da carta de 30 de maio de 1928 a Berti: “R. Michels, La Francia contemporanea. É uma fraude livresca. Trata-se de uma coleção, sem nexo, de artigos sobre alguns aspectos muito parciais da vida francesa” (Gramsci 1996, p. 154).

35. “Um livro de Alessandro Zévaès, Storia della terza repubblica – La Francia dal settembre 1870 al 1926 – muito superficial, mas divertido. Anedotas, grandes citações etc. Ele serve como um lembrete dos eventos mais importantes da vida parlamentar e jornalística francesa” (Gramsci 1996, p. 153). O volume é: Zévaès (1926); o texto não está presente no Fundo Gramsci, mas, com base no testemunho epistolar, é indubitável que ele o leu.

36. Ver, a propósito desta instabilidade, Gervasoni (1998, pp. 129ss.)

37. Ver a seguinte passagem: “Um episódio histórico muito importante deste ponto de vista é o chamado movimento pelo caso Dreyfus na França; também faz parte desta série de observações, não porque levou ao ‘cesarismo’, ou melhor, pelo contrário, porque impediu o advento de um cesarismo que estava sendo preparado, de natureza claramente reacionária. [...] Do tipo Dreyfus encontramos outros movimentos histórico-políticos modernos, que certamente não são revoluções, mas não são completamente reações, pelo menos no sentido de que mesmo no campo dominante eles quebram as cristalizações estatais sufocantes” (Q 14, § 23, p. 1681). Nesta nota ver mutatis mutandis Antonini (no prelo).

38. Para uma análise mais extensa da reflexão política do último Gramsci e, em particular, nos últimos cadernos miscelâneos, permito-me indicar Antonini (2019).

39. Ver também: “na velha sociedade existiam forças laboriosas latentes que não podiam ser exploradas pelos velhos líderes, embora ‘forças marginais’, mas não absolutamente progressistas, já que não podem ‘fazer época’. Tornaram-se historicamente eficientes devido à fraqueza constitutiva do antagonista” (Q 14, § 23, p. 1681).

40. À margem gostaria de apresentar uma hipótese sobre a motivação da adição da referência a Dreyfus na segunda redação localizada no Q 13, § 18 e, portanto, para a datação da própria nota. Se, de fato, como acredito, não se pode pensar em um estímulo “externo” (livro ou artigo) que teria levado Gramsci a fazer as mudanças mencionadas acima, prefiro me inclinar a uma causa “interna”, ou seja, devido a um interesse crescente de Gramsci pelo caso Dreyfus. Desse ponto de vista, creio que também vale a pena ler a “continuidade” entre Q 13, § 18 e Q 14, § 23. Do ponto de vista cronológico, essa conexão poderia então ajudar a nos orientar melhor na cronologia do Quaderno 13 (que de outro modo seria muito vaga; ver a cronologia apresentada no apêndice a Cospito, 2011, pp. 881-904). Pode-se, portanto, datar o § 18 por volta de janeiro de 1933 (quando foi provavelmente escrito o Q 14, § 23), sem, contudo, poder estabelecer com certeza uma “primazia” entre as duas notas. A “regra” não escrita (mas válida para muitos pontos dos Quaderni) indicaria que primeiro vem a mais concisa e depois a discussão mais ampla (portanto, nesse caso, primeiro Q 13, § 18 e depois Q 14, § 23); no entanto, é verdade que, como § 18 é a segunda versão do texto e, além disso, em um especial “particular” como o Q 13 (mantido “aberto” durante a escrita dos cadernos miscelâneos 14, 15 e 17), não deve ser excluída a hipótese contrária. Sobre a cronologia do Q 13, ver Gramsci, 2009, v. 14, pp. 153-154; sobre a cronologia dos últimos cadernos miscelâneos, ver Francioni (s. d.); Antonini (2019) aponta para essa mesma direção.

41. Note-se, em particular, o uso da expressão “fazer época”, que, além dos §§ 23 e 76 do Quaderno 14, retorna apenas mais uma vez nos Quaderni, assim como o termo “latente”, que, presente no Q 14, § 23, também retorna no § 76 (“despertar das forças sociais latentes e adormecidas”, p. 1744). Esses elementos representam mais uma prova em favor da tese recentemente apoiada por Gianni Francioni da escrita “contínua” do Quaderno 14 durante 1933, contra a datação anteriormente proposta do caderno, que afirmou sua conclusão mais de dois anos após seu início, em 1935. Ver Francioni (s.d.).

42. Sobre esse ponto, ver também Gagliardi (2016 e 2017).

43. Apenas para citar alguns textos, entre aqueles precedentemente mencionados, mas não apenas: Q 13, §§ 23, 27 e 37; Q 14, §§ 3, 74 e 76; Q 15, §§ 47, 48 e 57.

44. Ver, por exemplo, como se alude explicitamente a este último elemento no Q 15, § 57, retomando formulações presentes, por exemplo, em Q 13, § 23, Q 14, § 34 (mas também nos §§ 74-76).

Recebido: 9 de Maio de 2019; Aceito: 11 de Maio de 2019

FRANCESCA ANTONINI é pesquisadora do LabEx COMOD, Université de Lyon – UMR 5206, ENS de Lyon (França). E-mail: francesca.antonini@ens-lyon.fr.

Tradução de Alvaro Bianchi

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