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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.30 no.87 São Paulo mai./ago. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142016.30870019 

Indigenismo

Aula Magna de Pedro Arara Karo.1 Arara Karo: a persistência de um povo

BETTY MINDLIN I  

IInstituto de Antropologia e Meio Ambiente, São Paulo/São Paulo, Brasil.

resumo

O líder Pedro Arara Karo, de Rondônia, faz um depoimento sobre a sua expulsão da terra indígena nos anos 1960, junto com a mãe e os irmãos, por seringalistas que os ameaçavam de morte. Os invasores empregavam os índios em regime semiescravo de barracão. Pedro cresceu como trabalhador em seringais sem saber que era índio e voltou adulto ao seu povo, que o escolheu como chefe. Seu irmão mais velho, o pajé Manuel, relata como convive com seres do além e como foi iniciado, quando seu pai morto lhe apareceu em forma de onça. A mãe de Pedro foi cozinheira no Posto Indígena Roosevelt, nas terras Cinta Larga, e ficou um mês desaparecida, abrigada nas aldeias indígenas, quando ocorreu o trágico episódio da morte de dois jovens funcionários da Funai em 1971, Acrísio Lima e Possidônio Cavalcanti. A exposição de Pedro é exemplar sobre a formação do povo brasileiro.

palavras-chave: Autobiografia indígena; Massacre; Renascimento; Povo; Líder.

abstract

Pedro Arara Karo, a First Nation leader from Rondônia, tells us in his autobiography how, in the early sixties, he was expelled with his mother and brothers from their land by rubber barons who threatened to kill them. The Indians were employed as slave laborers on their own land in the rubber plantations. Karo grew up working for non-Indians and had no knowledge of his own language or origins. Only as an adult did he return to his people, who then chose him as their chief. Shaman Manuel, his older brother, explains how he mingles with divine beings and how he was initiated by their dead father, who appeared to him as a jaguar. Karo's mother was a cook at the Roosevelt Indigenous Post, in the land of the Cinta Larga people, and disappeared for more than a month, when two young Funai employees were killed in 1971. It was later found that the Cinta Larga had protected her in their villages. Karo's statement may be taken as an example of how the Brazilian Nation was born.

keywords: Indigenous autobiography; Massacre; Rebirth; Peoples; Leader

Os depoimentos de Pedro Agamenon, de seu irmão Manuel e de outros parentes são um retrato eloquente do destino dos Arara Karo num Brasil contemporâneo, de meados do século XX até hoje. Exemplo da formação do povo brasileiro, no país que expulsa os donos da terra originários, altivos, e deles faz trabalhadores subalternos; mas também da persistência das raízes, da língua, e da alegria de pertencer a uma vasta família e a um perfil cultural único, a um povo, enfim, que não é apenas brasileiro.

Líder marcante, Pedro Agamenon dá a aula magna, em 13 de maio de 2002, na escola da aldeia Pãigap dos Arara, na Terra Indígena Lurdes, Rondônia, terra demarcada que os Arara Karo compartilham com o povo Gavião Ikolen. O público é composto por professores indígenas, seus alunos, adultos curiosos, educadoras da Secretaria de Educação (Seduc) de Rondônia. Pedro dirige-se a mim com frequência, pois sou a professora visitante que solicitou sua presença e registrou sua fala. Pedro cresceu longe da terra e da comunidade Arara, sem sequer saber que era índio ou falar a língua indígena. Só adulto descobriu os seus e tornou-se para eles um defensor indispensável. Teve que reaprender como viviam, tentou ativar a memória da língua. Presenciou tragédias como a dos Cinta Larga, sempre acusados de violência, quando eles é que sofreram massacres de crueldade requintada, o mais famoso o de 1963, conhecido como o Massacre do Paralelo 11.

Seu irmão Manuel, pajé, secunda-o como expositor, apenas na língua indígena, que pertence ao tronco tupi e à família rama-rama. Exibe uma imensa cicatriz, resultado de um embate com uma onça, que o atacou quando era menino, pouco depois da morte do pai de ambos. O ataque partira da alma do pai em forma de fera, explica, convocando-o a se tornar pajé.

Outros Arara relatam como foram trocados por uma peça de roupa; como suportaram ataques de povos hostis, hoje seus amigos; como foram dados, crianças, a famílias da cidade, para virar agregados semiescravos, sem acesso à própria tradição nem à instrução cidadã.

Apesar dos traumas, atravessaram décadas sem ser triturados, e aí estão explicando o que é ser pajé, narrando episódios de aparições, almas, fantasmas, adquirindo habilidades como professores bilíngues, rindo, brincando, exibindo um temperamento que sempre foi de paz, pouco belicoso.

Em 2004, dois anos depois, a bela conferência de Pedro, transcrita sem qualquer edição, foi lida em classe no Projeto Açaí de formação educacional por quarenta professores indígenas de povos de língua tupi-mondé, além dos Arara Karo. Mesmo na longa versão, provocou um interesse maior que o de qualquer outro texto, literário ou de história. A classe lia em silêncio, sem pausas, suspensa ao enredo, reconhecendo sua história na de Pedro Arara.

* * *

Primeiros contatos dos Arara Karo com os invasores

Os Arara Karo em Rondônia, nos anos 1940, é que foram os primeiros a admitir o contato com seringalistas invasores, antes mesmo dos Gavião Ikolen. O seringalista que eles consideravam amigo e pai, pois em princípio não se davam conta das consequências da relação nascente de patronato e barracão, foi José Bezerra de Barros, dono do seringal Santa Maria. De aproximadamente 1953 em diante, um Arara e um Gavião moraram três anos com ele.2Os Arara trabalharam também para o seringal Eduardo Barroso (vendido depois, segundo afirmam, à empresa Triangulina, e em seguida a Mario Piloto), e para um terceiro, o de Firmino e Miúda, de nome N.S. da Penha, na beira do rio Machado, perto do igarapé Lurdes.

No final da década de 1950 o capataz ou seringalista Pedro Lira, no rio Urupá, seringal Tapirema, planejou matar os índios, para roubar-lhes as terras. Os Arara ouviram um boato e fugiram para o seringal da Penha e para o de Santa Maria. Essa expulsão deve ter ocorrido pouco depois de um lamentável ataque dos Gavião Ikolen aos Arara em 1959. Veremos que Pedro se refere a uma matança feita pelos Gavião (sabe-se que houve sete mortos), mas a que provocou seu exílio foi essa outra ameaça de seringalistas.

* * *

Início do contato Arara-Karo com os Ikolen

O primeiro contato dos Arara com os Gavião Ikolen é relatado por Digüt Ikolen,3expressando bem o susto, as visitas mútuas às aldeias, o encantamento das mulheres com os índios estrangeiros. Os Arara, que haviam feito o contato com o seringalista Barros, é que apresentaram a ele os Gavião Ikolen. Digüt relata essa primeira viagem.4Os Gavião apanharam gripe no barracão, e alguns dos seus morreram ao voltar para a aldeia. Em represália, os Gavião atacaram o seringal, e feriram dois seringueiros. Barros indispôs-se com os Arara, julgando-os aliados dos atacantes, mas fizeram as pazes. Quanto aos Gavião, ficaram um bom período sem aparecer no seringal. Tudo isso deve ter sido nos anos 1950, como nos conta Digüt.5

A palavra com Pedro Agamenon

Na época em que meu pai nasceu, não existiam os "brancos",6 ninguém falava deles, nem existia SPI (Serviço de Proteção aos Índios). Não sei dizer que tempos eram, que ano, nem quando eu nasci. Eu me formei fora dos Arara, acompanhado de minha mãe e três irmãos. Eu não se lembrava de nada. Nem falava a língua, esqueci. Como ia recordar a nossa vida?

O que vou passar para você é o que eu penso, é a verdade, mas é o que aprendi depois, pois como ia saber sem conhecer meu povo? Eu não sabia de nada, porque o branco pegou a gente e levou, criou para lá, nós nem sabíamos se existia parente da gente. Porque é como eu estava dizendo para você, naquela época diziam para o índio: "dá seu filho para mim", o índio dava, e nem o índio sabia, nem dava valor. A nossa história, analisando bem, é muito triste, depois do contato com os brancos. É até muito difícil contar. Não foi quando apareceu o SPI que os Arara passaram a trabalhar nos seringais, foi muito antes, o Arara já vinha sofrendo. A nossa terra é aqui, nós Arara não viemos de fora, mas quem chegava dizia que a terra não era nossa, que a gente vinha de longe, e falavam, "eu não tenho terra, vou pegar o índio para trabalhar, vai servir de peão". E ficavam na terra. No seringal, era viver só para comer, era muito duro. Depois que o SPI veio melhorou, foi mudando. Eles podiam explicar bem como foi, como é que os Arara perderam muitas terras aqui. O branco fala que o índio está acabando, está sumindo, mas os que vieram de fora sabiam muito bem que eles é que estavam de propósito dando um fim nos índios.

Essa área nossa é grande, tudo isso em volta é nosso. Os parentes nos contam, nós não viemos de fora, nosso povo vivia aqui, nós temos cemitério aqui mesmo, em Nova Colina, essa cidade de hoje, tudo por aqui era nosso.

Da Fazenda Catuba para cá, eram os Arara que comandavam, até no Igarapé Água Azul. Da Serra da Providência para lá era dos Gavião Ikolen. Não tinha esses dois povos juntos como hoje na Terra Indígena Lurdes. As terras dos Gavião eram para lá. Com o ataque dos fazendeiros, com a invasão de seringalistas e seringueiros, os Ikolen foram correndo, fugiram, perderam as terras. Nosso povo, para que os Ikolen não morressem, eu não sei, nesse ponto eu não sei explicar para vocês, não sei como eles aceitaram os Gavião Ikolen vivendo junto na terra dos Arara. Naturalmente para não ver matarem todos, penso assim. Desses tempos para cá, antes de ter contato, os Gavião guerrearam com nosso povo. Eu acho que nesse tempo não sei se eu já tinha nascido, no tempo que meu pai fez contato com os brancos. Quem teve contato primeiro com os brancos não foi Gavião, foi Arara, eu não sei se eles, os Ikolen de lá, falaram para você.

* * *

Meu pai está enterrado ali, no Riachuelo, dentro daquela fazenda do Mario Piloto, mãe contou para mim. Essa fazenda antes era o seringal do Eduardo Barroso. Minha mãe disse que eu nasci aqui no Setembrino, onde bem mais tarde a Funai fez pista de pouso, diz que eu nasci ali. No tempo de meu pai e minha mãe, não existia branco, ninguém nem falava em branco, nosso povo ia para a beira do rio, matava peixe de flecha, na beira do rio Machado, ninguém falava em branco. Manuel, meu irmão, mais velho que eu, nasceu noutra aldeia. Acho que depois que meu pai teve contato com branco foi que eu nasci. Minha história sofrida, como eu estou contando, é que eu não sabia de nada, porque se eu tivesse nascido aqui dentro das nossas terras, eu ia saber e ter lembrança de como se deu meu nascimento, o contato com os de fora, tudo.

* * *

Contato

Os Arara viram os brancos vestidos, foram lá; então ajuntou, meu pai, outro tio, pai do meu pai, para ter contato com o seringal do finado Barros. Foram, depois é que os Gavião vieram fazer visita aos Arara. Depois que meu pai fez amizade com os brancos, aumentou o sofrimento do povo Arara, viram começar a morrer os parentes, viram abrir os seringais - os de fora achavam que eram os donos das terras dos índios, achavam melhor matar os índios, acabar conosco, assim iam poder ficar com tudo. É uma história muito difícil de contar.

Quem podia contar a realidade para você é o nosso povo mais antigo, porque eu nem sabia. Só depois, homem feito, é que eu voltei e conheci minha aldeia. Todo mundo ficou admirado: "eu não sei como você veio de novo, porque você nasceu e saiu daqui pequeno!". Eu não lembrava mais que existia parente, nem minha mãe contava para mim. Para ela todos tinham sido mortos, dizia que não sobrou ninguém, não lembrava de contar que ainda existia o nosso povo em algum lugar. Os Gavião tinham atacado, mataram, ela contava só isso. Ela não falava que escapou fulano, que ficou lá.

Morte do pai e saída do povo Arara

Meu pai estava trabalhando no seringal do Mario Piloto - naquela época era o Barroso o dono. Alguém falou para os seringueiros, vamos acabar com os índios todos. Nesse tempo os índios não tinham apoio, não dava para pedir socorro a ninguém, não existia nem SPI. Minha mãe ouviu os seringueiros dizerem: "Vamos acabar com os índios, nós ficamos com tudo, com as terras". Meu pai já estava muito doente. Ali mesmo onde meu pai está enterrado, como eu contei para você, minha mãe ouviu dizer que iam acabar conosco. Os seringueiros todos se ajuntaram, minha mãe contou, vieram de todas as colocações, foram chamados para o barracão. Os Arara trabalhavam no meio deles, entendiam tudo que falavam. Minha mãe tirou meu pai de noitezinha, ele nem conseguia andar, fizeram rabo de jacu para carregar ele, mas não aguentou, quando foi de noite ele faleceu. Só ela e o cunhado que meu pai tinha, irmão dela, é que estavam junto para carregar.

Esse pedaço eu vou contar. Foi assim. Quando eu já estava nascido, meu pai adoeceu, naquele seringal, nessa fazenda que está passando aqui por dentro. Eu não gosto nem de passar naquele lugar, porque depois que minha mãe me contou que meu pai está enterrado lá, no Mário Piloto, que antes era o Barroso, eu não gosto mais de andar lá dentro. Às vezes pode ser que a gente esteja passando até por cima do cemitério, vai lá saber, o que não fizeram com os ossos do meu pai? Eu fico triste até hoje... Não conheci meu pai, mas pai é pai. Nem que não conheço, mas considero. É o que eu sinto até hoje. Porque a gente perdeu as terras, perdemos para fazendeiro!

Quando meu pai morreu, era na maloca, não foi no seringal. Ele saiu da maloca para não morrer, porque o branco já estava pronto, junto da gente, para matar, é o que tinham ouvido. Minha mãe e o irmão pegaram meu pai de noitezinha, para ninguém ver, levaram para o mato, mas ele não resistiu. Ali tudo era mata, pelo que minha mãe contava.

Se eu soubesse a história, eu contava. O que eu estou contando é o que minha mãe contou. Minha mãe foi para a beira do rio, depois que meu pai morreu, ela ficou comendo castanha com a gente lá no mato, comendo quase nada, porque não podia ir para o seringal com medo de o branco nos matar. Ficamos, eu também junto, menino pequeno, fomos para a beira do rio. Vinha motor subindo, motor encostou, era o finado Joacir, que já foi morto também. Era gerente, era pistoleiro do finado Barros, esse seringalista que nos criou, nós Arara. Foi ele que pegou e nos levou para Pimenta. Eu, meu irmão Manuel, o outro meu irmão que morreu no ano passado, mais um irmão e minha mãe.

Joacir nos levou para o outro lado do rio, mas já estava de saída para Pimenta (Bueno), e disse: "Vocês não podem ficar aí jogados, de repente seringalista vem e mata vocês todos, então vou levar vocês". Conversou com minha mãe, diz que então nos levou. O cunhado do meu pai, que estava junto, ele foi, mas parece que ficou no seringal Santa Maria, não seguiu junto.

Joacir foi para Pimenta conosco. Os quatro, acabamos de nos criar por lá. Ficamos trabalhando, cuidando das coisas. Eles estavam grandes, os dois irmãos que já morreram, trabalhavam, cortavam seringa, cortavam borracha para poder vender para comprar as coisas para a gente, com medo. A gente foi crescendo, tem aquele ditado que o branco fala, o pescoço já aguentava pancada.

Eu, assim que me tornei rapaz crescido, eu digo não, já que é assim, que nós já estamos sofrendo até agora, então vamos ficar por conta que a gente ganha mais. Eu comecei a conversar com os brancos, explicando a situação. Joacir, o patrão, era bom, mas a mulher dele era muito ruim conosco. Eu falei, já chega de padecer, vamos trabalhar, tem tanto branco aí, acho que nós aguentamos pancada demais. Para ser escravo depois de grande, falei, nós vamos nos virar. Largamos, ele morreu, ela não dava certo conosco, ela ficou com medo, porque ele tinha muita coisa, esse finado Joacir tinha muito gado, muita terra. O que ela fez conosco, ficou com medo que nós tomássemos tudo que ela tinha. Ela pensou, eles são muitos, vão tomar tudo do velho, vão me deixar sem... Mas foi muito engano, nós estávamos prontos para ajudá-la. Se ela deixasse, nós iríamos melhorar a situação dela e a nossa também, nós vivíamos até hoje por lá. Isso foi antes do SPI. "A gente ficar preso, sem direito a nada", então falei, "vamos cair fora. Vamos trabalhar por conta própria, vamos ter mais lucro." Manuel foi para um canto, eu fui para outro, depois todos os três chegávamos juntos, sempre minha mãe me acompanhava, onde eu ia minha mãe acompanhava junto.

Nós começamos a trabalhar de empreita, no Riozinho.

SPI apareceu quando eu estava trabalhando com os brancos. Fazia roça, pegava empreita de arroz. Fiquei um tempão no Riozinho. Cacoal não tinha cidade, tudo era mato, ninguém nem falava em cidade, você não via pista de avião, não tinha casa, só tinha casa na beira do Riozinho, onde é hoje a associação dos Suruí Paiter e dos Cinta Larga, umas casinhas, e assim mesmo era do seringalista. A gente começou a lutar, foi o tempo que o SPI veio, dizendo "vocês têm parentes!". Não explicaram que jeito eram os parentes, sem explicar quem eram a gente não ia chegar perto para conhecer.

Minha mãe sabia, mas não contava, acho que ela tinha medo de falar e o branco nos matar, acho que ela tinha essa cisma. Ela falava em português comigo. Meu irmão Manuel diz que eu não falava a língua, mãe e os irmãos falavam comigo mas eu não respondia, não aprendia, me recusava a falar. Manuel e os outros dois, todos mais velhos que eu, falavam com mamãe.

Nós três trabalhávamos, depois eu estava aqui na Vista Alegre na labuta, quando o SPI foi atrás de mim para me buscar. Vieram, conversaram com um cearense que eu trabalhava com ele. "Nós viemos atrás do índio, diz que tem um índio Arara aqui, perdido..." Fiquei lá um tempão, eu não ia para lá não, vou ficar aqui, ganhando meu dinheirinho...

Quase todo dia vinham lá, porque fizeram o acampamento do SPI no Riozinho.7 O primeiro contato foi com Suruí, já fizeram a sede ali, do SPI, quase todo fim de semana iam para lá. Era o Apoena e o pai, o Chico Meireles. Quando eu fui para o Riozinho de novo, os Suruí estavam começando a entrar em contato. Fui contratado como caçador para a expedição de contato... Fiquei uns tempos. Passei uns quatro meses trabalhando como caçador. Nunca vi Suruí nesse tempo, mas sempre via quando vinham no Riozinho bagunçar.

Fiquei caçando para os funcionários da Funai. No posto que abrem para contato tem que ter muita gente, porque os índios de repente atacam mesmo, os Suruí não eram brinquedo, eram perigosos, até hoje são perigosos, mesmo depois de mansos. Depois desses quatro meses eu fui para o Rio Roosevelt, o posto da Funai na terra dos Cinta Larga. Eram Zé Bel e Apoena os chefes da Funai. Eles ficaram um mês na cidade, me largaram lá sem nada, com dez índios Cinta Larga. A munição, eles me deixaram. Fiquei um mês, sozinho e Deus, vendo a água correr. Os índios, tinha aqueles índios, o Maloqueiro, o Baiano, falaram "vamos embora para a maloca, a Funai jogou você fora". Eu digo "não, se é para ir embora, eu vou me embora para Riozinho, não vou não". "Ah, você está com medo de nós matarmos você, nós não vamos matar não... Você é índio também." "Não, não é medo de morrer. É que me deixaram aqui como chefe de Posto, estou assumindo cargo de chefe de Posto. Não posso abandonar esse Posto enquanto a Funai não vier." Eu vou contar o que eu passei. Eu cheguei a tomar mingau de abóbora junto com os índios para não morrer de fome. Eles iam no mato e traziam para mim, matavam caça, tiravam o couro, penduravam. "Nós matamos bichos, está ali seu pedaço..." Eles foram muito bons, eram perigosos, mas eu estava lá. Para ir para Riozinho tinha que gastar um mês. Para subir tinha que ir agarrando nos paus. Eu voltei em animal. Naquele tempo não tinha pista de pouso, eu ajudei a abrir a pista.

Fui lá como braçal. Da primeira vez, fiquei seis meses no Roosevelt, com os Cinta Larga, sem ir na cidade, comendo paçoca de milho, milho torrado. O pessoal do SPI não me deixaram nada. Tinha que comer o que os Cinta Larga me dessem, não sendo veneno... Quando o outro chefe de Posto saiu, foi firme com eles, explicou que eu ia ficar como chefe de Posto, no lugar dele, tinham que respeitar. Maloqueiro já entendia um pouco de português. Avisou que ninguém podia fazer nada comigo, eu era do SPI, eles me trataram bem, até hoje sinto por eles, nessa luta que estão aí no garimpo...

* * *

Sobre a morte de Possidônio e Acrísio e a busca da mãe8

Minha mãe ficou em Riozinho, enquanto fui para o Roosevelt. Só depois é que minha mãe foi para lá no tempo da morte do Possidônio e do Acrísio. Ela estava lá, viu quando os Cinta Larga mataram. Diz ela que passou muito medo quando os índios mataram os dois. Eu, nessa hora, estava em Porto Velho, fui passar dois meses.

Disseram "tua mãe vai ficar aqui no Roosevelt para cozinhar para nós, você vai para Porto Velho, recebe seus dinheiros, descansa um pouco, compra a roupa que precisa e você volta". Só que aí fiquei um mês em Porto Velho...

Em Porto Velho, passaram um rádio para nós, "Os Cinta Larga mataram dois homens do Posto". Eu estava lá quando Apoena ligou para mim: "Ói, tua mãe! Cinta Larga acabou com todo mundo, não tem mais nada...". Corri para lá, tinha que ir, porque minha mãe estava lá! Por isso voltei para o Roosevelt. Ajudei a procurar, quem achou o corpo do Possidônio fui eu. Falaram para mim, "tua mãe já está morta". Eu digo, "se mataram minha mãe eu tenho que ir na aldeia para me matarem também". Fui embora para o mato de novo. Fiquei um mês, só depois que ela apareceu vim embora com ela. Ela sempre ficava mais comigo que com meus irmãos; era mais agarrada comigo. Se eu sofria, ela estava junto comigo.

Se for contar tudo o que o Cinta Larga passou... esteve perto de se acabar, o Cinta Larga. Não soltaram bomba nos Cinta Larga porque minha mãe estava lá. Eu digo porque eu vi, não foi contado para mim, eu estava lá, eu acompanhei a batalha, eu acompanhei a luta dos Cinta Larga todinha... O que o Cinta Larga passou... o Cinta Larga hoje não estava garimpando aí não; hoje estava todo mundo debaixo do chão. Eu conversei com Apoena, eu digo, não, falei para o Apoena, eu não estou duvidando de você, eu só peço uma coisa para você, como palavra de homem, eu dou um prazo de um mês, se minha mãe não aparecer vocês podem fazer o que vocês quiserem com esses índios. Se minha mãe não aparecer no prazo de um mês aqui no Posto, vocês podem fazer o que quiserem, podem queimar, tocar fogo. Dei um prazo de um mês, ele me obedeceu.9

Aqueles dois homens do Posto morreram lá no Roosevelt. Eu estou falando porque vi, acompanhei, ajudei a fazer o enterro. Acrísio ninguém achou, porque o que minha mãe falou é que partiram o bucho dele, jogaram uma pedra dentro, por isso ele não boiou. Ela era cozinheira. Era minha mãe. Eles mataram Acrísio de machado. Cinta Larga quando ele está com raiva do branco, ele não mata de flecha, ele mete o machado em você, facão, o que ele achar. Cinta Larga era difícil. Diz que foi próprio os comboieiros, falaram para os índios matarem. Muitos índios já sabiam um pouco de português, porque tinha garimpeiro ali. Muitos índios que viviam ali no Posto já sabiam o que o branco estava falando. Tinham há muito tempo contato com o garimpeiro. Tudo que passasse eles sabiam. O Baiano, outro empregado do Posto, mataram ele depois que eu saí de lá. Foi ele que veio com a armação dele, fez a cabeça dos índios para matarem os dois moços.

O Possidônio acabaram de matar de manhã. Ele se escondeu, mas a pessoa depois que leva a pancada na cabeça não tem mais aquela ação. Ele ficou no toco de um pau, na entrada tinha a picada que leva para Riozinho, amanheceu ele estava só... em vez de ter corrido. Numa hora dessas a pessoa não estava nem ligando.

Andamos dois dias de barco para achar o corpo dos dois, para ver se achávamos minha mãe também. Achamos o Possidônio... achamos porque foi matado de dia, deram três flechadas, dois tiros, cabeça dele você pegava parecia milho no papo da galinha. Ficou todo moído.

Com minha mãe foi assim que aconteceu. A mãe do Maloqueiro pegou ela, e disse, não fica com medo que nós não vamos te matar. Minha mãe estava chorando. "Não fica com medo..." - ficou segurando minha mãe. Com ela, estava segura, com a mãe do Maloqueiro. Roberto Carlos, naquele tempo era molecão, era mais magro, falou "ninguém vai fazer nada com você não, ninguém vai matar você". Roberto Carlos pegou e levou para a aldeia dele, que fica a cinco dias de viagem, a aldeia mais perto.

No dia que eu cheguei, andei o dia todinho, daqui acolá você via munição, charque, eles iam largando aquelas comidas, mataram até uma burrinha que nós tínhamos de caçar, longe assim, comeram o fígado da burrinha. História minha, que eu passei no meio desses parentes.

Roberto Carlos todo dia falava para ela, "seu filho voltou, está aí no Posto, ele não está mais na cidade". Quando completou um mês ele chegou com ela.

Eram umas quatro e meia para cinco horas quando ele gritou lá do outro lado. Era muita gente ali, nessas coisas tem que ter muito peão...

Fiquei uma semana lá e vim embora para o Riozinho. Depois, não sei se você se lembra do finado Brígido, foi chefe de posto no Roosevelt, também no Lurdes dos Ikolen, falou para mim "Você tem seus irmãos, seus parentes...". Eu falava, não sei se tenho parentes... Tem... Acho que ele sabia, perguntava para meus irmãos, os próprios índios falavam para ele que tinha nós no meio, eles descobriram. Quando terminamos todo o trabalho, falei, vamos embora para o Riozinho. Minha mãe estava muito doente, com dor de dente. Quando eu estava no Riozinho, Sr. Brígido conversou comigo. Ele morava no Riozinho com a mulher, D. Bela. Os parentes queriam me ver, se eu não quisesse morar, os parentes queriam que ao menos eu fosse passear...

Voltei para a aldeia Arara, estou contente de estar no meio do meu povo, sofri muito, mas a gente sempre está na mesma luta. O índio vivia de empregado igual ao branco.

Patrão dizia, você comprou essa mercadoria, tem que pagar agora, quero tantos quilos de borracha. Deu tanto de dinheiro, então eu quero essa borracha. Com todos (os problemas) de hoje, acho que melhorou muito nesse ponto, porque a gente não tinha direito nem nas terras da gente... todo mundo achava que tudo era só do branco... O branco achava que só ele tinha direito à terra... Para nós foi bom a Funai ter cortado um pedacinho de terra para nós....

* * *

A volta

Fui para o Posto no rio Lurdes. Ainda não tinha a aldeia central. Depois que eu vim é que começaram a abrir. Os Arara estavam lá no cantinho, na beira do riacho Orquideia. Pensei, vou lá passear. Minha mãe veio junto. Foi uma alegria danada, para eles nós já estávamos mortos, foi uma surpresa, nem sabiam se estávamos vivos, nós também, nem sabíamos se eles já tinham acabado... Alegria de todo mundo, todo mundo já estava esperando. Os Arara sempre moraram mais longe; dava três horas de viagem para o Lurdes. Fiquei conhecendo devagarzinho. Foram falando, fulano era seu parente, fulano era seu tio, primo...

A minha mulher, com quem eu sou casado até hoje, era pequena, era criança.

Um irmão meu morreu nos Karitiana. Manuel meu irmão estava em Ji-Paraná, estava trabalhando por aqui. Fui igual a um cachorro bom de caça, todo mundo estava de olho só em mim. Me levaram para a Funai. Até vir morar com o meu povo eu ainda ganhava salário da Funai. Eu não sou funcionário da Funai porque não quero. Só o sofrimento que passei... Apoena reconhece a dor que aguentei junto com meu irmão, com minha mãe. Estavam dando o maior apoio, mas eu não quis, vim para cá, pedi minha demissão.

Não sei nem em que ano vim para cá, para a terra Arara. Eu não vim para morar. Você vê como é minha história. Eu vim só para passear, e para voltar. Ia deixar minha mãe e ia embora para a cidade. Aí começaram... Você sabe como é o índio. "Você não vai mais..." Inventaram casamento para eu não ir embora. Eu pensava que não ia me acostumar, para mim estava bom. Pegaram minhas coisas, eu já estava de mala pronta para ir embora, esconderam minha mala. Casei... com essa mulher mesmo. Estou vivendo aqui até hoje... Meu filho mais velho é Agnaldo, tem 22 anos, nasceu na beira do Orquideia. Ernandez tem 18 anos, nasceu na Aldeia Central. Edilson nasceu no mesmo lugar. Fui eu que abri a aldeia central. Por isso que eu digo, eu sempre botava minha colher no meio, sempre fazia a cabeça, não sei se fazia bem ou se fazia mal, eu sempre dizia vamos fazer assim.... Eu sempre acho que eu era meio metido, meio atrevido, brigava mais com o branco, com a Funai. Depois que eu voltei para cá é que Arara consertou. Como o povo do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) diz, Carlinhos diz que sou muito bocudo, falo muito... Tinha outro cacique, Cícero Tiamot, mas eu sempre botava minha colher no meio. Mas eu dizia: eu quero assim, não quero assim. Meu povo está sofrendo, não quero que sofra. Se um tem direito, todo mundo tem que ser igual.

Sempre eu falava para a Funai, sempre eu cobrava da Funai. Começou assim. Acho que você lembra que na Aldeia Central tinha muita fruteira, muita plantação, muita fartura... Naquele tempo era pior, porque eu cansei de carregar gente nas costas. Parente nenhum fez o que eu já fiz. Já sofri naquela Central. A mulher do Benedito, eram três horas de viagem, nós tiramos dentro de três horas, para ela não morrer, na rede....

A Aldeia Central era no Setembrino. Da Serra da Providência para cá tudo era dos Arara... Só que, com o massacre dos fazendeiros, os Gavião pularam para as nossas terras. Da Serra da Providência para lá, era dos Gavião, até a divisa com os Zoró, com os Suruí, com o Madeirinha.

Se minha mãe não estivesse junto comigo enquanto cresci, eu não vinha mais para o mato não. Eu me considerava como branco. Eu não me considerava como índio. Se não estivesse com ela, como ia um dia poder voltar para cá e saber que sou índio? Quem ia falar para mim que eu era povo Arara? Ninguém, não tinha ninguém... Se não fosse através dos outros, eu não sabia não. Como ia ficar sabendo, se saí menino?

Para mim, quando conheci a nossa aldeia, soube que eu tinha parentes e fui encontrar com eles, eu era igual a uma criança, eu não sabia de nada, nem a língua deles, nem o jeito de viver, não conhecia ninguém... Como eu ia dizer que esse povo eram meus parentes?... Não tinha como... Aos poucos, eles foram me ensinando. Diziam, fulano é teu irmão, esse é seu irmão, esse é seu primo, não sei quem, essa irmã, eu fiquei conhecendo meu povo assim.

Não sei se falei muito...

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Final da aula magna: Pedro traduz seu irmão Manuel

Seguiu-se à lição de Pedro a fala de Manuel, apenas em língua indígena. Nascido na maloca, antes dos "brancos", menino ainda quando ocorreu o conflito com os Ikolen, em 1959, este homem que durante décadas foi seringueiro em regime de barracão, longe da aldeia, tornou-se um pajé reconhecido, pouco fala o português. Seu pai, quando já tinha morrido, lhe apareceu como onça, conta, atacou-o para provocar sua iniciação. Era o "iximitó", a alma do pai, o espírito, que Manuel reconheceu na fera. O pai lhe deu uma fruta, alimentou-o, viera em seu auxílio. A fuga do extermínio pelos seringalistas coincidiu com os primeiros passos de Manuel no ofício de xamã. Nos anos seguintes como proletário da borracha em semiescravidão, a visão metafísica foi um esteio para sobreviver com dignidade,

Talvez tenha sido quando voltou à terra indígena, ao lembrar o encontro com o morto, seu pai como onça, que Manuel teve como guia seu cunhado Cícero Tiamot, grande mago ainda atuante, que também narrou sua saga, nesses nossos dias encantados na aldeia. Tiamot ensinou Manuel a enfrentar e dialogar com as araras, macacos, papagaios, lontras, onças, todos os animais que não são apenas bichos, mas seres do além, de quem não se pode ter medo, sob pena de adoecer. Manuel, como os outros pajés, trilha o Caminho das Almas, o Narawá Nekam, vai e volta. Da primeira vez foi atado aos pássaros, como que dentro de um avião, não podia soltar-se, debatia-se, até se acostumar, após muitas viagens. Conta-nos que veste a roupa das onças, o couro dos espíritos, metamorfoseia-se em onça, anda no meio delas. Quando em sua forma humana, o pajé encontra uma onça que é também pajé. Se tem medo, atira, e noutro dia descobre que não se tratava de uma onça, mas de um colega pajé, que surge na aldeia, ferido. Casos de doenças mandadas por pajés inimigos de outras aldeias, métodos de cura, tudo ele nos expõe. Ouvimos estarrecidos, lembramos o grande pajé Txiposegov Ikolen já falecido, que conheci bem. Os pajés Arara foram mestres dos Ikolen e os formaram.

Manuel lamenta ter sido obrigado a viver longe do restante de seu povo, que imaginava desaparecido, massacrado. Chora pelos que morreram, lembra a alegria e a surpresa de sabê-los em vida, renasce na vida moderna, misturada à cidade, recria para nós a volta e o espanto de rever os seus.

1 A gravação deste depoimento faz parte do Acervo Sonoro Aramirã, como denominei o meu arquivo de registros de vozes indígenas, em parte digitalizado. O depoimento de 2002 deve-se à iniciativa de Edinéia Aparecida Isidoro e da equipe da Seduc de Ji-Paraná, com o projeto Karo-Ikolóh, que complementava nas aldeias a formação de professores indígenas do Projeto Açaí, coordenado por aquela Secretaria. Edinéia Isidoro convidou-me em várias ocasiões para ministrar cursos de antropologia nas aldeias. Agradeço a ela essa oportunidade rara de convivermos por muitos dias, fazendo crescer a intimidade com heroicas figuras indígenas. Edinéia, mestre em Sociolinguística pela Universidade Federal de Goiás com uma dissertação sobre os Arara Karo, era, em 2014, coordenadora do Departamento Intercultural da Universidade Federal de Rondônia (Unir), campus de Ji-Paraná. Foi com ela e com outras educadoras que ouvi e gravei tudo que aqui procuro transmitir.

2 Veja-se Mauro Leonel, "Antecedentes: primeiros contatos contínuos", in: Betty Mindlin, Digüt Tsorabá, Sebirop Catarino e outros narradores Gavião Ikolen, Couro dos Espíritos, São Paulo: Terceiro Nome, 2001, p.240. Fernando Txerepoabá Gavião conta como foi levado para morar com Barros, ainda menino bem pequeno.

3 Cf. Couro dos Espíritos, op. cit., p.207.

4 Cf. Couro dos Espíritos, op. cit., p.207-8.

5 Cf. Couro dos Espíritos, op. cit., p. 212-13.

6 "Branco" é o termo usado na região para designar os colonizadores. É tão corrente que será mantido, apesar da conotação imprópria. Na primeira vez usam-se aspas, para chamar a atenção do leitor e suscitar o debate e a crítica ao conceito de raça entre os professores indígenas e seus alunos.

7 O SPI foi extinto em 1967, sendo substituído pela Funai. O contato da Funai com os Suruí Paiter foi feito em 1969. Portanto, foi nesses anos que Pedro trabalhou em Riozinho.

8 A entrada dos Cinta Larga na sociedade brasileira desconhecida por eles é uma das mais trágicas da história dos índios brasileiros. Suas terras foram invadidas por garimpos e seringalistas, com apoio de políticos locais, e em 1963 um massacre de uma aldeia inteira foi perpetrado no Paralelo 11, mais tarde denunciado por um dos participantes da expedição assassina. Carmen Junqueira faz o relato, em numerosos trabalhos, como em Sexo e desigualdade (São Paulo: Olho D'água, 2002). Os Cinta Larga teriam razões de sobra de atacar os estrangeiros. Os dois funcionários do SPI, muito jovens, de apenas 20 anos, isolados no posto, não tinham qualquer estrutura para evitar invasões e trabalhar com os grupos isolados que vinham ocasionalmente ao posto. Pedro indica que houve intriga contra eles por parte de um trabalhador braçal. O destino dos Cinta Larga continuou a ser o de acusados de mortes, quando as vítimas de genocídio foram eles repetidas vezes, por exemplo com a venda de madeira de lei e a descoberta do diamante no fim do segundo milênio e começo do terceiro.

9 Foi um grande choque para Apoena Meirelles a morte, em 1971, dos dois indigenistas, Acrísio Lima e Possidônio Bastos Cavalcanti. Tinham os três aproximadamente a mesma idade. Ao buscar os corpos, o próprio Apoena foi ferido. No entanto, jamais ele perseguiria ou culparia os Cinta Larga, com quem tinha um diálogo estreito e respeito mútuo. O assassinato de Apoena em 2004, não esclarecido até agora, provavelmente se deve à defesa que fez do povo Cinta Larga na questão da exploração do diamante e ao seu esforço para que fossem eles a gerir o resultado do garimpo. Veja-se Mauro Leonel e Betty Mindlin, Apoena Meirelles 1949-2004 - Uma grande perda frente à lei das mineradoras. Revista de Estudos e Pesquisas, Brasília, Fundação Nacional do Índio, v.4, p.291-9, 2007; e Symbol of Brazilian Indigenism Assassinated, Anthropology News, American Anthropological Association, v.46, p.21-2, oct. 2005.

Recebido: 12 de Agosto de 2014; Aceito: 13 de Setembro de 2014

Betty Mindlin é doutora em Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), autora de Diários da floresta (Terceiro Nome, 2006) e outros. @ - arampia@uol.com.br ; arampia.mindlin@gmail.com

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