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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014On-line version ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.32 no.93 São Paulo May/Aug. 2018

http://dx.doi.org/10.5935/0103-4014.20180034 

Ensino de Humanidades

O latim e o grego em uma escola municipal de Ensino Fundamental

Paula da Cunha CorrêaI 

IFaculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil.

Resumo

Este texto descreve o processo de criação e implementação de um projeto de extensão e cultura da Universidade de São Paulo (Projeto Minimus, 2013- ), que introduziu o ensino das línguas clássicas (grego e latim) na EMEF Desembargador Amorim Lima.

Palavras-chave: Ensino do grego e do latim; Cultura clássica; Extensão universitária; Educação pública

Abstract

This text describes the process of creation and implementation of an outreach project of the University of São Paulo (Project Minimus, 2013) that introduced classical language courses (Ancient Greek and Latin) in the Desembargador Amorim Lima Elementary and Middle Public School.

Keywords: Greek and Latin language instruction; Classical culture; Outreach programs; Public education

Certa vez, queixei-me do fim das aulas de grego e latim nas escolas brasileiras e um professor mais velho observou que, da maneira que eram ministradas, foi melhor terem sido extintas. Se não empregou exatamente essas palavras, era essa a ideia, que se alinha com um depoimento de Manuel Bandeira (1984, p.26-7):

O que deveria ser a base do estudo de letras, o latim e o grego, foi-nos ensinado no Ginásio da pior maneira. No entanto, o professor de latim, Vicente de Sousa, era homem inteligente e culto, grande latinista, mas que a negação completa para mestre de meninos! Em vez de despertar o nosso gosto pela poesia de um Virgílio (ou de um Lucrécio, tão em harmonia com o seu espetaculoso materialismo) e pela prosa de um Tácito, obrigava-nos a quebrar a cabeça com as formas arcaicas das declinações, fazia muita questão da pronúncia restituída, de que foi o introdutor no Brasil. Do professor de grego nem falemos.

Desde a graduação eu pensava em como reintroduzir o grego e o latim nas escolas e, a partir de um vídeo de divulgação da fundação “Classics for all”,1 que promove o ensino de letras clássicas em escolas públicas do Reino Unido, percebi como o método Minimus, criado por Barbara Bell, viabilizava o ensino do latim para crianças (Bell; Forte, 1999). A maior dificuldade era (e ainda é) encontrar uma escola que aceitasse tal projeto. Sugeriram-nos a Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Desembargador Amorim Lima e, então, Marcos Martinho dos Santos e eu marcamos uma visita com o intuito de oferecer aulas extracurriculares de latim e grego, duas vezes por semana. Porém, fomos surpreendidos quando a diretora, Ana Elisa Siqueira, sugeriu colocar as aulas de latim e grego na grade curricular, para todos os alunos respectivamente dos 4º e 7º anos, nos turnos da manhã e da tarde. Nas escolas públicas é difícil haver cursos extracurriculares por falta de espaço e de transporte fora do horário regular. Mas, nesse caso, a proposta da diretora decorria antes do princípio de inclusão que prevalece na escola. O seu intuito era tornar as disciplinas obrigatórias de modo a proporcionar a todos o ensino do grego e do latim.

A escola recebeu o projeto no início de 2013 com grande entusiasmo. No entanto, para lecionar grego e latim para aproximadamente 250 crianças, duas vezes por semana, de manhã e de tarde, precisávamos de uma equipe de voluntários. Assim, um grupo de docentes e alunos de grego e de latim formou-se no final de 2012 para selecionar e traduzir materiais didáticos,2 e o Projeto Minimus começou em 2013 na EMEF Desembargador Amorim Lima, com auxílio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão (PrCeu) da USP3 e seis bolsas obtidas junto à Fundação Onassis (Estados Unidos). Porém, mesmo nesse primeiro ano as bolsas não foram suficientes e o projeto só vingou graças ao entusiasmo e esforço voluntário de alunos de graduação e pós-graduação.

Em princípio, dois monitores (alunos de Letras/USP) eram responsáveis por cada classe, como nas escolas de Ensino Fundamental tradicionais que contam com um professor e um assistente para cada turma de 35 a 40 alunos. Mas logo percebemos que esse sistema não funcionava bem na EMEF Amorim Lima. Os monitores não conseguiam manter a disciplina e foi um caos, em parte porque a maioria dos monitores eram alunos de graduação e pós-graduação que não tinham experiência didática e nunca haviam dado aulas para crianças e adolescentes, mas principalmente porque organizamos os cursos sem levar em conta que a Amorim Lima não é uma escola convencional.

A EMEF Desembargador Amorim Lima desenvolveu um projeto pedagógico próprio,4 inspirado na Escola da Ponte, segundo o qual os alunos são distribuídos em pequenos grupos de tutoria. Há poucas aulas expositivas e os alunos estudam por meio de apostilas, roteiros de pesquisa anuais que reúnem atividades multidisciplinares organizadas por eixos temáticos. Os alunos escolhem a ordem em que desejam realizar os roteiros, preparam portfólios que são avaliados pelos tutores, e cada um progride de acordo com o seu ritmo, sob a supervisão de seu tutor. O projeto busca promover a responsabilidade e independência dos estudantes, e não há provas. Assim, quando perguntei à diretora se poderíamos aplicar provas de língua grega e latina, ela respondeu que, como não há provas na escola, as crianças iriam adorar, e que dia de prova na Amorim é dia de festa.

O espaço físico da escola também é diferente. As paredes das salas de aula foram derrubadas para formar dois grandes salões em que pequenos grupos de alunos sentam juntos para realizar seus roteiros. O trabalho é individual, mas quando alguém tem uma dúvida, consulta primeiro os colegas do grupo e, se nenhum deles consegue resolver o problema, chamam um dos professores-tutores que circulam pelo salão.

Portanto, após poucas semanas percebemos que, para ter êxito, deveríamos adaptar o Projeto Minimus ao sistema da escola. Desfizemos as fileiras de carteiras, agrupamos os alunos conforme suas tutorias e designamos um monitor para cada grupo nas aulas iniciais de grego e, nas de latim, como o método permite um estudo mais independente, os monitores circulavam pela sala. Com o tempo e a experiência adquirida, alguns monitores preferiram intercalar a supervisão dos grupos com aulas expositivas.

No entanto, descobrimos que mesmo nessa escola pública diferenciada, em uma região central da cidade, havia alunos do 4º ano, e até alguns do 7º ano, que apresentavam dificuldades de leitura do português. A Amorim Lima também possui um número grande de crianças com necessidades especiais por causa de sua política de inclusão (muitas dessas crianças chegam após serem rejeitadas por escolas particulares da região) e por seu projeto que permite que cada um progrida de acordo com o seu próprio ritmo, tornando a escola particularmente adequada para alunos especiais. Portanto, obtivemos no primeiro ano dois bolsistas que atenderam esses alunos, preparando uma apostila de letramento em português que tem por base elementos da cultura clássica.

O foco do Projeto Minimus é o ensino da língua grega e latina por meio de materiais didáticos que, ao mesmo tempo, introduzem os alunos a vários aspectos da cultura clássica: mitologia, história, política, teatro, poesia, música, arte e arquitetura. Por respeitarmos o passo de cada aluno, no final do primeiro ano os resultados em termos de proficiência linguística variavam; enquanto uns não passavam do alfabeto grego, outros completaram os métodos e chegaram a ler pequenos textos em grego e latim. Seria interessante se houvesse meio de averiguar em que medida as aulas de grego e de latim na Amorim Lima fazem diferença quanto às habilidades linguísticas e matemáticas dos alunos. Pois, desde o início do século passado, estudos norte-americanos têm demostrado as vantagens do ensino das línguas clássicas para o desenvolvimento do raciocínio lógico, da proficiência na língua materna (em termos de vocabulário, gramática e leitura) e para o aprendizado de outras línguas indo-europeias (Devane, 1997). Por outro lado, o Projeto Minimus também oferece aos estudantes de Letras Clássicas da Universidade de São Paulo uma oportunidade única de aquisição e prática de ensino do grego e latim para crianças e adolescentes em uma escola pública.

O reconhecimento do sucesso do Projeto Minimus na Amorim Lima deu-se com o convite feito pela diretora para que o Projeto permanecesse na escola, e com a escolha do tema “Grécia e Roma na Antiguidade Clássica” pela comunidade para a Festa da Cultura de 2013.5 Para o evento, os alunos preparam exposições sobre o teorema de Pitágoras e figuras geométricas, labirintos onde encenavam o mito de Teseu e o Minotauro, criaram histórias em quadrinhos e fotonovelas que narravam a Odisseia, demonstrações dos processos de tingimento de lã e dos brinquedos que já existiam há dois mil anos, criaram fanzines com os 12 Trabalhos de Hércules, uma maquete de Troia e um Cavalo de Troia de 1,80 metro de altura, uma exposição sobre a alimentação romana na Antiguidade, uma instalação sobre Procusto, uma sala de aula romana com tábuas de cera e instrumentos de escrita, e estudos sobre as instituições democráticas da pólis. Os alunos do 7º ano encenaram a Antígona de Sófocles, enquanto os do 4º ano apresentaram uma Eneida em 10 minutos.

Este é o sexto ano do Projeto Minimus na Amorim Lima. O grego antigo foi introduzido em 2017 no Colégio Equipe em cursos extracurriculares, e como matéria eletiva no Colégio Osvald de Andrade, mas ainda não conseguimos expandir o projeto para outras escolas públicas. Esse deverá ser o próximo passo.

Notas

1 Disponível em: <http://www.classicsforall.org.uk>.

2 Barbara Bell autorizou a tradução do Minimus (Bell; Forte, 1999), livro do aluno e do professor, cujos direitos foram mais tarde adquiridos pela Editora Filocalia (Minimus - Conhecendo o Latim -Bell; Forte, 2015). Como não havia um método de grego comparável para crianças ou jovens, diversos materiais foram adaptados.

3 Para um relato pormenorizado da implementação do projeto, veja Leme (2013, p.93-117).

5 Para a Festa da Cultura de 2013, ver <https://amorimlima.org.br/2013/09/festa-da-cultura-2013-encontro-com-a-nossa-historia/> e o Doc.Minumus, um documentário realizado por alunas da ECA sob a supervisão do Prof. Dr. Eduardo Morettin (<https://youtu.be/3X7nLxpo0ug>). Para outras repercussões, ver Miguel (2013); Módolo e Braga (2013, p.50-1); Duarte (2013, p.1-2); Sumares (2014, p.12-16).

Referências

BANDEIRA, M. Itinerário de Pasárgada. 3.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. [ Links ]

BELL, B.; FORTE, H. Minimus: Starting out in Latin. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. [ Links ]

_______. Minimus - Conhecendo o Latim. Livros do aluno e do professor. Trad. F. Alvim. São Paulo: Filocalia, 2015. [ Links ]

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SUMARES, G. Nova vida para línguas mortas. USP - Revista de Cultura e Extensão, v.11, suppl., p.12-16, 2014. [ Links ]

Recebido: 06 de Junho de 2018; Aceito: 25 de Junho de 2018

Paula da Cunha Corrêa é professora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. @ - correa@usp.br

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