SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.33 número95Julião Machado: arte gráfica exalando a tinta da impressão índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.33 no.95 São Paulo jan./abr. 2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0103-4014.2019.3395.0026 

Resenhas

A longa jornada da ordem global: entre redes e hierarquias

José Augusto Ribas MirandaI 
http://orcid.org/0000-0003-2034-7522

I Instituto IBMEC, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

embate entre estruturas em redes e hierarquias é o mote central do último livro de Niall Ferguson, lançado pela Penguin em janeiro de 2018. The Square and the Tower: networks and power from the freemasons to Facebook (sem tradução) é o mais recente livro do prolífico e polêmico historiador anglo-americano (Ferguson, 2018). Com ares de grande ensaio, a obra de 592 páginas e 60 capítulos realiza um voo de pássaro sobre a história mundial tendo como foco o funcionamento e o conflito entre redes e hierarquias. Teorias conspiratórias, grupos literários, famílias escocesas: Ferguson lança mão de sua vasta erudição para construir o ambicioso argumento do livro, que busca iluminar questões presentes de como as redes sociais moldam nosso presente.

A primeira parte do livro Ferguson reserva para apresentar a teoria de redes (Network Systems Theory) com fartos exemplos retirados de autores já consagrados no tema. Tomando essa base teórica das ciências sociais e do social behavorism, o autor destaca três principais pontos na formação das redes, vitais para o avançar de sua obra na aplicação para os casos históricos: Centrality, Betweness Centrality e Closeness Centrality. Centrality se refere aos elementos centrais das redes, seus polos irradiadores de influência. Betweness Cetrality se refere ao nível de influência que esse elemento possui dentro da rede, quantas interfaces e ligações um determinado ponto possui com os demais. Finalmente, Closeness Centrality mede a distancia entre determinados elementos de uma rede. Esse conjunto teórico explicado em dois de seus 60 capítulos serve de base para a construção de seu ambicioso argumento cronológico e espacial.

Após estabelecer o que se entende por redes (networks), Ferguson embarca em um ousado projeto de reavaliar processos históricos por meio das lentes das redes. Desde redes de espiões soviéticos infiltrados nos círculos acadêmicos britânicos, passando pela rede de correspondentes do filósofo Voltaire, chegando às inusitadas relações - inclusive sexuais - entre os membros do Bloomsbury Group, lar de boa parte da intelligentsia britânica do entreguerras, com nomes como Virginia Woolf, Vanessa Bell, John Maynard Keynes e Lytton Strachey. Ferguson ainda aborda as redes de casamentos dinásticos dos Saxe-Coburg-Gotta e a rede de contatos de primeiro e segundo grau de Henry Kissinger e Richard Nixon no período da formação da diplomacia triangular entre Estados Unidos, União Soviética e China.

Entretanto, o grande insight da obra de Ferguson reside em dois pontos: o primeiro deles é o alerta aos historiadores contemporâneos para uma utilização mais vigorosa de fontes extra-arquivísticas. O treinamento do autor nos bancos de Oxford lhe proveu intensa capacidade de pesquisa arquivística, como evidenciado em seus livros sobre o banqueiro Warburg e sobre o surgimento do sistema financeiro (Ferguson, 2011, 2001). Todavia, Ferguson chama a atenção para fontes muitas vezes desconsideradas dos historiadores, como o escopo de teorias conspiratórias e mesmo tuítes, em se tratando de história do tempo presente. O segundo e mais importante ponto da obra é a proposta de Ferguson em enxergar os últimos 300 anos de história sob a perspectiva das redes e das hierarquias. Segundo o autor, o conflito entre redes horizontalizadas e verticalizadas (como as hierarquias) daria o tom das grandes contrações históricas de momentos delicados como o fim do Antigo Regime e os processos de descolonização. O final do século XVIII seria a representação desse conflito entre a hierarquia do Antigo Regime e as redes revolucionárias que decapitaram Luís XVI. Também o autor invoca a revolta Taiping na China contra o establishment da pesada monarquia imperial chinesa e mesmo a primavera árabe, onde redes (sociais, como o Twitter) foram fundamentais para o choque com as hierarquias dominantes dos governos despóticos de Egito, Líbia e Tunísia.

Menção honrosa para o grande insight do livro: a ascensão das redes sociais e seu impacto na conformação da ordem global. Quando Ferguson aborda o surgimento da imprensa no século XV e sua influência na propagação das ideias reformistas e, consequentemente, no estouro da guerra dos trinta anos, o autor chama a atenção para o casamento explosivo entre novas tecnologias, novas ideias e velocidade de informação para a conformação de uma nova ordem global, muitas vezes com consequências não tão benéficas. Agrega também o papel das redes sociais nas eleições norte-americanas de 2016, com consequências já concretas para o futuro da ordem global.

Mas a obra não passa ilesa de críticas e questionamentos. Ferguson urge para que os historiadores se atentem mais às redes para analisar determinados processos históricos. O estudo das redes já é bem conhecido da historiografia, com técnicas prosopográficas já bem aplicadas desde pelo menos meados dos anos 1990, ao menos no Brasil. Um segundo ponto de crítica da obra de Ferguson e seu “excesso de evidencias”. Para construir seu ponto central, o autor realiza muitas vezes mudanças rápidas entre microtemas que seriam evidências claras de uma ação de redes X hierarquias em momentos históricos chave. Os 60 capítulos do livro, apesar de amenizarem a leitura de uma obra larga, podem dar a impressão de que o livro é uma coletânea de episódios sobre redes na história, e não bem uma obra amarrada em um argumento sólido. Considerando as últimas obras de destaque de Ferguson com argumentos centrais bem amarrados e claros como o The Ascent of Money (Ferguson, 2001) - que deve ganhar uma nova edição ainda em 2018-2019, e Civilization: the West and the rest (Fergson, 2012) - que apesar de não ser original e dever muito à obra de David Landes The wealth and Poverty of Nations (Landes, 1999), cumpre seu papel de divulgador eficiente e conciso das ideias ocidentais de desenvolvimento em processo histórico - o argumento de The Square and the Tower se mostra mais solto, um pouco vagando entre as mais de 20 pequenas evidências da centralidade das redes na história, elencados pelo autor

Foto Marion S. Trikosko

Niall Ferguson aborda a rede de contatos de primeiro e segundo grau de Henry Kissinger (foto) e Richard Nixon no período da formação da diplomacia triangular entre Estados Unidos, União Soviética e China. 

De todo modo, as críticas não retiram os méritos da grande empreitada que provavelmente foi a escrita de The Square and the Tower. O livro de Ferguson apresenta toda a força erudita do prolífico autor. É possível encontrar trechos já trabalhados à exaustão em obras passadas, como no livro sobre os Rothschild, sobre a ascensão e queda do Império Britânico e em sua biografia de Henry Kissinger (Ferguson, 1998, 2015, 2004). Pela sua extensão, o livro tem leitura agradável e ilustrações e esquemas informativos e interessantes. Marca registrada de Ferguson, pequenos trechos e anedotas cômicos podem fazer o leitor dar boas risadas sem perder o foco no argumento. Em tempos de obscuridade do funcionamento da ordem global e, principalmente, de falta de referências, The Square and the Tower se torna uma obra útil e nada decepcionante para o leitor interessado no presente e no futuro.

Referências

FERGUSON, N. The house of Rothschild: Money’s prophets 1798-1848. New York, Penguin, 1998. [ Links ]

_______. The cash nexus: Money and power in the modern world, 1700-2000. London: Allen Lane, 2001. [ Links ]

_______. Empire: how Britain made the modern world. London: Penguin Books, 2004. [ Links ]

_______. The ascent of money: a financial history of the world. London; New York: Penguin Books, 2009. [ Links ]

_______. High financier: the lives and time of Siegmundo Warburg. London: Peguin Books, 2011. [ Links ]

_______. Civilization: the west and the rest. London: Penguin Books, 2012. [ Links ]

_______. Kissinger. 1923-1968, The Idealist. London: Penguin Books, 2015. [ Links ]

_______. The Square and the Tower: networks and power from the freemasons to Facebook. London: Penguin Books, 2018. 562p. [ Links ]

LANDES, D. S. The wealth and poverty of nations. Why some are so rich and some so poor. New York: W. W. Norton & Company, 1999. [ Links ]

Recebido: 22 de Agosto de 2018; Aceito: 30 de Setembro de 2018

@ - Joseribas50@hotmail.com

José Augusto Ribas Miranda

é doutor em história pela PUC-RS e professor assistente no IBMEC/RJ.

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons