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Fisioterapia em Movimento

Print version ISSN 0103-5150

Fisioter. mov. (Impr.) vol.24 no.2 Curitiba Apr./June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-51502011000200001 

Editorial

 

 

Os modelos de atenção comprometidos com a vida devem explorar positivamente as relações entre as diferentes dimensões tecnológicas que comportam o conjunto das ações de saúde, transitando entre tecnologias duras, materializadas em máquinas e instrumentos; tecnologias leve-duras (saberes e práticas estruturadas); e tecnologias leves como assistência que comporta modos de produção de cuidados com acolhimento, vínculo e responsabilização (FRANCO; MERHY, 1999).

Os acontecimentos dos últimos meses, ocasionados pelos terremotos e tsunamis, e também as catástrofes climáticas que se abateram sobre cidades do nosso País mobilizam nossas emoções pelas perdas de vidas e bens materiais e demandam soluções emergenciais que envolvem intervenções medicamentosas, cirúrgicas e psicológicas para restabelecer a saúde física, mental e social das pessoas. Na condição de fisioterapeutas e profissionais de saúde que lidam com condições crônicas, podemos nos imaginar à margem dos procedimentos de auxílio imediato nesses casos. Mas não é verdade. Preparemo-nos para uma avalanche de queixas osteomusculares agudas e subagudas, recidivas de artralgias de todos os níveis, acidentes por quedas, e dores derivadas dos grandes espasmos musculares desencadeados pelo estresse pós-traumático vivenciados pelos nossos irmãos atingidos. Para não falar das patologias respiratórias causadas pelo frio e pela exposição a chuvas e ventos, em condições precaríssimas de nutrição e higiene. Infelizmente, no Brasil aqueles que são menos favorecidos socialmente são também os mais atingidos por intempéries e enfrentarão também longas esperas para marcar uma consulta no SUS para atendimento fisioterapêutico, ou atémesmo no caso de ter plano de saúde.

Os profissionais de saúde veem o contingente de pacientes aumentar a cada ano sem que tenham um reajuste adequado de seus honorários para exercer a profissão com dignidade. Em 7 de abril, Dia Mundial da Saúde, data em que este editorial foi elaborado, fisioterapeutas se organizaram para uma passeata na cidade de Curitiba, em protesto contra as péssimas condições de remuneração e de trabalho em que vivem. A precariedade da saúde humana tende a ficar maior diante da precariedade das condições planetárias em que vivemos. Isto nos faz lembrar das condições de surgimento da nossa profissão, nascida no contexto das duas grandes guerras mundiais, visando a promover o retorno à sociedade e à vida produtiva de enormes contingentes de amputados, paralíticos, paréticos e vítimas de lesões periféricas que pediam intervenções analgésicas, recuperação funcional e confecções de dispositivos para assistência à locomoção. Algumas situações enfrentadas pelos fisioterapeutas nos contextos dessas tragédias são muito semelhantes àquelas encontradas em situação de guerra ou pós-guerra, mesmo em países com alto desenvolvimento tecnológico.Nessas horas, a tecnologia do acolhimento interessado, da disponibilidade amorosa e, sobretudo, das intervenções criativas e contextualizadas faz toda a diferença. Não há paz em nosso planeta, mesmo que haja paz em áreas circunscritas dele.Da mesma forma, não há paz no cenário da saúde no Brasil, embora haja paz em centros de excelência frequentados por aqueles que podem pagar caro.

No entanto, estamos sendo chamados pelos fenômenos globais do clima a agir em condições extremas ou muito próximas disso. Saberemos trabalhar sem a tecnologia dura quando tivermos que intervir em cenários sem energia elétrica? O conceito de tecnologia aqui evocado é amplo e emprestado de quem muito pensou e pesquisou sobre ela e parece apropriado à dinâmica das intervenções em saúde representadas nesta publicação. Os artigos deste número trazem um interessante mosaico em que se pode visualizar as diferentes abordagens tecnológicas, começando pelas tecnologias duras nos textos que tratam da análise da marcha na doença pulmonar obstrutiva crônica, efeito agudo do aquecimento sobre a força muscular,espirometria na mielomeningocele e treino com o programa Wii Fit, plataforma vibratória e alongamento associado ou não a crioterapia. Os demais textos trazem: a fisioterapia na hemodiálise, benefícios da atividade física em epiléticos, RPG, marcha de crianças com mielomeningocele, extensibilidade muscular associada à crioterapia, pé do diabético, acessibilidade de crianças com PC, eletrogoniometria, sintomas osteomusculares em professores, equilíbrio de gestantes e incontinência urinária feminina. Estes últimos denotam intervenções sustentadas por tecnologias leve-duras ou leves, coerentes com a complexidade do nosso processo de trabalho, altamente impactado pelos desdobramentos de um desenvolvimento tecnológico que não privilegiou a sustentabilidade. Que saibamos nos apropriar das evidências cientificas trazidas e aplicá-las com as tecnologias adequadas sem esquecer do objetivo primordial: o bem-estar das pessoas.

Boa leitura!

 

Profa. Dra. Auristela Duarte de Lima Moser
Editora-chefe