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Psicologia USP

versión impresa ISSN 0103-6564

Psicol. USP v.12 n.2 São Paulo  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642001000200017 

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O TEMA: O ENSINO DA PSICANÁLISE NA UNIVERSIDADE

 

Jussara Falek Brauer1
Instituto de Psicologia - USP

 

 

Freud (1919/1974), no texto Sobre o Ensino da Psicanálise na Universidade diz o seguinte:

É indubitável que a incorporação da psicanálise ao ensino universitário significaria uma satisfação moral para todo psicanalista, mas não é menos evidente que este pode, por seu lado, prescindir da Universidade sem menosprezo algum para sua formação. Com efeito, a orientação teórica que lhe é imprescindível ele a obtém mediante o estudo da bibliografia respectiva e, mais concretamente, nas sessões científicas das associações psicanalíticas, assim como pelo contato pessoal com os membros mais antigos e experimentados das mesmas. Quanto a sua experiência prática, fora aquela adquirida através de sua própria análise, poderá alcançá-la mediante tratamentos efetuados sob controle e guia dos psicanalistas mais reconhecido. (p. 251)

Freud enuncia com isso o já conhecido tripé - análise pessoal, supervisão e estudo teórico - que tem sustentado a formação dos psicanalistas nas diferentes instituições, acrescentando mais adiante que: " ... Cabe afirmar que a Universidade só pode se beneficiar com a assimilação da psicanálise em seus planos de estudo" (Freud, 1919/1974, p. 353).

Mas, de que se estaria tratando neste texto? Certamente não se trata de uma simples arrogância do autor. Entendo que ao escrever que para a transmissão da psicanálise é prescindível o intercâmbio com o meio acadêmico Freud está propondo algo bem preciso.

Lacan, que veio depois, irá trabalhar muito sobre as diferenciações entre saber e verdade. Creio que isso nos permitirá alcançar uma compreensão possível para o que Freud afirmara neste texto.

Lacan dedicou-se a fazer uma elucidação epistemológica da psicanálise e também ao estudo da paranóia entre outras coisas e sintetiza seu ponto de vista sobre o problema do conhecimento dizendo que o conhecimento é sempre paranóico, uma vez que ele repousa sobre uma relação eminentemente observacional, uma relação em que há sempre um observador e um observado. Desenvolve essas idéias a partir de seu trabalho com as psicoses, e faz diferenciações entre saber, verdade, saber e crença. Ele diz:

Nós imaginamos que nós pensamos; nós imaginamos que nós cremos naquilo que dizemos. Saber e crença são palavras chave na boca dos pensadores, lógicos e ... psicóticos, em última análise. A única coisa que eu não posso compreender é como eles podem falar de saber e crença, como se o saber pudesse ser perfeitamente autentificado, enquanto que a crença seria simples questão de opinião. Como podemos afirmar a diferença entre saber e crença? Eles tentam dar critérios ... (Lacan, 1975, p. 3)

Evidentemente ele só está podendo equiparar o psicótico ao cientista depois de ter, por assim dizer, esvaziado a psicose de toda sua conotação patológica. Na mesma conferência ele afirma: "A psicose é um ensaio de rigor; acrescentando em seguida: Neste sentido, eu diria que eu sou psicótico. Eu sou psicótico pela única razão que eu tentei sempre ser rigoroso" (Lacan, 1975, p. 2).

Introduz uma diferenciação entre saber e verdade, verdade subjetiva, afirmando então:

Em todo o caso, isso que nós ouvimos no curso de uma análise é um esforço para sair de tudo isso para um caminho que não tem nada a ver nem com o conhecimento nem com a crença - sair daí dizendo somente aquilo que está realmente no seu espírito. (Lacan, 1975, p. 3)

Daí decorre que o discurso analítico não circula pela via do saber. Pode-se dizer até que na abstinência que figura como regra fundamental do trabalho analítico, a abstinência do olhar é grandemente enfatizada, já pelo fato do uso de dispositivos como o divã e também na regra de associação livre. Por definição o analista não visa nenhum ponto fixo para desenvolver sua intervenção. A conseqüência disto é que aquilo que se obtém ao fazer uma análise não é do registro de um conhecimento. No texto Função e Campo da Fala da Linguagem em Psicanálise Lacan (1978) diz o seguinte:

... Uma psicanálise chega normalmente a seu termo sem nos informar senão pouca coisa do que nosso paciente tem de próprio em sua sensibilidade aos golpes e às cores, da prontidão de suas respostas ou dos pontos fracos de sua carne, de seu poder de reter ou de inventar, e mesmo da vivacidade de seus gostos. (pp. 130-131)

E o que nos dá uma análise em contrapartida? O que é afinal fazer uma análise? Eis aí algo que já nos permite uma primeira aproximação com nosso tema, a questão da transmissão. Uma análise nos informa sobre nossa forma singular de gozo que nos foi transmitida por nossos pais. É dessa natureza de verdade que se trata nesse trabalho.

Cito Lacan (1991) novamente no texto Duas Notas sobre a Criança:

... A função de resíduo sustentada (e ao mesmo tempo mantida) pela família conjugal na evolução das sociedades realça o irredutível de uma transmissão - que é de uma outra ordem que a da vida conforme as satisfações das necessidades - mas que é de uma constituição subjetiva, implicando a relação a um desejo que não seja anônimo.

É de acordo com uma tal exigência que se julgam as funções da mãe e do pai. Da mãe: na medida em que seus cuidados levam a marca de um interesse particularizado, ainda que pela via de suas próprias faltas. Do pai: na medida em que seu nome é o vetor de uma encarnação da Lei no desejo. (p. 55)

A psicanálise trabalha, assim justamente, com um tipo de transmissão. Da transmissão daquilo que é familiar, do traço de família. Uma transmissão que não é biológica, genética, mas que é a transmissão de uma marca que condiciona desejo e gozo atravessados pela lei. É uma forma possível de se pensar a psicanálise.

E assim em uma análise trata-se de rememorar o que nos marcou com vistas a uma elaboração, no dizer de Freud em Recordar, Repetir, Elaborar, ou de um acabamento significante como dirá Lacan depois, ou ainda emprestando as palavras de Ariel (1994):

... Que longe de curar o mundo, longe de melhorá-lo, com a ajuda do sonho, nos desperta, fazendo-nos perder argumentos e razões, expondo-nos à verdade de um desterro enigmático e inexplicável.

Essa verdade é um perfume que jamais podemos recordar, pela simples razão de que jamais chegamos a esquecê-lo. (p. 15)

Diferentemente de ser um conhecimento, aquilo de que se trata na situação analítica é da verdade do sujeito em sua história.

Técnica de rememoração daquilo que não foi jamais esquecido, a psicanálise trabalha com seus resíduos, os sintomas, os lapsos, os chistes, o sonho; todos eles ordenados segundo uma causalidade própria, a sobredeterminação casual.

Esta forma de causação dos sintomas de que se ocupa o analista coloca-o mais uma vez fora do domínio das ciências positivas uma vez que, como se lê em Freud, o sintoma é casual, fruto de uma superposição de cadeias associativas que marcaram o sujeito. Resta ao analista trabalhar no depois, na nachträglichkeit, recriando a cada sessão singular aquilo que já foi estabelecido na teoria. Os eventos analisáveis não são nem previsíveis nem generalizáveis. O trabalho de análise é um trabalho artesanal. Da psicanálise o que se ensina são seus fundamentos, e neste ponto estamos muito bem colocados dentro da universidade, mas o que se transmite ao analista é da ordem de um estilo, como diz Lacan (1998) fechando o texto A Psicanálise e seu Ensino:

Qualquer retorno a Freud que dê ensejo a um ensino digno desse nome só se produzirá pela via mediante a qual a verdade mais oculta manifesta-se nas revoluções da cultura. Essa via é a única formação que podemos pretender transmitir àqueles que nos seguem. Ela se chama: um estilo. (p. 460)

Portanto um estilo, aquilo que se produz pela via mediante a qual a verdade mais oculta manifesta-se nas revoluções da cultura.

Ao afirmar isso Lacan está introduzindo a idéia de que o ensino da psicanálise, digno daquilo que foi criado por Freud, passa pelos caminhos de uma verdade subjetiva. Ou seja, do desejo. É uma transmissão, a transmissão de um traço marcado por um nome, o nome de Freud. Estamos no campo freudiano.

Vamos nos deter um pouco ainda sobre a idéia da transmissão. O dicionário indica: "Transmitir: mandar de um lugar para o outro, fazer passar de um ponto ou de um possuidor para outro, deixar passar além, transportar, exalar, transferir, comunicar por contágio, propagar, ... Fazer passar por sucessão ..." (Ferreira, 1978, p. 1194).

Sugerimos assim, na perspectiva dessa leitura do texto de Lacan, pensar que aquilo que diz respeito à formação de um analista é algo da ordem de uma herança, transmitida por sucessão.

E o que se herda quando aquilo de que se trata é a formação de um analista? Lacan nos indicou o caminho ao falar em estilo. Podemos então dizer que a transmissão da psicanálise, tal como Lacan a coloca no referido texto, é da ordem da transmissão de uma marca, um "nome de família," separando bem que há o texto teórico de um lado, e de outro lado uma filiação: pela via mediante a qual a verdade mais oculta manifesta-se nas revoluções da cultura.

E já que estamos partindo daquilo que é consenso, de que a formação do analista passa pela leitura, pela supervisão e pelo divã onde ele se analisa a si próprio, então temos aí uma ambigüidade, Freud cita em sua obra, por algumas vezes uma frase de Goëthe que diz o seguinte: "Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu" (Goethe citado por Freud, 1940/1978, p. 246).2

Assim, para que a transmissão se complete restaria ainda uma conquista a fazer.

Como passar do herdado ao próprio senão a partir do ato criador do analista, no qual ele se inaugura, ele também como sujeito, dentro daquilo que herdou? Como se vê essa transmissão encerra inúmeras questões.Não se trata apenas de ensinar os fundamentos dessa prática, mas de transmitir um estilo, transmissão que se completa com uma conquista, um ato do analista. Ato de palavra, é preciso sublinhar, a sua clínica.

O impasse está assim colocado. Partindo daí só posso reafirmar aquilo que não é novidade, de que o lugar privilegiado de formação de um analista é o divã onde ele se submete a sua análise pessoal, mas também o divã de onde ele conduz a análise de outra pessoa, prestando serviços. Nesta medida e também através do estudo teórico é possível ensinar a psicanálise. Já o dizia Freud.

A universidade, nesta perspectiva, definitivamente não é lugar de formação de analistas. Penso, no entanto que o acento mais importante a colocar é no acolhimento que a academia possa fazer desta doutrina, respeitando as especificidades que a colocam em uma ordem de ciência que não é a das ciências exatas, com tudo aquilo que este fato pode acarretar de valiosa contribuição para o saber, e que transcende o plano meramente clínico que a psicanálise encerra, justamente por permitir um olhar crítico em relação aos saberes acadêmicos, e por conseqüência dar subsídios para a constituição das ciências humanas.

Sem dúvida há um ganho significativo também para a Psicanálise nesse acolhimento.

Diz Lacan numa conferência em Yale que o escrever é um ato de psicose, que ele cometeu uma tese de doutorado, ele usa essa expressão durante a conferência.

A afirmação choca a princípio, mas é preciso que se introduzam aqui algumas explicações. Lacan se interessou pela psicose de um ângulo preciso, ele estudou casos que alcançaram uma estabilização espontânea, o mesmo ângulo enfocado por Freud no estudo da autobiografia de Schreber. Desse estudo Lacan chega a propor que a escrita propicia ao psicótico essa estabilização. Não se trata aqui evidentemente de qualquer tipo de escrita, mas a escrita que tem um valor de escritura do traço que marcou o sujeito. A partir disto, pode-se compreender melhor a afirmação de que a psicose é um ensaio de rigor, por ser um ensaio de escritura desse traço. Algo preciso.

De minha parte, partindo dessas considerações de Lacan, tenho utilizado o espaço de pesquisa em psicanálise como propiciador de um acabamento muito precioso no que diz respeito ao trabalho clínico com a psicose. Que se possa escrever essa clínica, "ato psicótico" no sentido de Lacan, isso permite completar a rede de transmissão que se faz necessária no tratamento dos sofrimentos pelos quais passa esse tipo de paciente.

O trabalho de análise se sustenta de uma rede discursiva, que circula do analista ao supervisor, e deste ao texto lido e debatido entre pares.

No caso da psicose é muito interessante acompanhar o encaminhamento que Lacan dá a sua pesquisa. Ele acompanhou casos onde houve via de regra a produção de escrito. Assim Aimée, Schreber, Joyce, todos escreveram, e por outro lado alcançaram todos uma estabilização espontânea.Uma estabilização que esse autor atribui justamente à escrita, e à autoria de um texto.

Penso que o desenvolvimento de pesquisa clínica, no âmbito da psicanálise, em torno do tema da psicose, é um campo no qual o psicanalista pode encontrar o suporte dessa rede de discurso, que amplie o nosso conhecimento sobre essa forma de sofrimento humano, ao mesmo tempo em que participa do próprio processo de tratamento dado ao psicótico, na forma da produção de um texto por parte do analista de tal forma a lhe dar suporte nesse empreendimento tão complexo.

Essa seria uma forma possível de presença do discurso da psicanálise no interior do universo acadêmico. Certamente não é a única. Um tipo de trabalho de precisão, um trabalho certamente rigoroso, desenvolvido segundo padrões diversos daqueles das ciências exatas.

O que a psicanálise inaugura, no dizer de Lacan, é uma forma de leitura. Há que se distinguir o que há para ler naquilo que se fala em uma sessão de análise. O inconsciente situa-se entre o escrito e a fala, esta a especificidade do recorte de Lacan. O que é da ordem do inconsciente é antes mais nada aquilo que se lê, aquilo que permite a escritura da história subjetiva, e que é da ordem da repetição, repetição de algo que se elucida em uma outra cena, a cena inconsciente.

Esta leitura particular que é a leitura analítica permite que se quebre a repetição, que não seja preciso realizar um destino. Ao invés disso propicia ao sujeito um ensejo de se posicionar ante os significantes que o marcaram, em uma nova temporalidade.

Ricoeur (1997) desenvolve a idéia e nos permite situá-la melhor. Para ele o que recebemos da psicanálise como dádiva foi a possibilidade de esquecer "A história nos pesa diz ele, ela se repete em nossos atos inconscientes, em nossos sonhos, em nossos lapsos, naquilo que esquecemos para não esquecer. A história se presentifica naquilo que esquecemos." Ele diz: "O esquecimento é condição da memória. O esquecimento é a presença mesmo de uma ausência."

A psicanálise vai trabalhar com essa matéria, aquilo que não chegou a ser esquecido, para que seja reconstruído, e possa ser esquecido depois. Após a análise nos é dado esquecer a história.

No seminário 20, já no ano de 1975, Lacan liga essa dimensão, essa possibilidade de dizer a escritura, ao gozo. Ele diz então:

Não é isso - aí está o grito por onde se distingue o gozo obtido do gozo esperado. É onde se especifica o que se pode dizer na linguagem ...

A estrutura...não demonstra outra coisa senão que ela é do mesmo texto que o gozo, na medida em que ao marcar de qual distância ela falta, aquela de que se trataria se fosse isso, ela suporta com isso uma outra...inconsciente. (Lacan, 1982, p.152)

A estrutura, sendo do mesmo texto que o gozo, essa estrutura pede para se escrever.

Lacan o esclarece no seminário De um Outro ao Outro,3 na sessão de 14 de maio de 1969, com a seguinte afirmação:

Um ser que pode ler seu traço, isso é suficiente para que ele possa se reinscrever em um outro lugar que não aquele de onde ele o traz. Essa reinscrição é aí o lugar que o faz, desde então, dependente de um Outro cuja estrutura não depende dele.

Reencontramos aqui a leitura, como método que possibilita ao sujeito essa conquista de que fala Freud, reinscrever-se alhures, referenciado a um Outro cuja estrutura não depende dele.

A psicanálise seria, portanto o método que possibilita essa leitura, o "acabamento" do significante, termo utilizado por Lacan, completando por assim dizer a transmissão que se iniciou na família.

Nessa medida parece-me justo que essa disciplina participe do âmbito da universidade, lugar tão eminentemente voltado à escritura, beneficiando-a dessa leveza sugerida por Paul Ricoeur, o esquecimento que pode ocorrer porque já foi escrita a história, beneficiando-a com a possibilidade de criação.

 

Referências

Ariel, A. (1994). El estilo y el acto. Buenos Aires, Argentina: Manantial.

Ferreira, A B. H. (1978). Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa (11a ed.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Freud, S. (1974). Sobre o ensino da psicanálise na universidade. In Obras completas. Madrid, España: Alianza. (Originalmente publicado em 1919)

Lacan, J. (1975, 24 de novembro). Kanzer seminar. Yale University, Scilicet 6/7.

Lacan, J. (1978). Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In Escritos. São Paulo: Perspectiva.

Lacan, J. (1982). Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (1991). Dos notas sobre el niño in intervenciones y textos. Avellaneda, Argentina: Manantial.

Lacan, J. (1998). A psicanálise e seu ensino. In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. D’un autre à l’Autre. Seminário inédito.

Ricoeur, P. (1997, abril). Debate sobre memória e esquecimento. Paris.

 

Recebido em 10.07.2001
Aceito em 05.10.2001

 

 

 

1 Endereço para correspondênica: Instituto de Psicologia. Av. Prof. Mello Moraes, 1721, São Paulo, SP – CEP 05508-900. E-mail: jfalek@usp.br

2 Goethe, Fausto, Parte I, Cena I.

3 Lacan, J. D'un  autre à l'Autre. Seminário inédito. O texto acima é tradução livre do trecho: "Un être qui peut lire sa trace, cela suffit à ce qu'il puisse se réinscrire ailleurs que là d'où il l'a portée. Cette réinscription, c'est là le lieu qui le fait dès lors dépedndant d'un Autre dont la structure ne dépend pas de lui."