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Psicologia USP

versão impressa ISSN 0103-6564versão On-line ISSN 1678-5177

Psicol. USP vol.27 no.2 São Paulo mai./ago. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0103-656420140053 

Artigos originais

Olhar o cotidiano: percursos para uma psicologia social do trabalho1

Regarder le quotidien: parcours pour une psychologie sociale du travail

Pensar lo cotidiano: trayectorias para una psicología social del trabajo

Maria Chalfin Coutinhoa 

Fábio de Oliveirab  * 

Leny Satob 

aUniversidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Psicologia. Florianópolis, SC, Brasil

bUniversidade de São Paulo, Instituto de Psicologia, Departamento de Psicologia Social e do Trabalho. São Paulo, SP, Brasil


Resumo:

O artigo esboça os percursos de pesquisas que têm levado a psicologia social do trabalho ao estudo do cotidiano laboral. Apresenta o cotidiano como campo de apreensão do real, partindo de uma discussão interdisciplinar sobre o tema, salientando seus aspectos de repetição e de ruptura e as relações entre dimensões micro e macrossociais. Localiza os esforços de constituir o cotidiano como objeto da psicologia social e aponta para as dificuldades de teorização desse objeto. Finalmente, discute as razões do reconhecimento do cotidiano como campo privilegiado de investigação para o projeto de uma psicologia social do trabalho, na medida em que favorece o reconhecimento das singularidades dos sentidos e dos significados construídos pelos trabalhadores, das formas de interação social, dos processos organizativos, da micropolítica, das práticas astuciosas construídas no interior de relações assimétricas de poder.

Palavras-chave: psicologia social do trabalho; cotidiano; processos sociais; micropolítica

Résumé:

L'article ébauche les parcours de recherches qui ont amené la psychologie sociale du travail à l´étude du quotidien du travail. On présente le quotidien en tant que champ d'apréhension du réel à partir d'une discussion interdisciplinaire sur le thème, soulignant les aspects répétitifs et de rupture et les rapports entre les dimensions micro et macrosociales. On situe les efforts de construction du quotidien en tant qu'objet de la psychologie sociale et indique les difficultés en vue de sa théorisation. Finalement, on discute les raisons de la reconnaissance du quotidien en tant que champ privilégié de recherche pour le projet d'une psychologie sociale du travail, dans la mesure où il favorise la reconnaissance des singularités des sens et des signifiés construits par les travailleurs, des formes d'interaction sociale, des processus organisateurs, de la micropolitique, des pratiques astucieuses construites à l'intérieur de rapports asymétriques de pouvoir.

Mots-clés: Psychologie sociale du travail; quotidien; processus sociaux; micropolitique

Resumen:

Este artículo esboza las trayectorias de investigaciones que han llevado la psicología social del trabajo al estudio de lo cotidiano en el contexto laboral. Se presenta el cotidiano como el campo de aprehensión de lo real, con base en una discusión interdisciplinar sobre el tema, enfatizando sus aspectos de repetición y ruptura, así como las relaciones entre las dimensiones micro y macrosociales. Muestra los esfuerzos de constituir lo cotidiano como objeto de la psicología social, y esboza las dificultades en la teorización de ese objeto. Por último, discute las razones del reconocimiento de lo cotidiano como campo privilegiado de investigación para el proyecto de una psicología social del trabajo en la medida en que favorece el reconocimiento de las singularidades de los sentidos y significados construidos por los trabajadores, de las formas de interacción social, de los procesos organizativos, de la micropolítica y de las prácticas astutas construidas al interior de las relaciones asimétricas de poder.

Palabras clave: psicología social del trabajo; cotidiano; procesos sociales; micropolítica

Abstract:

The article outlines the research pathways that have led social psychology of work to study labor daily life. We present daily life as a seizure of the reality field, coming from an interdisciplinary discussion on the topic, emphasizing aspects of repetition and rupture and the relationship between micro and macro-social dimensions. We locate the efforts of composing daily life as the object of social psychology and point to the difficulties of theorizing such an object. Lastly, we discuss the recognition of daily life as a privileged field of research for the project of a social psychology of work, as it favors the recognition of singularities of the senses and meanings constructed by workers, of forms of social interaction, of organizational processes, of micropolitics, of the cunning practices built within the asymmetrical relationships of power.

Keywords: social psychology of work; daily life; social process; micropolitics

Ao elegermos o cotidiano como objeto de estudo, não o fizemos como ponto de partida. Chegamos a esse recorte, na verdade, a partir de nossas pesquisas e vivências na análise do trabalho humano desde o ponto de vista dos trabalhadores.

Nossos estudos2 nos levaram a buscar compreender o trabalho como atravessado por processos psicossociais constituídos na intersecção entre os processos macrossociais e as ações locais das pessoas que trabalham. Tal forma de compreensão do chamado "mundo do trabalho" aproximou-nos do campo do cotidiano ou, como propõe Peter Spink (2008), convidou a pesquisar lugares e "microlugares" nos quais se sucedem os acontecimentos da vida no trabalho. Ao assim pesquisarmos, assumimos uma postura metodológica de partícipes desses acontecimentos enquanto investigamos as ações dos trabalhadores no cotidiano.3

Neste ensaio, propomo-nos inicialmente a interrogar a noção de cotidiano, buscando, no diálogo com estudiosos do campo, ir mais além da visão recorrente de insignificância dessa dimensão da existência. Para tanto, situamos a configuração do campo de estudos do cotidiano tendo como referência autores da filosofia social e de diferentes ciências sociais, em especial a sociologia do cotidiano. Em seguida, veremos como iniciativas da Psicologia Social, particularmente no Brasil, têm tratado a temática, tendo em vista ser a vida ordinária seu campo privilegiado de investigação. Por fim, retomamos o fenômeno do Trabalho, nosso tema de origem, para apresentar algumas articulações possíveis com as abordagens do cotidiano.

Configuração do cotidiano como campo de apreensão do real

Quando buscamos o significado da palavra cotidiano em dicionários, predominam nas definições as ideias de monotonia, hábito, banalidade ou daquilo que acontece diariamente, de modo repetitivo, corriqueiro e sem importância. Mesquita (1995) também registra conotação negativa, na qual se busca escapar do cotidiano, por não ser ele "o território do desejo, do sonho, do imaginário, da aspiração" (p. 13).

Com a predominância desse sentido, cabe perguntar se o cotidiano é sempre mesmice e rotina ou se lá haveria espaço para o inusitado. Pais (2003), de partida, reconhece a rotina como um elemento básico da vida diária e afirma que "considerado do ponto de vista da sua regularidade, normatividade e repetitividade, o quotidiano manifesta-se como um campo de ritualidades" (p. 28).

Entretanto, ao buscar as raízes etimológicas da palavra, o autor descobre que, em sua origem latina, rotina (rupta) associa-se "à ideia de rota (caminho) . . . donde derivam as expressões 'rotura' ou 'ruptura': acto ou efeito de romper ou interromper: corte, rompimento, fractura" (Pais, 2003, p. 29). Desse modo, existe uma abertura para que o cotidiano possa ser compreendido como lugar não só de repetição, mas também de inovação, do não previsto e do aleatório, pois dele "faz também parte o excepcional, a aventura, o inesperado, o sonho" (p. 81).

Por um lado, pensar no cotidiano como espaço de rotina e de repetição leva-nos a refletir sobre a colonização da vida cotidiana pela racionalidade capitalista, de modo a constituir o cotidiano como locus da alienação e do consumismo (Lefebvre, 1968/1991). Por outro, entretanto, cabe lembrar que nele também podem existir "brechas" para uma atitude não passiva diante do consumo (Certeau, 1998). Nesse sentido, ao mapear as abordagens críticas do "campo de apreensão do real chamado cotidiano", Tedesco (1999) enfatiza a importância de uma análise direcionada "aos processos colonizadores e cristalizadores do cotidiano e, ao mesmo tempo, que apresente situações, canais, necessidades e possibilidades de transformá-lo" (p. 12). O cotidiano é, para o autor, o espaço da dialética, das contradições, da racionalidade dos macroprocessos e dos conflitos sociais que atravessam a vida.

Para Martins (1998), o interesse pela vida cotidiana resulta da descrença contemporânea da humanidade em ideais clássicos como justiça, liberdade e igualdade. Esse interesse compõe o "ceticismo decorrente das desilusões que têm acompanhado a notável capacidade de autorregeneração da sociedade capitalista" (p. 1). Não se pode negar essa capacidade recorrente de superação de crises que as sociedades capitalistas demonstraram desde as últimas décadas do século XX; entretanto, essas crises vêm se apresentando em ciclos com intervalos cada vez mais curtos e com intensidade e amplitude cada vez maiores.

As transformações econômicas e sociais que atingem todas as esferas da vida humana têm sido acompanhadas por mudanças nas ideias e nas representações do real, abrindo espaço para o questionamento de teorias sociais clássicas e despertando o interesse pela temática do cotidiano. Nesse sentido, Levigard e Barbosa (2010) afirmam:

No rastro das transformações culturais, comportamentais e políticas ocorreram importantes questionamentos no âmbito das ciências sociais. Tornou-se necessário repensar e construir novas ferramentas teóricas para a apreensão e interpretação da complexa realidade social. Assim sendo, na década de 1970 surgiram contribuições teóricas voltadas para a compreensão do modo como as forças conservadoras hegemônicas se reproduzem no tecido social, e para a dinâmica de acomodação/ resistência individual e coletiva frente a estas forças. O tema do cotidiano ganhou relevância nesses estudos. (p. 86)

Representante desses estudos, a sociologia da vida cotidiana enfatizou as articulações entre as dimensões micro e macrossociais, deslocando seu foco das relações sociais macroestruturais para as situações de interação, pois "uma visão exclusivamente macroscópica do social não pode dar conta de todos pequenos jogos sociais que constituem a trama social" (Pais, 2003, p. 75).

A proposta de articulação entre dimensões macro e microssociais rompe com uma dicotomia clássica das teorias sociais: o foco exclusivo ou nas ações dos sujeitos ou nas estruturas sociais.

Nesse sentido, Tedesco (1999) advoga por uma sociologia do cotidiano que deve contemplar "o sujeito enquanto ser particular-individual, suas relações próximas, regulares, intensivas, adesivas, fixas e mutáveis. Porém, não significa que os grandes dispositivos sociais, as macroteorias (sistemas, classes, organizações...) não possam se apresentar" (p. 26, grifos do autor). Na mesma direção, Pais (2003) considera o cotidiano como "um lugar privilegiado de análise sociológica na medida em que é revelador, por excelência, de determinados processos do funcionamento e da transformação da sociedade e dos conflitos que a atravessam" (p. 72).

Esses dois autores destacam a importância de se fazer uma análise crítica do cotidiano, o que requer, sem dúvida, uma perspectiva histórica. Por esse motivo, Pais (2003) critica correntes sociológicas que analisam o cotidiano de forma anti-histórica, com o foco nos "pequenos nadas da vida" e aponta para o desafio "de estabelecer uma ligação entre os grandes dispositivos sociais e os dispositivos microssociais que regulam ou informam a vida social" (p. 82).

Gardiner (2000), por sua vez, aponta para o risco de reduzir-se a vida cotidiana e os sentidos que a partir dela se constroem a "um conjunto relativamente homogêneo e indiferenciado de atitudes, práticas e estruturas cognitivas" (p. 5). Ecoando Lefebvre e outros autores, Gardiner afirma que o cotidiano tem uma história e, em nosso caso, essa história tem uma íntima relação com a modernidade. Por esse caminho, propõe que se desenvolva um conhecimento crítico da vida cotidiana. Isso inclui reconhecer a dimensão ideológica do senso comum e os efeitos das assimetrias de poder nas formas de percepção da realidade. Ao mesmo tempo, Gardiner (2000) afirma:

Assim, embora a modernidade seja marcada por uma lógica de controle e dominação, o pesadelo orwelliano de uma existência social profundamente burocratizada é sempre adiado, em parte porque os sistemas perfeitamente controláveis simplesmente não são possíveis (como os teóricos do caos gostam de nos lembrar), mas também porque nós subvertemos a mercantilização total e a homogeneização da experiência através de uma miríade (por vezes fugazes) de expressões de paixão, de não-lógica e do imaginário. Esses momentos emancipatórios são endêmicos no cotidiano e permanecem opostos ao cinza utilitarista da sociedade oficial, encoberta como é pela lógica da forma-mercadoria e do ethos do produtivismo. (p. 15, tradução nossa)

E, apoiando-se em Certeau, completa:

Até certo ponto, o cotidiano tem essa qualidade resistente simplesmente porque a sua presença nem sempre é registrada pelo olhar panóptico do poder burocrático; ele continua a ser uma mistura incipiente e heterodoxa de práticas e de pensamentos fluidos, múltiplos e simbolicamente densos. (Gardiner, 2000, p. 15, tradução nossa)

Nos panoramas de abordagens sobre o cotidiano apresentados por Pais (2003), Tedesco (1999) e Gardiner (2000) mostram diferentes perspectivas teóricas a partir das quais essa dimensão pode ser apreendida4. O diálogo com diferentes teorias sociais também pode ser encontrado em textos oriundos da Psicologia, como é o caso de Levigard e Barbosa (2010) e Emiliani (2009). A seguir, apresentamos algumas visões da Psicologia, em especial a Psicologia Social no Brasil, que têm tratado a questão do cotidiano.

Psicologia Social e cotidiano

Não é frequente encontrar na Psicologia obras que sistematizem contribuições que teorizem o cotidiano. Em uma revisão sobre a Psicologia do Cotidiano, Emiliani (2009) oferece uma possível explicação para essa lacuna: "A psicologia sempre se dedicou marginalmente à vida cotidiana por ter se concentrado... de modo prioritário no indivíduo e em seus processos mentais, comportamentais e afetivos" (p. 82). Além disso, de acordo com a autora, o cotidiano, para a Psicologia, seria uma noção tão pouco delimitada que, de certo modo, tudo poderia ser nele incluído. Ao consultar a literatura de Psicologia5 cujos títulos remetiam à vida cotidiana, Emiliani encontrou temas diversos, sem qualquer coerência conceitual, os quais podiam ser relativos "tanto às atividades cotidianas (como trabalho e tempo livre) como os locais e instituições em que elas se verificam (por exemplo, a família e a escola)" p. 83).

Em sua compreensão sobre a vida cotidiana, Emiliani (2009) dialoga com diferentes teorias sociais6 e define a estrutura do cotidiano como um "andaime de estabilidade" que permitiria a inserção progressiva na vida social, provendo rotinas e regularidades facilitadoras da adaptação social7. Tal estrutura representaria "uma espécie de 'núcleo duro' daquilo que se experimenta como não problemático e dado como certo" (p. 217). Em decorrência, as experiências fragmentadas do cotidiano de cada um comportariam durabilidade no tempo e compartilhamento com os outros, contribuindo "para sustentar a identidade pessoal" (p. 260).8

Quando vasculhamos as publicações brasileiras de psicologia em busca da palavra "cotidiano", podemos encontrar textos teóricos focados em temáticas específicas analisadas em suas relações cotidianas, mas que, portanto, não se debruçam propriamente sobre o cotidiano9. A coletânea organizada por M. J. Spink (1993) apresenta, pela leitura das representações sociais, diversos estudos sobre o conhecimento no cotidiano.

Também é possível encontrar textos com propostas metodológicas sobre pesquisar no cotidiano. M. J. P. Spink (2007), por exemplo, recupera a memória de três estudos clássicos de Psicologia Social10 realizados na primeira metade do século passado. Ao resgatar essa tradição de pesquisas realizadas no cotidiano, a autora nos alerta para o fato de que o olhar para o cotidiano não é recente na Psicologia Social.

Ainda que textos metodológicos como os já mencionados artigos de M. J. P. Spink (2007) e P. K. Spink (2008) apresentem referências teóricas - como Heller e Certeau (no primeiro) e Lewin (no segundo) -, eles se detêm nas práticas de pesquisa sem se propor fazer uma teorização sobre o cotidiano.

Ao analisar o que considerou como "uma vasta produção bibliográfica sobre a vida cotidiana" nos campos da história, da sociologia e da antropologia, Petersen (1995a) também identificou o que considera como "um ponto frágil: a pouca preocupação teorizante, a inexistência de uma definição mais consistente desse objeto" (p. 30) e denunciou "o caráter fortemente empírico dos estudos sobre o cotidiano" (p. 31). Ainda que a autora não tenha analisado estudos de Psicologia, acreditamos que suas críticas poderiam ser aplicadas aos estudos dessa disciplina.

Parece-nos importante, então, destacar o quanto os estudos de uma psicologia da vida cotidiana têm avançado nas pesquisas brasileiras, mas ainda nos ressentimos da falta de um maior esforço de teorização sobre o cotidiano. Os estudos, muitas vezes, não conseguem ultrapassar o que Petersen (1995b) denomina "uma visão fenomênica da cotidianidade" (p. 52). Assim, estamos de acordo com o autor, quando afirma:

O "nó górdio" que precisa ser desatado com relação à investigação da vida cotidiana é como sair de uma visão fragmentária empírica e avançar em uma reflexão teórica que revele os supostos e as conexões necessárias disto que chamamos de vida cotidiana. A pergunta que tem sido feita, o que há com a vida cotidiana, tem que ser substituída por outra, o que é a vida cotidiana. Assim, é preciso mudar o tom e o sentido de nossas perguntas em direção de uma reflexão mais global de vida cotidiana. (p. 59)

Trabalho e cotidiano

A análise de situações cotidianas de trabalho não é prerrogativa de nosso próprio campo de investigação, a psicologia social. Como sabemos, o cotidiano de trabalho também é objeto de outras ciências e o esforço para sua análise tem constituído campos interdisciplinares nos quais as contribuições da psicologia social somam-se àquelas oriundas de outras disciplinas (Oliveira, 2014).

O dia a dia de trabalho tem sido objeto da antropologia e da sociologia, para ficarmos em dois exemplos de pesquisas identificadas com disciplinas específicas e com as quais temos dialogado. Muitos são os estudos desenvolvidos por essas duas disciplinas, mas, apenas a título de ilustração, nos referiremos a alguns deles. No caso da antropologia, ilustram essa produção as pesquisas de Durão (2003), Granjo (2004) e Marques (2009): estudando diferentes categorias profissionais (tipógrafos, operários de uma refinaria de petróleo e vidreiros), demonstram o emprego do método etnográfico ao estudo das situações concretas de trabalho. No caso da sociologia, pode-se citar o já clássico estudo de Martins (1994) sobre a vivência de operários com o advento de novas tecnologias em uma fábrica na região do ABC paulista e de Mello e Silva, Nozaki e Puzone (2005) no estudo sugestivamente intitulado "O trabalho visto de baixo", no qual abordam etnograficamente o trabalho em células e analisam as peculiaridades e contradições da implantação do toyotismo nas empresas brasileiras, reivindicando a necessidade dos estudos empíricos locais para o aperfeiçoamento da teorização sociológica sobre o trabalho.

Quanto aos campos interdisciplinares de estudo do trabalho, destacam-se a ergonomia, em especial a chamada ergonomia da atividade (Guérin, Laville, Daniellou, Duraffourg, & Kerguelen, 2001), e as chamadas "clínicas do trabalho" (Bendassolli & Soboll, 2011; Lhuilier, 2006, 2011), como a ergologia e a clínica da atividade.

Os intercâmbios entre a psicologia social e esses campos interdisciplinares são vários, mas podemos destacar, para não irmos muito longe na história, a tradição francesa de psicologia do trabalho, representada por Faverge (1952/2009), a tradição sociotécnica (Trist, 1978) e a obra de Ivar Oddone (Oddone, Re, & Briante, 1981).

Jean-Marie Faverge inaugura o que De Keyser (1982) nomeia como uma "política do olhar", que se caracteriza "pelo reconhecimento da dinâmica de relações que os trabalhadores mantêm com o seu meio; pela valorização dos saberes ancorados na experiência concreta; e pela recusa de uma abordagem determinista" (Cunha, 2011, p. 63). A tradição sociotécnica enfatizou a inseparabilidade das dimensões social e técnica (P. K. Spink, 2003). Ivar Oddone, cuja obra teve grande importância no desenvolvimento do campo da saúde do trabalhador no Brasil, por sua vez, chama a atenção para o que efetivamente os trabalhadores fazem e promove a valorização do conhecimento operário e a "redescoberta" de sua experiência (Oddone, Re, & Briante, 1981).

No contexto brasileiro, várias foram as contribuições que se somaram para constituir uma psicologia social dedicada aos estudos do trabalho no país, incluindo as referidas anteriormente. Uma contribuição importante é a de Peter Spink: em seu artigo "Organização como fenômeno psicossocial: notas para uma redefinição da psicologia do trabalho" (1996), por exemplo, o autor delimita o campo da psicologia social do trabalho e aponta para a importância do estudo do cotidiano, como veremos a seguir.11

Uma série de outros estudos empíricos com abordagem qualitativa tem sido realizada no Brasil no campo acima delimitado em que há a identificação dos aportes teóricos sobre o cotidiano nos quais se ancoram12, realizada de modo mais aprofundado por alguns e com menor profundidade por outros. Entre os autores utilizados nesses textos para dar suporte teórico estão: Michel de Certeau, Agnes Heller e Henri Lefebvre, particularmente os dois primeiros, e também autores brasileiros, como José de Souza Martins.

Quando analisamos pesquisas que poderiam ser consideradas como pertencentes a uma psicologia social dedicada aos estudos do trabalho, constatamos diferentes ênfases conferidas a dimensões específicas do cotidiano. Há pesquisas que, por exemplo, enfatizam os sentidos construídos pelos coletivos de trabalho (por exemplo, Coutinho, 2009; Diogo & Maheirie, 2007), focalizando as formas cotidianas de representar e compreender a categoria profissional a que se pertence, o adoecimento no trabalho, o desemprego, as diferenças de gênero etc.

Por outro lado, há um conjunto de pesquisas que focalizam a ação no trabalho ou a atividade em si mesma. De uma parte, buscam compreender os processos de subjetivação, incluindo o sofrimento psíquico e o adoecimento (por exemplo, Carrijo & Navarro, 2009); de outra, analisam a dimensão coletiva das ações dos trabalhadores, por exemplo, investigando as relações de poder ou os modos coletivos de concretização do trabalho (Bernardo, 2009; Osório, 2006; Sato, 2002, 2012).

Não é simples a tarefa de delimitar o status do cotidiano laboral nos estudos produzidos desde uma perspectiva psicossocial que se revela plural. No entanto, é possível reunir alguns pontos que consideramos essenciais para traçar esse caminho entre trabalho e cotidiano.

O primeiro é o reconhecimento da distância entre trabalho prescrito e trabalho real, incluindo todos os desdobramentos que se seguiram desde a formulação desses conceitos por Ombredane e Faverge (1955): se a tarefa prescrita não é capaz de antecipar-se à imprevisibilidade inerente aos sistemas de trabalho (o que torna risível o ideal taylorista), recairá sobre os trabalhadores em ação o desafio de articular plano e realidade.

A inescapável mediação com o real coloca o cotidiano em foco:

Torna-se cada vez mais claro que o dia-a-dia, o cotidiano mundano, não é um vazio de restos aleatoriamente espalhados pelo chão mas, ao contrário, é o lugar onde a gente se reconhece como gente no sentido comunicativo. Reconhece-se também que a capacidade de ordenar atividades e ações, de criar diferentes e novas formas de agir é uma característica essencialmente humana e que é esta a base que materializa os passos da humanidade no horizonte reconhecível do dia-a-dia, mesmo que os passos sejam contraditórios e seus significados confusos. (P. K. Spink, 1996, p. 186)

Segundo, os trabalhadores lançam mão de conhecimentos coletivamente construídos para realizar os objetivos de trabalho, recorrendo às "caixas coletivas de ferramentas organizativas mundanas desenvolvidas ao longo da história social" (P. K. Spink, 1996, p. 188).

Ainda, como se afirmou em outros momentos (Oliveira, 2014; Sato, Bernardo & Oliveira, 2008; Sato & Oliveira, 2008), o estudo do cotidiano de trabalho abre a possibilidade de encontro com uma micropolítica, na medida em que a atividade laboral é palco de conflitos e contradições de interesses distintos. Encontramos em Certeau (1998) as ferramentas conceituais adequadas para clarificar a dinâmica dessa micropolítica, pois, em contextos de assimetrias de poder, a ação dos trabalhadores acontece em espaços controlados por outros, de modo que as características táticas da "arte do fraco" fazem-se presentes como formas de resistir.

Finalmente, como afirmam Sato e Oliveira (2008):

O que a análise do cotidiano de trabalho revela é que a gestão é em si mesma um processo interativo e não apenas a aplicação de prescrições sobre outros. Na verdade, se considerarmos aquilo que as pesquisas em psicologia social do trabalho têm apontado, gerir o trabalho revela-se, não como simples prescrição e obediência, mas como a produção de uma existência negociada. (p. 195)

Percursos, partidas e chegadas

Em nossos percursos, a circunscrição do exame sobre a vida cotidiana foi induzida pelo modo como temos realizado pesquisas em psicologia social do trabalho. Procurou-se neste ensaio apresentar os caminhos que levaram ao estudo do cotidiano de trabalho e os horizontes que se abriram nesse percurso. O cotidiano não foi ponto de partida das pesquisas, mas um dos pontos de chegada aos quais temos sido levados por perseguirmos o fio ao qual se amarravam as situações e os contextos que se afiguram como problemas aos trabalhadores. Como dissemos no início, é no cotidiano que a vida acontece. Proceder ao exame do cotidiano na contemporaneidade foi, assim, a exigência metodológica para que as condições de trabalho e de vida no contexto das relações de trabalho no capitalismo de nossos países se apresentassem. O que nos convidou a reconhecer a singularidade dos sentidos e dos significados construídos pelos trabalhadores, das formas de interação social, dos processos organizativos, da micropolítica, das práticas astuciosas etc.

Para dar conta de examinar os objetos acima, os necessários recursos teóricos e metodológicos têm sido buscados em diversas disciplinas nas ciências humanas e sociais, pois diversas tensões - entre o micro e o macro, entre o indivíduo, o grupo e a sociedade, entre o objetivo e o subjetivo, entre a reprodução e a construção do novo, entre o conformismo e a resistência (Chauí, 1986) - apresentam-se como desafios para configurar o cotidiano. Sobretudo, nessa busca temos nos empenhado em angariar apoios para iluminar a expressão do singular, do novo e do inesperado e não apenas o que teorias totalizantes tenham afirmado e reafirmado. Ao lado disso, temos conduzido estudos empíricos que permitiram conhecer as mais distintas realidades de trabalho e os pontos de vista dos trabalhadores. Para tanto, são solicitados procedimentos de investigação que se mostrem aptos a captar aquilo que o pesquisador não tem condições de antever como manifestação. As estratégias para a escuta, para a observação e para a convivência entre pesquisadores e trabalhadores nas situações pesquisadas tendem a ser mais abertas, sem protocolos fechados de investigação, e requerem prolongada interação no campo da pesquisa. Na condução dessas pesquisas, tomamos toda inserção do pesquisador no campo como também intervenção, advogamos a não separação entre os momentos de recolhimento e análise das informações e defendemos um compromisso ético com todos os envolvidos no processo de investigação.

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1Informações sobre financiamento: CNPq (Pós-doutorado Sênior), processo: 150373/2010-4. FAPESP (Bolsa de Pesquisa no Exterior), processo: 2011/11627-9.

3Para situar melhor o ponto de vista da pesquisa no cotidiano (em contraposição a pesquisar o cotidiano), ver M. J. P. Spink (2007) e P. K. Spink (2008).

4Embora não seja discutida neste artigo, a dimensão espacial é muito importante para a compreensão do cotidiano, particularmente na obra de Henri Lefebvre. Sato (2012) e Castro (2010) são exemplos de como essa dimensão é abordada nos estudos sobre o cotidiano de trabalho a partir de uma perspectiva da Psicologia Social.

5Entre as obras analisadas por Emiliani (2009), destacam-se as de M. Argyle (The social psychology of everyday life) e de J. V. Rillaer (Psicologia della vita quotidiana: una riflessione scientifica non freudiana).

6Entre eles: Garfinkel, Schutz, Lefebvre, Moscovici, Bruner.

7 Emiliani (2009) analisa fases da vida nas quais haveria maior necessidade de utilização de estratégias para controle da realidade, como a infância e a velhice, por meio da utilização de práticas rotineiras e ritualizadas, capazes de prover ordem e regulamentações.

8Em um movimento semelhante ao de Emiliani (2009), também Levigard e Barbosa (2010) trazem para o campo da psicologia o debate teórico sobre o cotidiano e, para tanto, dialogam com as obras de três importantes referências para o campo: Heller, Lefebvre e Certeau.

9Como exemplo, podemos citar o texto de Critelli (2008) sobre consumo cotidiano e o texto de Nardi (2008) sobre as políticas de diversidade sexual no cotidiano da educação.

10M. J. P. Spink (2007) resgata nesse texto os seguintes estudos clássicos realizados na primeira metade do século XX: 1) o estudo de Marienthal, realizado em uma comunidade de desempregados por Jahoda, Lazarsfeld e Zeisel; 2) a pesquisa "Quando as profecias falham", efetivada por Festinger e seus colaboradores; e 3) um estudo precursor da Psicologia Ambiental, realizado com crianças por Barker e Wright.

11Ver também seus primeiros estudos, ainda no Instituto Tavistock (P. K. Spink, 1982)

Recebido: 17 de Fevereiro de 2014; Revisado: 03 de Abril de 2015; Aceito: 05 de Maio de 2015

*Endereço para correspondência: fabioliv@usp.br

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