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Scientia Agricola

versão On-line ISSN 1678-992X

Sci. agric. v.56 n.2 Piracicaba  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161999000200029 

DISTRIBUIÇÃO DE SUBSTRATOS NAS COLÔNIAS DE Atta laevigata (F. Smith, 1858) (HYMENOPTERA: FORMICIDAE)1

 

Aldenise Alves Moreira; Luiz Carlos Forti*
Depto. de Defesa Fitossanitária, FCA/UNESP, C.P. 237 - CEP: 18603-970 - Botucatu, SP.
*e-mail: luizforti@fca.unesp.br

 

 

RESUMO: Estudou-se a distribuição de substratos em duas colônias adultas (L-1 e L-2) da saúva Atta laevigata (F. Smith, 1858), com áreas de terra solta de 26,10 e 31,30 m2. Alguns orifícios de abastecimento foram mapeados utilizando-se iscas de canudinhos plásticos impregnados com polpa cítrica. Depois selecionou-se três orifícios para o ninho L-1 e um orifício para o ninho L-2, onde foram colocadas iscas cítricas impregnadas com corantes azul, amarelo e vermelho e amarelo misturado com grãos de milho, respectivamente. Após 24 horas da colocação das iscas, as colônias foram mortas e escavadas totalmente. Durante a escavação, registrou-se a presença ou ausência dos corantes nas câmaras com cultura de fungo. Observou-se, neste trabalho, que as iscas com corantes distribuíram-se em todos os setores para os ninhos L-1 e L-2 e em todas as profundidades para o ninho L-1. No entanto, em L-2 encontrou-se corante nas profundidades de 1 a 4m, independentemente do local em que foram colocadas, indicando que as iscas formicidas colocadas em apenas um orifício de abastecimento da colônia, podem ser distribuídas uniformemente pelo ninho.
Palavras-chave: iscas formicidas, saúvas, insetos, ninhos

 

SUBSTRATE DISTRIBUTION IN Atta laevigata (F. Smith, 1858) COLONIES (HYMENOPTERA: FORMICIDAE)

ABSTRACT: Substrate distribution in was studied two adult leaf cutting ant Atta laevigata (F. Smith, 1858) colonies (L-1 and L-2), with 26.10 and 31.30 m2 areas of refuse soil. Some nest holes were mapped through the use of baits made of small plastic straws soaked with citric pulp. Three holes, equidistant from one another, were then selected for nest L-1, and a single hole in nest L-2. Blue-, yellow - and red-colored citric baits, and yellow baits plus corn, were placed in nests L-1 and L-2, respectively. After 24 hours from the deposition of the baits, the colonies were killed and totally excavated. During digging, the presence or absence of dye baits in the chambers containing fungi, was registered. It was observed that the baits were distributed in all sectors of L-1 and L-2 nests and in all depths only for L-1. However, the dyed baits of L-2 nest were detected from 1 to 4 meters deep, independently of the places where the baits were disposed. Thus, it can be concluded that toxic baits placed in a single supply-hole of a colony are uniformly distributed inside the nest.
Key words: formicide baits, leaf cutting ants, insects, nests

 

 

INTRODUÇÃO

A saúva Atta laevigata (F. Smith, 1858), popularmente conhecida como "saúva cabeça de vidro", utiliza como substrato para o fungo, folhas de inúmeras plantas dicotiledôneas e algumas gramíneas (Paiva Castro et al., 1961). A. laevigata ocorre praticamente em todo o território nacional, constituindo-se em praga da mais alta importância.

A distribuição de substrato carregado pelas diversas espécies do gênero Atta, para o desenvolvimento do fungo, tem grande importância na eficiência do controle com iscas tóxicas. Sobre este assunto, Mariconi et al. (1981) concluíram que o material carregado pelas diversas espécies de saúvas é distribuído uniformemente nas câmaras de fungo, em diferentes profundidades. Contudo, Loeck & Nakano (1982) constataram que os substratos não são igualmente distribuídos na colônia de Atta sexdens rubropilosa (Forel, 1908), tendendo ao abastecimento setorial. Por outro lado, Pretto (1996) constatou que para essa espécie as iscas formicidas distribuem-se de forma homogênea.

Forti (1985) e Forti & Silveira Neto (1989) observaram que substratos com corante de alimento são distribuídos uniformemente nos diferentes setores da colônia de Atta capiguara (Gonçalves, 1944) e em todas as profundidades. De acordo com esses autores, a distribuição não setorial pode ser facilitada, em determinadas épocas do ano, quando o material vegetal torna-se escasso. Em decorrência da controvérsia existente sobre este assunto e da ausência de publicações para A. laevigata, realizou-se este trabalho, com o objetivo de verificar a distribuição de substratos nas câmaras de fungo da colônia.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Este trabalho foi realizado na Fazenda Santana, localizada no município de Botucatu, SP. Testou-se a hipótese de que os substratos forrageados pelas operárias de A. laevigata são distribuídos em determinados setores da colônia, nos quais estão localizados orifícios que os abastecem. Foram selecionadas duas colônias com área de terra solta de 26,10 e 31,30 m2, denominadas ninhos L-1 e L-2, respectivamente. Os ninhos foram divididos em setores, que foram obtidos estirando-se duas cordas de "nylon" sobre o monte de terra solta, formando um eixo ortogonal (x, y), cujo centro localizava-se sobre a maior concentração de terra solta (Figuras 1 e 2).

 

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Figura 1 - Locais onde foram colocadas as iscas com corantes no ninho L-1 de Atta laevigata. Botucatu, SP, 1994.

 

 

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Figura 2 - Locais onde foi colocada a isca com corante misturada com grãos de milho no ninho L-2 de Atta laevigata.Botucatu, SP, 1995.

 

Foram utilizadas iscas de canudinho plástico de diversas cores impregnado com polpa cítrica, baseado na técnica de Fowler et al (1993), para mapear os orifícios pertencentes ao ninho.

O mapeamento consistiu na observação dos canudinhos devolvidos no monte de terra solta, vinte e quatro horas após o seu oferecimento. Dos orifícios mapeados foram selecionados três para o ninho L-1 e um para o ninho L-2, com base na atividade de forrageamento das operárias e posição do orifício em relação ao centro do monte de terra solta. Nesses orifícios colocaram-se iscas coloridas, confeccionadas com o mesocarpo da laranja e impregnadas com anilina alimentar (azul e amarela) e isca comercial impregnada com Rhodamina B (vermelha). Em cada orifício foi colocada uma cor diferente, anotando-se o setor a que pertencia (AD, B ou C) (Figura 1). No ninho L-2, para confirmar os resultados obtidos para o ninho L-1, colocou-se isca amarela misturada com grãos de milho em apenas um orifício com alta atividade de forrageamento pelas operárias (Figura 2).

Nos dois ninhos, as iscas foram colocadas nos orifícios mapeados : azul, amarela e vermelha para o ninho L-1 e amarela misturado com grãos de milho para o ninho L-2 (Figuras 1 e 2).

Após 24 horas da colocação das iscas, as colônias foram mortas, utilizando-se um formicida (cloropirifós), aplicado com termonebulizador, e escavadas totalmente. Abriram-se trincheiras de 0,70 m de largura por 1 m de profundidade, alargadas em direção ao centro do ninho e aprofundadas à medida que apareciam as câmaras. O ninho L-1 foi escavado em novembro de 1994 e atingiu uma profundidade de 4m, na qual foram encerradas as escavações por não serem encontradas mais câmaras; o ninho L-2 foi escavado de agosto a novembro de 1995 até a profundidade de 6m. Durante a escavação observou-se a presença de partículas coloridas ou milho nas câmaras com fungo recém incorporado, anotando-se a presença ou ausência dos mesmos. Localizaram-se as câmaras com corantes nos eixos (x, y) e nos setores hipotéticos A, B, C e D, e em diferentes profundidades.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para o ninho L-1, no qual foram colocadas iscas coloridas (vermelha, amarela e azul), sendo colocada uma cor por setor (AD, B e C), esperava-se que essas iscas fossem distribuídas apenas no respectivo setor. No entanto, as iscas foram encontradas em todos os setores (TABELA 1, Figura 3), cujas câmaras continham material vegetal recém incorporado à cultura de fungo. Observou-se que nos setores B e C foi encontrado maior número de câmaras contendo corante, justificado pelo maior número total de câmaras com fungo nestes setores. Observou-se ainda, no ninho L-1, a distribuição de substratos em diferentes profundidades (TABELA 2, Figura 4), encontrando-se os três corantes em todas as profundidades, dependendo apenas do número de câmaras com fungo presente. Como nas profundidades de 1 a 3 m encontravam-se mais câmaras com fungo, consequentemente um maior número de câmaras com corante foi encontrado,no ninho L-2, onde foi colocada isca amarela misturada com milho em grãos como substrato, observou-se nas câmaras com cultura de fungo, sementes de milho germinadas e/ou corante amarelo, sendo estes distribuídos em todos os setores, independentemente do setor em que foi colocada(TABELA 3, Figura 5) e nas profundidades de 1 a 4m; a partir de 4m de profundidade não foi possível observar a presença de corante, pois o fungo estava muito exaurido em decorrência do longo tempo de escavação (TABELA 4, Figura 6).

 

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Figura 3 - Sauveiro L-1: distribuição de iscas com corantes, por setores, nas câmaras de fungo do ninho de A. laevigata. Botucatu, SP, 1994.

 

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Figura 4 - Sauveiro L-1: distribuição de iscas com corantes, por profundidade, nas câmaras de fungo do ninho de A. laevigata. Botucatu, SP, 1994.

 

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Figura 5 - Sauveiro L-2: distribuição de iscas com corantes misturada com grãos de milho, por setores, nas câmaras de fungo do ninho de A. laevigata. Botucatu, SP, 1995.

 

 

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Figura 6 - Sauveiro L-2: distribuição de iscas com corantes misturada com grãos de milho nas câmaras de fungo do ninho de A. laevigata em diferentes profundidades. Botucatu, SP, 1995.

 

Observou-se neste trabalho que as iscas foram distribuídas em todos os setores e em todas as profundidades para o ninho L-1 independentemente do setor onde colocou-se a isca. Em L-2, não houve isca a partir de 4m de profundidade; mas em profundidades menores, sim. Entretanto, Loeck & Nakano (1982) verificaram que em uma colônia de A. sexdens rubropilosa, os substratos não foram igualmente distribuídos tendendo ao abastecimento setorial. Esses resultados podem ter diferido em decorrência da época em que foram estudados, tempo decorrido desde a colocação das iscas até a escavação ou tamanho da amostra, já que a maioria dos trabalhos são baseados em apenas uma colônia, fato perfeitamente compreensível, em vista da grande dificuldade dos trabalhos de escavação.

Resultados semelhantes aos obtidos neste trabalho foram encontrados por Mariconi et al. (1981) para algumas espécies de saúvas, por Forti (1985) e Forti & Silveira Neto (1989) para A.. capiguara e por Pretto (1996) para A. sexdens rubropilosa, que verificaram que as iscas são distribuídas uniformemente em todos os setores e profundidades.

Do ponto de vista prático, os resultados indicam que, para o controle químico de colônias da espécie em questão através de iscas tóxicas, os pellets podem ser colocados em apenas um orifício, principalmente em épocas de baixa atividade de forrageamento, quando poucos orifícios estão ativos, garantindo assim um controle satisfatório. No entanto, a distribuição das iscas em mais de um orifício é a recomendação mais adequada, pois as iscas serão carregadas mais rapidamente para o interior da colônia, diminuindo o tempo de exposição dos pellets aos organismos não-alvos e às intempéries.

 

CONCLUSÃO

A distribuição de substratos dentro do ninho é uniforme, sendo transportados para todas as câmaras de fungo com material vegetal recém-incorporado.

 

AGRADECIMENTOS

À Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Nível Superior (CAPES), pelo financiamento do Curso de Pós-Graduação, que possibilitou o desenvolvimento da presente pesquisa.

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL), pela concessão da bolsa de finalização de mestrado.

À Atta-Kill Indústria e Comércio de Defensivos Ltda, pelo auxílio financeiro para a realização de grande parte dos trabalhos de campo.

À Maria Aparecida C. Boaretto, pela correção deste trabalho.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FORTI, L.C. Ecologia da saúva Atta capiguara Gonçalves, 1944 (Hymenoptera, Formicidae) em pastagem. Piracicaba, 1985. 234p. Tese (Doutorado)- Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Universidade de São Paulo.         [ Links ]

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LOECK, A.E.; NAKANO, O. Distribuição de substratos no interior de um sauveiro de Atta sexdens rubropilosa Forel, 1908 (Hymenoptera, Formicidae). O Solo, v.74, p.43-47, 1982.         [ Links ]

MARICONI, F.A.M.; WIENDL. F.M. ; WALDER, J.M.M. Iscas granuladas marcadas com iodo e fósforo radioativos no estudo de saúvas (Atta spp.). In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ENTOMOLOGIA, 7., Fortaleza, 1981. Anais. Fortaleza, 1981. p. 258-259.         [ Links ]

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PRETTO, D. R. Arquitetura de túneis de forrageamento e do ninho de Atta sexdens rubropilosa Forel, 1908 (Hymenoptera, Formicidae), dispersão de substrato e dinâmica do inseticida na colônia. Botucatu, 1996. 110p. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Ciências Agronômicas, Universidade Estadual Paulista.         [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 03.03.98
Aceito para publicação em 20.08.98

 

 

1Parte da Dissertação de Mestrado do primeiro autor apresentada à FCA/UNESP, Botucatu, SP.

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