SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.12 número especialComo e por que somos feministas índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

  • Português (pdf)
  • Artigo em XML
  • Como citar este artigo
  • SciELO Analytics
  • Curriculum ScienTI
  • Tradução automática

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Revista Estudos Feministas

versão impressa ISSN 0104-026Xversão On-line ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. v.12 n.spe Florianópolis set./dez. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2004000300001 

EDITORIAL

 

Feminismos e publicações: pulsações de teorias e movimentos

 

 

Esse número especial da Revista Estudos Feministas visa compartilhar com nossas leitoras muitas das discussões e das reflexões travadas durante o I Encontro Internacional e II Encontro Nacional de Publicações Feministas, realizado no Hotel Canto da Ilha, na praia de Ponta das Canas em Florianópolis, Santa Catarina de 28 a 30 de novembro de 2003. Esse evento, promovido pela Revista Estudos Feministas com o apoio da Fundação Ford, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, da CAPES e da Linha de Estudos de Gênero do Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC, deu continuidade ao projeto de constituição da Rede de Publicações Feministas, discutido no I Encontro Brasileiro de Publicações Feministas, ocorrido no mesmo local, entre os dias 7 e 9 de agosto de 2002.

Financiado pela Fundação Ford, o I Encontro Brasileiro reuniu sete editoras de publicações feministas das Universidades e treze editoras de publicações de ONGs. Os resultados deste primeiro evento foram publicados no dossiê intitulado "Publicações feministas brasileiras: compartilhando experiências", volume 11, número 1, de junho de 2003. Os textos deste dossiê se tornaram importante fonte para pesquisadoras interessadas no feminismo no Brasil, uma vez que eles apresentam um panorama bastante completo dos periódicos, boletins, revistas e livros publicadas atualmente no Brasil pelos núcleos de pesquisas das universidades, pelas Organizações Não-Governamentais e algumas instituições internacionais.

Alguns textos deste dossiê antecipavam, de certa forma, o eixo central das reflexões e dos debates ocorridos em novembro de 2003 durante o I Encontro Internacional e II Encontro Nacional de Publicações Feministas: a constituição do campo dos feminismos no Brasil e no mundo, a partir de diferentes visões feministas originadas nas práticas militantes e no âmbito das reflexões teóricas contemporâneas.

Neste segundo encontro, que teve também um caráter internacional, tendo contado com a presença de colegas de vários países, a discussão sobre esse tema pautou de forma indelével todas as mesas e debates. Os debates extrapolavam seguidamente as mesas redondas e se prolongavam pela noite à fora, a beira da piscina e em caminhadas matinais na praia de Ponta das Canas, no norte da Ilha de Santa Catarina. Os diálogos sobre edição e editoração feministas, constituíram inevitavelmente, uma reflexão sobre o próprio feminismo, percebido ali em suas múltiplas dimensões políticas. Feministas vinculadas a espaços universitários, movimentos sociais ou de formulação de políticas públicas, puderam ao longo de três dias, aprofundar questões que as exigências externas às práticas profissionais cotidianas - como sistemas de avaliação acadêmicos ou demandas de ação urgentes – acabam por dificultar.

Como parte desse intenso repensar sobre o feminismo, as editoras brasileiras trocaram experiências com as editoras de revistas internacionais, tendo em vista a ampliação do campo de divulgação de ambos os tipos de publicação. Algumas primeiras experiências de trocas de artigos e de tradução iniciaram-se ali, apesar da constatação unânime de alguns aspectos problemáticos: primeiro, que a edição feminista é um ato militante, pois inexistem recursos institucionais para este tipo de trabalho. Via de regra, as editoras presentes observaram que trabalham gratuitamente para a concretização de seus sonhos. As que são professoras vinculadas a instituições universitárias não são pagas por este trabalho que, apesar de trazer prestígio à suas instituições, não é considerado como equivalente às horas/aula.

Segundo, constatou-se também que o trabalho editorial feminista é feito geralmente, em detrimento da escrita e da publicação dos trabalhos acadêmicos pessoais. As profissionais vinculadas às ONGs ressaltaram a dificuldade de justificar frente às agências financiadoras o salário de profissionais dedicadas à edição. Em ambos os casos, mesmo obtendo financiamentos para os custos gráficos de uma publicação, seja através de agências financiadoras nacionais, seja de agências internacionais, observou-se que não há previsão orçamentária para a remuneração das árduas tarefas editoriais. O debate a respeito desses e de outros tipos de obstáculos a serem vencidos norteou o balanço sobre o futuro das publicações.

Participaram deste encontro internacional doze editoras de publicações internacionais, três responsáveis por Editoras de livros científicos nacionais (Editora Mulheres, de Florianópolis; Editora Brasiliense, de São Paulo e a Editora Letras Livres, de Brasília) e vinte e uma editoras de publicações nacionais - algumas sediadas em universidades e muitas sediadas em Organizações Não Governamentais, além da equipe editorial executiva e das integrantes do Comitê Editorial Nacional da Revista Estudos Feministas.

Os dois eventos evidenciaram a necessidade de apoio mútuo entre as publicações das ONGs e as das Universidades nacionais e estrangeiras, desde quando as primeiras contam com oportunidades de financiamento mais regulares e as segundas se beneficiam da infra-estrutura dos núcleos das universidades para diversificar interesses, contribuir para a formação e expansão de quadros profissionais, fortalecendo o debate acadêmico. A questão da circulação de informações, de troca de experiências na editoria de periódicos científicos e as exigências das agências financiadoras, além da difícil questão da circulação das publicações feministas, foram alguns dos temas destacados no encontro. Mas, como afirmamos anteriormente, o principal tema, que percorre de forma indelével – seja explícita, seja implicitamente -, a maior parte dos textos que publicamos aqui é a discussão sobre o feminismo enquanto movimento social, campo teórico e espaço de mudança cultural.

Vale a pena esclarecer que a Rede de Publicações Feministas, consolidada já no I Encontro se desenvolveu nestes primeiros anos em torno de duas ações: o Portal e o Consórcio que visam, respectivamente, a construção e manutenção de um espaço na Web para a divulgação eletrônica das revistas feministas e, a garantia da presença das publicações impressas em eventos nacionais e internacionais ligados ao campo de estudos feministas e de gênero, agilizando sua divulgação, distribuição e comercialização, um dos principais problemas apontados por todas as editoras de periódicos nos dois eventos. O Portal Feminista, gerenciado no momento pela REF, está também ampliando o numero de periódicos on line com a entrada em 2005 da Revista Gênero, publicada na Universidade Federal Fluminense e planejando a inclusão de outras revistas. O Consórcio, sólida rede estabelecida entre algumas publicações acadêmicas e de ONGS, continua presente em muitos eventos, como o recente Fórum Social Mundial, realizado em janeiro de 2005 em Porto Alegre.

Face à diversidade de temas tratados e da intensidade das trocas estabelecidas no evento, muitas foram as deliberações e os encaminhamentos propostos no final do Encontro. Realizamos aqui, com esta publicação, um deles: o de difundir as idéias e debates sobre as diferentes relações entre feminismos acadêmicos e militantes expressas em periódicos e publicações de diferentes ordens.

Publicamos neste número especial da REF vinte e cinco artigos, divididos em cinco grandes eixos temáticos. Integram o primeiro eixo três artigos que refletem sobre o feminismo como movimento social e em suas múltiplas interseções com o campo da escrita feminista. Simone Schmidt reflete sobre as relações entre as publicações feministas e o feminismo como prática teórica e como lugar político; Suely Gomes Costa identifica algumas tensões históricas entre feminismos no Brasil, tomando como ponto de partida, por um lado, a difícil relação entre classe social e feminismo e por outro, a dificuldade que historiadoras mulheres tiveram no Brasil para incorporar os estudos de gênero nas instâncias acadêmicas universitárias. Iniciando seu texto de forma mais ensaística, ela o finaliza com um importante relato da historiadora Rachel Soihet sobre o desenvolvimento da história das mulheres na UFF, um dos principais centros de pós-graduação na área de História no Brasil.

Finalizando essa parte, incluímos a contribuição de Elizabeth Cardoso que sintetiza os resultados de uma pesquisa de campo sobre a imprensa feminista brasileira pós- 1975, considerando a existência de duas fases distintas, moldadas a partir de acontecimentos históricos específicos.

Na segunda parte, agrupamos vários relatos sobre as peculiaridades das publicações feministas no exterior: Estados Unidos, França, México, Portugal e Equador.

Inicialmente Marysa Navarro recorre à sua ampla experiência como integrante de vários comitês editoriais nos Estados Unidos, para esboçar as linhas gerais da instigante trajetória das revistas feministas acadêmicas norte-americanas. Em seguida, Jules Falquet ressalta a importância da revista Nouvelles Questions Féministes para o debate teórico e para os movimentos na França, destacando sua "visão feminista, radical, materialista e anti-esencialista".

A experiência de Debate Feminista, revista mexicana criada em 1990, relatada por Cecília Olivares, é de alguma forma paradigmática da trajetória de grande parte das revistas que participaram do encontro. Essa revista surge no bojo do diálogo entre o feminismo acadêmico e o militante e mantêm ao longo de sua história esta comunicação intensa entre esses dois âmbitos, tendo como projeto a difusão em espanhol de idéias feministas internacionais e a ampliação das possibilidades de publicação para as pesquisadoras feministas mexicanas. Constatando que os números sobre temas como feminismo, amor, sexualidade, público/privado, corpo e sujeito foram os primeiros a esgotarem-se, a autora compartilha a pesquisa que fez com leitoras de Debate Feminista sobre a revista e constata que refletem de forma mais consolidada as inquietações e os desejos das feministas mexicanas contemporâneas, dentro e fora da academia.

La Ventana, revista mexicana editada pela Universidade de Guadalajara foi apresentada por Dolores Rivera Reynoso, que chamou a atenção para o papel de fundamental importância que essa revista tem jogado no sentido de difundir avanços teórico-conceituais e de interferir nas práticas sociais.

A experiência da revista portuguesa Ex-Aequo, com dois números por ano e uma tiragem de 600 exemplares, relatada por Teresa Joaquim, reflete também a trajetória de outras revistas feministas acadêmicas presentes no encontro. Criada em 1997 no bojo da Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres a editoria da revista circula entre instituições universitárias.

Maria Cuvi-Sánchez discorre sobre o campo do feminismo no Equador destacando a experiência do El Ágora de las Mujeres, organização que surge da revolta feminista contra um importante intelectual equatoriano. Em seu texto, a autora descreve também a revista Caracola, bastante diferente de outras apresentadas no encontro, trata-se de uma publicação de cunho literário e artístico com grande impacto nos meios de comunicação no Equador.

Na terceira parte trazemos algumas das contribuições apresentadas pelas editoras de publicações nacionais. Estes textos complementam os relatos (já publicados no dossiê do volume 11, número 1, 2003) de inúmeras experiências editoriais feministas no Brasil.

Zahidé Muzart relata a experiência com uma Editora especializada na divulgação de obras escritas por mulheres; Joana Plaza Pinto problematiza a idéia de "discurso feminista", reflete sobre as "tecnologias da escrita como redes de poder" e sobre as "publicações feministas" para situar a experiência com políticas de publicação que vem sendo desenvolvida pelo Grupo Transas do Corpo; o papel desempenhado pelas revistas científicas na construção, expansão e consolidação do campo de estudos de gênero é tratado por Maria Margaret Lopes e Adriana Piscitelli, tendo como fonte de inspiração a experiência acumulada com a edição dos Cadernos Pagu.

Na seqüência, Sandra Duarte assinala a importância da Revista Mandrágora para o debate sobre as relações entre religião, estudos feministas e representações de gênero; Maria Conceição Lopes Fontoura analisa a produção escrita de Maria Mulher – Organização de Mulheres Negras, alertando para a necessidade de incentivo à produção intelectual de entidades feministas negras; o conteúdo dos variados temas abordados pelo Jornal Fêmea entre 1992 e 2002, é tratado por Michelle Cristiane Lopes Barbosa, que se preocupa em identificar as mudanças e os desafios inerentes às distintas pautas; Eliane Schmaltz Ferreira e Dulcina Tereza Bonati Borges elaboram um balanço da contribuição do Caderno Espaço Feminino para o debate sobre gênero na Universidade Federal de Uberlândia; Rosana Cássia Kamita, por sua vez, analisa a revista literária A Mensageira dirigida ao público feminino paulista entre 1897 e 1900, mostrando suas especificidades e seu pioneirismo.

Finalmente o ultimo artigo dessa parte, de Rozeli Porto, apresenta o relato detalhado do funcionamento do Consórcio de Publicações Feministas, liderado pela REF em seus três primeiros anos de existência. A autora, que foi sua principal organizadora, descreve como esse Consórcio tem funcionado com a participação de diferentes revistas que se reúnem para construir uma estratégia unificada de vendas e divulgação através da montagem de um stand compartilhado em eventos da área. Alguns dados de seu texto, como os quadros nos quais contabiliza todos os eventos nos quais o Consórcio atuou, mostram a dimensão e o impacto que a banca teve sobre o mercado editorial de estudos feministas. Com a média de participação em 20 eventos por ano – no Brasil e também no exterior – o Consórcio foi, em sua avaliação e da maior parte de seus participantes, uma experiência bem sucedida.

Na quarta parte publicamos dois relatos de experiências de publicações feministas eletrônicas. Claudia de Lima Costa e Rita Xavier Machado descrevem os procedimentos de criação e implantação de uma experiência inédita no país, o Portal Feminista, banco de dados destinado a armazenar e difundir a versão eletrônica das revistas acadêmicas feministas brasileiras. Maria Esther Mogollón, que relata uma série de experiências editoriais feministas nas quais atuou nas duas últimas décadas, faz em seu texto uma série de reflexões sobre o alcance das publicações eletrônicas. Tomando como ponto de partida da reflexão sua experiência editorial no Boletim Eletrônico Ciudadania Sexual, Mogollón percebe também os limites que as publicações feministas têm na América Latina pelo fato da maior parte das mulheres serem iletradas. Tomando o exemplo do Peru, ela constata a dificuldade de atingir 70% das mulheres peruanas que são analfabetas. Seu texto, portanto, nos faz pensar num dos dramáticos desafios do feminismo latino-americano contemporâneo que é a luta pelo acesso ao mundo letrado às mulheres, pelo direito à cidadania que só sua alfabetização massiva permitirá.

Por último, decidimos publicar neste volume uma série de textos que refletem sobre os primeiros dez anos da Revista Estudos Feministas, a partir de múltiplos olhares que possibilitam uma visão geral do seu diálogo com o campo. O primeiro deles foi apresentado no I Encontro Brasileiro de Publicações Feministas; o último no I Encontro Internacional e II Nacional. Os demais foram apresentados em distintos eventos ocorridos nos últimos três anos.

Albertina de Oliveira Costa relata em seu artigo o contexto no qual a REF foi criada em 1992, com o apoio da Fundação Ford. Ao relembrar o clima da criação da revista, a difícil decisão sobre o seu nome e as negociações institucionais para sediá-la em várias instituições universitárias do Rio de Janeiro, Albertina reflete sobre a consolidação do campo de estudos sobre mulheres, gênero e feminismo no Brasil.

Miriam Pillar Grossi conta sua experiência enquanto uma das editoras que assumiu a transferência da REF do Rio de Janeiro para Santa Catarina. Seu texto ilustra, por um lado, as dificuldades editoriais, políticas e institucionais da publicação acadêmica feminista encontradas em outros relatos de editoras publicados neste número. Por outro, mostra como a equipe editorial da REF na UFSC soube enfrentar estes desafios, contribuindo para continuar o seu processo de consolidação enquanto uma das mais conceituadas revistas acadêmicas da área de Ciências Humanas no Brasil.

Luzinete Simões Minella analisa a composição da revista em seus dois primeiros anos de edição na UFSC (1999 e 2000), refletindo sobre o tipo de abordagem metodológica e teórica dos artigos, temas mais recorrentes e áreas disciplinares das/os autoras/es.

Sônia Weidner Maluf, analisa os dossiês publicados pela REF em seus 12 anos de existência. Segundo sua análise, os dossiês, criados com o intuito de permitir a comunicação entre movimentos feministas e o público de leitoras vinculadas à núcleos de pesquisa acadêmicos, representam diferentes tipos de enfoque e estilos textuais. Recuperando os inúmeros temas abordados nos dossiês, a autora destaca aqueles que mais se repetiram - o feminismo e os direitos sexuais e reprodutivos.

Débora Diniz e Paula Foltran, pesquisadoras da ONG ANIS, elaboram uma síntese da REF contando sua história à partir de depoimentos de ex-editoras e da análise dos editoriais dos 10 primeiros anos da revista. Após uma breve recuperação da história institucional, as autoras elaboram uma análise quantitativa a respeito de quem publica na REF - mostrando que na grande maioria dos artigos trata-se de trabalho individual, feito em sua grande maioria por mulheres vinculadas às instituições acadêmicas nas regiões sudeste e sul do Brasil – e recuperam os principais temas abordados na revista.

Esperamos com esse número especial da REF contribuir para as reflexões sobre o campo do feminismo no Brasil, que tem como particularidade uma intensa troca entre pesquisadoras vinculadas às universidades e ativistas de Organizações Não-Governamentais e de movimentos autônomos. Confiamos que essa troca se dará também com nossas leitoras e leitores, que certamente poderão pressentir as pulsações das teorias e dos movimentos nas linhas e nas entrelinhas desses significativos relatos sobre publicações feministas. Boa leitura!

 

Luzinete Simões Minella
Miriam Pillar Grossi
Carmem Vera Gonçalves Vieira Ramos
Juliana Cavilha Mendes Losso

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons