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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.19 no.3 Florianópolis Sept./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2011000300014 

SEÇÃO TEMÁTICA
A CONSTRUÇÃO DOS CORPOS NO ESPORTE

 

Superando barreiras e preconceitos: trajetórias, narrativas e memórias de atletas negras

 

Overcoming barriers and prejudices: black women athletes' trajectories, narratives and memories

 

 

Cláudia Maria de Farias

Universidade Federal Fluminense

 

 


RESUMO

O trabalho reafirma a importância dos estudos de gênero para a compreensão dos processos históricos contemporâneos através dos quais se deram a inserção, a permanência e a ampliação da participação das mulheres no campo esportivo brasileiro, entre os anos 1960 e 1970. Através das narrativas orais de duas atletas negras - Eliane Pereira de Souza e Aída dos Santos -, são examinadas as múltiplas intersecções do gênero com outros componentes de diferenciação social, como classe, raça/etnia e geração, fundamentais para a reconstrução das experiências que marcaram os projetos, as carreiras, as trajetórias e as memórias dessas mulheres durante a vigência da Ditadura Militar brasileira.

Palavras-chave: atletas negras; mulheres e esporte; relações de gênero; emancipação feminina.


ABSTRACT

This investigation reaffirms the relevance of the gender studies to the understanding of the contemporary historical processes in which women appeared, remained and grew participation in Brazilian sports field between 1960 and 1970. Through the narratives of two black women athletes - Eliane Pereira de Souza e Aída dos Santos -, the multiple intersections of gender with the other components of social differentiation as class, race/ethnics and generation, fundamental for the reconstruction of the experiences that marked their projects, careers, trajectories and memories during the military dictatorship in Brazil are observed.

Key Words: Black Women Athletes; Women and Sport; Gender Relations; Feminine Emancipation.


 

 

Algumas considerações

Marcada por um distanciamento crítico em relação à abordagem macrossocial que, com seus modelos estruturalistas e globalizantes, dominou por muito tempo o cenário da pesquisa em história e em ciências sociais, a escala microanalítica inscreve-se hoje como orientação metodológica necessária para ressaltar o papel dos indivíduos na construção dos laços sociais. De acordo com Chartier,

o objeto da história, portanto, não são, ou não são mais, as estruturas e os mecanismos que regulam, fora de qualquer controle subjetivo, as relações sociais, e sim as racionalidades e as estratégias acionadas pelas comunidades, as parentelas, as famílias, os indivíduos.1

Dessa forma, ao revelar os desvios, as tensões, as negociações e as discordâncias existentes entre os indivíduos e grupos e os sistemas normativos de uma sociedade, a micro-história pretende trazer à tona a experiência de sujeitos sociais até então excluídos da investigação histórica, como as mulheres e os segmentos populares, redefinindo os clássicos paradigmas sobre os sistemas de poder e subordinação. Com efeito, a grande reviravolta da história nas décadas de 1970-1980 - favorecida também pelo boom da história cultural - contribuiu para o desenvolvimento da história das mulheres, acirrado ainda mais pelo recrudescimento do movimento de libertação das mulheres, a partir dos anos 1960-1970.

Como reflexo da ampliação dos horizontes da disciplina e dos debates instalados no interior do próprio movimento feminista, a partir do final da década de 1970, a categoria "gênero" surgiu como uma maneira de indicar as construções sociais: a criação inteiramente social das ideias sobre os papéis próprios aos homens e às mulheres, refutando, portanto, as explicações biológicas que legitimavam o caráter essencialista, a-histórico, fixo e permanente da diferença e da hierarquização entre os sexos.2 Conforme afirma a historiadora Rachel Soihet, ao sublinhar o aspecto relacional entre as mulheres e os homens, na medida em que a compreensão de qualquer um dos dois não pode ser realizada em separado, bem como reavaliar a perspectiva dos enfoques que enfatizavam a vitimização ou a rebeldia feminina, a questão do gênero contribui sobremaneira para se buscar a complexidade da atuação das mulheres, introduzindo também as diferenças, os conflitos e os deslocamentos de poder provocados pelas articulações com outras categorias, como classe, raça/etnia e geração.3 Assim, a fragmentação de uma identidade universal entre as mulheres pôde revelar outras relações sociais de hierarquização e dominação para além das divisões de poder entre os sexos.4

Na tentativa de rastrear as dimensões do mundo feminino, por tanto tempo ocultas, a abordagem biográfica e a consequente valorização de experiências individuais para a compreensão do passado despertaram, assim, um crescente interesse entre os historiadores. Alimentada por uma renovação da história política que se despiu do caráter positivista, puramente cronológico e narrativo dos "feitos dos grandes homens", a redescoberta da biografia, de acordo com Sabina Loriga, remeteu principalmente às experiências no campo da história atentas a outras subjetividades, como a história oral, os estudos sobre cultura popular e a história das mulheres. Assim, "o desejo de estender o campo da história, de trazer para o primeiro plano os excluídos da memória, reabriu o debate sobre o valor do método biográfico".5

Não obstante os avanços epistemológicos desse método, Pierre Bourdieu alertou para o perigo da "ilusão biográfica". Para o sociólogo francês, ao retirar da existência humana os conflitos, os imprevistos e as descontinuidades, que marcam a fragmentação do "eu", o relato, seja ele biográfico ou autobiográfico, basear-se-ia na preocupação de estabelecer um sentido artificial e linear para a vida de um indivíduo, produzindo uma "apresentação oficial de si". Portanto, nessa perspectiva, muitas vezes ignoram-se a "superfície social" na qual o indivíduo encontra-se imerso, suas colocações e deslocamentos no espaço social ao longo da vida, bem como a rede de relações objetivas estabelecidas, em diferentes situações, com outros agentes envolvidos no mesmo campo.6 Nesse sentido, Bourdieu, em vez de usar o termo "biografia", fala em "trajetórias".7

Giovanni Levi sugere ainda atentarmos para a amplitude da liberdade de escolha de um indivíduo, pois nenhum sistema normativo é totalmente coerente e estável a ponto de eliminar a negociação, a manipulação ou a interpretação das regras. Para ele, "a repartição desigual do poder, por maior e mais coercitiva que seja, sempre deixa alguma margem de manobra para os dominados; estes podem então impor aos dominantes mudanças nada desprezíveis".8

Desse modo, a revalorização do sujeito na história e a ênfase nas suas experiências individuais, após a renovação teórico-metodológica da história ocorrida nas últimas décadas do século XX, reaqueceram o debate em torno da subjetividade como objeto do conhecimento científico, polêmica acirrada ainda mais pela valorização da história oral - metodologia de pesquisa que tornou possível a constituição de novas fontes para o historiador, principalmente se considerarmos a lacuna de registros de uma memória feminina por tanto tempo relegada ao silêncio pela memória oficial. Assim, na narrativa oral, a memória de um indivíduo - único e singular - sobre determinados acontecimentos e conjunturas é valorizada como "elemento constitutivo da sua identidade, na medida em que é um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si".9

Tais considerações em torno dos processos sociais de construção de memórias e identidades individuais/coletivas são, então, fundamentais para a compreensão das trajetórias de vida de duas atletas negras que entrevistei ao longo de 2008: Eliane Pereira de Souza e Aída dos Santos, praticantes, respectivamente, da natação e do atletismo. Esses testemunhos femininos me permitiram investigar como diversas relações sociais de poder - principalmente as de gênero, classe e raça - se combinaram, se deslocaram e se materializaram no campo esportivo10 brasileiro, entre as décadas de 1960 e 1970, na medida em que, além de praticarem distintas modalidades esportivas, essas atletas pertenciam ainda a diferentes gerações,11 apresentando, contudo, a mesma identidade de classe e raça/etnia. Ao cotejar as entrevistas entre si e com outras fontes documentais, verifiquei também como se configurou uma consciência de gênero12 entre elas muitas vezes atravessada e, até mesmo, obscurecida pelas diversas contradições e diferenciações sociais. A partir dessas narrativas femininas foi possível, portanto, perceber seus pontos de aproximação, divergências e ambiguidades, bem como as zonas de sombra, as reticências, as omissões, os ressentimentos e os esquecimentos que caracterizam as fontes orais. Tais testemunhos nos possibilitam ainda entrever a pluralidade de estratégias femininas adotadas diante das violências e das desigualdades - as confrontações, os consentimentos13 e/ou contrapoderes14 -, ou seja, a diversidade de experiências que traçaram as carreiras dessas atletas, seus projetos e esforços para ingressarem e permanecerem num campo significativamente marcado pela hierarquização de gênero. Para tanto, adicionei e articulei à problemática da identidade e memória um outro elemento: a noção de projeto, formulada por Gilberto Velho. De acordo com o antropólogo, nas sociedades marcadas pelas ideologias individualistas,

a trajetória do indivíduo passa a ter um significado crucial como elemento não mais contido mas constituidor da sociedade. É a progressiva ascensão do sujeito psicológico, que passa a ser a medida de todas as coisas. Neste sentido, a memória deste indivíduo é que se torna socialmente mais relevante. Suas experiências pessoais, seus amores, desejos, sofrimentos, decepções, frustrações, traumas, triunfos, etc. são os marcos que indicam o sentido de sua singularidade enquanto indivíduo, que é constantemente enfatizada.15

Dessa forma, é a memória de um indivíduo - suas visões retrospectivas e prospectivas - que dá consistência à biografia e que possibilita a elaboração de projetos, isto é, "na constituição da identidade social dos indivíduos [...] a memória e o projeto individuais são amarras fundamentais".16 Contudo, segundo nos sugerem Bourdieu e Gilberto Velho, o historiador deve ter em mente que o projeto é resultante de um horizonte de possibilidades no qual está inserido o sujeito; ele é dinâmico e permanentemente reelaborado, pois depende das relações objetivas conscientes ou não estabelecidas entre os indivíduos, os grupos e a sociedade. Sendo assim, entendendo o campo esportivo como um espaço social de lutas e poder, pretendo através dessas memórias de gênero reconstruir as experiências dessas atletas brasileiras que, entre silêncios, tensões, rupturas e conformidades, protagonizaram importantes conquistas pela emancipação e pela afirmação das suas múltiplas identidades numa conjuntura marcada por uma ditadura militar.

 

Tempo de lembrar, tempo de esquecer: trajetórias, narrativas e memórias de atletas negras

Eliane Pereira de Souza é uma atleta negra da natação brasileira especialista no nado de peito. Nascida em 1 de julho de 1952, na cidade do Rio de Janeiro, filha de Wilson Pereira, motorista da Petrobrás, e Georgina Pereira, teve uma infância pobre ao lado de quatro irmãos. Depois de morar numa favela localizada na barreira do Vasco, começou a praticar a natação na piscina da escola pública Edmundo Bitencourt, existente na ladeira do Tuiuti, no bairro de São Cristóvão, onde morou por muito tempo. Por imposição do avô, que "não queria deixar a gente ficar na rua o dia inteiro",17 Eliane e seus irmãos estudaram e deram as primeiras braçadas na piscina daquela escola. Avistada por um técnico de natação do Clube de Regatas Vasco da Gama, Eliane foi levada para o clube aos nove anos. Posteriormente, já como atleta do Vasco, ela e seus irmãos receberam bolsas de estudo que lhes possibilitaram sair da escola pública para ingressar em escolas privadas, localizadas também em São Cristóvão. Indagada sobre como foi seu ingresso na escola e no esporte, Eliane Pereira destacou o papel fundamental da natação na sua vida e de seus irmãos, pois foi através desse "ganha-pão", como Eliane mesma reconheceu, que tiveram uma relativa ascensão social e melhoraram nos estudos; Eliane, para se dedicar ao esporte, nunca trabalhou até casar, com 19 anos, e concluir o curso de Educação Física na UERJ. A continuidade e a perseverança nos treinamentos, apesar das dificuldades financeiras e dos incontáveis preconceitos sofridos, a tornaram campeã carioca e brasileira aos 11 anos. Logo depois, Eliane passou a integrar a seleção brasileira de natação. Nos Jogos Pan-Americanos de 1967, realizados em Winnipeg (Canadá), obteve o 4° lugar nos 100 m nado de peito, com apenas 14 anos. Posteriormente, já como atleta do Fluminense Futebol Clube, ela participou dos Jogos Pan-Americanos de 1971, em Cáli (Colômbia), conseguindo também o 4° lugar na mesma prova.

Mesmo tendo representado o Brasil em duas edições dos Jogos Pan-Americanos, sua história na natação não é devidamente conhecida no país. Atualmente, com 56 anos, ela ainda compete como atleta máster. Contudo, recentemente, Eliane Pereira vivenciou um novo drama. Depois de sofrer um acidente, ela se tornou deficiente visual, participando dos Jogos Parapan-Americanos do Rio, realizados em 2007, quando conduziu a tocha olímpica na cerimônia de abertura e obteve o 4° lugar. Como veremos, sua história de vida se insere entre dois acontecimentos-chaves. Desde a infância, foi pontuada pelas amarguras e pelas discriminações que enfrentou de outras nadadoras, técnicos e dirigentes esportivos por ser negra e pobre. Assim, sua autopercepção, reconhecimento, pertencimento e exclusão devem ser vistos como elementos marcantes das relações de poder e prestígio, constituídas nas figurações entre estabelecidos e outsiders, sejam elas de gênero, classe, etnia, sexualidade ou nível educacional, segundo adverte o sociólogo Norbert Elias.18 Afinal, sua inserção no mundo esportivo se deu numa modalidade esportiva majoritariamente dominada por atletas brancos, oriundos das classes média e alta, em tese menos afetada pelas diferenças de gênero. Nesse sentido, sua trajetória pode ser considerada exemplo de uma "biografia desviante" (ou de uma "outsider"), pois, de acordo com o sentido atribuído por Giovanni Levi, se revela contrária ao comportamento de um grupo e permite identificar o que seria mais frequente, bem como as possibilidades latentes de um indivíduo.19

Com efeito, o depoimento de Eliane Pereira nos revela como seus projetos, carreira, memória e identidade social foram, desde o início, sendo forjados nos interstícios de uma dupla estigmatização20 que, fincada no entrecruzamento dos conflitos, das tensões e das hierarquizações de classe e raça, acabava por atravessar e recobrir sua identidade e consciência de gênero no passado. Porém, como os fenômenos de identificação social nunca são fixos, mas contínuos, fluidos e transitórios, podemos perceber, num segundo momento, um outro ponto de ruptura na história de vida dessa esportista fundamental no trabalho de reconstrução de si mesma e de seu lugar social como atleta no presente. Refiro-me à nova fronteira de alteridade interposta e transposta no cotidiano difícil que Eliane enfrenta hoje como deficiente visual. Portanto, conforme observaremos, sua memória está circunscrita num horizonte temporal delimitado pela rememoração e eternização dos não lugares das exclusões e hostilidades, ou seja, pela sua resistência e sujeição diante das estigmatizações de classe e raça vividas no passado, mas também pela angustiante busca de se perceber hoje como atleta paraolímpica.

Esse aspecto surge quando Eliane se recorda da experiência traumatizante nos Jogos Pan-Americanos de 1967 em Winnipeg, quando foi abandonada - desmistificando o ideal de sororidade entre as mulheres - pelas outras atletas brancas da natação brasileira em um shopping center sozinha, sem saber falar o inglês e com apenas 14 anos:

Comecei a chorar, chorar, chorar [...]. Queria ir embora, não queria competir, não queria mais nada [...]. Foi por isso que eu, agora, não fiz força nenhuma para ir às Paraolimpíadas (de Pequim). Eu lembrei muito do Pan-Americano. Lá eu era pequena e agora eu sou deficiente. Fiquei com medo, entendeu? Então não fiz mesmo, não fiz força para conseguir o índice da Paraolimpíada. Fiquei com medo de chegar lá, de me largarem lá sozinha [...]. Eu fiquei com medo porque agora eu não enxergo. Por isso eu não quis ir. Já pensou? Eu lembrei do passado [...]. No passado eu enxergava. E agora? Não, não [...].21

Assim sendo, segundo nos alerta Gloria Anzaldúa, devemos estar atentos aos espaços intersticiais da diferença, construídos nos entrelugares de identidades híbridas, isto é, nos limites imprecisos e em permanente deslocamento das múltiplas referências identitárias.22

Com efeito, suas diferenças identitárias, sentidas de forma tão dilacerante, são evidenciadas em vários momentos da entrevista. Quando indagada sobre seu início na natação brasileira, Eliane Pereira respondeu:

logo assim que eu comecei a ingressar no Clube de Regatas Vasco da Gama, eu tinha nove anos, né, era pequena [...] a gente sente muito também, porque devido a cor, a gente é um pouquinho, como se diz é tem o negócio de preconceito, né? Então eu lembro que, quando eu fiz 11 anos, eu competi o primeiro campeonato brasileiro, lá em São Paulo, no Corinthians, era muito negócio de preconceito [...]. Chegando lá, foi até eu e minha irmã competir lá, nunca me esqueço, na hora que eu vou para a raia, todo o mundo era claro, branco, a única negra era eu, a arquibancada todinha só me xingava: ? tira essa crioula daí! O que ela tá fazendo aí? Tira essa negra daí! [...] Eu cheguei na raia chorando. Nunca esqueço, chorando mesmo. Só que parecia que aquele dia era meu. Aquele dia era meu! Tinha uma menina do lado, uma loirinha lá, gauchazinha, há mais de cinco anos que ninguém tirava o primeiro lugar dela. Pois eu ali tirei o primeiro lugar dela.
Conclusão: quando eu ganhei essa menina, que todo mundo já conhecia, a arquibancada todinha, em vez de me xingar, me aplaudiu, me botou lá em cima. Eu nunca esqueci. Então depois desse dia, desse preconceito que eu sofri, que eu senti, aí eu nunca mais [...] nunca mais senti nada! Eu sabia que era duro, era duro pra eu ir em frente, mas eu com força e garra, eu quis, eu quero nadar, quero nadar, fui nadando, nadando [...].
23

Nessa passagem, podemos perceber como as mágoas e os (res)sentimentos provocados pelos estigmas sociais (de classe e raça) sofridos por Eliane desde criança serviram como fonte de força e estímulo para que seguisse nos seus propósitos de continuar nadando e construir uma carreira esportiva, apesar dos momentos de hesitação, dúvidas e conflitos que, possivelmente, vivenciou em função das inúmeras rejeições e humilhações de que foi alvo. Nesse sentido, é preciso considerar como a raiva recalcada, a indignação e o orgulho ferido marcam a sua memória ainda no presente, ao mesmo tempo que lhe possibilitaram forjar laços de identidade e um projeto de vida no passado. Conforme assinala Pierre Ansart, é preciso compreender e explicar como o ressentimento se manifesta, a quais comportamentos serve de fonte, que atitudes e condutas inspira, consciente ou inconscientemente.24 Com efeito, seu desejo de permanecer na natação brasileira, bem como os laços de identidade e solidariedade racial criados com algumas atletas negras de outras gerações (principalmente com as mulheres do atletismo, como, por exemplo, Aída dos Santos) se consolidaram à medida que ela experimentava novas situações de abandono e discriminação no meio elitista desse esporte, vejamos:

não tô dizendo que fiquei só nos risos não, eu chorava muito, chorava muito mesmo. Tinha uma competição, a Luso Brasileira, quando eu fui para fora, pois elas me largaram sozinha lá, porque a natação não era muito unida igual ao atletismo, no atletismo as pessoas já são mais de cor [...]. Então quando eu viajava com todo mundo, eu era bem menor do que elas, né? do que a Aída. Então eu ficava muito com elas, não ficava com o pessoal da natação. Porque o pessoal da natação, nessa competição, elas queriam que eu empatasse com a outra, que eu não ganhasse da outra que tava lá. Aí eu fui correndo no pessoal do atletismo contar esse lance. Aí a Aída e Odete falaram: ? "nós vamos estar lá e você vai ter que ganhar". Minha luta sempre foi assim [...].25

Assim, Eliane se manteve no esporte, apesar de reconhecer que sua convivência com nadadoras e técnicos de natação "não era muito boa". Numa passagem da entrevista, ela afirmou sua luta incessante para vencer as competições: "nunca podia ganhar de tão pertinho, eu só conseguia as coisas se ganhasse na distância [...] se eu ganhasse de pertinho quem iria era a outra". Ao estabelecer uma comparação com as ferrenhas disputas olímpicas atuais, vencidas na maioria das vezes "na batida de mão",26 Eliane deixou claro que, na sua época, só conquistava o primeiro lugar se sua diferença para a segunda colocada fosse grande, isto é, bem visível aos olhos do público e dos juízes. Caso contrário, corria o risco de ver o prêmio passar para as mãos de suas concorrentes brancas, muitas, inclusive, filhas de diretores de clubes, conforme destacou na entrevista.

Além dessas situações, Eliane narrou seu esforço para ingressar e permanecer na seleção brasileira, pois o técnico Carlos Roberto Pavel afirmava, com insistência, não existirem negros na natação devido a seus ossos serem muito pesados para a água e, portanto, Eliane deveria praticar o atletismo - reconhecido como um "esporte de negros" - no qual teria mais sucesso. Quando perguntada sobre sua reação a esse episódio, ela afirmou batendo na mesa: "Mas eu não quis saber, eu não quis saber. Eu queria fazer natação, eu queria ser nadadora, entendeu? Eu nunca dei ouvidos a nada que viesse com esse negócio de preconceito em cima de mim [...]".27 No entanto, em outros momentos da entrevista, Eliane, de forma contraditória e fugidia, relembrou seu sentimento de baixa autoestima quando tomava conhecimento das reações de antipatia que suscitava entre as mães das outras competidoras quando vencia as disputas:

toda vez que minha irmã sentava na arquibancada ela me dizia que escutava das senhoras atrás, as mães de outras meninas, sei lá: - 'não sei o que é que aquela neguinha tem que ela consegue'. Essas coisas ela [sua irmã] contava para mim e eu ficava meio para baixo, né?28

Mais adiante, ao lembrar sua passagem como nadadora do Fluminense, no qual ganhou o apelido de "bananada", ela disse:

Eu só nadava no frio quando o técnico me oferecia bananada [...] eles morriam de rir de mim [...]. Não sei por quê [...]. Eu era assim toda diferente, muito infantil, entendeu? Eu sempre ia risonha, muito assim humilde no jeito de falar. Confiava muito nos outros. Eu era muito simples. Não era para eu ser igual a elas. Eu era muito simples mesmo.29

Conforme nos alerta Norbert Elias em relação aos aspectos sociológicos presentes na conformação de identidades pessoais, também devemos levar em conta o peso que tais imagens depreciativas tem sobre indivíduos/grupos outsiders, principalmente crianças, e como marcam sua autoimagem e autoconfiança em épocas posteriores:

assim como, costumeiramente, os grupos estabelecidos vêem seu poder superior como um sinal de valor humano mais elevado, os grupos outsiders, quando o diferencial de poder é grande e a submissão inelutável, vivenciam afetivamente sua inferioridade de poder como um sinal de inferioridade humana.30

Portanto, ao elaborar um sentido orientado e ascendente para sua trajetória esportiva, Eliane parece negar e/ou interiorizar, em algumas passagens da sua narrativa, as exclusões vivenciadas, bem como "esquecer" os limites que lhe foram impostos por esse desequilíbrio de forças e as possibilidades perdidas na sua carreira em função desses estigmas sociais. Ao ser indagada na entrevista sobre os motivos da sua não convocação para as Olimpíadas de 1972, Eliane destacou que os dirigentes da natação brasileira, na época, não conduziriam nadadoras para competir individualmente; só levariam a equipe feminina de revezamento, com quatro nadadoras, desde que as atletas conseguissem o índice olímpico estipulado para a competição. Como duas nadadoras do Flamengo não conseguiram o índice, Eliane, apesar de ter obtido a marca, afirmou, categoricamente, não ter ido às Olimpíadas de 1972 somente por causa disso. Contudo, entrevendo que os verdadeiros motivos de sua não convocação seriam outros, pesquisei a composição da delegação brasileira nos Jogos Olímpicos de 1972, realizados em Munique (Alemanha), e constatei a participação de três nadadoras brancas em provas individuais, sendo a atleta Christina Bassani Teixeira, uma das principais adversárias de Eliane Pereira no nado de peito, a representante do Brasil nos 100 e 200 m.31

Devemos lembrar aqui o contexto interno de Ditadura Militar no qual se insere esse evento esportivo internacional. Possivelmente, para evitar a explosão de (res)sentimentos e ódios recalcados numa nova disputa, os dirigentes militares brasileiros preferiram não levá-la como representante do país numa olimpíada, ainda mais que o episódio anterior de abandono, vivido nos Jogos Pan-Americanos de 1967, já havia provocado a "repreensão" das nadadoras que a deixaram sozinha no shopping center, dada por um brigadeiro chefe da delegação brasileira, segundo relatou Eliane. Nesse caso, devemos nos perguntar: até que ponto os regimes autoritários e/ou fascistas favorecem ou não a exteriorização das insatisfações, dos ódios e dos (res)sentimentos sociais? É possível afirmar, conforme sugere Pierre Ansart, que o regime democrático possui a vocação de ouvir os ecos dos ressentimentos, dar-lhes certo direito de expressão, nos limites da lei, e favorecer a superação dos ódios pela discussão e pelas concessões?32

As ambiguidades e as contradições encontradas na narrativa de Eliane Pereira - características das fontes orais - nos permitem dizer que ela, ao relembrar determinados períodos da sua vida pública, decidiu esquecer outros, provavelmente ligados aos traumas experimentados no passado, na tentativa de construir um significado afirmativo e heroico para sua trajetória esportiva no presente que, não raramente, ressalta os episódios de abnegação, coragem, superação e resignação vividos. Estabelecendo uma comunicação comigo e consigo mesma no transcurso da entrevista, ela discursivamente constrói um ponto de vista sobre si e sobre os acontecimentos vividos que contribui para seu autoconhecimento, autoexplicação e autojustificação, conforme nos sugere Alejandra Oberti,33 num esforço contínuo de elaborar, até mesmo de forma terapêutica, sua reconciliação com o passado e sua redenção no presente. Nesse sentido, é possível compreender o trabalho de enquadramento da memória34 que Eliane Pereira realiza não só através da visão retrospectiva e prospectiva que apresenta da sua vida, mas também a partir das representações de si construídas no momento da narrativa. A despeito de algumas variações destacadas, a lógica presente na estruturação da sua memória liberta sua história de vida, no meu entendimento carente de maior reconhecimento, da exclusão e do isolamento que lhe foram impostos. Ao mesmo tempo, estabelece um sentido exemplar para sua trajetória esportiva, na medida em que a apresenta de forma coerente e compreensível para si e os interlocutores com os quais deseja dialogar e garantir uma identificação no presente.

A partir dessas primeiras reflexões, passemos agora a examinar a carreira esportiva de Aída dos Santos, praticante do salto em altura, que também vivenciou os estigmas de classe e raça. No entanto, sua trajetória se diferencia em muitos aspectos da carreira da nadadora Eliane Pereira, como veremos a seguir.

Nascida em 1 de março de 1937, Aída dos Santos viveu uma infância muito pobre; conheceu a fome e a miséria desde cedo no Morro do Arroz, município de Niterói, estado do Rio de Janeiro. Seus pais - o pedreiro Praxedes e a lavadeira Adalgisa - eram analfabetos e não tinham condições de sustentar a família, constituída por seis filhos. Os irmãos de Aída nem concluíram o primário, pois todos trabalharam desde cedo para ajudar a família. Apenas Aída concluiu o curso superior em Educação Física na UFRJ, embora tardiamente. Em 1956, com 19 anos, ela ainda cursava o ginasial na escola técnica Aurelino Leal, perto da sua casa. Lá sempre praticava o voleibol, seu esporte predileto. Aos domingos, Aída costumava pegar carona na bicicleta da vizinha Vilma para ir ao ginásio do Caio Martins. Vilma treinava atletismo e queria que a amiga aderisse ao esporte. Mas Aída sempre preferia cooptar outras jovens para jogar vôlei com ela. Não eram muitas, mal dava para formar um time. Num domingo, Aída ouviu um ultimato: "se não tiver gente para jogar voleibol, você vem treinar atletismo. Ou vai voltar a pé para casa", ameaçou Vilma.35 Naquele dia, como não conseguiu formar uma equipe de vôlei, Aída cumpriu a promessa que fez para a amiga. O resultado foi surpreendente: Aída, com poucas instruções que recebeu na hora, saltou 1,40 m - apenas 5 cm abaixo do recorde estadual.36 Ali começaria sua história no atletismo, na modalidade de salto em altura, esporte que lhe trouxe reconhecimento e prestígio, mas também muitas humilhações, sofrimentos e angústias vivenciados pela tripla discriminação enfrentada ao longo da carreira (de gênero, classe, raça), além da resistência e da violência do próprio pai, que, várias vezes, bateu nela e a impediu de sair de casa para competir.

Num trecho da entrevista ela contou seu difícil início no esporte, quando foi convidada a participar de uma competição pelo técnico da amiga Vilma:

um mês depois eu fiz uma competição chamada 'Rubens Espozel' no clube Fluminense de Niterói. Quando eu falei para o meu pai que ia competir ele não deixou que eu fosse. Então não saí de casa. Mas a competição não se realizou porque teve um temporal. Na nova data da competição, minha colega Zu foi na minha casa pedir ao meu pai para eu assistir ela competir. Aí eu fui, pulei 1,60 m, ganhei todas as competidoras que já vinham do Botafogo, Vasco e Flamengo. Isso foi no final de 57. Saiu até no jornal. Então quando eu cheguei em casa e mostrei a medalha ao meu pai, ele falou assim: - 'você trouxe, ganhou dinheiro'? Eu falei não e ele disse: - 'medalha não enche barriga de ninguém não'! Ele me bateu e falou: - 'pobre tem que trabalhar para ajudar a sustentar a casa!37

Esse aspecto é extremamente relevante para compreendermos a trajetória de Aída dos Santos, suas diferenças e pontos de contato em relação à carreira da nadadora Eliane Pereira. Quando começou a competir, Aída já tinha 20 anos, ao contrário de Eliane, que viveu seus dramas no esporte dos 10 aos 20 anos, aproximadamente. Porém, diferentemente de Eliane Pereira, que não enfrentou grandes resistências da família, Aída não podia contar com a ajuda da sua mãe nem de seus irmãos para conter a violência do pai:

mamãe era submissa ao papai. Se ele falasse que era ferro, era ferro. Se ele falasse que era pedra, era pedra. '- Tem que obedecer ao marido. O seu pai não quer que você faça então não vai fazer. Primeiro que você é mulher. Quem tem que praticar esporte é homem! E depois tem que trabalhar para ajudar no sustento da família'. Então eu não tinha incentivo nem de pai, nem de mãe, nem de irmão. Eles nunca foram assistir eu competir.38

Em que pesem as discriminações de raça e classe enfrentadas por ambas, Aída dos Santos lutou ainda contra o preconceito de gênero, não só manifestado pelos pais, como também pelo seu namorado e amigas, em função de praticar uma modalidade reconhecida pela sociedade como violenta e masculina, não apropriada ao "sexo frágil", ao contrário da natação.39 Na entrevista, ela relatou as dificuldades encontradas durante os 17 anos de namoro que teve com o seu atual marido, com quem se casou somente após encerrar a carreira esportiva, por volta de 1972:

Ele via sair no jornal assim: 'Brasil vai viajar'. Aí ele me perguntava: - 'você vai viajar outra vez?'. E eu dizia: - 'não, não acredita nesses jornais não'. Então várias vezes ele chegava lá em casa no dia da minha viagem e mamãe dizia: - 'já foi para o aeroporto'. Teve dia dele chegar no aeroporto, pegar a minha mala e dizer que eu não ia viajar. Ele puxava minha mala para cá, puxava para lá. Quando tinha oportunidade, ele pegava minha mala e saía correndo dentro do aeroporto. Ele não queria, não queria, toda vez que eu vinha ele dizia: - 'acabou o namoro, acabou o noivado'! Ele falava isso no aeroporto, na lancha [...]. Eu dizia: você não pode acabar o noivado comigo na lancha; você tem que ir na minha casa falar com o meu pai e minha mãe. Eu falava sempre isso pra ele [...]. Aí ele sumia um mês, um mês e meio, depois ele voltava e fazíamos as pazes.40

Utilizando-se de várias táticas combinadas, como a dissimulação e o confronto direto com o pai, o consentimento e a sedução com o namorado, Aída mostrava seu contrapoder para subverter a seu favor a dominação masculina que, de forma paradoxal, nega às vezes existir com relação às atitudes do namorado, Miguel. Dessa forma, administrando ambiguidades, tensões e conflitos na vida privada, Aída resistiu e praticou o atletismo dos 20 aos 34 anos. Foi atleta do Vasco da Gama e, posteriormente, do Botafogo. Obteve a medalha de bronze nas edições dos Jogos Pan-Americanos de 1967 e 1971 - competições de que Eliane Pereira também participou -, além de conquistar o 4° lugar nas Olimpíadas de 1964 (Tóquio) e o 20° lugar nas Olimpíadas de 1968 (Cidade do México), entre outros resultados conseguidos ao longo da sua trajetória. Ao contrário de Eliane Pereira, que praticamente encerrou a carreira na natação aos 20 anos, quando casou e teve filhos, Aída só se casou aos 33 anos, após encerrar a carreira esportiva, tendo seu primeiro filho nascido quando tinha 36 anos (no total, Aída teve três filhos). Essas peculiaridades, provavelmente, contribuíram para reforçar ainda mais a suspeita de masculinidade que pesava sobre ela por praticar o atletismo, vejamos:

eu tinha muita consideração com uma amiga minha, muita, muita e depois quando eu comecei a fazer esporte eu senti que ela se afastou de mim. Aí fui a ela e conversei, o que foi? Ela foi sincera comigo e falou: - 'você está praticando esporte, meu pai falou que você é sapatão e não quer que eu conviva mais com você.41

Superando a tripla discriminação que sofriam as mulheres do atletismo negras e pobres, Aída ainda alcançou o quarto lugar no salto em altura nas Olimpíadas do Japão - realizadas em 1964 -, numa delegação em que o restante dos atletas eram apenas homens. Em seu relato, a atleta contou suas angústias e as enormes barreiras encontradas para estabelecer o índice olímpico42 ainda no Brasil, bem como os problemas na viagem e na competição, desde a falta de técnico e material necessário para os treinos até a dificuldade de comunicação numa terra estrangeira. Na entrevista, também deixou claro o preconceito e o descaso da própria delegação brasileira, mas enfatizou, entretanto, a solidariedade recebida de Lazaro Betancourt, atleta cubano que a orientou dando dicas para melhorar seu rendimento e conseguir material.43 Mesmo com a ajuda externa, a atleta competiu sem os sapatos adequados nas eliminatórias da modalidade. O fato não a impediu de disputar a final, apesar da torção no pé. Ao inscrever no seu corpo as marcas da sua luta e resistência, Aída dos Santos conquistou o 4° lugar na final da modalidade de salto em altura - a melhor performance individual da delegação brasileira em Tóquio.44 Resguardadas as especificidades e as potencialidades de cada existência em virtude das suas múltiplas diferenciações sociais, deve-se lembrar que, em sua trajetória esportiva, Aída dos Santos conviveu ainda com a pobreza extrema e a violência do pai - para quem esporte era "coisa de rico" - e com uma rotina que incluía treinos exaustivos e os trabalhos como lavadeira e faxineira para ajudar a família.

Posteriormente, nos Jogos Pan-Americanos de 1967 (Winnipeg) e nas Olimpíadas de 1968 realizadas no México, Aída também foi a primeira mulher brasileira a competir no pentatlo - prova do atletismo em que se conjugam o arremesso de peso, o salto em distância, o salto em altura, a corrida de 200 m e a corrida de 800 m rasos -, obtendo o 20° lugar. Cabe destacar que a performance foi conquistada em plena vigência da Ditadura Militar, quando essa modalidade ainda se encontrava na lista dos esportes proibidos para as mulheres, desde a regulamentação do Decreto-Lei de 14 de abril de 1941. Sobre a competição de 1967, Aída lembrou que saiu do Brasil para competir apenas no salto em altura, mas ao chegar lá foi convocada pelos dirigentes militares, mesmo sem ter treinado, a competir no pentatlo, porque não havia nenhuma mulher brasileira nessa modalidade.45 Como conseguiu o 3° lugar nessa prova, um ano depois, nas Olimpíadas do México, Aída dos Santos já foi representando o Brasil na modalidade do pentatlo. Portanto, suas excelentes performances no atletismo acabaram por significar uma espécie de "empoderamento", permitindo-lhe galgar posição e prestígio no campo esportivo brasileiro, ao mesmo tempo que fazia surgir também a contraestigmatização em uma batalha na qual o equilíbrio entre os diferenciais de poder vai se reduzindo aos poucos, conforme afirma Norbert Elias.46

As singularidades das trajetórias apresentadas se tornam reveladoras quando permitem entrever as táticas, as posições, as performances e os deslocamentos diferenciados dessas duas atletas durante o auge das suas carreiras, vivido entre a década de 1960 e o início de 1970. A despeito dos estigmas de raça e classe sofridos por Eliane e Aída, devemos levar em conta o peso diferenciado desses sobre a vida de cada uma delas e como influíram sobre suas condutas, ações e percepções de si mesmas. Afinal, se Aída dos Santos também vivenciou o preconceito de gênero, ao contrário da nadadora Eliane Pereira, não devemos esquecer que ela praticou o atletismo - esporte majoritariamente dominado por negros - já na fase adulta e, portanto, a rede de relações de identidade e solidariedade racial que conseguiu formar ao longo da sua carreira, mesmo entre atletas homens, provavelmente foi maior e mais coesa, contribuindo para minimizar o desequilíbrio de forças existente. Não foi por acaso que Eliane Pereira, ainda criança e desprovida dessa rede de relações identitárias na natação, procurou muitas vezes amparo entre as mulheres mais experientes e de "cor" do atletismo, segundo ela mesma reconheceu na entrevista - fato confirmado também por Aída dos Santos.

As questões aqui analisadas podem servir de base para refletirmos também sobre os posicionamentos críticos e as possibilidades de ação dessas duas atletas, ao longo de suas carreiras, diante das estruturas coercitivas. Enquanto Eliane Pereira pareceu ter reprimido e silenciado seus ressentimentos e mágoas, em função de se perceber como "humilde" e "simples", Aída dos Santos, logo após o episódio de abandono e solidão vivido nas Olimpíadas de 1964, decidiu falar à imprensa sobre o ocorrido em Tóquio:

teve umas declarações, me chamaram até para Brasília para falar com o ministro. Eu não sei nem quem era em 64. Eu soube que vários dirigentes falaram, que perguntaram aos dirigentes se tudo que eu falei era verdade. Os dirigentes respondiam nem que era verdade, nem que era mentira. Falavam assim: - 'se Aída dos Santos falou [...]. Aída dos Santos não é uma pessoa de mentir, é uma pessoa séria'. Porque eles foram questionados, porque eu dei declaração como era tratado o atleta do Brasil na Olimpíada, que não tem material, não tem técnico, não tem dirigente, que eu comprei sozinha aquela coisa toda. Foi isso que aconteceu. Mas eu falei, não vou mentir [...].47

Provavelmente, Aída resolveu desabafar depois de sentir uma brecha aberta pela sua excelente performance em Tóquio, quando, inclusive, foi convidada para estudar na Califórnia por um técnico americano. Como Aída mesma afirmou, após o resultado obtido, "fiquei conhecida no Brasil inteiro, as portas se abriram para mim". Contudo, posteriormente, às vésperas das Olimpíadas de 1972, realizadas em Munique, a convocação de Aída, tida como certa, não ocorreu. Perguntada sobre os motivos envolvidos no seu corte da delegação olímpica, Aída mencionou a entrevista concedida na época ao programa Flávio Cavalcanti, quando disse, mais uma vez, "toda a verdade" ocorrida nas Olimpíadas de Tóquio. Muito possivelmente, com o recrudescimento do regime militar no Brasil, Aída dos Santos foi punida por expor na televisão as agruras vividas naquele evento esportivo. Nesse sentido, parece que, por caminhos diversos, tanto Aída dos Santos quanto Eliane Pereira não participaram das Olimpíadas de 1972 em virtude de os dirigentes militares temerem, respectivamente, a explosão violenta de atitudes afirmativas e raivas recalcadas. Logo depois, ambas encerraram suas carreiras esportivas, dedicando-se como professoras de Educação Física.

 

Palavras finais

Baseado nas narrativas orais de duas atletas negras, o artigo apresentado se insere na tentativa de reafirmar a importância dos estudos de gênero para a compreensão dos processos históricos contemporâneos, através dos quais se deram a inserção, a permanência e a ampliação da participação das mulheres no campo esportivo brasileiro. A partir das trajetórias abordadas, demonstrei como a perspectiva reducionista do binarismo essencialista, dominante nas abordagens feministas entre os anos 1960 e 1970, obscurecia as diferenças e as pluralidades existentes entre as próprias mulheres, alçadas até então à categoria de um sujeito universal dotado de uma identidade comum. Ao analisar as carreiras, os projetos, as narrativas e as memórias das atletas Eliane Pereira e Aída dos Santos, examinei as múltiplas intersecções do gênero com outros componentes de diferenciação social, tais como classe, raça/etnia e geração, fundamentais para o entendimento da construção de identidades e memórias pessoais multifacetadas, nunca estabelecidas definitivamente e sim sujeitas a infinitas recomposições.

Assim, entendendo a prática esportiva como campo de poder, tramas, conflitos, tensões e investimentos, conforme sugere Bourdieu, o trabalho pretendeu reconstruir as experiências vividas por algumas atletas brasileiras que, entre rupturas, silêncios e conformidades, protagonizaram importantes conquistas pela emancipação e pela afirmação das suas múltiplas identidades, durante a vigência de um projeto político nacionalista e autoritário.

 

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Recebido em 25 de maio de 2010 e aceito para publicação em 4 de abril de 2011

 

 

1 Roger CHARTIER, 1994, p. 102.
2 Joan SCOTT, 1996.
3 Rachel SOIHET, 1997.
4 Suely Gomes COSTA, 2004.
5 Sabina LORIGA, 1998, p. 225.
6 Pierre BOURDIEU, 2006, p. 189-190.
7 BOURDIEU, 2006, p. 189.
8 Giovanni LEVI, 2006, p. 179-180.
9 Michael POLLAK, 1992, p. 204.
10 Acerca desta noção como espaço de lutas e poder, ver BOURDIEU, 1983 e 2004.
11 Para um maior esclarecimento sobre a utilização e a limitação do conceito de "geração" como critério "periodizante", ver Jean-François SIRINELLI, 2006, p. 131-137.
12 Michelle PERROT, 2005.
13 Às vezes, o consentimento toma a forma de um contrapoder, isto é, quando a incorporação da linguagem da dominação se encontra reempregada para marcar uma resistência, conforme CHARTIER, 1995, p. 42.
14 Longe de representar uma perspectiva conciliadora, este enfoque aponta para os poderes femininos exercidos através do controle de algumas práticas e ritos, conforme PERROT et al., 2001, p. 7-30.
15 Gilberto VELHO, 1988, p. 123.
16 VELHO, 1988, p. 123.
17 Eliane Pereira de Souza, entrevista concedida à Cláudia Farias em 21 de outubro de 2008.
18 Norbert ELIAS, 2000, p. 19-50.
19 LEVI, 2006, p. 179-180.
20 O estigma social é imposto pelos grupos de mais poder e prestígio a outros indivíduos e grupos vistos como inferiores. "Em muitos casos, os indivíduos 'superiores' podem fazer com que os próprios indivíduos 'inferiores' se sintam, eles mesmos, carentes de virtudes, julgando-se humanamente inferiores. Mas este processo pode fazer surgir também a contra-estigmatização em uma batalha na qual o equilíbrio entre os diferenciais de poder vai se reduzindo aos poucos" (ELIAS, 2000, p. 24-25).
21 Eliane Pereira de Souza, entrevista concedida à Cláudia Farias em 21 de outubro de 2008.
22 Cláudia de Lima COSTA e Eliana Ávila, 2005.
23 Eliane Pereira de Souza, entrevista concedida à Cláudia Farias em 21 de outubro de 2008.
24 Pierre ANSART, 2004.
25 Eliane Pereira de Souza, entrevista concedida à Cláudia Farias em 21 de outubro de 2008.
26 Esta expressão é usada pelos comentaristas esportivos para designar uma disputa em que o vencedor é o nadador que, por uma diferença de centésimos de segundos, bate primeiro a mão na borda da piscina.
27 Eliane Pereira de Souza, entrevista concedida à Cláudia Farias em 21 de outubro de 2008.
28 Eliane Pereira de Souza, entrevista concedida à Cláudia Farias em 21 de outubro de 2008.
29 Eliane Pereira de Souza, entrevista concedida à Cláudia Farias em 21 de outubro de 2008.
30 ELIAS, 2000, p. 28, grifos do autor.
31 Conforme dados obtidos em COB, 2004.
32 ANSART, 2004.
33 Alejandra OBERTI, 2006.
34 POLLAK, 1992.
35 Oscar VALPORTO, 2006, p. 51.
36 VALPORTO, 2006.
37 Aída dos Santos, entrevista concedida à Cláudia Farias em 1 de dezembro de 2008.
38 Aída dos Santos, entrevista concedida à Cláudia Farias em 1 de dezembro de 2008.
39 O atletismo só deveria ser praticado pelas mulheres desde que preservados certos limites e distâncias, pois se acreditava que os choques constantes com o solo poderiam ocasionar danos irreparáveis ao aparelho reprodutor feminino. O salto com vara, o salto triplo, o decatlo e o pentatlo eram proibidos, de acordo com a legislação produzida pelo Conselho Nacional de Desportos, durante o Estado Novo.
40 Aída dos Santos, entrevista concedida à Cláudia Farias em 1 de dezembro de 2008.
41 Aída dos Santos, entrevista concedida à Cláudia Farias em 1 de dezembro de 2008.
42 Numa entrevista dada ao repórter esportivo Oscar Valporto, 2006, p. 54, Aída contou que os dirigentes militares exigiram que ela saltasse o sarrafo mais três vezes para confirmar a altura de 1,65 m (índice olímpico na época), já atingida por ocasião de um torneio realizado no começo de 1964. No depoimento ela afirmou: "estava na cara que eles não queriam que eu fosse aos Jogos Olímpicos".
43 Esse fato pode ser interpretado como um rompimento com o pensamento binário do movimento feminista que colocava numa eterna oposição homens e mulheres até os anos 1970, ocultando as articulações com outras categorias sociais como classe, raça/etnia, geração, religião etc.
44 Aída dos Santos, entrevista concedida à Cláudia Farias em 1 de dezembro de 2008. Cumpre ressaltar que, durante muito tempo, essa foi a melhor colocação individual de uma mulher brasileira em olimpíadas, ultrapassada apenas nas Olimpíadas de Pequim realizadas em 2008.
45 Aída dos Santos, entrevista concedida à Cláudia Farias em 1 de dezembro de 2008.
46 ELIAS, 2000.
47 Aída dos Santos, entrevista concedida à Cláudia Farias em 1 de dezembro de 2008.