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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.19 no.3 Florianópolis Sept./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2011000300015 

SEÇÃO TEMÁTICA
A CONSTRUÇÃO DOS CORPOS NO ESPORTE

 

As mulheres no mundo equestre: forjando corporalidades e subjetividades 'diferentes'

 

Women in the equestrian world: forging corporalities and subjectivities

 

 

Miriam Adelman

Universidade Federal do Paraná

 

 


RESUMO

Desde o final do século XIX, as práticas esportivas se tornaram um terreno de lutas simbólicas e práticas intensas sobre definições de feminilidade, sobre "o que é uma mulher" e quais as atividades que um corpo marcado como feminino pode ou deve realizar. Durante mais de uma década, venho realizando pesquisa sobre a prática esportiva de mulheres no Brasil, com um olhar para o mundo equestre. Apresentarei um resumo dessas pesquisas que vêm focalizando diferentes grupos de amazonas: inicialmente, um grupo de amazonas de origem social de elite que se dedicam ao salto (hipismo clássico), num segundo momento, jovens de origem popular que lutam para inserir-se no meio muito masculino do turfe e, finalmente, uma nova fase de pesquisa que se abre para o mundo tradicional do "rodeio campeiro" e suas pioneiras. Através de depoimentos de mulheres e de trabalho de cunho etnográfico e interacionista, procuro entender como as práticas dessas mulheres fazem parte de processos de construção identitária particulares, como lidam com meios que continuam sendo predominantemente masculinos e desenvolvem, nesses contextos, estratégias de autoafirmação, individuais ou coletivas. Apesar das pressões normativas e dos obstáculos culturais e/ou materiais que encontram no caminho, identifico nas suas práticas e modos de ser elementos de desafio às formas mais convencionais de viver o corpo e a subjetividade.

Palavras-chave: amazonas; esportes equestres; homossociabilidade; Brasil; relações de gênero; identidades.


ABSTRACT

As of the end of the 19th century, sporting practices became the terrain of intense symbolic and material struggles over the definition of femininity - over "what a woman is" and over what women could or should do with their bodies. For over a decade now, I have been conducting research on women in the world of equestrian sport in Brazil. This paper presents a synthesis of my research, looking at different groups of horsewomen: an initial group were women from the elite world of show jumping; a second group, women jockeys who have struggled to find a niche within the still very masculine world of the turf and finally, my most recent endeavor, a look at women who participate in the popular Brazilian milieu of the rodeo. Through collecting women's testimonies and engaging in ethnographic research employing interactionist methodologies, I seek to understand how these women construct their identities, how they deal with milieu that continue to be largely male and how, within these contexts, they develop self-affirming strategies. It is my contention that, notwithstanding the normative pressures and cultural and/or material obstacles they face, these women, through their ways of being and acting, present a challenge to conventional modes of feminine corporality/subjectivity.

Key Words: Horsewomen; Equestrian Sport; Homosociality; Brazil; Gender Relations; Identities.


 

 

"Oh, don´t tell me EVER
that women have secret lives
or treasures
that no one except other women
knows about.
Tell me,
instead,
that the secret is,
and always has been,
why
men find so much pleasure in each
other's company; why women
when they are segregated and together with
each other, have only the menstrual hut,
the old, rusty, monthly blood
to share?
or its taboo opposite:
the little clone of ourselves
forming inside our bodies,
etching its face and shape on the moon,
which will then disappear for nine even lonelier
months.
A child to replace the mother"

"Five of Staves", de Diane Wakoski

Com essas palavras, a prolífica poeta norte-americana Diane Wakoski fornece um comentário agudo e irônico sobre aquilo que na teoria social e cultural contemporânea vem sendo pensando sob a rubrica da "homossocialidade": a construção histórica de uma sociabilidade masculina que se expande pelos espaços públicos, que toma forma na vida cotidiana através da exclusão explícita ou implícita das mulheres. Intimamente vinculada à consolidação da cultura moderna e às relações de poder burguesas e patriarcais nela imbricadas, a homossociabilidade torna-se uma celebração dos laços que se forjam entre homens,1 perpetuando sentimentos como os que constituem o "segredo" da interrogação poética de Wakoski. Dessa forma, enquanto as atividades masculinas se tornam fonte de prestígio e prazer, as atividades femininas tendem a ser desvalorizadas, trivializadas, silenciadas e/ou invisibilizadas - remessadas para uma esfera doméstica subvalorizada e, dessa maneira, perpetuando o afastamento das mulheres dos espaços públicos nos quais ocorre tudo aquilo que "realmente importa". Wakoski - penso eu - ironiza a noção de que é a "biologia" das mulheres que circunscreve seu "destino", ou seja, suas formas de agir, se definir e se encontrar no mundo. Base de sustento do "segredo" são os mesmos processos que historicamente domesticaram as mulheres e tentaram obstruir seu caminho à criação de competências diversas, como a proeza física e atlética à qual Wakoski alude, uma ampla gama de práticas históricas através das quais os homens são historicamente estimulados a procurar e curtir a aventura em companhia própria.

De maneira parecida com o que sucede noutras partes do mundo, no Brasil as construções culturais masculinistas, assim como as lutas materiais e simbólicas em torno do sentido de ser mulher levam longa história. Estudiosos que procuram mapear a evolução e as vicissitudes da ordem de gênero desde os tempos da colônia apontam uma série de características, marcadas inicialmente pelo enclaustramento doméstico das mulheres das elites dessa época e pelo acesso paralelo que os homens dessa camada tinham aos corpos das escravas. Essa configuração histórica também conduziu ao desenvolvimento de um tipo particular de imaginário social - "generificado" e racializado - que foi incorporado na cultura e na vida social e que, em nossos tempos, virou tema de acirrados debates em meios acadêmicos e políticos.

É interessante perceber que dentro da literatura histórica e antropológica sobre a constituição da sociedade e da cultura brasileiras, a "casa" não é originalmente significada como o espaço das mulheres e que se opõe àqueles espaços vistos como masculinos. Em lugar disso, é o espaço da elite escravista e, portanto, representa um domínio patriarcal particular. Como argumenta a crítica Simone Schmidt2 sobre um dos textos fundantes dessa literatura, Casa-grande e senzala, "O tenso intervalo que separa (e liga) a casa-grande e a senzala está todo ele contido nesse corpo da mulher escrava, escravizado sexualmente pelo senhor. Nisso reside [...] uma poderosa metáfora das relações de poder na sociedade brasileira".

Para pensar sobre as especificidades da divisão entre espaços público e privado no Brasil, não se deve esquecer os debates incitados pelo livro do antropólogo Roberto Da Matta, Casa e rua. A partir dele, produziram-se diversas interpretações dos espaços e das sociabilidades que tanto juntam quanto separam os diversos grupos que compõem a sociedade brasileira3 - constituídos por configurações de classe, raça e gênero e suas interseccionalidades. Para os/as estudiosos/as de gênero, emerge uma série de questões, entre essas: Qual a 'história generificada' desses espaços? Quais as mulheres (e os homens) da casa, quais as 'da rua'? Se os homens gozam de um acesso ou trânsito livre entre 'casa' e 'rua', quais as configurações ou talvez as oposições entre vida doméstica e vida na esfera pública (onde constroem suas relações homossociais com outros homens) que emergem de suas formas de sociabilidade? E, mais ainda, como é que as sociabilidades das mulheres figuram nos discursos que autores e cientistas sociais brasileiros constroem histórica ou atualmente nas suas narrativas sobre o Brasil e suas especificidades culturais e históricas?4

A historiografia das mulheres no Brasil tende a representar o século XIX e uma boa parte do século XX como um período no qual as normas vinculadas à domesticidade prevalecem. Representações hegemônicas sobre as mulheres são fortemente influenciadas pelas campanhas de higiene social, que enxergam as mulheres como "corpos maternos" equipados com instintos de cuidado e constituições frágeis que exigem não só orientação senão também a vigilância do crescente grupo de profissionais e peritos (experts), que sabem - bem melhor do que as próprias mulheres - como essas podem ("devem") melhor realizar sua "missão social materna". Por sinal, como também ocorria em outros lugares, persistentes desigualdades de classe e raça criavam fortes contrastes entre as vidas das mulheres realmente "protegidas" dentro do âmbito doméstico e as mulheres pobres e proletárias, cujas vidas empurravam-nas para outros espaços (rua, fábrica etc.). A conhecida historiadora Margareth Rago5 explica como alguns esforços de controle social estendiam-se da vigilância inicial sobre meninas e mulheres das elites até outras camadas sociais:

Frágil e soberana, abnegada e vigilante, um novo modelo normativo da mulher, elaborado desde meados do Século XIX, prega novas formas de comportamento e de etiqueta, inicialmente às moças das famílias mais abastadas e paulatinamente às das classes trabalhadoras, exaltando as virtudes burguesas de laboriosidade, da castidade e do esforço individual. Por caminhos sofisticados e sinuosos, se forja uma representação simbólica da mulher, a esposa-mãe-dona de casa, afetiva mas assexuada, no momento mesmo em que as novas exigências da crescente urbanização e desenvolvimento comercial e industrial que ocorrem nos principais centros do país solicitam sua presença no espaço público das ruas, das praças, dos acontecimentos da vida social, no teatros, cafés, e exigem sua participação ativa no mundo do trabalho.

Os momentos de resistência a essas pressões normativas intensas não eram inexistentes, mas se caracterizavam como atitudes minoritárias, como no exemplo dado pelas mulheres inspiradas pelo anarquismo identificadas por Rago. Ainda mais, as últimas décadas do século XIX e o início do século XX trouxeram modificações significativas nesse sentido no Brasil, na Europa, nos EEUU e em algumas outras partes do mundo. Como Del Priore fala sobre o Brasil: "Era o início da República, no qual as cidades trocavam a aparência paroquial por ares cosmopolitas; nelas, misturavam-se imigrantes, remanescentes da escravidão e representantes da elite. Neste cenário, nascia uma nova mulher".6 Desde o cinema até o deporte, amplas energias eram investidas na construção de uma "nova mulher" que, de algumas formas significativas, davam novo sentido ao feminino, indo além das definições centradas na maternidade e legitimando a participação que as mulheres tão ativamente procuravam nos espaços públicos nos quais surgiam canais para a (re)construção do eu. Uma parte fundamental desses novos roteiros envolviam o uso de espaços públicos para o prazer e o lazer das mulheres, criando dessa maneira um modelo que pudesse oferecer uma opção - e, para muitas mulheres jovens, uma opção muito atraente - às formas conservadoras de construir corpos e identidades femininas que persistiam dentro de uma sociedade ainda bastante católica e de traços autoritários.

Todavia, no Brasil, assim como noutras partes do mundo, ao longo do século XX o sentido do "ser mulher" persiste como objeto de produção discursiva intensa e conflitiva. A historiadora Carla Bassanezi7 discute os discursos hegemônicos sobre a feminilidade, conforme foram representados e reproduzidos nas páginas de revistas femininas durante os vinte anos que se estendem desde 1945 a 1965. Frequentemente entendido como um período "mais democrático" que outros que fazem parte da história do país, Bassanezi enfatiza a persistência de relações políticas autoritárias durante esse período, uma parte constitutiva das quais foram as atitudes negativas relacionadas com o trabalho das mulheres fora do lar e um esforço ideológico intenso de promover a noção da mulher como "rainha do lar". Denise Sant´Anna8 aponta para um novo movimento e o esforço considerável feito na década a seguir - os "anos 1960" - para libertar corpos e sexualidades; para ela, essa libertação dizia algo particularmente importante com respeito à libertação dos corpos femininos de tabus e códigos culturais repressivos. Uma outra analista cultural, Miriam Goldenberg,9 que também enfatiza a importância desse novo momento na cultura e na sociedade brasileiras, argumenta que os esforços transformativos dos anos 1960 e 1970 são mais bem compreendidos como breve hiato do que como revolução bem-sucedida. Ela utiliza os resultados de sua pesquisa - que descobre o "capital marital" e "o cultural corporal" como elementos-chaves da economia simbólica que define o valor de uma mulher - como evidências para seu argumento. Ainda mais - e algo tragicamente - a situação que ela descreve se sustenta através de uma grande cumplicidade feminina com esses regimes de representação; como Simone de Beauvoir alegou muitos anos antes, (muitas) mulheres se aderem às perspectivas masculinas que instituem noções sobre "o que é uma mulher", e o fazem de tal maneira e com tanta força que sua própria construção de subjetividade/identidade em grande parte fica circunscrita a essas noções (nos remetendo à afirmação lacaniana - certamente polêmica - de as mulheres "não terem subjetividade").

Contudo, esse corpo feminino "hipersexualizado" do momento atual se define em termos muito diferentes do corpo representado como maternal e reprodutivo de períodos anteriores.10 É aparentemente um corpo "ativo" e desejante, mas também um corpo altamente sujeito a novas regras e formas de vigilância. De maneira parecida, as culturas corporais femininas construídas por e para as mulheres em torno do esporte podem ser parcialmente afirmativas, mas são também de alguma forma fundamental diferentes das construções que emergiram até meados do século XX, tempo em que as atitudes e as práticas das mulheres esportistas infringiam mais claramente as regras de "comportamento feminino". Embora haja verdade na identificação das atividades esportivas com o disciplinamento de mentes e corpos na modernidade capitalista e patriarcal,11 a atividade esportiva feminina era inicialmente terreno para a expressão de sujeitos femininos rebeldes e desobedientes. Como exemplo vemos o que a historiadora do esporte Silvana Goellner12 fala sobre as atitudes hostis com que se encarava a participação feminina nos Jogos Olímpicos na virada do século XX:

O suor excessivo, o esforço físico, as emoções fortes, as competições, a rivalidade consentida, os músculos delineados, os gestos espectacularizados do corpo, a liberdade de movimentos, a leveza das roupas e a semi-nudez, práticas comuns ao universo da cultura física, quando relacionados à mulher, despertavam suspeitas porque pareciam abrandar certos limites que contornavam uma imagem ideal de ser feminino. Parecia, ainda, desestabilizar um terreno criado e mantido sob domínio masculino, cuja justificativa, assentada na biologia do corpo e do sexo, deveria atestar a superioridade deles em relação a elas.

Mas há um consenso considerável hoje no sentido de que as atividades esportivas e o exercício físico foram em grande parte incorporados numa cultura contemporânea de "fitness" que aos corpos - masculinos e femininos - exige juventude, boa condição e beleza. Ao mesmo tempo, as culturas esportivas mais fortes, nos níveis globais e nacionais - como, por exemplo, a cultura da paixão pelo futebol -, continuam sendo, em grande parte, masculinas, tanto em termos da organização esportiva (por exemplo, divisões e atletas) quanto das culturas de interação social que se elevam ao redor delas (que frequentemente são fortemente "homossociais"). Fica muito evidente que o mundo esportivo continua pouco igualitário no tratamento de atletas e atividades masculinas e femininas. Mais ainda, as atividades esportivas femininas continuam sujeitas à vigilância por comportamentos e tipos corporais que podem ser identificados com a subversão de normas sobre o que é realmente "uma mulher". Sob essa luz, torna-se importante não só fazer uma crítica à dominação masculina que se reproduz dentro do mundo esportivo convencional, mas localizar os "espaços de resistência" através dos quais as mulheres, com suas práticas esportivas e desenvolvimento de proeza, desafiam definições e/ou práticas limitadoras, restritivas ou opressivas, e prestar atenção suficiente a esses espaços.

 

As mulheres constroem identidades através de esportes e práticas equestres

Em nosso mundo contemporâneo, as atividades de esporte e lazer são espaços importantes nos quais a vida cotidiana se desdobra e a cultura - através da interação social e da construção de identidades grupais e pessoais - se elabora. Esse fato suficientemente evidente ajudou a promover uma mudança nas formas de ver o deporte e o lazer dentro da teoria social hoje. Se, noutra época, eram vistos como arenas sociais de menor importância ou relevância sociopolítica, hoje em dia já ganharam seu reconhecimento e seu lugar dentro das preocupações acadêmicas reconhecidas - o "mainstream".13 Um movimento paralelo pode ser localizado dentro dos mesmos estudos de gênero, nos quais o esporte e a educação física acabaram ganhando reconhecimento como lugares-chaves para a construção de corpos e identidades, masculinidades e feminilidades, e definições instáveis de gênero e suas fronteiras, gerando assim um vasto e incisivo corpo de literatura internacional.

Os deportes equestres possuem algumas especificidades que os tornam particularmente relevantes, como terreno para pesquisa sobre relações de gênero e construção de corpos, identidades e culturas esportivas femininos. Nos EEUU, existe certa quantidade de literatura, em gêneros distintos (trabalhos acadêmicos e populares, e até literatura infantojuvenil), que documenta a história e as formas do envolvimento histórico das mulheres com os cavalos e os esportes equestres, desde a história das "pioneiras do rodeio", passando pelas primeiras amazonas a competir em nível internacional no salto, as primeiras jockeys, até uma literatura contemporânea de não pouca visibilidade sobre meninas e mulheres na cultura e na indústria equestres (desde romance até livros no estilo autoajuda!).14 Possuímos o registro, desde pelo menos o final do século XIX, da participação das mulheres no circo e no rodeio como parte dos momentos iniciais de uma "cultura do espetáculo"/indústria de entretenimento. Esses espetáculos atraíam um público ansioso de ver as mulheres demonstrarem suas habilidades em atividades cujos riscos e desafios não se associavam convencionalmente ao "feminino".15 Temos o feliz acesso às histórias de mulheres legendárias - muito extraordinárias para seu tempo - como a artista do circo alemã Katie Sandwina,16 integrante do famoso Barnum & Bailey, e a estrela de rodeio Lucille Mulhall, nomeada pela imprensa "America's first cowgirl", quem nos primeiros anos do século XX, ainda adolescente, participava de espetáculos que pretendiam recrear um pouco do "espírito da fronteira" para os moradores de cidades grandes.17 Mais ainda, uma associação significativa e recorrente aparece nos discursos do ocidente moderno entre montar a cavalo e a liberdade feminina, tanto na cultura popular quanto na literatura contemporânea.18

Contudo, no Brasil - um país que também tem uma considerável cultura equestre - tanto a história quanto a realidade atual do envolvimento das mulheres no mundo equestre continuam pouco recuperadas e discutidas. Com certeza, não há um campo de produção discursiva específica a respeito (encontrei, até agora, só um livro19 que trate especificamente de mulheres brasileiras que cavalgam), embora haja uma presença feminina crescente nas revistas equestres que apresentam resultados de concursos e notícias sobre o mundo dos esportes equestres no país. De fato, meu interesse inicial pelo tema surgiu de um artigo de jornal sobre as mulheres no mundo equestre do hipismo clássico (salto) defendendo as características igualitárias desse esporte (sejam identificadas como inerentes ao esporte ou como conquistas nada fáceis).20 Mas, como parte de um meio de elite num país caracterizado pela desigualdade social extrema, surgia necessariamente a questão da relevância de descobertas feitas nesses ambientes de privilégio para a população (majoritária) sujeita à dificuldade econômica e muitas vezes à extrema pobreza, exclusão e marginalização. Por outro lado, eu percebia que os cavalos continuavam sendo importantes recursos materiais e simbólicos dentro das comunidades e das tradições rurais no Brasil. Como cavaleira "amadora", tinha passado muitos domingos pela manhã - sozinha ou na companhia de amigos - montando pelas estradas de bairros periféricos e municípios contíguos a Curitiba, onde via, uma e outra vez, homens e meninos curtindo seu lazer no campo de futebol ou montando a cavalo com os amigos. Geralmente a ausência feminina era marcante. Mas nas ocasiões - costumavam ser várias vezes por ano - em que uma comunidade local organizava uma cavalgada festiva (quase sempre vinculada às padroeiras das igrejas) acontecia algo diferente: homens e mulheres, meninos e meninas se juntavam num raríssimo momento de lazer esportivo compartilhado.

Embora em certo sentido as atividades às quais me referi acima pertenciam a dois mundos com profundas diferenças - um, o meio elitista da hípica e outro, o recinto de tradições comunitárias populares -, havia algo que percebia como sendo comum a ambos que sugeria uma forma particular de empoderamento corporal feminino.21 Foi isso que me instigou a continuar na empreitada e pesquisar vários campos diferentes de atividades equestres, cada um deles com fortes traços distintivos,22 indagando sobre as vicissitudes da participação feminina em e entre eles, guiada pelo interesse em descobrir como, em cada um desses meios, as mulheres que montam constroem um sentido particular do eu, do corpo e do ser mulher.

 

As mulheres no mundo do salto

Como disse acima, o mundo elitizado do hipismo clássico vem se tornando cada vez mais "misto" - ou mesmo feminilizado. É isso também uma característica que o distingue dos outros meios equestres que vou considerar aqui, para os quais o conceito teórico de "homossociabilidade masculina" é altamente pertinente. No entanto, o mundo da equitação clássica também, noutra época, privilegiava o masculino, e possui uma longa história de gênero - exemplificado, por exemplo, em histórias como as memórias da cavaleira britânica Pat Smythe,23 a primeira mulher a participar das Olimpíadas nessa modalidade. No Brasil, o esporte inicia-se em proximidade com o exército24 e, portanto, por definição, com um vínculo muito forte a um espaço quinta-essencialmente "homossocial". Hoje, contudo, o cenário encontra-se muito transformado, o que se observa facilmente em qualquer competição hípica; o cenário se apresenta de outra forma: há uma minoria de pessoas enfardadas (e entre elas algumas costumam ser jovens mulheres) e, no geral, a presença feminina é majoritária.25

Uma hipótese que se pode sugerir é de que o caráter elitista do esporte, assim como a posição de elite ou "classe média alta" das pessoas que nele participam, facilita a participação feminina, já que abrange segmentos de mulheres com maior capital econômico e social (o que, por sua vez, favorece a independência, a autonomia e a liberdade de ação). No final dos anos 1990, realizei entrevistas e longas horas de observação (e, por vezes, participação) num meio que tomava como seu centro a Sociedade Hípica Paranaense, em Curitiba. Lá gravei entrevistas com seis mulheres que se consideravam profissionais ou semiprofissionais.26 As amazonas eram todas de origem étnica "europeia", tinham cursado estudos universitários e provinham de famílias com altos níveis de capital cultural e financeiro. Quando depunham sobre sua rota de ingresso ao mundo esportivo, todas essas amazonas falavam que "sua paixão pelo esporte" ou pelos cavalos geralmente começava na infância. Uma descreveu um encontrou casual que se tornou paixão desta maneira:27 "Eu fui a primeira amazona na família. Foi por vontade mesmo, por gostar de bicho e gostar do esporte. Numa viagem para Fortaleza, assisti um campeonato numa praça; aí eu fiquei pedindo, pedindo, até a minha mãe me colocar" (Marcela). Outra descreveu um passatempo juvenil que virou projeto de vida noutra época da vida: "Meu pai tinha uma chácara e todo mundo montava ali [...]. Desde que eu era pequena eu queria praticar o esporte, não apenas cavalgar, mas saltar. Eu sempre li muitos livros e revistas, mas não era o bastante, você precisa de alguém para te ensinar [...]" (Tânia). É significativo, também, que algumas amazonas tenham se envolvido no salto contra a vontade de membros da família e de parentes, os quais viam o deporte como "perigoso demais para uma mulher", como no caso de Adriana:

Eu sempre amei os cavalos, e adorava montar na fazenda da minha família [...]. Mas eu não sabia, de fato, montar [...]. Então, quando eu vi isso aqui [prova de salto na Sociedade Hípica Paranaense] eu fiquei maluca. Meu Deus do céu, que maravilha! Eu falei para meus pais que eu estava a fim de entrar na hípica para aprender a montar e eles disseram que não, que 'é muito perigoso, para menina não!'. Então eu procurei a minha avó, pedi dinheiro a ela e subornei o nosso chofer; ao invés de me levar para a aula de inglês, ele me trazia aqui.

Tempos depois, surpreendeu seus pais ao convidá-los para assistir a uma competição na hípica na qual ela era uma das concorrentes!

Uma confluência particular de fatores (mulheres muito privilegiadas, um campo esportivo misto em que as portas já se abriram e que consegue cativá-las tão plenamente, certo distanciamento do tipo de cultura de celebridade esportiva que tantas vezes inclui a exposição mediática do corpo da atleta etc.) parece favorecer a construção desse lugar como espaço para cultivar uma identidade que desafia algumas normas sociais de feminilidade, mesmo que persistam nele noções de "estilos femininos de montar". Por outro lado, e em pleno contraste com outro grupo de atletas que entrevistei na época,28 as amazonas não falaram sobre preocupações com as formas corporais nem se demonstraram susceptíveis a formas de policiamento de corpos e atitudes de vigiar as mulheres em termos de se manterem dentro dos padrões de "imagem da mulher desejável". Ao contrário, elas pareciam tomar grande prazer noutras formas de autorrepresentação: corajosas, aventureiras, mulheres que se orgulham de sua competência física pouco comum.

Contudo, das entrevistas não emergia um cenário livre de "problemas de gênero". Embora nenhuma das informantes tenha reclamado especificamente de ter vivenciado discriminação de gênero dentro do esporte em si, falaram sobre os efeitos de mecanismos informais relacionados à família, cultura e sociedade. Mencionaram, por exemplo, o grau de preocupação presente nas famílias em relação ao envolvimento das filhas no esporte, argumentando que se demonstravam uma confiança menor nas habilidades das meninas e um maior receio em relação a cicatrizes e sequelas de possíveis acidentes. Nesse sentido, foi assinalado que muitos pais tentam frear o engajamento esportivo das meninas, a partir do momento em que passariam a competir em provas mais puxadas ou, como minha informante Adriana informou, "acima de 1 metro e 10". Outro constrangimento refere-se às dificuldades que mulheres adultas podem sentir em conseguir apoio familiar para suas atividades competitivas. Duas informantes falaram em termos muito parecidos sobre a diferença entre o apoio entusiasmado com o que os cavaleiros que competem podem contar - desde a garantia da presença da mulher e dos filhos na torcida nas arquibancadas até o respeito de cônjuges que não montam pelas necessidades de viagens de final de semana para competir em cidades ou mesmo em países distantes - e a falta de apoio de maridos quando são (só) as esposas que montam e competem.

E, finalmente, todas as minhas informantes, de alguma maneira, falaram não só de sua paixão pelos cavalos e do mundo equestre, mas exprimiram também a convicção de que suas atividades equestres colocaram-nas numa "outra categoria" afastada de construções convencionais de feminilidade. Elas se enxergavam como mais valentes e ousadas, ou ainda, mais afastadas do cotidiano banalizado de interesses "tipicamente femininos", como percebemos nas palavras de Tânia, instrutora de equitação:

Talvez esta seja a melhor parte do que fazemos aqui. As crianças se acostumam com a natureza, com sujar suas mãos e roupas, com cuidar de seus cavalos. E você realmente vê que elas são diferentes, essas meninas que vêm aqui para montar. A parte mais importante do seu dia elas passam aqui, então as idas ao shopping significam menos para elas. Elas crescem ao menos um pouco mais naturalmente.

 

As mulheres do turfe

As corridas de cavalo e o mundo do turfe em si tiveram um papel importante na história do Brasil moderno. Trabalhos históricos falam dos jockeys clubes - principalmente os do Rio de Janeiro e os de São Paulo - como lugares onde pessoas de classes sociais diferentes se juntavam para lazer e socialização, assim como locus de reprodução de relações econômicas e políticas importantes para a elite.29 O historiador Victor Melo cita o papel histórico importante na "modernização de costumes" no Brasil;30 noutro lugar, discutimos o turfe como espaço importante de relações de homossociabilidade.31

Ao empregar uma metodologia interacionista que focaliza não só palavras de mulheres mas todo o contexto da interação cotidiana do turfe, nosso trabalho etnográfico no meio do turfe procurou mostrar tanto as experiências das jovens que tentam quebrar barreiras num ambiente masculino quanto trazer à tona os comportamentos e as atitudes de homens em relação à participação feminina. Ao mesmo tempo, nossa análise se pautava na crença de que as complexas interseções de relações de classe, raça e gênero se desdobram (e se elaboram simbolicamente) de formas particulares dentro de contextos esportivos específicos. As jovens que lutam para cavar seu nicho no mundo do turfe como jockeys provêm, em termos gerais, de famílias pobres (principalmente rurais e semirrurais). Assim, em termos materiais e culturais, é fato marcante sua origem em comunidades nas quais os processos de mudança nas relações de gênero costumam ser mais ambíguos e ambivalentes, tanto em termos de ideologias de gênero quanto por tratar-se de mulheres cujas vidas familiares e comunitárias vinculam-nas a homens (pais, irmãos, namorados e maridos) que provêm de segmentos da população identificados como mais resistentes a tendências sociais igualitárias e ao desmantelamento da dominação masculina.32

O gênero, nesse caso, encontra-se atravessado por profundas marcas de classe. No Brasil, os jockeys são historicamente homens provenientes de setores populares33 e particularmente de segmentos vinculados ao meio rural (ou advindos de movimentos de êxodo rural recente) nos quais os cavalos continuam a jogar um papel importante, seja como animais de trabalho, montarias valorizadas para as rotinas cotidianas de fazenda e sítio ou bons companheiros de momentos de lazer e recreação. Nossa própria pesquisa nos revela que hoje, para meninos e jovens atraídos pela escola de aprendizes, procurar a sorte como jockey representa uma opção para ganhar a vida ou cavar-se um nicho melhor no meio urbano.34 Embora tenham tido várias mulheres que correram durante os anos 1960 e 1970 (conforme relato de uma informante nossa, Josi, hoje na meia-idade e relegada ao trabalho de "tratadora", e da legendária gaúcha Susana Davis,35 hoje encarregada da escola de aprendizes no Jockey Club de Porto Alegre), é somente na última parte dos anos 1990 que as escolas de aprendizes em várias partes do país abriram suas portas para mulheres. Inicialmente, as rotas percorridas por essas jovens parecem similares às dos seus pares de sexo masculino: sendo todas de origem rural ou "turfista", todas falavam do envolvimento dos seus pais no mundo do cavalo (pais que foram jockeys, treinadores ou trabalhadores de fazenda). Assim, dessa maneira, a escolha da profissão que elas faziam parecia dar um novo significado à antiga tradição de transmitir vocação ou ofício de pai a filho.

Nossas informantes indicaram o apoio parental (particularmente, paternal36) como elemento positivo na sua trajetória. Mas como jovens tentando "(inter)romper" para entrar nesse domínio historicamente masculino, ninguém imaginaria que fosse uma tarefa fácil ou tranquila. Embora escutemos poucas falas que pudessem ressoar com o mesmo tom com que se exprimia a jockey norte-americana Julie Krone quando relatava as experiências pesadas de décadas anteriores no turfe nos EUA37 e muitos dos homens (treinadores e ex-jockeys) com os quais falamos que nos garantiram que essas jovens eram uma presença "bem-vinda", alguns problemas muito significativos foram citados pelas jockeys entrevistadas, assim como por uma veterinária que, com muita astúcia, comparava seus recursos (adquiridos) para negociar seu espaço dentro de um ambiente quase exclusivamente masculino com os que essas jovens (não) tinham. As jockeys, segundo ela, ficam desprotegidas e muito vulneráveis a pressões de tipo sexual. Ninguém descreveu o problema de maneira mais articulada do que Josiane, a jockey mais "veterana" e com maior sucesso entre nossas entrevistadas:38

[...] essas meninas são muito novas, então acho que elas têm que ter muita cabeça no lugar para se destacar na profissão porque se eu acho que se escorrega, entendeu deixar ficar mal falada entendeu, dar abertura a outras coisas, a pessoa não vai pra frente. Porque assim no início como todo mundo que dali um pouquinho todo mundo enjoa, e você não cresce. Então eu acho melhor, eu sempre falo pras meninas quando chegaram lá eu falei olha só vai cair muito homem em cima de vocês, isso é a coisa mais normal, mas nenhum deles tá com assim com boas intenções todos com má, más intenções. Mas você tem que saber lidar, você não pode tirar um treinador, tirar, você tem que saber sair sem magoar ninguém. Porque, porque às vezes você pode dizer pro cara não quero nada com você, e acabar perdendo montaria e não é o caso, você não quer nada com ele mas as montarias dele você tem que querer, você tem que saber dizer não, saber sair disso tudo.39

Contudo, é a determinação ferrenha dessas mulheres que ressoava nos seus depoimentos. Montar cavalos puro-sangue significa, para elas, para além de seus riscos - ou talvez melhor dito, através desses -, uma paixão; assim como para seus pares masculinos era manter um amor para a excitação e o desafio do turfe. De forma parecida com as amazonas do salto que mencionei acima, elas se autorrepresentavam como mulheres diferentes da "maioria", possuindo uma devoção a um tipo de atividade da qual, nas suas palavras, "a maioria das mulheres" teria medo. Luciana - que se autorrepresentava como fora do comum, inclusive em relação à própria família (montando desde os três anos, autodenominava-se "ovelha negra" - a única entre os irmãos com interesse nos cavalos e na vida rural que os outros ansiavam abandonar) - foi durante vários anos a única mulher que "galopava cavalos" (fornecendo o exercício cotidiano e o treino que eles precisam) no Jockey Club do Paraná. Esse foi um trabalho no qual ela se iniciou (após um período curto e pouco satisfatório num emprego tipicamente feminino no setor de serviços) pouco tempo antes de a escola de aprendizes abrir suas portas às jovens. Ela se sentia fortemente afetada pelas dificuldades que lá vivenciou, muito sozinha num ambiente masculino. Mencionou os comentários preconceituosos e a falta geral de apoio que tinha que encarar, fatores que dificultaram a obtenção das montarias que ela precisava para começar a acumular experiência.40 Refletindo sobre o turfe, ela explica:

[...] esse esporte ele exige muita força também, coragem né então por isso que as mulheres não encaram muito, geralmente a maioria das mulheres tem medo do cavalo tamanho do cavalo, né, e exige força também então a mulherada tem medo de encarar a profissão, tem que ter persistência e coragem senão, não se cria na profissão!

De maneira parecida, Josiane (acima citada) se autorrepresentava como alguém que desafia estereótipos sexuais. Ela refutava a noção de que as jockeys fossem mais fracas ou precisassem de montarias "mais fáceis" do que seus pares de sexo masculino, afirmando sua própria preferência por cavalos "brabos", os que representam o maior desafio para quem quer que os monte.41

 

Vaqueiras do rodeio: tradição e subversão

"The emancipation of women may have begun not with the vote, nor in the cities where women marched and carried signs and protested, but rather when they mounted a good cow horse and realized how different and fine the view. From the back of a horse, the world looked wider"
Joyce Gibson Roach

"Elas lembram Anita Garibaldi, montadas a cavalo. Não usam vestidos de prenda. Usam roupas masculinas, porque Anita vestia assim. Estas mulheres fazem parte do Piquete ANITA GARIBALDI, uma tribuna itinerante de cidadania, tradição, homenageando a Heroína dos Dois Mundos, mostrando a presença da mulher na sociedade e a vinculação de nosso povo ao parceiro de séculos - o cavalo. Levam bandeiras e passam a participar de desfiles, cavalgadas, rodeios"
Sant'Ana, 1993, contracapa

Dois lugares, dois momentos históricos muito diferentes e algo muito importante que se compartilha. A primeira citação é de uma escritora norte-americana que fala sobre vaqueiras norte-americanas das primeiras décadas do século XX. A segunda, do texto que acompanha uma fotografia de sete gaúchas sentadas nas suas montarias, todas vestidas de roupas tradicionais ("gauchescas") masculinas. Embora em décadas recentes um novo tipo de rodeio parecido com o tipo "vaqueiro norte-americano" ganhe popularidade, particularmente no estado central de São Paulo, há uma longa tradição autóctone no Brasil que vem se preservando "oficialmente" hoje (e, aqui, "preservar" realmente significa "ressignificar" ou "refabricar") através da estrutura organizacional dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs).42 O CTG é uma associação que hoje se expande por várias regiões do país composta de grupos locais ou "piquetes", como o piquete exclusivamente feminino acima descrito, o Piquete Anita Garibaldi. Entre as diversas atividades que os CTGs organizam, algumas das mais importantes - como cavalgadas e provas campeiras, giram em torno do cavalo - como o próprio termo "piquete" sugere.

Completei recentemente quase um ano de "observação participante" numa comunidade semirrural vinculada às tradições equestres populares celebradas pelos CTGs.43 Essa comunidade, que ainda tem um forte caráter agrícola, reúne hoje pessoas de condição socioeconômica heterogênea, com alguma presença de pessoas com um pé no meio urbano e outras que vivem da lavoura, do comércio local ou de algumas outras atividades econômicas ou assalariadas (há inclusive várias fábricas nas vizinhanças). A vida comunitária parece centrar-se nas atividades da igreja (que incluem bazares e bingos, as quais são em grande parte atividades de interesse feminino); entre os homens, uma parte considerável da vida social se dá ao redor do cavalo, incluindo as cavalgadas de final de semana com "parada obrigatória" em bares locais e participação em provas de laço,44 que variam desde sessões de treino nas quintas à noite e sábado à tarde até competições com premiações, sejam meramente locais ou envolvendo um público e uma organização maiores.

As fronteiras entre as atividades masculinas e femininas são fortes, mas não estão desprovidas de alguma flexibilidade característica de nossos tempos. A maior parte das pessoas com as quais falei considera que as tradições comunitárias permanecem fortes e promovem o envolvimento dos homens, mas não das mulheres, com os cavalos. Também expressaram alguma percepção sobre mudanças nas relações de gênero e como essas impactam na comunidade, particularmente nas suas gerações mais novas. As histórias de duas mulheres, de 18 e 36 anos, que participam da vida dessa comunidade e particularmente de sua cultura equestre iluminam um primeiro momento desta nova fase da pesquisa.

Bertinha, aos 36 anos, nasceu em São Paulo, mas se mudou dessa região quando era criança ainda. Filha única criada pela mãe (seu pai morreu quando ela estava com oito anos), a falta de "compreensão familiar" por seu amor pelos animais e uma maternidade precoce (aos 16 anos) impuseram restrições sobre seus estudos e seu envolvimento no mundo equestre. Ela fala sobre sua identificação forte com o mundo dos bichos e de aventuras rurais, como adorava passar o tempo juntando-se "aos peões", o que, em termos mais concretos, significava coisas como correr atrás de boi e puxar troncos de madeira para levantar cercas no mato. Inteligente, irrequieta e independente, teria lhe encantado estudar medicina veterinária; também intima que, desde muito cedo, ansiava "sair ao mundo" e dedicar sua vida a "ajudar as pessoas através dos animais". Os constrangimentos que ela vivenciou emergem na sua narrativa como vinculados muito mais a problemas familiares e financeiros do que ao gender policing em si; embora relate vários episódios em que era a única mulher no meio de homens, costumava conquistar respeito, mostrando, claro, "muita garra". No caso de Alessandra, de 18 anos, o apoio familiar vem sendo constante. Embora sua mãe não seja uma pessoa identificada com o cavalo e o mundo do rodeio que Ale tanto ama, seus avós maternos, pequenos agricultores, têm muito orgulho dela e apoiam-na na realização dos seus interesses e desejos. Por outro lado, ela pertence a uma nova geração de mulheres que desfrutam de participação regular nos treinos e nas competições de laço.45

Tanto Alessandra quanto Bertinha aprenderam a montar sozinhas, aproveitando ou procurando qualquer oportunidade para subir num cavalo (do vizinho, da prima, de outro parente) desde bem pequenas. Alessandra relata que, quando ainda era muito pequena, seus avós mantinham um pequeno armazém e ela costumava ajudar com o propósito expresso de juntar dinheiro para comprar um cavalo:

eu ajudava no mercado e ganhava o meu dinheirinho e ia guardando o meu dinheirinho, porque eu queria comprar um cavalo [...] sempre, desde pequena, eu queria e queria um cavalo, mas ninguém me dava, sabe, eu fui guardando [...] [até comprar aos 11] meu primeiro cavalo!

Exprimiu uma determinação similar em relação ao laço, o que também aprendeu sozinha:

[...] meu avô tinha as vacas e eu corria, corria, corria atrás daquelas vacas, não tinha dó sabe [...] as vacas estouravam as cercas, saíam na rua na frente dos carros [...] e ele ficava brabo comigo, pegava uma corda e laçava as vacas, e deixava as vacas com corda e tudo sabe [...] pegava uma cordinha e jogava nas vacas, se enroscasse ficava enroscada e não tinha quem pegasse a vaca, ela ficava muito arisca né, não deixava chegar perto [...] e ficava, e isso ele não gostava que eu fizesse [...] e minha mãe morria de medo que eu andasse nos cavalos, que eu saísse laçando [...] que enroscasse a corda no pescoço, que eu morresse, ela era muito medrosa, mas depois ela foi se acostumando [...] e o laço assim, comecei a laçar quando eu comecei a andar a cavalo, e tinha cavalgada perto, e aqui perto tem uma cancha de laço [...] no seu Tião ali [...] tem a cancha [...] e eu vinha sabe, com o povo, laçando, e achava bonito, e tudo [...] e comecei a querer fazer igual, daí depois desse tempo eu fui pegando a prática, fui pegando o jeito, mas aprendi meio que sozinha assim [...] a laçar [...].

Bertinha teve uma experiência bem diferente, visto que ninguém da sua família via sua paixão por cavalo com bons olhos. No entanto, ela seguiu em frente: não perdia oportunidade de montar os cavalos dos outros e, através da experiência prática que vinha tendo, tornou-se realmente boa amazona. Nas suas palavras:

Não [...] eles achavam que eu deixava de comer, de viver, pra andar com os cavalos [...] até hoje assim as pessoas falam, 'ah, a Roberta deixa de comprar comida na casa dela pra mexer com cavalo'. O povo é assim [...] família é uma coisa [...] é complicado [...]. Aí [...] todo mundo foi sempre contra né [...] 'tá lá lidando com os cavalos', 'tá lá enfiada com os cavalos'. Então sempre foi assim, nunca ninguém me apoiou.

Com o tempo, ela virou não só uma boa competidora, como, através de trabalhos fora do mundo equestre, juntou um dinheiro para comprar alguns cavalos e fez alguns cursos sobre o cuidado, a nutrição e o manejo de equinos. Estando separada do primeiro marido e com uma filha pequena para cuidar, ofereceram-lhe uma oportunidade de participar de um esforço que se estava fazendo de montar uma equipe feminina de rodeio:

[...] e eu fiz o teste e passei, e eles queriam me levar [...] pra viver no mundo de rodeio [...] e eu fiquei com medo e não fui. Porque eu fiquei com medo de deixar a minha filha, que ela era muito nova [...]. Se eu não tivesse ela eu teria ido [...]. Porque eu não ia voltar pra casa mais [...]. Assim, eu ia ficar em São Paulo, Barretos, Campinas, viajando com eles, igual esses peões de rodeio [...] só que eu ia fazer tambor, entende [...] e eu fiquei com medo de ir, e [...] iam me dar um salário muito bom, ia ter um excelente de um salário [...] e ia viver a vida de peão [...] né, aí eu fiquei com medo e não fui.

Tanto Alessandra quanto Bertinha eram enfáticas sobre seu amor pelos desafios e pela adrenalina das competições de rodeio, a diferença é de que, por exemplo, as cavalgadas - coisa para elas enfadonha e entediante - são mais para "amadores". Dessa maneira, elas afirmavam sua identidade como competidoras e atletas, mais interessadas nos desafios esportivos "sérios" nos quais a proeza e a habilidade se demostravam dentro de um contexto de disputa.

Bertinha fala sobre seus anos iniciais no mundo do rodeio, em que tinha que lutar contra os estereótipos e o preconceito, e - num sentido mais positivo - das mudanças da época atual:

Sofri muito. Totalmente. Totalmente, porque tem pessoas que comentam comigo, do meio, em que falaram que eu ia ficar de tanto mexer com cavalo eu ia ficar uma mulher "machorra", grotesca, musculosa, que eu ia ficar horrível [...] de tanto mexer com cavalo, [havia] muita discriminação. Porque eles acham que a mulher não é capaz. Porque o cavalo ele é [...] claro tem momentos que tem que ser um homem pra segurar, mas hoje em dia tem técnica pra tudo, tem técnica pra você deitar o cavalo sozinha. Você não precisa ter força, você tem que ter agilidade, conhecimento [...] sabe [...]. Não é na pancada. Antigamente era bem racional. Irracional, né [...]. Hoje em dia não [...] hoje em dia você quer derrubar o cavalo, você passa a corda por baixo e puxa pelo meio dele [...] você derruba o cavalo. Entende [...]. Você quer fazer um cavalo recuar, você tem como fazer [...] do chão [...] então não tem, eu acho que não tem mais limite do que uma mulher fazer, né [...] os peões eles acham assim [...] que eles são os bons, que a mulher é sexo frágil. Os outros falam assim "nossa [...]", quando eu comecei a competir, "que que essa menina acha que ela vai fazer com o cavalo", entende? Aí, eles só acreditavam quando pegava troféu. Hoje o que eu fico feliz é saber que nos rodeios tá cheio de mulher laçando e fazendo prova [...]. E as mulheres hoje ganham troféu, ganham [...] são melhores do que os homens.

Bertinha se contrastava - junto com outras mulheres - com as meninas da cidade e seus gostos "mais frívolos" (seu desgosto pelos cavalos e pela natureza e sua predileção pelas horas gastas nos shoppings!):

[...] mas essas que vão em rodeio é diferente né [...] porque elas não têm nojo de pegar no barro, não têm nojo de mexer com bicho, as vezes o bicho tá machucado, têm que limpar, machucado e passam remédio [...] não têm nojo, não têm medo de lidar com os animais [...] e essas da cidade morrem de medo, não chegam nem perto né [...] qualquer coisinha "ai, esse cavalo tá fedendo" [...] tinha uma amiga minha que falava "ui, que cheiro ruim desse cavalo", não sei o quê [...] daí eu "ué, mas é assim, cavalo tem cheiro ruim" [...] é bem diferente, pelo menos em relação a isso, o medo dos animais [...] até também é bom o contato com a natureza [...] eu acho que elas deviam se esforçar um pouquinho mais [...] às vezes o cavalo nem é um bicho de sete cabeças [...] às vezes é mansinho, não faz nada [...] não custa nada passar um pouco a mão no bichinho, ter mais contato com a natureza né.

Ale se enxerga claramente a si mesma - a diferença dessas "meninas da cidade" - como uma das que tomam a dianteira. E se, por um lado, ela encontra na sua própria comunidade poucas mulheres que montam, por outro, consegue identificar-se como integrante de uma nova geração de mulheres que são capazes de fazer toda e qualquer coisa:

[...] eu acho que muda [...] porque as mulheres tão com tudo, tão fazendo trabalho de homem, tão dirigindo caminhão, tá mudando muito o mercado né, em relação ao que era antes [...] que a mulher só ficava em casa né, só lavava roupa, cuidava dos filhos e do marido, e cuidava da casa [...] agora tá bem [...] a mulher tá fazendo tudo, até trabalho de homem ela pode fazer [...]. Tem as caminhoneiras que fazem fretes [...] pro Brasil inteiro [...] elas dirigem aqueles caminhões dentro daquelas minas de extração [...] no escuro, [e] aquelas minas são bem profundas [...] e os patrões ainda falam que preferem contratar as mulheres do que os homens, porque as mulheres são mais cuidadosas [...].

 

Conclusões

Embora uma cultura de homossociabilidade persista e imponha uma estrutura de gênero sobre muitos aspectos da vida cotidiana no Brasil, o monopólio masculino sobre espaços públicos - sejam de trabalho ou de lazer - está sendo constantemente questionado, contestado e renegociado. A participação das mulheres nos esportes equestres é um fascinante exemplo disso, tomando características particularmente desafiadoras dentro de camadas proletárias ou populares nas quais as jockeys e as amazonas do rodeio se situam. Assim como nenhum meio social pode manter-se às margens das mudanças, nenhum meio carece de pessoas - mulheres e algumas vezes homens também - valentes que assumem os desafios de romper barreiras e cruzar fronteiras.

Possuir certos tipos de recursos - por exemplo, o capital cultural e econômico das mulheres profissionais - pode facilitar muito o envolvimento feminino nos esportes equestres, mas outras circunstâncias - como o apoio familiar ou uma "herança" equestre familiar - também favorecem a negociação das mulheres com um meio que lhes joga obstáculos pela frente. Contudo, mesmo sem o apoio familiar, mulheres determinadas e que se sentem seguras na sua competência podem desbravar caminhos (como no caso da Bertinha). Por outro lado, as relações homossociais podem permanecer relativamente intactas enquanto apenas uma ou duas mulheres entram numa esfera de sociabilidade masculina e ganham aceitação como "um dos rapazes", mas o cenário atual apresenta mudanças que talvez, pouco a pouco, desmanchem o caráter "homossocial" dos cantos anteriormente mais resistentes das atividades equestres.

Para concluir, volto a ressaltar que o envolvimento das mulheres nas atividades equestres se constrói frequentemente - pelas mulheres mesmas - como um desafio a noções normativas de feminilidade. Embora informantes individuais difiram no seu grau de ligação com ou sensibilidade em relação aos julgamentos dos outros, no seu conjunto parecem exprimir desgosto com ou até desprezo por atitudes que incorporam "gender policing", ao mesmo tempo que desfrutam da construção de uma narrativa do eu na qual a força, a valentia e o "ser extraordinária" tomam o palco. Isso me parece enormemente significativo, ainda mais se consideramos as particularidades da cultura de gênero no Brasil e as persistentes dificuldades que existem para as mulheres de articular uma identidade mais livre das pressões normativas extremas (e a intensa "produção discursiva") que policiam os corpos, seu uso e sua imagem. Nesse contexto, então, as mulheres envolvidas nos esportes e no mundo equestres tornam-se exemplares de novas formas de construção identitária/subjetiva, desbravando caminhos num terreno onde ainda prevalecem o preconceito e noções objetificadas e domesticadas de "ser mulher". Seus "segredos", assim como sua força, formam parte de um novo legado no qual as mulheres - usando mente e corpo e uma boa dose de determinação e persistência - não abrem mão de empreitada nem de aventura nenhuma.

 

Referências

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Recebido em 14 de junho de 2010 e aceito para publicação em 14 de setembro de 2010

 

 

1 Faço referência ao título do livro, já clássico, de Eve Kosofsky SEDGWICK, 1985: Between Men: English Literature and Male Homosocial Desire. Nesse livro, a autora sugere a homossociabilidade como o formato corrente tomado pelas relações da esfera pública na modernidade. O fascinante estudo feito por Michael Kimmel, 1996, Manhood in America, discute a ideologia do self-made man e as práticas e construções da masculinidade que giram em torno dele, como se desdobram através de formas de interação homossocial. Nas palavras desse autor: "Masculinity is largely a homosocial enactment [...]. Masculinity defined through homosocial interaction contains many parts, including the camaraderie, fellowship and intimacy often celebrated in male culture. It also includes homophobia [...]" (p. 7-8).
2 Simone SCHMIDT, 2009, p. 800.
3 Por exemplo, o sociólogo Jessé SOUZA, 2001, realiza uma crítica brilhante do argumento de Da Matta sobre as especificidades culturais e históricas brasileiras (formas supostamente "particulares" - mas não particularmente modernas - de lidar com as hierarquias e as desigualdades nas relações sociais, com a individualidade, com o "ser pessoa" etc.), mas não chega a incorporar qualquer análise de gênero nesse sentido.
4 Discuto isso noutro lugar relativo a um dos conceitos-chaves de Sérgio Buarque de Holanda, o de homem cordial: "Cordiality among men can be understood as a form of sociability that displaces conflict and hierarchy through particular forms of personal exchange and interaction. 'Cordial' patterns more linked to familial and informal spheres also carry over into institutionalized spheres and spaces, such as those of work and politics, where they can easily continue to mask hierarchies and social inequalities and even the violence (physical and symbolic) that the latter imply [...]" (Miriam ADELMAN e Fernanda Azeredo MORAES, 2008, p. 110).
5 Margareth RAGO, 1997, p. 62.
6 DEL PRIORE, 2000, p. 64.
7 Carla BASSANEZI, 1996.
8 Denise Bernuzzi de SANT'ANNA, 2000.
9 Miriam GOLDENBERG, 2008.
10 Embora a noção que Simone Schmidt, 2009, p. 800, critica, apontando que "Circula livremente no imaginário nacional, para consumo interno e externo, o estereótipo da mulher morena e objeto fácil de desejo", esteja profundamente enraizada nas configurações de classe, raça e gênero às quais me refiro acima.
11 Como seria sugerido, em termos um pouco diferentes, pelos que trabalham a partir de perspectivas eliasianas ou foucaultianas.
12 Silvana GOELLNER, 2004, p. 363.
13 Grant JARVIE e Joseph MAGUIRE, 1994.
14 Além de as mulheres terem uma grande visibilidade nos esportes equestres em nível mundial, são também muito ativas na produção de discursos sobre o campo e sobre a presença feminina dentro dele. Alguns desses discursos são altamente reflexivos e procuram promover a convicção de que se trata de atividades que oferecem grande potencial de empoderamento para as mulheres que delas participem. Ver, por exemplo, Mary MIDKIFF, 2001.
15 "As forçudas", como Silvana Goellner, 2004, p. 364, as chama: "[...] as mulheres que faziam exibições de força física em casas de espetáculo, circos e music halls nos Estados Unidos e na Europa. Mulheres que tiveram certa projeção e eram reconhecidas pela actuação que faziam nesse sentido; cujo esforço físico desmistificava várias das representações que se tinha ao respeito do corpo feminino nesse momento".
16 Janet DAVIS, 2002, p. 82-83.
17 Mary Lou LECOMPTE, 1993.
18 Desde lendas antigas até romances modernos, e passando também pelas representações de senso comum - que inclui aquelas que reproduzem os termos sexualizados do imaginário masculino. Um exemplo particularmente interessante pode ser encontrado na "tomboy literature" dos EUA, uma construção cultural que desde a última parte do século XIX investe certo valor simbólico nas "girls that always wanted to be boys, [...] girls who wanted not to be girls as 'girl' was then understood, to the girls who despised all such distinctions and wanted simply to be free and genderless" (Christian McEWEN, 1997, p. XI).
19 Elma SANT'ANA, 1993.
20 Uma série de artigos apareceu na seção de esportes da Folha de S.Paulo (1995) com uma manchete que sugere que o salto (hipismo clássico) como esporte competitivo promove "a igualdade entre os sexos". Reconhecido como o único esporte olímpico que permite a homens e mulheres competirem nos mesmos eventos, o hipismo mantém vínculo com um amplo campo de esportes e atividades equestres que serve como lugar no qual as mulheres desfrutam de oportunidades únicas para afirmar sua liberdade e autonomia.
21 Enquanto visitas a escolas de equitação frequentadas predominantemente por membros das classes médias urbanas tendem a reproduzir uma situação que prevalece, mundo afora, de participação cotidiana majoritariamente feminina, há um notável e talvez crescente envolvimento de meninas e mulheres em atividades equestres arraigadas nas tradições brasileiras (e estrangeiras) rurais.
22 Exigindo também considerações sobre as diferenças entre atividades amadoras, baseadas nas comunidades rurais e semirrurais, e atividades de esporte e lazer, organizadas sobre bases profissionais.
23 Pat SMYTHE, 1992.
24 Informação fornecida por várias informantes durante minha pesquisa de campo.
25 Contudo, nos níveis mais elevados, com pistas de 1'20" para mais, o predomínio feminino cede lugar a uma presença masculina maior.
26 Embora só uma informante ganhasse a vida através do esporte competitivo, todas eram completamente dedicadas ao mundo equestre, seja como veterinárias, instrutoras de equitação e entusiastas, seja como o caso da criadora de cavalos de salto.
27 Uma paixão que de fato transformou a vida da família inteira, pois após certo tempo sua única irmã e sua mãe se envolveram no mundo equestre.
28 A discussão da minha pesquisa comparativa encontra-se em ADELMAN, 2003. Não é difícil perceber, no mundo contemporâneo do esporte espetacularizado, a reprodução de um padrão comportamental e estético reforçado em muitas arenas da vida cotidiana e disseminado através da mídia: a redução da noção de "ser mulher" a formas corporais, a possibilidade de "ser desejada" por homens etc. É bastante provável que, como Maria Rita KEHL, 1998, nota ao falar sobre outro momento histórico, a maior parte das mulheres continua "gozando da [desta] feminilidade"; há pouco lugar para duvidar do "projeto do corpo" (Joan BRUMBERG, 1997).
29 De acordo com a discussão do trabalho do historiador Eduardo Bueno citado por ADELMAN e MORAES, 2008.
30 Victor de MELO, 2006.
31 ADELMAN e MORAES, 2008.
32 Pedro Paulo de OLIVEIRA, 2004; e Cláudia Regina RIBEIRO e Vera Helena Ferraz de SIQUEIRA, 2007.
33 Victor de MELO, 2006, refere-se às origens humildes dos primeiros jockeys brasileiros e o fato de que sua participação esportiva tornou-se uma escada para a ascensão social. Nossa pesquisa de campo tende a confirmar essa questão de origens, embora oportunidades para a mobilidade social tenham diminuído bastante, mais ainda fora de São Paulo e do Rio.
34 Isso foi claramente articulado por um dos nossos informantes, um ex-jockey de meia-idade, quando ele olhava para seu próprio passado e se comparava com outros ao seu redor.
35 SANT'ANA, 1993.
36 As mães foram descritas como "mais medrosas", mas não se opunham às escolhas das filhas; num caso, a filha relatou que sua mãe, conquistando o próprio receio, mostrou seu apoio total acompanhando a filha ao hipódromo do Rio de Janeiro, onde ficaram morando para que sua filha não tivesse que enfrentar a vida difícil como aprendiz de uma garota entre muitos garotos) sozinha.
37 Krone teve que enfrentar a resistência aberta e por vezes até violenta de seus pares de sexo masculino (ADELMAN e MORAES, 2008).
38 Uma das jockeys atuais de maior sucesso no país e que hoje monta no Jockey Club de São Paulo.
39 Josiane citada por ADELMAN e MORAES, 2008, p. 114-115.
40 Ao mesmo tempo, um ex-jockey e hoje colega de trabalho dela numa das cocheiras do Jockey Club do Paraná explicou que tenta lhe dar bastante apoio, exemplificando com o tipo de conselho que lhe fornece para melhorar suas técnicas e estratégias.
41 Em ADELMAN e MORAES, 2008, p. 117-118, contrastamos o discurso das nossas informantes com a sua representação na mídia. Esta última tendia a reproduzir padrões comuns de viés midiático ao enfatizar a "boa aparência", a "boa forma física" e a "vaidade feminina" das jockeys.
42 Claudia Pereira DUTRA, 2002.
43 Utilizarei o pseudônimo Laranjeiras do Campo para me referir a esta comunidade que se situa no município de São José dos Campos, contíguo à Região Metropolitana de Curitiba.
44 Durante o tempo que eu realizei meu trabalho nesta comunidade, testemunhei uma mudança significativa: os treinos de laço, que se realizavam numa pista local várias vezes por semana e que por vezes incluíam competições com o mesmo público local, foram suspensos. Segundo uma informante minha, a suspensão deveu-se à pressão que vinha de pessoas vinculadas à defesa dos direitos dos animais. Pouco tempo depois, o local onde esses eventos se realizavam foi vendido pelo antigo proprietário (uma família da região) para um empresário que estava em processo de renovar as instalações e montar uma hípica (para equitação clássica).
45 Nos eventos locais e comunitários, homens e mulheres participam das mesmas competições, mas, quando se trata de circuito formal ou "profissional", os concorrentes são separados por sexo.