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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.3 no.1 Ribeirão Preto Jan. 1995

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11691995000100004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Configuração triádica, humanista-existencial-personalista: uma abordagem teórica-metodológica de aplicação nas pesquisas de enfermagem psiquiátrica e saúde mental

 

The triad, humanist-existencial-personalism: a theoretical approach-Research methodology in psychiatric nursing and mental health

 

Configuración triádica, humanista-existencial-personalista: un abordaje teórico-metodológico de aplicación en las investigaciones de enfermería psiquiátrica y de salud mental

 

 

Edna Paciência Vietta

Professor Titular do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

 

 


RESUMO

A autora buscou estabelecer uma linha de pesquisa fundamentada em um referencial teórico-metodológico adequado a investigação qualitativa para a área da Enfermagem psiquiátrica e Saúde Mental. Para tal, apreendeu aspectos das filosofias Humanistas, Existencial e do Personalismo integrando-as numa perspectiva única. No intuito de assegurar o rigor científico das pesquisas, neste referencial, explicitou o processo de categorização a ser adotado nesta modalidade de investigação.

Descritores: referencial teórico-metodoIógico, filosofias humanistas-existencial-personalista, enfermagem psiquiátrica


ABSTRACT

The author establishes a research line based on a theoretical-methodological referential for the qualitative investigation of psychiatric nursing and mental health. Aspects of humanist and existential philosophies and personalism were evaluated, integrating them in a unique perspective. In order to maintain the scientific method of research in this referential the categorization process which will be adopted in this kind of investigation was explained.

Descriptors: teorical methodological referential, humanist and existencial-personalism, psychiatric nursing


RESUMEN

La autora buscó establecer una línea de investigación fundamentada en el elemento de referencia teórico metodológico, adecuado a investigaciones cualitativas para el área de la nfermería psiquiátrica y de Salud Mental. Para tanto utilizó aspectos de las filosofías Humanistas, Existencial y del Personalismo integrándolas en una perspectiva única. Con la intención de asegurar el rigor científico de las investigaciones en este elemento de referencia,fue explicado el proceso de categorización a ser adoptado en esta modalidad de investigación.

Descriptores: elemento de referencia teórico metodológico, filosofias humanistas-existencial-personalista, enfermería psiquiátrica.


 

 

Buscando definir um referencial teórico-metodológico que norteasse as pesquisas de enfermagem, adequado a área de Enfermagem psiquiátrica e Saúde Mental, iniciamos o presente estudo identificando-nos com algumas correntes de pensamento, coerentes com nossa visão de mundo. Entendemos não ser possível desvincular nossas tendências filosóficas, nossa intencionalidade e visão-de-mundo que cogitamos, de nossas vivências, enquanto ser-no-mundo. Não há como desvincular a essência dos princípios que adotamos enquanto pessoas e cidadãos, do conteúdo do discurso que proferimos, enquanto enfermeiros, docentes e pesquisadores. Há de se preservar a coerência entre as idéias e as ações, entre a teoria e a prática.

O delineamento a ser aqui exposto é fruto da reflexão de toda uma trajetória de vida acadêmica e pessoal orientada por um processo dinâmico de certa concepção de HOMEM, MUNDO e de UNIVERSO.

Enquanto processo dialético esta concepção não se configura como algo definitivo, mas como um projeto dinâmico e histórico: a passagem de graus inferiores para graus superiores de conhecimento.

Na verdade, todo bom pesquisador é dialético não havendo pois outra forma de compreender a realidade, senão quando se a considera em movimento.

Nesta perspectiva, buscamos então direcionar nossas idéias não nos limitando certamente, ao discurso de uma única corrente de pensamento, mas nos detendo naquelas que viessem oferecer subsídios para reforçar nosso ponto de vista ou quanto muito viessem favorecer o confronto ou a compreensão dialética da questão.

Fomos, então buscar respaldo na História da Filosofia e na Antropologia Filosófica encontrando inúmeros representantes da concepção não determinista, nunca nos sentindo originais, identificando neste percurso, pensadores igualmente preocupados com o problema da liberdade humana. Entre eles citamos: SCOTUS (1265-1308) para o qual "a vontade do homem, como reflexo da vontade divina é essencialmente livre, mesmo obrigado por essa lei, não é por ela determinado"; BERGSON (1859-1941) o qual afirma "...nada é pré-determinado, pois só a evolução é realmente criadora, embora imprevisível "; HEIDEGGER (1889-1976) que afirma "...o homem é uma possibilidade de ser, é liberdade, sem pré-determinação"; MAX SCHELER (1894-1928) em cuja concepção "...o homem é o único ser que é a sua existência, que se cria livremente a si mesmo, em liberdade. .."; JAMES (1987-1929) para o qual "...só a liberdade ou o acaso impedem a história de ser mera repetição..."; e MOUNIER (1905-1950) em cuja base conceitual encontramos que "...a liberdade humana é inegável, substituí-la por outras forças significa sempre exercê-la, na busca de uma comodidade alienante" (OS PENSADORES).

Não obstante, é provável que nossa incursão por este Universo de idéias não nos detenha ainda, fixando-nos neste referencial enquanto fundamento cristalizado e definitivo, porém, aqui chegamos senão por opção consciente, também, não por mera causalidade, mas, certamente pelo próprio evoluir de um processo. Um "espírito" que não para de transformar-se para se adequar a uma realidade que é sempre mais complexa, dificilmente se cristalizará no contexto de um método definitivo.

Este estudo teve por OBJETIVO estabelecer um referencial que justificasse a natureza qualitativa de nossa linha de pesquisa e que servisse de fundamentação para uma abrangência de questionamentos; referentes a uma dada região de inquérito ou Universo de pesquisa.

O referencial estabelecido teve como elementos norteadores aspectos de várias correntes filosóficas configurando-se na perspectiva confluente de três delas, culminando na conjunção HUMANISTA-EXISTENCIAL-PERSONALISTA.

Por HUMANISMO, no sentido filosófico, entendemos toda e qualquer reflexão que reconheça o valor e a dignidade do homem, fazendo do mesmo a medida de todas as coisas e considerando na natureza humana seus limites, interesses e potencialidades. O HUMANISMO tem sido a grande tentativa do homem de compreender-se e de fazer-se compreendido. Designa uma concepção do mundo e da existência, que tem o homem como centro4,6,11,15.

O EXISTENCIALISMO, por sua vez, expressa uma corrente filosófica que se caracteriza pela preocupação de compreender e explicar a existência humana, firmando a sua primazia sobre a essência. O homem é visto não como ser Universal, diluído nas idéias como pensava HEGEL, mas antes como um ser particular, concreto com vontade e liberdade pessoais, consciente e responsável. O EXISTENCIALISMO é portanto, a expressão de uma experiência individual, singular: trata diretamente da existência humana. O homem é singular. ..apenas ele tem consciência da sua singularidade. Ele é, portanto, a categoria central da existência. Esta corrente, é uma reação da filosofia do homem contra o excesso da filosofia das idéias e da filosofia das coisas5, 7,10,12,16,20.

O PERSONALISMO não chega a se constituir um sistema filosófico em si, mas uma filosofia cujo postulado fundamental é a existência de pessoas livres e criadoras. Envolve e centraliza sua reflexão na pessoa existente. Nesta perspectiva, a existência da pessoa e dialética, isto é, não se prende a um dado definitivo. Por isso, não se reduz a uma natureza substancial, a um esquema rígido de ser. Para o PERSONALISMO a existência pessoal não é o desenvolvimento mecânico de potencialidades pré determinadas ou pré definidas, mas uma contínua pulsação, uma ininterrupta disputa entre exteriorização e interiorização.

EXISTIR para o homem, na concepção PERSONALISTA DE MOUNIER, é mais do que desenvolver uma essencialidade; é submeter-se a facticidade à temporalidade, as contingências; ao confronto com o outro, mas é também construir-se a si, como ao outro e ao mundo, é personalizar-se continuamente 2, 13,17,18,19 .

Compreender o EXISTENCIALISMO enquanto filosofia não é uma tarefa fácil dada a variedade de correntes de pensamento e suas vertentes apresentadas por um número grande de representantes, filósofos existencialistas. Esta dificuldade é reforçada pela necessidade de conhecimentos sobre a história do pensamento filosófico para a compreensão do processo evolutivo dessas idéias e sua influência na visão de mundo de seu idealizador. O agravante maior encontra-se no fato de não sermos filósofos, porém profissionais da Saúde que lidando com o ser e sua existência enfrenta situações de dor, solidão, sofrimento e morte. O contato freqüente com a facticidade do ser o leva a reflexão e à necessidade de ajudar o outro a buscar um sentido de vida.

Se compreender o existencialismo é difícil, tão ou mais difícil é compreender a formação dos HUMANISMOS para o qual se faz necessário o conhecimento da influência das culturas antigas e suas inspirações humanistas. Necessário se faz entender as diferentes concepções cujas designações recebem adjetivações que as identificam como por exemplo o HUMANISMO CRISTÃO, O HUMANISMO MARXISTA, HUMANISMO EXISTENCIALISTA, entre outros.

A confluência entre as três linhas ou seja o EXISTENCIALISMO, HUMANISMO e o PERSONALISMO dado sua complexidade e aspectos não ignorados se justifica em termos da contribuição que cada uma delas oferece em termos de conceitos como existência e verdade existencial. Assim também considera-se a ênfase dada na valorização da condição humana, descrita através da crença na capacidade do homem para realizar-se e autogerir-se. Em outras palavras, não ignorando a existência de pontos divergentes e as dificuldades em se estabelecer a confluência entre as respectivas correntes, estamos restringindo a atenção e o interesse, no presente estudo, aos aspectos convergentes da tríade no que se refere a essência de cada uma delas, ou seja, a valorização da condição humana e sua auto realização e auto transcedência. O problema que se impõe é o de reconhecimento e garantia do direito à dignidade do ser-pessoa-existente.

Em termos dos aspectos convergentes e divergentes entre o EXISTENCIALISMO, o HUMANISMO e o PERSONALISMO temos a considerar que, segundo SEVERINO (1983) rigorosamente falando não pode haver uma filosofia que não seja existencialista, pois à filosofia compete explorar a existência e os existentes, deixando à Ciência a organização das aparências e à indústria a ocupação com as utilidades.

Em se tratando da filosofia da existência no contexto filosófico contemporâneo trata-se de uma reação da filosofia do homem contra o excesso da filosofia das idéias e da filosofia das coisas. É neste ponto que o EXISTENCIALISMO se encontra com o PERSONALISMO e se faz HUMANISTA na medida em que se torna uma exigência e um apelo contra o desconhecimento do homem. A ontologia existencialista partirá sempre de uma antropologia nisto também convergindo para o PERSONALISMO que apresenta em sua afirmação da existência pessoal seu postulado fundamental "a existência de pessoas livres e criadoras" (MOUNIER, 1964). Tanto no EXISTENCIALISMO quanto no PERSONALIMO, jamais, o homem, a pessoa humana, será um objeto impessoal, uma peça de anatomia ou pura transparência ideal, jamais será um esquema ou um Modelo de possíveis, algo abstrato. Mas, uma pessoa viva um "inesgotável concreto" (SEVERINO, 1983).

Nesta incursão nos deparamos com inúmeras tendências e correntes HUMANISTAS EXISTENCIAIS às quais dadas suas amplitudes, complexidade e abrangência, nem sempre convergentes, caminham paralelas à procura de um lugar comum.

Por outro lado, encontramos também em algumas delas, uma tendência a superposição ou confluência para qual na ausência de um termo mais adequado decidimos designá-la por configuração TRIÁDICA.

Nesta configuração buscamos identificar os pontos de confluência dos quais passaremos apresentar os mais proeminentes.

Visão não determinista do homem; destaque para o valor do homem como pessoa; supremacia e sensibilidade para os valores da pessoa; reconhecimento da importância de reavivamento e resgate do valor e dignidade humana; a compreensão do homem como ser único e singular; a apreensão do ser em sua totalidade; ser existente, ser-no-mundo; a percepção da existência como um processo dinâmico em constante transformação onde nada é definitivo. O HOMEM é um ser se fazendo; a afirmação da existência de pessoas livres e criadoras; o homem como o melhor intérprete de si mesmo.

Embora o humanismo possa ser algo inerente ao existencialismo e ao personalismo ou dele decorrente, naturalmente, consideramos pertinente e oportuno agregá-los em uma concepção única enquanto referencial Teórico-Metodológico proposto por este trabalho3,4,15,18,20. A própria separação entre as correntes, como se o existencialismo não fosse humanista e o humanismo não se preocupasse com questões existenciais, nos parece inapropriada.

O humanismo sustenta uma crença em um potencial de pessoa que ultrapassa a sua existência. Trata-se de um impulso para o crescimento, para o processo de individualização em que o homem é responsável pelo seu atualizar-se.

Qualquer forma que o HUMANISMO venha assumir, o mesmo tende essencialmente a tomar o homem verdadeiramente mais humano, manifestando sua original grandeza através de sua participação em tudo que pode enriquecê-Io na natureza e na história 4,15,16.

Considera-se portanto, a existência assim, designada como o próprio homem, enquanto, ser que está aí no mundo emergindo como centro das atenções, revelando-se como ser concreto em suas aspirações totais.

"Estar no mundo" traduz o sentimento do indivíduo de ser arrojado as vicissitudes da existência. Somos lançados ao mundo (facticidade) e a ele estamos ligado, pois não podemos pensar em um ser sem relacioná-lo ao seu mundo, à sua realidade concreta16.

O enfoque existencial centraliza-se, pois especificamente na compreensão do homem como ser único, livre e vivente em busca de um sentido existencial.

Centrados nos problemas do homem, tanto o existencialismo, como o personalismo penetram nos seu pensamentos, suas angústias, emoções interiores, nas suas ânsias e satisfações.

Compreender o homem em sua unicidade e singularidade no sentido que tomamos aqui, não é um simples entendimento nem o esforço deliberado em conhecer o que o outro é, mas uma forma de revelar ao outro sua própria essencialidade.

Tanto para o HUMANISMO, como para o EXISTENCIALISMO e o PERSONALISMO, o homem é visto como um ser único dentre os seres, que precisa encontrar um sentido para viver. O homem, porém, só chega a encontrar este sentido, quando se defronta, sem pressões ou direcionamentos, consigo mesmo e com o mundo15,16,18.

Somente o homem dispõe desta abertura para a compreensão do seu ser e está nele mesmo a possibilidade para lançar-se aos níveis mais profundos de sua realidade, sendo, sua própria existência o caminho para sua concretização como pessoa.

Este pensamento centraliza-se na convicção de que a realidade última é encontrada na existência individual, única e concreta, expressa através do compromisso do ser e do agir, no assumir responsabilidade do existir.

O senso de liberdade implica na aceitação de um compromisso perante a vida. O conceito de responsabilidade desempenha papel destacado dentro da concepção HUMANISTA-EXISTENCIAL-PERSONALISTA, pois representa a capacidade de enfrentar a realidade diretamente e de responder a ela de maneira positiva. A medida que uma pessoa é capaz de aceitar a responsabilidade pela sua própria vida, ela se torna também moralmente livre. Nesta perspectiva o homem é essencialmente livre no sentido de ser capaz de realizar opções e de tomar decisões das quais resulta o significado de sua existência13, 18.

A abordagem existencial apoia-se na premissa de que os seres humanos não podem fugir à sua responsabilidade e de que essa não é uma sucessão de escolhas feitas ao acaso. Não se trata simplesmente de fazer ou não fazer opções, trata-se de uma escolha responsável, sendo esta a essência da liberdade. Entretanto, as opções são limitadas pelas condições do mundo em que o indivíduo vive e suas conseqüências inevitavelmente o afetarão. Existem as leis de sua cultura, as limitações e regras de sua sociedade e convenções, e as condições psico-químico-biológicas que o homem acaba por se submeter, já que não é um ser isolado. No entanto, ele não está subjugado a estas forças. Segundo HEIDEGGER, a verdade do homem é, em última instância, a sua própria liberdade, sendo livre, dentro dos limites de suas possibilidades6.

O determinismo causal nas ciências humanas destaca, exageradamente, a importância do ambiente, promovendo uma imagem deformada do indivíduo como um joguete passivo à mercê das forças por ele não superadas. Cria uma concepção conformista, enquadrando a liberdade como ilusória ou idealista, interpretando-a como valor negativo, subestimando a verdadeira natureza humana.

Afirmar, no entanto, a existência de possibilidades ilimitadas é uma postura certamente ingênua. Logicamente, há no campo existencial as condições do lançamento ao mundo a considerar, campo este que coloca limites definidos naquilo que as pessoas podem tomar-se.

Existem inúmeros fatores ambientais que expandem ou reduzem o cumprimento das possibilidades. Não se trata aqui do fato de se negarem as influências de forças externas que podem deformar, lesar e até aniquilar as tendências ao crescimento nem de assumirmos uma postura de defesa de desligamento passivo em relação às condições que nos rodeiam. O que se pretende é recolocar, em primeiro plano, o grau inalienável de liberdade de cada vida humana. Ao reconhecer os possíveis fatores a que se está exposto, o homem se orienta de uma forma própria frente a eles, comprometendo-se de alguma forma. Torna-se consciente das múltiplas forças que caracterizam como "ser do mundo", e não espera passivamente por seu destino.

Todo ser, na consciência de sua liberdade, deve dirigir sua própria vida, conduzir o seu destino, assumir responsabilidade no pleno uso de sua consciência. Segundo CAPRA1, a auto responsabilidade implica em que as pessoas tenham capacidade para determinar seu próprio potencial de saúde e desenvolvê-lo em favor de seu bem-estar.

Dentro deste enfoque, um princípio central é de que o indivíduo é também responsável pela sua própria saúde. A responsabilidade também implica as relações com meio ambiente ao redor e com as pessoas.

A existência humana é "ser-com", tanto com as coisas como com as pessoas. RIBEIRO16 esclarece que o relacionar-se com alguém diz respeito a como um homem interroga, atua e vive com seus semelhantes.

A pessoa não pode ser vista, dentro deste referencial triádico, apenas como uma estrutura. Seu ser não pode ser separado de seu agir. Existir para o ser significa buscar um contínuo movimento, personalizar-se continuamente.

Ao ir além da análise da estrutura constitutiva da pessoa, vendo-a então, realizar-se na plenitude em resposta ao agir, passa-se então para o domínio da ação intencional ou seja ao engajamento da pessoa10,12,15.

Este engajamento passa a ser considerado como a tomada de sua postura diante dos elementos de sua existência, à sua própria condição ontológica. O agir é com efeito, a própria via de personalização.

Não é possível compreender os fenômenos existenciais sem considerar a intencionalidade das coisas, da consciência humana e da própria natureza.

O pensamento contemporâneo tem, entre suas instituições mestras, o realce da ação como coordenada essencial da existência. O agir incorporou-se plenamente na consideração filosófica, por introduzir-se assim na vida do pensamento e no próprio ser13,14,18.

A ação não é impulso vital, um processamento utilitário ou puro dever. É preciso entendê-la em seu sentido mais compreensivo. Para SEVERINO18, o agir assume na filosofia personalista um lugar central, pois é pela ação que a pessoa se desabrochará, é pela atividade que o ser será fecundo. A ação supõe liberdade e esta só é afirmada em relação ao agir. Situado num universo, a ação do homem impõe como uma exigência imprescindível da existência. Agir, para a pessoa, não será, portanto apenas exercitar-se, mas, igualmente, sair de si mesma para dar-se consistência e também ao mundo. Contudo, para existir plenamente é preciso agir e é no contexto da ação que se trama a existência.

Em verdade, a intencionalidade reflete a potencialidade transcendente do homem, da natureza e do "estar aí no mundo". Ela é muito mais do que um conceito filosófico. Presume o próprio sentido da existência natural e humana em sua transitoriedade.

Por intencionalidade compreendemos o fato de que cada coisa, obra ou criatura tem uma intenção, um sentido, uma direção. Tudo caminha para uma direção e marcha para uma forma renovada de ser que será definitiva. Em outras palavras estamos em um processo dinâmico de mutação onde nada é definitivo, tudo é absolutamente transitório.

O existir humano, na medida em que é tecido por esta intencionalidade, manifesta a sua inegável transcendência. Existir intencionalmente quer dizer viver em função de significados, de sentidos e não em função de forças impessoais, objetivas e mecânicas (SEVERINO18).

Para MOUNIER14, a pessoa emerge da situação na qual se encontra engajada, porque existe também ao nível da consciência, agindo, comunicando-se e criando sempre em função de uma significação, dada na própria experiência, vivida de modo simultaneamente objetivo e subjetivo.

Para SEVERINO18, estas duas dimensões da pessoa, tanto do ponto de vista da estrutura da essência como da dinâmica da existência, não podem, de modo algum, ser concebidas separadamente. A condição humana é complexa e não se deixa reduzir a nenhuma das duas dimensões tomadas isoladamente. Daí, servir-se MOUNIER14 da idéia da dialética para exprimir, de modo menos imperfeito, a autêntica realidade do ser e do agir da pessoa.

Portanto a ação humana traz, em si, a marca de ser pessoa. Ela é também uma ação dialética em que o peso da iminência se choca com as exigências da transcendência, transformando-se numa ação complexa, dotada de equilíbrio harmonioso, mas frágil e precário. Do mesmo modo que garante a personalização, pode levar, por sua própria inércia, a alienação que despersonaliza.

Em síntese a essência do homem é a percepção de si mesmo, como pessoa capaz de sentir, pensar e agir, dentro de sua individualidade e singularidade.

Nesta perspectiva, o homem, enquanto "ser pessoa", é um ser particularizado no seu modo de agir e viver restringindo em suas possibilidades, concebendo-se como único no Universo e individualizando-se a partir do encontro verdadeiro entre sua subjetividade e singularidade6,10,13,14,17.

Desse modo, o ser humano só pode ser compreendido por ele mesmo, através da experiência direta de seu "ser no mundo", sendo, portanto, o mais fiel intérprete de si mesmo10,13,14,17.

A pessoa humana, não pode ser estudada com os instrumentos da Ciência, com a investigação objetiva.

O homem é um ser que existe no mundo para revelar esse mundo e a ele através da transcendência constante que exerce a seu próprio respeito. O fato de o homem existir como "ser no mundo" significa que ele participa dessa consistência e limitação espaço-temporal, que são, para nós, as marcas da realidade e da existência. Incumbe ao homem, portanto, revelar o sentido desta realidade através da linguagem. Isto significa que a linguagem possui um extraordinário poder revelador do que é o ser profundo do homem.

Neste aspecto entende-se como HEIDEGGER6 que o discurso ou fala é a forma através da qual o homem expressa de maneira significativa, a inteligibilidade do "ser no mundo".

O discurso situa-se então no mesmo nível existencial original que o sentimento da situação e do compreensível e juntamente com o seu manifestar, a fala é traduzida como a via pela qual o ser se revela e ao mundo.

A função da linguagem através de depoimentos (relatos ou fala) se constitui portanto, no material que oferece condições de revelação dos aspectos significativos essenciais para a compreensão do ser.

 

CONSIDERAÇÕES GERAIS

Nesta postura fundamentada na configuração-triádica, HUMANISTA-EXISTENCIAL-PERSONALISTA , o ser humano só pode, de fato ser compreendido por ele mesmo, através de sua experiência direta como "ser no mundo".

Ainda que a pessoa possa momentaneamente, ter perdido esta aptidão, continua sendo a mais fiel intérprete de si mesma. Esta perspectiva reforça o princípio da configuração triádica, o qual traduz-se pela tentativa de resgate da integridade do ser humano, buscando fortalecer seu movimento interno para a harmonia, lutando contra a dicotomia corpo-mente.

Neste sentido, a pesquisa de natureza qualitativa deve dirigir-se ao método de avaliação intrasubjetiva buscando apreender através do rigor metodológico a compreensão do ser em sua existencialidade.

O estudo do ser enquanto existência, reveste-se de interesse específico para os pesquisadores da área da saúde. Da sua condição metodológica depende o próprio modo de ver as coisas no plano filosófico, ético e científico.

Conceber o ser em sua existencialidade de modo mecanicista é inviável. É justamente aí que se desfaz a ilusão do positivismo.

Embora a objetividade da Ciência nos auxilie a chegar a uma compreensão útil de certas fases dos fenômenos humanos, imaginar que todos os aspectos da vida humana possam ser reduzidos a princípios mecanicista de causa e efeito é absolutamente incompreensível.

A existência do ser não pode ser analisada, seccionada, quantificada, objetivada. Para abarcá-la em sua singularidade e plenitude é preciso vivê-Ia, compartilhá-la, sentí-la, percebê-la, revelá-la.

Neste sentido HEIDEGGER constituiu uma ontologia que, partindo de uma compreensão vaga do ser, pudesse permitir compreendê-lo, alcançando a plenitude do sentido do ser.

A análise do modo de "ser" aqui é essencial e preliminar para esta ontologia, já que interrogando-o se pode descobrir o que é o ser e encontrar-lhe o sentido. Como o modo de "ser" aqui ( o homem) e a existência; a análise deste modo de ser será uma análise existencial, que é o único meio de chegar a determinação do sentido do ser (XAUSA, 1986).

A análise da essência deve tomar um método - o fenomenológico.

Enquanto método, a metodologia fenomenológica percorre etapas e visa um objetivo, desenvolvendo um discurso descritivo de forma a favorecer a busca da compreensão do sentido pleno, embora saibamos que a plenitude é algo propriamente inacessível.

O método da Fenomenologia é discursivo e não apenas definitivo das essências. Na verdade, a intuição das essências, visada pela Fenomenologia não diz respeito a um mero conteúdo conceitual que possa ser definido, mas à significação de uma essência existencial que, como tal, deve ser descrita. A preocupação da Fenomenologia é dizer em que sentido há sentido, e mesmo em que sentidos há sentidos, nos revelando haver sempre mais sentido além de tudo aquilo que podemos dizer.

A Fenomenologia surge como sendo uma tentativa de análise do fenômeno enquanto fenômeno. Dessa maneira, as generalizações na vã tentativa de compreensão do homem são deixadas de lado e apenas a singularidade de cada fenômeno é que passa a ser considerada.

É sobretudo, este aspecto da Fenomenologia que nos interessa. Entendendo como CHIZZOLI (1991) que pesquisa é uma criação que mobiliza a criatividade inventiva do pesquisador, sua habilidade artesanal e sua perspectiva para elaborar a metodologia adequada é que buscamos respaldo em (GIORGI, 1985), estudiosos da metodologia fenomenológica, especificamente nos passos de seu Modelo, adaptando-o para a compreensão dos fenômenos na perspectiva triádica.

Quanto ao rigor nos baseamos nas idéias de LOFLANDRE estudioso da Metodologia Qualitativa para o qual a categorização é um recurso imprescindível na garantia do rigor metodológico, nas pesquisas de natureza qualitativa e certamente um procedimento a ser amplamente exigido como critério científico. Para tal sugerimos o Modelo de GIORGI5, adaptado ao Referencial proposto.

Para maior esclarecimentos apresentamos primeiramente os passos do Modelo de GIORGI5 (para cujo aprofundamento indicamos a obra original do autor) seguido do Modelo por nós adaptado.

 

MODELO DE GIORGI (1985)

Passos do Modelo:

1. Leitura atenta do conteúdo total expresso de forma a apreender o seu significado dentro da estrutura global, ou de identificar atributos ou elementos presentes.

2. Releitura do texto com vistas a identificação de unidades de significados dentro da perspectiva do pesquisador afim de discriminar afirmações significativas.

3. Diante destas afirmativas assumir-se uma postura reflexiva intuitiva para expressar aquilo que e significativo nestas unidades, sempre se orientando por uma questão norteadora.

4. Procede-se finalmente a uma síntese de todas as unidades através de análise compreensiva das descrições, constituindo-se categorias de atributos ou de elementos presentes.

 

ADAPTAÇÃO DO MODELO DE GIORGI (1985)

Passos:

1. Leitura atenta do conteúdo total expresso pelo paciente em seu depoimento, de forma a apreender o seu significado dentro da estrutura global.

2. Releitura do texto com vista à identificação de unidades de significado entendidas aqui como locuções de efeito. Estas revelam, no conteúdo verbal expresso pelos sujeitos, aspectos significativos de suas percepções, para compreensão e análise de suas vivências. Estas unidades são apreendidas por meio de um processo mental analítico-associativo, fundamentado num referencial teórico apropriado.

3. Identificação e classificação dos aspectos que apresentam convergências de conteúdo, de vários depoimentos expressos por diferentes sujeitos, procurando aquilo que se mostra constante nas falas de cada um.

4. Agrupamento das locuções ou de seus significados em categorias.

5. Apresentação destes agrupamentos em quadros representativos para melhor visualização dos resultados.

6. Análise compreensiva dos dados significativos destes agrupamentos, tendo como base a interpretação do conteúdo associado ao referencial teórico HUMANISTA-EXISTENCIAL-PERSONALISTA.

 

CONCLUSÃO

O referencial teórico explicitado em sua configuração TRIÁDICA-HUMANISTA-EXISTENCIAL-PERSONALISTA propõe a análise das vivências como alternativa metodológica de revelação do real nas pesquisas de natureza qualitativa.

Recusa a busca de generalizações, princípios e leis se atendo no específico, peculiar e singular almejando a compreensão do ser em sua existencialidade.

Ao trabalhar com dados subjetivos, como por exemplo o de natureza psicológica, busca alternativas metodológicas afim de garantir o rigor científico.

Nesta perspectiva o presente trabalho oferece e sugere a utilização de um Modelo de Categorização de base qualitativa adaptado do Modelo de GIORGI à Luz do Referencial proposto.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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