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Revista Latino-Americana de Enfermagem

On-line version ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.5 no.2 Ribeirão Preto Apr. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11691997000200009 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Estilo de vida e fatores de risco de pacientes com primeiro episódio de infarto agudo do miocárdio

 

Life style and risk factors of patients with a first episode of acute myocardial infarction

 

Estilo de vida y factores de riesgo en pacientes con primer episodio de infarto agudo de miocardio

 

 

Roberta Cunha Rodrigues ColomboI; Olga Maimoni AguillarII

IProfessor Colaborador do Departamento de Enfermagem da Faculdade de Ciências Médicas - UNICAMP
IIProfessor Doutor do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP

 

 


RESUMO

A prevenção do infarto agudo do miocárdio (IAM) relaciona-se com a identificação e controle dos fatores de risco (FR) presentes no estilo de vida dos indivíduos. Tal estudo propõe-se a conhecer o perfil dos pacientes com um primeiro episódio de IAM, identificando os FR para essa doença. Foram estudados 78 pacientes, atendidos na Unidade Coronária de um Hospital Universitário. Os resultados mostraram que o grupo estudado possui, em seu estilo de vida, hábitos que propiciam a manutenção e/ou progressão de coronariopatia. Estes achados subsidiarão a elaboração de um programa educacional, com vistas à prevenção de reinfarto e promoção de saúde.

Unitermos: infarto do miocárdio, estilo de vida, fatores de risco


ABSTRACT

The prevention of acute myocardial infarction (AMI) has been related to the identification and control of risk factors (RF) present in the life style of the individuals. The aim of this study was to know the profile of patients with a first episode of AMI and to identify RF for this disease. Seventy eight in patients from the Coronary Care Unity of a University Hospital were interviewed. The results showed that the life style of the studied group includes habits that collaborate to coronary artery disease maintenance or progress. These results will help to elaborate an educational program aiming to prevent reinfarction and to promote health.

Key words: myocardial infarction, life style, coronary disease


RESUMEN

La prevención del infarto agudo de miocardio (IAM) está relacionado con la identificación y control de los factores de riesgo (FR) presentes en el estilo de vida de estas personas. El estudio tiene por objetivo conocer el perfil de pacientes con un primer episódio de IAM, identificando los factores de riesgo para esta enfermedad. Fueron estudiados 78 pacientes atendidos en un Hospital Universitário. Los resultados mostraron que el grupo estudiado posee en su estilo de vida, hábitos que originan la mantención y/o evolución de coronariopatías. Estos datos serán base para elaborar un programa educacional teniendo como objeto la prevención del reinfarto y la promoción de la salud.

Términos claves: infarto del miocárdio, estilo de vida, enfermedad coronaria


 

 

INTRODUÇÃO

As doenças cardiovasculares representam uma das maiores causas de mortalidade em todo o mundo. Antigamente essas doenças eram consideradas causa importante de óbito somente em países desenvolvidos. Hoje, mesmo nos países em desenvolvimento, com um maior controle das doenças infecto-parasitárias e conseqüente aumento da longevidade de suas populações, essa doença tem atingido um número cada vez maior de pessoas em uma faixa etária cada vez mais baixa (BANCO MUNDIAL, 1991).

Entre as doenças cardiovasculares, a de maior incidência é a doença arterial coronária (DAC) cujas principais manifestações clínicas são a angina pectoris, o infarto agudo do miocárdio (IAM) e a morte súbita (BATLOUNI, 1993).

O que poderia estar dificultando a prevenção desta doença em nossa população? Essa indagação passa a ter uma importância ainda maior, se levarmos em consideração que já há mais de três décadas foram estabelecidos os chamados fatores de risco (FR) associados ao desenvolvimento dessa doença, os quais deveriam conferir-lhe a possibilidade de uma prevenção efetiva, tanto em nível individual como coletivo.

O termo "fator de risco" surgiu pela primeira vez quando KANNEL et al. (1961) divulgaram os achados do Framingham Heart Study. Esse estudo pioneiro realizou seguimento de uma amostra populacional de aproximadamente 5000 indivíduos dos sexos masculino e feminino, residentes na cidade de Framingham, Massachusetts, objetivando identificar FR ao se comparar indivíduos que tinham desenvolvido DAC com aqueles que não tinham. Portanto "tudo que foi medido e mais tarde relacionado com uma maior incidência de doença foi denominado fator de risco, isto é, fator que desempenha um papel no desenvolvimento da doença" (MANCILHA-CARVALHO,1992).

De acordo com CUNNINGHAM (1992) os FR podem ser classificados em modificáveis e não modificáveis. Os últimos incluem idade, sexo, raça e história familiar de doença aterosclerótica. Os FR modificáveis, ou seja, aqueles sobre os quais o paciente e mesmo a equipe de saúde podem atuar, são dislipidemias, Hipertensão Arterial (HAS), tabagismo, Diabetes Mellitus (DM), sedentarismo, estresse e obesidade. Outros FR podem também estar associados ao desenvolvimento da DAC como a ingesta excessiva de bebidas alcoólicas, menopausa, uso de contraceptivos orais, hiperuricemia, taxa de fibrinogênio aumentada e outros, os quais necessitam, porém, de maiores estudos para sua elucidação (BRASIL. Ministério da Saúde, 1993a)1.

GOLDMAN & COOK (1984) estimaram que mais da metade (54%) do declínio da taxa de mortalidade para a DAC nos EUA entre 1968 e 1978 foi relacionada à mudanças de estilo de vida, especificamente com a diminuição de níveis de colesterol sérico (30%) e o abandono do hábito de fumar (24%).

A alta incidência da DAC em nosso meio está, em parte, relacionada ao fato de encontrarmos em nossa população um estilo de vida que propicia o desenvolvimento dos FR que, já comprovadamente, contribuem para o aumento do número de indivíduos acometidos por essa doença. Esses FR que atuam sobre o desenvolvimento da DAC podem ou não estar presentes dependendo do estilo de vida adotado pelos indivíduos.

LALONDE (1974) define estilo de vida como um "conjunto de decisões individuais que afetam a saúde e sobre os quais se pode exercer certo grau de controle. As decisões e os hábitos pessoais que são maus para a saúde, criam riscos originados pelo próprio indivíduo. Quando estes riscos resultam em enfermidade ou morte se pode afirmar que o estilo de vida contribuiu ou causou a enfermidade ou disfunção". LALONDE (1974), cujo modelo de campo de saúde foi utilizado como referencial teórico deste estudo, propõe uma estrutura mais abrangente envolvendo entre os seus componentes dados referentes não só à biologia humana, como aqueles relacionados ao meio ambiente, à organização da atenção à saúde e dados referentes ao estilo de vida.

No estudo Lifestyle Heart Trial, ORNISH et al. (1990) demonstraram que mudanças no estilo de vida (dieta vegetariana, abandono do fumo, atividade física regular e manejo do estresse) foram associadas à regressão de lesões ateroscleróticas, analisadas angiograficamente após um ano da adoção do estilo de vida proposto.

Parece-nos provável que a modificação dos comportamentos não saudáveis presentes no estilo de vida pode excluir ou controlar a intensidade dos FR, o que por sua vez, parece diminuir a ocorrência, prevenir recorrências e melhorar o prognóstico de indivíduos que sofreram IAM. A magnitude do problema levou-nos a refletir sobre a necessidade de investir-se na educação do indivíduo que já apresentou uma manifestação grave da DAC, como o IAM, a fim de contribuir para a sua qualidade de vida e prevenir a reincidência de infarto.

Porém, como atingir este objetivo? Sempre foi e ainda constitui um desafio para os profissionais de saúde o desenvolvimento de estratégias educacionais que realmente possam auxiliar pacientes coronariopatas a se desvencilharem de hábitos tão marcantes. Tais hábitos podem estar tão enraizados no estilo de vida dessas pessoas, que somente a informação recebida através de planos de prevenção, realizados de uma maneira mais ampla e inespecífica, não tem sido suficiente para alterar comportamentos prejudiciais à saúde de uma forma efetiva e duradoura.

Por outro lado, o modo como são concebidos e implantados esses programas parece ser determinante importante do seu sucesso. As extrapolações de experiências na elaboração de programas de prevenção parecem não ser adequadas, principalmente quando feitas a partir de países desenvolvidos para países onde predomina uma população de classe sócio-econômica menos favorecida. O conhecimento da população a qual se destinam tais programas é fundamental para a determinação de intervenções que sejam efetivas na promoção de modificações de comportamento necessárias para a adoção de um estilo de vida saudável.

Preocupados com a reabilitação dos pacientes infartados, atendidos no serviço de Cardiologia do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (HC-UNICAMP), detectamos a necessidade de conhecer melhor essas pessoas, a fim de podermos propor um programa educacional que atenda a sua realidade. Neste sentido, tivemos como objetivo deste estudo:

1) caracterizar o perfil dos pacientes que tenham sofrido o primeiro episódio de IAM e que foram atendidos na Unidade Coronária do HC-UNICAMP;

2) identificar a presença de FR para IAM, com destaque àqueles modificáveis pela equipe de saúde e pelo próprio paciente.

 

METODOLOGIA

O presente estudo foi realizado na Unidade Coronária, integrante do Núcleo de Assistência Médica Intensiva do HC-UNICAMP. A população foi constituída por 78 pacientes com diagnóstico de IAM, primeiro episódio, que estiveram internados em tal unidade no período de maio a dezembro de 1994. Foram excluídos aqueles pacientes que não concordaram em participar do estudo e aqueles que não possuíam capacidade de comunicar-se verbalmente.

Os dados foram obtidos através de entrevista semi-estruturada com o paciente e consulta ao prontuário hospitalar para levantamento de alguns dados de interesse. Para realização da entrevista foi elaborado um roteiro (Anexo 1), o qual seguiu os pressupostos do modelo de campo de saúde proposto por LALONDE (1974).

Ressaltamos, que pelo fato deste trabalho fazer parte de um estudo mais abrangente serão apresentados neste momento, somente alguns dos resultados obtidos com a aplicação do Anexo 1, os demais dados deverão ser divulgados em trabalhos subseqüentes. Os resultados encontrados foram expressos em números absolutos e índices percentuais.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Procedendo à caracterização do grupo estudado, encontramos uma maior incidência de IAM nos homens (56,4%), de cor branca (82,0%), casados (65,4%), analfabetos ou com primeiro grau incompleto (84,6%) e com renda inferior a três salários mínimos (53,9%). Quanto à ocupação 47,5% dos pacientes eram ativos e 48,6% desenvolviam atividades classificadas no grupo 7/8/9 da Classificação Brasileira de Ocupações (BRASIL. Ministério do Trabalho, 1994), destacando-se as ocupações de pedreiro e operários de fábrica. Eram provenientes da cidade de Campinas e região 82,0% dos pacientes, sendo que 80,7% residia na zona urbana.

Ao compararmos a distribuição dos pacientes infartados por faixa etária em relação ao sexo, podemos observar, como mostra o Gráfico 1, que a maior incidência de pacientes infartados do sexo masculino ocorreu na faixa etária dos 40 aos 70 anos (35,9%); já a do sexo feminino entre 60 e 80 anos (29,6%). A partir dos 80 anos de idade, observamos que esta incidência se igualou. Nossos dados, apesar de se referirem a um grupo hospitalar restrito, também evidenciaram, a exemplo dos estudos de Framingham, que no sexo masculino essa doença se manifestou aproximadamente 10 anos antes que no sexo feminino (KANNEL et al., 1961).

 

 

No que se refere aos dados relacionados ao Atendimento de Saúde, verificamos que todos os pacientes referiram a necessidade de assistência à saúde, sendo os serviços de atenção primária o mais utilizado pelos pacientes (37,2%). O principal motivo da procura dos serviços da saúde foi o controle periódico de determinadas doenças como HAS, DM entre outras realizado por 48,7% dos pacientes.

Ao analisarmos o conhecimento dos pacientes em relação ao seu diagnóstico verificamos que 53,9% (42) mostraram ter algum grau de informação sobre a sua doença. Destes, 47,7% (20) referiram somente o nome da doença, 33,3% (14) relataram dados da fisiopatologia como “veia entupida do coração” e 19,0% (8) referiram nome da doença e dados da fisiopatologia simultaneamente. Dos 36 pacientes que referiram não conhecer o seu diagnóstico, a maioria (63,9%) não sabia o motivo da internação e os outros relacionaram a sintomatologia apresentada a outras patologias como “doença do pulmão”, “gastrite”, “derrame” entre outras.

Procurando obter dados sobre o conhecimento de 72 pacientes infartados sobre sua doença, DUARTE (1978) observou que 36,0% dos pacientes referiram não ter nenhum conhecimento sobre sua doença. Apenas 9,7% emitiram respostas que revelavam algum conhecimento tais como “necrose de uma área do coração” e “obstrução de coronária”.

Ao indagarmos os pacientes a respeito do que eles gostariam de saber sobre a sua doença constatamos que 55,1% (43) desejavam obter informações sobre a sua doença. Destes pacientes, 32,5% (14) queriam informações sobre o seu diagnóstico; 18,6% (8) mostravam-se preocupados com os meios de prevenção relacionados à sua doença, 16,3% (7) gostariam de informações referentes as causas do IAM, 14,1% (6) sabiam o seu diagnóstico, porém não compreendiam o seu significado, 9,3% (4) sentiram a necessidade de ser orientados em relação à reabilitação, 4,6% (2) tinham dúvidas quanto ao tratamento e outros 4,6% (2) desejavam informações quanto à probabilidade de reinfarto.

No que se refere ao Estilo de vida, ao questionarmos os pacientes quanto à associação entre os FR e a ocorrência de IAM, observamos uma porcentagem significativa (60,0%) de indivíduos que relacionaram o infarto a algum hábito do seu dia-a-dia. Entre as causas de IAM apontadas pelos pacientes, o estresse referido como "tensão nervosa" foi o mais citado (Gráfico 2).

 

 

Observamos que os dois motivos mais citados - o estresse e o esforço físico - são aqueles que estão presentes no seu dia-a-dia, quer no ambiente de trabalho ou doméstico. Enfatizamos, mais uma vez, a necessidade de levantar tais subsídios para a elaboração de um programa de orientação, principalmente se considerarmos que um dos fatores mais citados como causa de IAM, que foi o esforço físico, não tem sido definido como FR para a DAC.

Os dados referentes à alimentação, neste estudo, foram levantados com o objetivo de determinar as peculiaridades do hábito alimentar do grupo estudado e de identificar a presença ou não de certos alimentos sabidamente relacionados ao desenvolvimento da DAC. Para avaliarmos o grupo estudado em relação à ingestão de uma dieta equilibrada, optamos por agrupar os alimentos consumidos por estes pacientes em três grandes grupos: alimentos construtores, energéticos e reguladores, compostos pelos seus subgrupos conforme Anexo 2.

Os critérios de avaliação dietética utilizados para verificar se a dieta era ou não equilibrada foram o consumo de pelo menos um alimento de cada grupo em cada refeição e o consumo de pelo menos um alimento de cada subgrupo no total do dia.

Aproximadamente sessenta e cinco por cento (51) dos pacientes faziam uma refeição considerada equilibrada no almoço. Dos 34,6% (27) pacientes que não possuíam uma dieta equilibrada nessa refeição, o componente ausente pertencia ao grupo dos alimentos reguladores. Verificamos que ocorre, no jantar, uma inversão em relação ao almoço quando 61,4% (48) dos pacientes não apresentavam uma dieta equilibrada, com predomínio de alimentos energéticos (arroz, batata, entre outros) (Gráfico 3).

 

 

No grupo de alimentos reguladores, destaca-se a importância da ingestão das fibras solúveis como a pectina que estão associadas a diminuição dos níveis de colesterol total. Estão presentes na maçã e frutas cítricas que devem fazer parte de uma dieta equilibrada (STOY, 1990). As fibras insolúveis, cujo componente fundamental é a celulose, como por exemplo as verduras, não tem ação sobre o colesterol, mas são úteis na diminuição da ingestão calórica (FORTI, 1989; STOY, 1990).

Ao coletarmos os dados referentes ao consumo de alimentos construtores, nossa preocupação foi obter informações sobre um grupo de alimentos que pode ser considerado de risco por estar relacionado ao desenvolvimento de doenças crônico-degenerativas principalmente pelo seu alto teor de colesterol. Está extensamente registrado na literatura mundial, que para evitar o aumento dos níveis séricos de colesterol deve-se restringir a ingestão de determinados alimentos, entre eles a gema de ovo, carne vermelha, carne suína, vísceras, pele de animais (peru, frango) alguns animais marinhos (camarão, lagosta, sardinha, frutos do mar). As partes branca das aves e os peixes são os que contém menor quantidade de colesterol (STOY, 1990; HADLEY & SAAMANN, 1991; SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 19932).

Deste modo, ao analisarmos o consumo dos alimentos construtores pelo grupo estudado, verificamos que estes eram ingeridos pela maioria dos pacientes, porém com uma freqüência muito pequena, ou seja, raramente ou menos que três vezes por semana. A baixa freqüência no consumo desses alimentos parece-nos compatível com o nível sócio-econômico do grupo em questão (Tabela 1).

Verificamos que todos os pacientes referiram o consumo de alimentos energéticos, sendo que 83,3% (65) utilizavam gordura vegetal com predomínio do óleo de soja (Tabela 2). Todos os pacientes utilizavam-se de frituras como modo de preparo de seus alimentos. Destaca-se que 52,6% (41) dos pacientes o fazia diariamente ou mais que três vezes por semana.

Além do consumo de colesterol, o elevado consumo de gorduras saturadas também é associado ao desenvolvimento de DAC, enquanto o consumo de gorduras insaturadas parece estar associado à diminuição deste risco (HADLEY & SAAMANN, 1991). Os alimentos ricos em gorduras saturadas e que, portanto, também devem ser restritos, são as gorduras de origem animal (gordura das carnes, leite e derivados), alguns óleos vegetais (palma, coco e dendê) e alguns frutos principalmente o abacate e o coco. (FORTI, 1989; HADLEY & SAAMANN, 1991; SBC, 1993).

No grupo estudado, verificamos que houve um nítido predomínio da utilização de gorduras vegetais sobre as animais destacando-se o consumo de óleo de soja, o que constitui em uma medida de menor risco em relação à DAC. Porém, o uso de frituras é elevado aumentando assim o consumo de gorduras mesmo que insaturadas.

Acreditamos que esses dados referentes à alimentação, possam fornecer substrato para nortear a atuação dos profissionais de saúde na educação dos indivíduos quanto à importância da adoção de uma dieta equilibrada e quanto à necessidade de limitar o consumo de determinados alimentos que em excesso possam favorecer o desenvolvimento e/ou progressão da DAC.

Em relação ao hábito de fumar, encontramos que 44,9% (35) dos pacientes eram fumantes e entre os não fumantes, verificamos que 33,3% (26) dos pacientes nunca haviam fumado e 21,8% (17) eram ex-fumantes (Gráfico 4).

 

 

Quanto aos não fumantes, constatamos que 52,0% (22) foram considerados fumantes passivos, ou seja, inalavam constantemente a fumaça de outros fumantes, aumentando deste modo o número de indivíduos expostos ao risco do tabagismo em relação ao desenvolvimento da DAC. No MULTIPLE RISC FACTOR INTERVENTIONAL TRIAL pacientes não fumantes do sexo masculino foram estudados de acordo com a exposição à fumaça de cigarros de suas esposas fumantes. Os resultados mostraram que esses fumantes passivos tinham níveis elevados de monóxido de carbono expirado, uma diminuição da função pulmonar e aumento do risco de desenvolvimento da DAC (SVENDSEN et al., 1987). Consideramos, portanto, que no grupo estudado o tabagismo representou um importante FR para essa doença.

Ao analisarmos o FR sedentarismo, constatamos, como mostra a Tabela 3 que 76,9% (60) dos pacientes não exerciam nenhuma atividade física. Da pequena parcela que realizava alguma atividade física, 19,2% (15) eram homens e 3,8% (3) mulheres.

 

 

Estudos, como o de EKELUND et al. (1988) evidenciam que a atividade física regular diminui o risco de distúrbios ateroscleróticos. Neste estudo consideramos como atividade física regular aquela recomendada pela INTERNATIONAL LIPID INFORMATION BUREAU (ILIB) LATINO AMÉRICA (1994), ou seja, 20 a 30 minutos de atividade aeróbica 3 a 5 vezes por semana para alcançar 60 a 90% de condicionamento vascular ótimo. De acordo com esta recomendação, do total de pacientes estudados, apenas 14,1% (11) exerciam uma atividade física que pudesse ser considerada protetora em relação à DAC.

Em relação à Biologia do indivíduo, conforme o Modelo de Campo de Saúde proposto por LALONDE (1974), realizamos o cálculo de Índice de Massa Corporal (IMC) para detectar a presença do FR obesidade no grupo estudado. Para tanto, utilizamos a classificação da INTERNATIONAL LIPID INFORMATION BUREAU (ILIB) LATINO AMÉRICA (1994), que utiliza o IMC para determinar os diferentes graus de obesidade que variam de leve a severa (I, II, III). Encontramos em aproximadamente 40% dos pacientes a obesidade grau I e II (Tabela 4).

Estudos têm sugerido que, além da obesidade, os padrões de distribuição da gordura corporal podem ter efeitos importantes no risco de DAC. A deposição da gordura na região abdominal tem sido associada ao aumento do risco de distúrbios coronários tanto em homens como em mulheres. Segundo PEIRIS et al.(1989) esta obesidade designada “obesidade centrada no abdome”, parece ter maior valor preditivo de morbidade e mortalidade do que a quantidade de gordura total. No entanto FARMER & GOTTO JUNIOR (1992) consideram que o IMC tem sido o melhor índice para estimar o excesso de peso.

No Brasil, aproximadamente 27 milhões de adultos brasileiros apresentam algum grau de excesso de peso, ou seja, um IMC superior à 25 Kg/m2. Destes, aproximadamente 11 milhões são homens e 16 milhões são mulheres (BRASIL. MS, 1993a).

Embora existam estudos mostrando que a perda de peso acarreta a redução de outros FR que freqüentemente acompanham a obesidade, CUNNINGHAM (1992) destaca que nenhum estudo de maior abrangência foi realizado para estudar a perda de peso como forma de reduzir mortalidade para DAC.

No que se refere aos antecedentes familiares, verificamos a sua existência em relação à HAS (50%), IAM (34,6%), morte súbita (32,0%), DM (30,8%), Acidente Vascular Cerebral (AVC) (29,5%) e dislipidemias (11,5%).

No que se refere aos antecedentes pessoais de risco, constatamos que 69,2%(54) dos pacientes eram hipertensos, 44,9%(35) eram tabagistas, 29,5%(23) eram diabéticos 6,4%(5) apresentavam AVC e 6,4%(5) possuíam antecedente para Doença Vascular Periférica (DVP) (Gráfico 5).

 

 

No Brasil, estimou-se que doze milhões de brasileiros com mais de 20 anos de idade o que corresponde a 15% da população desta faixa etária, são hipertensos (BRASIL. MS, 1993a). Em relação ao DM, a média geral de prevalência encontrada em nove capitais brasileiras foi de 7,6%, o que é pouco superior à encontrada na população dos EUA, que corresponde a 6,6% (BRASIL. MS,1993b).

Com o objetivo de levantar o perfil lipídico dos pacientes estudados, foram dosados nas primeiras 48h de IAM os níveis séricos de colesterol total. Devido ao fato do IAM poder alterar as concentrações de lipídios no plasma, é freqüentemente recomendado que a dosagem dessas variáveis sejam feitas somente três meses após ter ocorrido o IAM. Alguns estudos indicam que o nível de colesterol total diminui na fase aguda do IAM e que por este motivo não poderia refletir o nível basal de lipídios séricos (FYFE et al., 1971; ALPERT & BRAUNWALD,1980). Entretanto GORE et al. (1984), analisando uma coorte de indivíduos arrolados no estudo de Framingham, observaram que não houve diferença estatisticamente significativa entre os valores de lipídios séricos dosados até 24 horas após o episódio de IAM e após 2 anos de alta hospitalar. Portanto, para estes autores os níveis de colesterol medido até 24 horas de IAM "refletem acuradamente o nível de base e podem ser utilizados em programas de intervenção".

Foi possível realizar a dosagem do colesterol total de 55 pacientes; os demais (23) ou foram admitidos após 48h de IAM ou apresentaram problemas técnicos na realização das dosagens, o que inviabilizou sua inclusão na avaliação desta variável. Utilizamos como valores de referência para o colesterol total aquele recomendado pela GEPA3, SBC4, SBPC5 e ASBAC6, o qual é baseado no Consenso do Programa Nacional do Colesterol nos EUA (National Cholesterol Education Program - NCEP).

Deste modo, ao analisarmos a distribuição dos pacientes em relação ao nível sérico de colesterol total dosado até as 48horas de IAM, encontramos que, dentre os 55 pacientes analisados, 29 (52,7%) apresentavam nível sérico de colesterol total desejável (< 200 mg/dl). Para os 26 pacientes (47,3%) que apresentavam nível sérico de colesterol total limítrofe ou acima do desejável, tivemos que 13 pacientes (50,0%) eram do sexo feminino e 13 (50,0%) do sexo masculino (Tabela 5).

Segundo STOVSKY (1992), a NCPE recomenda que todos os indivíduos com níveis desejáveis de colesterol total devem permanecer com dieta geral, porém deverão receber informações sobre os FR para a DAC e ser reavaliados a cada cinco anos. Indivíduos que possuem níveis limítrofes de colesterol total, devem ter este valor confirmado por novos testes. Se este valor for confirmado e se o paciente não possuir DAC e não tiver no mínimo dois FR para esta doença, ele deve receber somente orientação e reavaliação em um ano. Por outro lado, se estes pacientes possuírem DAC ou tiverem dois outros FR, então devem ser considerados de alto risco. Portanto todos os pacientes deste estudo que tiveram seu colesterol total acima de 200mg/dl, isto é, acima do nível desejável, foram considerados de alto risco.

Considerando-se os achados do SCANDINAVIAN SIMVASTATIN SURVIVAL STUDY GROUP (1994), onde se constatou o aumento da sobrevida dos indivíduos coronariopatas que tiveram diminuição do colesterol sérico, ressalta-se mais uma vez a importância do controle desse fator de risco.

Com relação à associação dos FR modificáveis para a DAC, constatamos que, do total de pacientes, apenas 2,6% (2) não apresentavam nenhum FR, 12,8% (10) possuíam 1 fator e 61,5% (48) possuíam três fatores ou mais ( Gráfico 6).

 

 

Segundo inúmeros estudos, quanto maior o número de FR, maior é o risco de desenvolvimento de DAC (BANCO MUNDIAL, 1991; CUNNINGHAM, 1992; BRASIL. MS, 1993a; KANNEL, 1995).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados deste estudo apontam para o fato de estarmos trabalhando com pessoas que possuem, em seu estilo de vida, hábitos que propiciam a manutenção ou progressão da DAC e suas diversas formas de manifestação clínica. Constatamos no grupo estudado uma alta prevalência de FR tais como HAS, tabagismo, sedentarismo, obesidade entre outros, porém a maioria dos pacientes, apesar de apresentar três ou mais FR para a DAC, não correlacionou esses fatores com o infarto que os acometeu, o que vem confirmar o seu baixo nível de informação e a necessidade de um programa educacional específico para esse grupo. Com o empenho de uma equipe multiprofissional, talvez se possam desenvolver mecanismos que levem os indivíduos a assumirem uma atitude ativa diante de sua doença, conhecendo e controlando os FR presentes no seu estilo de vida. De qualquer forma, a educação em saúde só poderá ser um instrumento de trabalho para os profissionais de saúde, se conhecerem a população que estão assistindo para, dessa forma, poderem levar em consideração suas peculiaridades, suas limitações e consequentemente as reais possibilidades de atuação da equipe multiprofissional.

 

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Dissertação de Mestrado apresentada à Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (apresentação condensada)

 

 

1 A partir desta, será citado: BRASIL. MS, 1993
2 A partir desta, será citado: SBC
3 GEPA - Grupo de Estudo e Pesquisa em Aterosclerose
4 SBC - Sociedade Brasileira de Cardiologia
5 SBPC - Sociedade Brasileira de Patologia Clínica
6 ASBAC - Associação Brasileira de Análises Clínicas

 

 

Anexo 1

Anexo 2

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