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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.7 no.2 Ribeirão Preto Apr. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11691999000200006 

Artigo Original


 

CONHECIMENTOS E OPINIÕES DE UM GRUPO DE ADOLESCENTES SOBRE A PREVENÇÃO DA AIDS

 

Gilson de Vasconcelos Torres1
Rejane Marie Barbosa Davim2
Maria do Carmo S. Almeida3


Este estudo descritivo foi realizado em uma Escola Estadual de 1º grau, localizada na cidade de Natal/RN, objetivando identificar os conhecimentos e opiniões de um grupo de adolescentes sobre a prevenção da AIDS. Foram aplicados 30 questionários e entre os principais resultados obtidos, destacaram-se a desinformação dos adolescentes pesquisados com relação a essa doença. Dentre os métodos de prevenção citados destacou-se a camisinha, não sendo usada de forma sistemática apenas por 50% dos pesquisados.

UNITERMOS: adolescentes, conhecimentos, prevenção, AIDS


KNOWLEDGE AND OPINION OF A GROUP OF ADOLESCENTS ABOUT AIDS PREVENTION

This descriptive study was developed in a State School, located in the city of Natal-RN, with the purpose to identify the knowledge and opinion of a group of adolescents about AIDS prevention. 30 questionnaires were applied and among the main obtained results, the authors found out that the adolescents are not well informed regarding this disease. Among the mentioned prevention methods they found the use of condom, but not in a systematic way by 50% of the population studied.

KEY WORDS: adolescents, knowledge, prevention, AIDS


CONOCIMIENTOS Y OPINIONES DE UN GRUPO DE ADOLESCENTES SOBRE LA PREVENCIÓN DEL SIDA

Este fue un estudio descriptivo realizado en una Escuela Estatal de 1 grado, localizado en la ciudad de Natal(RN), cuyo objetivo fue identificar el conocimiento y las opiniones de un grupo de adolescentes sobre la prevención del SIDA. Fueron aplicados 30 cuestionarios y dentro de los principales resultados obtenidos, se destacó la faltas de información de los adolescentes investigados con relación a esta enfermedad. Entre los métodos de prevención mencionados, destacaron el condón, no siendo usado de una manera sistemática por 50% del grupo investigado.

TÉRMINOS CLAVES: adolescentes, conocimientos, prevención, SIDA


 

 

INTRODUÇÃO

Atualmente, a AIDS constitui-se em grave problema de Saúde Pública nos países desenvolvidos, agravando-se ainda mais quando associado com outros problemas de saúde em países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos. Uma das causas para que isso ocorra é o seu caráter pandêmico, atingindo de certa forma todos os continentes e deixando cientistas e leigos surpresos pela rapidez com que se alastra.

Neste sentido, a AIDS adquire um caráter especial pois, além de se tratar de uma nova entidade nosológica com um alto índice de letalidade, revela também uma predominância toda especial na faixa etária mais produtiva da vida humana.

No mundo inteiro, a AIDS vem apresentando mudanças no padrão epidemiológico da transmissão do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), pois a contaminação heterossexual está crescendo assustadoramente e aumentando cada vez mais o número de indivíduos infectados, causando assim graves repercussões de ordem psicológica, social e espiritual.

Desta forma, o problema da AIDS não pode ser negligenciado, exigindo-se, no momento, ações que possam colaborar de maneira eficaz na prevenção da doença. Este dado torna-se mais assustador quando se estima que no ano 2000, cerca de 80% das infecções pelo HIV serão através de práticas sexuais entre homens e mulheres (BRASIL, 1993).

EGGER et al. (1994), em recentes estudos, encontraram uma elevada prevalência de comportamentos de alto risco entre jovens, tanto sexuais quanto relacionados às drogas. Identificaram também, um grande potencial de infecção pelo HIV nesse grupo etário em muitos países, e que muitos deles se consideram invulneráveis, causando com isto, menos possibilidades de medidas preventivas.

Uma outra problemática, relacionada à atividade sexual desprotegida do adolescente, é sua maior exposição às doenças sexualmente transmissíveis (DST), incluindo a infecção pelo HIV, o agente causador da AIDS. Há indicações de que as DST específicas por faixas etárias são maiores nos grupos de 15 a 29 anos, onde os dados epidemiológicos em pacientes com AIDS, sugerem que em muitos casos, a infecção pelo HIV foi contraída durante a adolescência (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 1989).

NICHIATA et al. (1995) afirmam que apesar das medidas governamentais e do envolvimento da sociedade civil no enfrentamento da AIDS, os diversos anos de epidemia têm demonstrado a incapacidade da população em controlar a disseminação da doença que cresce em escala progressiva.

Sendo hoje a transmissão sexual o principal meio de contaminação do HIV, KWAN & LOWE (1992) apontam como importante saída para a prevenção dessa transmissão, a mudança de comportamento da população, onde essa mudança significa adotar comportamento seguro durante as relações sexuais.

É interessante se falar que a prática segura do sexo engloba qualquer relação sexual na qual não se possibilite a troca ou contato com sêmen, sangue, secreções vaginais ou anais, que são as principais fontes de contaminação pelo HIV.

Sendo assim, o preservativo tem sido considerado o melhor método de barreira contra a transmissão sexual pelo HIV e segundo MONTAGNIER (1993), outros meios também são evidenciados para esta prevenção, como a redução do número de parceiros sexuais e a seleção dos mesmos, associando tudo isto ao uso constante de preservativo para aumentar o nível de segurança.

Apesar da população ao longo dos anos vir recebendo informações sobre a transmissão e as medidas de controle e prevenção que devem adotar no que se refere a AIDS, CARMO (1989) afirma que a observação direta do comportamento de indivíduos e grupos populacionais indica a não adoção dessas medidas devido a fatores sócio-econômicos, psicossociais e culturais expressos no modo de viver e morar da população.

É importante salientar a necessidade de se conhecer as características sócio-econômicas e do estilo de vida das populações, como fatores fundamentais para as pesquisas que tratam do comportamento e atitude de um grupo, acrescentando ainda que estas características são imprescindíveis para o planejamento de intervenções educativas com relação a comportamentos preventivos em saúde.

Em conseqüência de toda esta problemática, a incidência de AIDS em adolescentes e adultos jovens vem aumentando nos últimos anos, tornando-se assim um grande problema a ser enfrentado por esse segmento populacional. Todavia, para se trabalhar a prevenção da AIDS, principalmente em grupos específicos, como os adolescentes, é imprescindível identificar o nível de informações e comportamentos a respeito da temática, visando traçar estratégias para se trabalhar junto a esses jovens em condutas preventivas com relação a AIDS.

Considerando que a temática da AIDS e sua prevenção vem sendo discutida e divulgada nos diversos meios de comunicação e instituições de ensino nos últimos 10 anos, percebemos em nossa prática docente-assistencial que as informações e conhecimentos dos adolescentes sobre a AIDS não tem traduzido em comportamentos seguros em relação a prevenção dessa doença, e que a escola não tem contribuído efetivamente para mudar essa situação atual de disseminação do HIV.

Portanto, na tentativa de contribuir na discussão sobre a problemática dos adolescentes quanto aos seus conhecimentos e opiniões sobre a AIDS, este estudo teve os seguintes objetivos:

- Identificar os conhecimentos e opiniões de um grupo de adolescentes na faixa etária de 14 a 22 anos, sobre a prevenção da AIDS.

- Verificar se existe relação entre os conhecimentos científicos e as opiniões expressadas pelos pesquisados.

- Verificar o que os adolescentes gostariam de saber acerca da AIDS e sua prevenção.

 

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Este estudo é do tipo descritivo e foi desenvolvido em uma Escola Estadual de 1º grau no município de Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte.

A população foi composta por 220 adolescentes do 1º grau matriculados na Escola no turno noturno, e a amostra foi constituída de 30 estudantes concluintes, sendo 15 do sexo masculino e 15 do feminino. Para a seleção da amostra utilizamos os seguintes critérios: aceitação prévia do adolescente em querer participar do estudo e estar dentro da faixa etária entre 14 e 22 anos de idade.

O instrumento utilizado para a coleta de dados foi um questionário (anexo), com perguntas abertas e fechadas, respondido pelos adolescentes nas salas de aulas da escola durante os horários vagos. Os questionários foram entregues aos estudantes, tornando evidente aos participantes do estudo, que lhes seriam assegurados o anonimato e a privacidade de cada um, resguardando-lhes o direito, inclusive, de não concluírem o questionário, se assim o desejassem. Antes de iniciada a pesquisa, foi feito um contato com a direção da instituição, objetivando-se a autorização para a realização do trabalho.

A análise dos dados foi realizada de forma quali-quantitativa. Tais dados foram organizados e apresentados em tabelas, figuras e quadros expressos em forma de freqüências e percentuais, de acordo com a revisão de literatura pertinente e objetivos propostos.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O estudo foi realizado com 30 adolescentes na faixa etária entre 14 e 22 anos de idade. Quanto ao estado civil do grupo, 90% são solteiros e 10% casados. Verificamos que 76,6% (23) residem com os pais e apenas 10% (3) com os cônjuges. A maioria deles (67%) são trabalhadores, e quanto à renda familiar, 80% deles recebem mais de 2 salários mínimos.

Diante das respostas obtidas no Quadro 1 quanto ao entendimento sobre a AIDS, constatamos que os pesquisados possuem informações diversificadas e incompletas, onde os mesmos apresentam em seus depoimentos, uma compreensão superficial apesar de serem concluintes do 1º grau e da intensa divulgação sobre o assunto nos meios de comunicação.

 

 

Na Figura 1, os pesquisados foram quase unânimes (97%) em afirmarem que conheciam algum meio de prevenir a AIDS, e apenas 1 (3%) afirmou o contrário. Esses dados evidenciam de certa forma uma difusão de informações sobre a prevenção da AIDS. Todavia esses dados isolados nos impedem de fazer uma análise mais qualitativa no tocante aos meios preventivos conhecidos, pois conhecer algum método, não significa necessariamente, ser o mesmo adequado e seguro quanto a evitar a contaminação pelo HIV.

 

 

Verificamos no quadro acima, que os pesquisados possuem algum conhecimento a respeito dos meios de prevenção da AIDS, onde foram quase unânimes (29) em citar a camisinha como meio preventivo, e apenas oito respondentes referiram a seringa descartável. Este conhecimento entretanto, não condiz com a alta incidência de AIDS em adolescentes e adultos jovens nos últimos anos, tornando-se assim, um grande problema a ser enfrentado por esses adolescentes, fazendo-se necessário trabalhar-se junto aos mesmos em condutas preventivas mais seguras com relação a essa enfermidade.

De acordo com o quadro acima, constatamos que o acesso às informações sobre a AIDS pelos pesquisados encontram-se bastante diversificadas, onde a televisão destacou-se como sendo a de maior informação, seguida de revistas, amigos, professores, escola e livros, demonstrando assim, a ampla divulgação do tema em questão. Todavia, no meio familiar, esta temática é pouco discutida, levando-nos a crer na dificuldade que os pais têm em dialogar a problemática da educação sexual com seus filhos.

Em relação a estas concepções negativas encontradas no meio familiar, FELIZARI (1990) diz que este fenômeno pode ser decorrente de uma série de fatores, questionando-se desta forma a importância que os pais têm na educação sexual de seus filhos. Refere ainda que por omissão, despreparo, temor de focalizar temas considerados tabus, falta de diálogo por vergonha ou mesmo por desconhecimento, esses adolescentes procuram informações com colegas ou mesmo na literatura pornográfica.

No Quadro 4, podemos observar que entre os pesquisados existe uma evidência de sensibilização da necessidade do uso da camisinha para a prevenção sexual da AIDS, onde, 20 respondentes afirmaram usar algum método de prevenção, dentre os quais destacou-se a camisinha (16), dez pesquisados citaram não usar nenhum método, sendo que, seis por ainda não terem iniciado suas atividades sexuais.

 

 

 

 

 

Conforme os dados acima, verificamos que 10 respondentes fazem sempre uso da camisinha como método preventivo para a AIDS, enquanto que 5 às vezes o fazem, e 1 raramente. Levando-se em consideração as justificativas de suas respostas, os mesmos demonstraram não estar conscientes dos riscos a que estão expostos durante as relações sexuais, o que reforça a preocupação nesse grupo com a disseminação do HIV.

No Quadro 6, observamos uma certa desinformação dos alunos pesquisados com relação a AIDS e sua prevenção, corroborando para a deficiência de conhecimento que os mesmos têm sobre o tema. Dentre os assuntos mais citados pelo grupo com a finalidade de ampliar o nível de conhecimento dos mesmos sobre a doença, destacaram-se a transmissão, o seu desenvolvimento, a existência ou não de cura e como surgiu. Diante disto, constatamos a necessidade de discussão dessa temática dentro dos conteúdos escolares.

 

 

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com relação ao conhecimento sobre a AIDS, verificamos que os pesquisados possuem um nível de compreensão superficial e apresentaram de uma maneira geral, uma certa desinformação em conceituá-la.

Quanto aos meios de prevenção da AIDS, os pesquisados expressaram que conheciam alguns métodos, destacando-se a camisinha. Todavia muitos não a utilizam de forma sistemática em todas as relações sexuais, evidenciando assim, a vulnerabilidade desse grupo quanto ao risco contaminação com o HIV.

No tocante à fonte de informação sobre a doença, a televisão apareceu em destaque; outros citados foram as revistas, amigos e professores. Observamos de certa forma, que no meio familiar, essa temática é pouco discutida, o que nos leva a crer na existência de pouco diálogo entre os pais e seus filhos no que se refere ao assunto em pauta, os quais negligenciam de certa forma a responsabilidade que têm sobre a educação sexual.

Levando-se em consideração os resultados obtidos, podemos reconhecer uma relação coerente entre os conhecimentos e as opiniões dos adolescentes pesquisados quanto à prevenção da AIDS, conduzindo-nos a uma reflexão da necessidade em melhorar o nível de informações desse grupo no que se refere a esses aspectos abordados, mesmo sabendo-se que essa temática é pouco discutida nos bancos escolares e no âmbito familiar.

Os pesquisados, em sua maioria, expressaram a necessidade de maiores esclarecimentos sobre a AIDS, verificando-se, dessa maneira, a adoção urgente de ações educativas em saúde de forma sistemática dentro dos currículos escolares.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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02. CARMO, M. do. Educação em Saúde no combate às endemias. Brasília Méd., Brasília, v. 26, n.114, p.5-6, jan./ dez. 1989.        [ Links ]

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07. NICHIATA, L.Y.I. et al. Buscando a compreensão do enfrentamento da AIDS no Brasil. Rev.latino-am.enfermagem, Ribeirão Preto, v.3, n.1, p.149-158, jan. 1995.        [ Links ]

08. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Saúde reprodutiva de adolescentes: uma estratégia para ação. Genebra, 1989. Cap. 2, p.9-12: Os problemas.        [ Links ]

 

 

Recebido em: 21.10.97
Aprovado em: 10.9.98

 

 

1 Professor Assistente do Departamento de Enfermagem/CCS/UFRN - Mestre em Enferm. de Saúde Pública/CCS/UFPB. Doutorando em Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo; 2 Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem/CCS/UFRN - Mestre em Enferm. de Saúde Pública/CCS/UFPB; 3 Professora Adjunto do Departamento EnfermagemUFPB - Mestre em Enfermagem de Saúde Pública/UFPB