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Revista Latino-Americana de Enfermagem

On-line version ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.13 no.4 Ribeirão Preto July/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692005000400012 

ARTIGO ORIGINAL

 

Formação gerontológica do técnico em enfermagem: uma abordagem cultural

 

Gerontological training of nursing technicians: A cultural approach

 

Formación gerontológica del técnico en enfermería: Una aproximación cultural

 

 

Edilomar LeonartI; Maria Manuela Rino MendesII

IMestranda em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, Docente da Escola Técnica da Universidade Federal do Paraná, e-mail: edilomar@terra.com.br
IIProfessor Doutor da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem

 

 


RESUMO

A enfermagem brasileira tem procurado discutir as questões do contexto sociopolítico, que interferem nos setores da saúde e educação, tanto no nível superior como no nível técnico. Um dos desafios impostos pela atualidade é o envelhecimento populacional, que ocorre de forma acelerada e exige redefinições de papéis e ações para atender a população idosa. O estudo teve como objetivo compreender a formação gerontológica do Técnico em Enfermagem a partir da abordagem cultural, tendo como percurso metodológico o Estudo de Caso com abordagem qualitativa. Os resultados obtidos permitiram verificar a deficiência da formação de profissionais técnicos em enfermagem competentes e habilitados ao cuidado da população idosa. Ressaltou-se, também, a compreensão do próprio ser humano em utilizar símbolos e significados das experiências vividas como marco referencial para a promoção de iniciativas transformadoras condizentes com a realidade social.

Descritores: enfermagem; educação; geriatria; envelhecimento


ABSTRACT

Brazilian nursing has been trying to discuss social-political questions that interfere in health and higher as well as technical education. One of the challenges posed nowadays is the population's aging, which occurs at an accelerated rate and demands redefinitions of roles and actions to attend to the elderly population. This case study aimed to understand the gerontological training of nursing technicians from a cultural approach, using a qualitative methodology. Results revealed deficiencies in the formation of competent nursing technicians who are trained in elderly care. Human beings' use of symbols and meanings of past experiences was seen as a reference point for the promotion of transforming initiatives that correspond to social reality.

Descriptors: nursing; education; geriatrics; aging


RESUMEN

La enfermería brasileña ha intentado discutir las cuestiones del contexto socio-político que interfieren en los sectores de la salud y de la educación en los niveles superior y técnico. Uno de los desafíos impuestos por la actualidad es el envejecimiento de la población, que ocurre de forma acelerada y exige redefiniciones de papeles y acciones para la atención a los ancianos. La finalidad de este estudio de caso fue comprender la formación gerontológica del técnico en enfermería a partir de una aproximación cultural, mediante la metodología cualitativa. Los resultados obtenidos demuestran la deficiencia de la formación de técnicos de enfermería competentes y habilitados para cuidar de la población anciana. También se destaca la comprensión del propio ser humano en utilizar símbolos y significados de las experiencias vividas como marco referencial para la formación de iniciativas transformadoras correspondientes con la realidad social.

Descriptores: enfermería; educación; geriatría; envejecimiento


 

 

INTRODUÇÃO

A enfermagem brasileira, em sua ampla dimensão teórico-prática, tem procurado discutir as questões do contexto sociopolítico que interferem nos setores da saúde e educação, quer no nível superior, quer no nível técnico. Um dos desafios impostos pela atualidade é o processo de envelhecimento populacional que ocorre de forma acelerada e suscita redefinições de papéis e ações para atender a população idosa.

Segundo os censos de 1980 e 2000 do IBGE, a proporção de pessoas com 60 anos e mais aumentou de 6,1% (7204517 habitantes) em 1980, para 8,6% (14536029 habitantes) em 2000, correspondendo a um aumento absoluto de 7,3 milhões de indivíduos.

As características especiais e peculiares dos idosos colocam o Brasil frente ao desafio de formular novas concepções e modelos de assistência para que os serviços possam responder as demandas emergentes desse novo perfil demográfico, visto que a abordagem geriátrica, por sua característica interdisciplinar, apresenta resultados significativamente melhores que o modelo tradicional de atenção à saúde(1).

A formação integrada com as atividades assistenciais representa uma estratégia para a formação de profissionais de enfermagem mais comprometidos e sensibilizados com o contexto social e as necessidades do indivíduo idoso(2).

Os instrumentos de trabalho da enfermagem gerontológica são os conhecimentos específicos acerca do ser humano idoso e do processo de envelhecimento. Para que esses conhecimentos sejam utilizados adequadamente, torna-se necessário que as instituições formadoras de profissionais de enfermagem introduzam em suas estruturas curriculares conteúdos voltados ao cuidado humano do idoso(3).

O técnico, profissional que integra a equipe de enfermagem, responsável pela assistência ao indivíduo nas diferentes fases do ciclo vital, também está inserido no contexto atual da sociedade em que o envelhecimento populacional e as transformações decorrentes desse fenômeno são perceptíveis nos serviços de saúde.

Assim, o objetivo deste estudo foi compreender a formação gerontológica do Técnico em Enfermagem a partir de estudo junto a um curso de educação profissional, pois, entende-se que, a partir da abordagem cultural com os sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem, é possível apresentar elementos que contribuam na reflexão e tomada de decisões. Ações essas que permitem incluir na formação profissional a evidente transformação da realidade, como o envelhecimento humano, quer no mundo quer no país.

Este artigo refere-se à pesquisa realizada para obtenção do título de mestrado e tem como finalidade apresentar alguns dados obtidos e fortalecer o exercício da interpretação da cultura, como embasamento para a compreensão do objeto de estudo.

 

PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

A caracterização do referencial teórico deve-se à necessidade de formar conceitos que dêem sustentação à análise dos dados sobre a realidade que se pretende estudar, a formação profissional do técnico de enfermagem, reconhecendo o envelhecimento como questão emergente para subsidiar a atenção à saúde da população idosa em crescimento. Para tanto, os pressupostos teóricos do construtivismo, geriatria, gerontologia e antropologia interpretativa foram definidos como embasamento para a discussão dos dados obtidos na pesquisa.

Construtivismo

A visão construtivista na disciplina de educação teve como precursor Jean Piaget, a partir da epistemologia genética que estuda a gênese e o desenvolvimento das estruturas lógicas do sujeito que, em interação com o objeto, possibilitam a construção dos conhecimentos. Posteriormente, a epistemologia recebeu enriquecedoras contribuições de psicólogos europeus como Vygotski, Wallon e outros. Firmado numa estrutura única na qual não há separação entre sujeito e objeto do conhecimento, o "construtivismo" promove a aprendizagem, em um ambiente de interação, autonomia e reciprocidade social, em que permeiam as relações de dialogicidade(4).

O "construtivismo" não é apenas o termo que denomina a vertente pedagógica que mais vem ganhando adeptos entre os professores. É, sobretudo, o nome de uma das três grandes correntes teóricas empenhadas em explicar como a inteligência humana se desenvolve, diferenciada do empirismo e o racionalismo(4).

Essa abordagem atribui ao indivíduo o papel ativo e reconhece a influência do meio na construção do conhecimento. Ou seja, baseia-se no princípio de que o desenvolvimento da inteligência é determinado pelas ações mútuas entre o indivíduo e o meio, sendo que o homem não nasce inteligente, mas, também, não é passivo e responde aos estímulos externos agindo sobre eles para construir e organizar o seu próprio conhecimento de forma cada vez mais elaborada(5).

Nesse contexto de idéias, Phillip Perrenoud, entre outros estudiosos da abordagem crítica, questiona a finalidade da escola orientada para explorar a aquisição de conhecimentos ou o desenvolvimento de competências entendendo-as como "(...) capacidade de agir eficazmente em um determinado tipo de situação, apoiada em conhecimentos, mas sem limitar-se a eles"(6).

A competência envolve diversos esquemas de percepção, pensamento, avaliação e ação, que dão suporte a inferências, antecipações, generalizações, estabelecimento de diagnóstico, formação de decisão entre outros. Ela orquestra um conjunto de esquemas mentais e ações humanas(6).

A focalização das competências nas diretrizes curriculares para a educação técnica, busca afirmar o papel central das mesmas na formação de profissionais criativos e compromissados com a transformação da realidade social.

Geriatria e gerontologia

As áreas do conhecimento que focalizam o envelhecimento estão denominadas desde o início do século XX como gerontologia e geriatria. Faz-se relevante, pois, destacar esses dois conceitos-chave que constituem a base para situar a Enfermagem orientada à atenção da saúde da população idosa.

Gerontologia é o ramo da ciência que se propõe a estudar o processo de envelhecimento e os múltiplos problemas que envolvem a pessoa idosa. O termo gerontologia foi utilizado pela primeira vez em 1901, por Nasher, apesar da literatura do século XVIII e XIX já fazerem alusão a estudos sobre envelhecimento e questões que envolvem idosos(7).

É uma ciência jovem que explora o fenômeno do envelhecimento sob diversos enfoques, a saber: o envelhecimento físico e perda progressiva da capacidade do corpo de se renovar; o envelhecimento psicológico através das transformações dos processos sensoriais, perceptuais, cognitivos e afetivos; o envelhecimento comportamental focaliza as expectativas, motivações, auto-imagem, papéis sociais, personalidade e adaptação e, por último, o contexto social do envelhecimento que considera a influência que o indivíduo e a sociedade exercem um sobre o outro(8).

O objetivo inicial e final de geriatria é a identificação de toda a problemática que envolve os idosos, principalmente, naqueles que estão em situação de risco, seja médica, funcional, psíquica ou social, com a finalidade de realizar ações dirigidas particularmente aos idosos susceptíveis. Também deve haver reconhecimento de fatores que predispõem a enfermidades, incapacidades e morte, a fim de que possa tomar medidas preventivas necessárias(7).

A geriatria tem sido referida como um "ramo da medicina que trata dos aspectos médicos, psicológicos e sociais da saúde e doença nos idosos"(8).

A avaliação geriátrica implica num processo de diagnóstico multidimensional, em que são consideradas dimensões como o ambiente em que está o idoso, a relação médico-paciente e médico-família, a história clínica do idoso (aspectos médicos, psíquicos, funcionais e sociais) e o exame físico completo.

Assim, para a enfermagem gerontológica o trabalho está voltado para a avaliação do estado de saúde e funcional do idoso com base para o diagnóstico, o planejamento e a implementação do cuidado de saúde, bem como dos serviços destinados a atender as necessidades identificadas e da avaliação de eficácia desse cuidado(9).

Antropologia interpretativa

A abordagem interpretativa na antropologia, tem seu embasamento teórico na hermenêutica, sendo Paul Ricoeur o responsável por essa perspectiva de compreender o sentido do ser a partir de sua expressão no mundo. Interpretar não é um caso particular de compreensão, pois a interpretação aplica-se a todo processo que abrange a explicação e a compreensão. A explicação é o caminho obrigatório da compreensão, é a lógica ordenadora das condutas(10).

A hermenêutica é a metodologia da interpretação, pois se reporta a compreender formas e conteúdos da comunicação humana, em toda a sua simplicidade e complexidade. O intérprete é alguém dotado de bagagem prévia, porque ninguém consegue entender a comunicação sem deter, anteriormente, algum contexto que seja relativo ao ato de comunicar(11).

Clifford Geertz, dentro da antropologia, é o responsável pela análise interpretativa com bases na hermenêutica. O referido estudioso defende um conceito de cultura essencialmente semiótico. Acredita que ..."o homem é um animal amarrado em teias de significados que ele mesmo teceu e assume a cultura como sendo essas teias". Entende, ainda, que a antropologia não é uma ciência experimental em busca de leis, mas, sim, uma ciência interpretativa em busca de significados. Estudar cultura é estudar um código de símbolos partilhados por membros de uma mesma sociedade, visando as interpretações(12).

A cultura é tratada como um sistema simbólico em que há o isolamento dos elementos, a especificação das relações internas entre eles e de todo sistema de forma geral. É, também, compreendida como a totalidade de padrões culturais, que se refere a conjuntos ordenados de símbolos significativos que dão sentido aos acontecimentos vivenciados pelo homem e, portanto, consiste no estudo de mecanismos que os indivíduos empregam para se orientarem num mundo que de outra maneira seria obscuro(12).

Todavia, é necessário atentar para o "fluxo do comportamento", mais precisamente para ação social, pois é nesse fato que as formas culturais encontram articulação. O importante é que a interpretação antropológica constrói uma leitura do que acontece, levando ao cerne do que está se propondo a interpretar(12).

No estudo da cultura, é importante ter clareza da relação dialógica que deve existir entre o pesquisador e o pesquisado. Essa trajetória dialógica de ir e vir é conhecida como círculo hermenêutico que propõe a dialética entre as partes e o todo, num arranjo de confirmações e negações a qualquer tempo. Essa trajetória é tão essencial para interpretações etnográficas como para as históricas, literárias, psicanalíticas, entre outras. O objetivo da interpretação é obter conclusões magnânimas de fatos pequenos, porém, densamente ligados em que grandes afirmações sobre qual é o objetivo da cultura na construção da vida coletiva são empregadas como especificações complexas(13).

Para interpretar a cultura pode-se iniciar em qualquer lugar, em qualquer conjunto de formas de cultura e acabar em qualquer outro lugar; bem como permanecer numa única, variavelmente delimitada e ficar em torno dela de maneira estável; ou ainda, movimentar por entre as formas na visibilidade de unidades maiores ou comparar formas de diferentes culturas com a finalidade de identificar o caráter de cada uma para ajuda mútua. Contudo, qualquer que seja a situação em que se atua e, por mais complicado que pareça, a regra orientadora é a mesma: "as sociedades, como as vidas, contêm suas próprias interpretações. É preciso apenas descobrir o acesso a elas"(12).

 

METODOLOGIA

A escolha da abordagem metodológica deste estudo foi feita pela metodologia qualitativa por considerar que permite aproximação do objeto de estudo e possibilita a compreensão dos aspectos singulares e específicos de certa realidade no contexto em que está inserida.

Este trabalho baseou-se na compreensão da formação gerontológica do Técnico em Enfermagem pela abordagem cultural, isto é, tentou compreender a percepção expressa pelos sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem para a formação do profissional de enfermagem de nível técnico, para o cuidado de idosos. O entendimento é que a antropologia interpretativa é capaz de remeter à compreensão do objeto em questão, visto que a construção da leitura do que acontece permite levar ao cerne do que está se propondo interpretar(12).

Assim, dentre os vários caminhos para a apreensão do objeto em estudo, optou-se pelo estudo de caso, pois, se desenvolve numa situação natural, a qual permite abertura e flexibilidade para focalizar a realidade de forma contextualizada(14).

Frente às diversas características do estudo de caso, é importante ressaltar que esse busca compreender uma instância singular. O objeto de estudo é tratado como exclusivo, uma representação individual da realidade que é multidimensional e historicamente posicionada(14).

A escolha da situação social iniciou-se com a identificação das instituições formadoras de técnico em enfermagem da cidade de Curitiba - PR, que totalizaram 13 (treze) instituições, em que somente uma era de personalidade pública e as demais de caráter privado e filantrópico. Os critérios de exclusão foram a escola em que se insere a pesquisadora (pública) e inexistência de conteúdo/atividades de ensino direcionadas ao tema envelhecimento.

Para escolher a escola em que se realizou o estudo ocorreu, primeiramente, consulta por via telefônica com a diretoria dos cursos previamente identificados, com vistas a averiguar se as propostas curriculares contemplavam a temática de interesse, como parte da formação do técnico em enfermagem, para atuar junto à população idosa. O fator decisivo para a indicação da escola, foi a informação obtida com a diretora sobre atividades de ensino junto a instituições residenciais (asilares) de idosos.

A instituição definida para o estudo é de caráter privado e filantrópico, pertencente à organização de irmãs de caridade vicentinas, da província de Curitiba, sociedade civil beneficente de educação, saúde e assistência social.

A população estudada foi constituída, como sujeitos, pelos docentes de contrato efetivo do curso técnico, num total de 08 (oito), sendo que todos assumem mais de uma disciplina. Também, foram incluídas a coordenadora e diretora pedagógica, perfazendo 10 sujeitos; bem como os discentes do último módulo do curso. Das turmas ativas, nos períodos da manhã e tarde, somente uma contemplava o critério estabelecido, sendo essa composta por 30 discentes e, desses, 17 aceitaram participar do estudo.

Com o intuito de buscar elementos que permeiam a abordagem cultural do objeto de estudo, os sujeitos da pesquisa foram caracterizados segundo a formação profissional, tempo de atuação na escola, idade e gênero dos docentes, assim como a idade e gênero dos discentes. Considerando que são elementos que permitem expressar peculiaridades, abertura para novas idéias, participação no contexto em que estão inseridos.

Para a coleta de dados foi utilizada a consulta documental, entrevistas semi-estruturadas com docentes e discentes e observações de campo durante o ensino teórico (sala de aula) e prática hospitalar, registradas em diário de campo.

Antes da coleta de dados o projeto de pesquisa foi enviado para apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, o qual foi aprovado. As entrevistas foram realizadas nas dependências da Escola, com exceção de algumas em campo de estágio. Todos os entrevistados assinaram o termo de consentimento livre esclarecido e concordaram com a gravação da entrevista em cassete.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A abordagem cultural dos dados obtidos consiste em reconhecer os sentidos atribuídos pelos sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem do curso técnico em enfermagem e o enfoque específico no envelhecimento humano, os quais permitem construir conjeturas sobre a formação profissional em questão.

A instituição educacional, desde a sua fundação em 1956, organiza o ensino orientado pela filosofia cristã. Baseia-se nos conceitos da educação evangélica-libertadora, revelada por Vicente de Paula e Luísa de Marillac, na pedagogia de Paulo Freire e teorias psicogenéticas de Jean Piaget, Vigostsky e Wallon (desenvolvimento biológico, cognitivo, social e emocional), estabelecendo seus parâmetros pedagógicos na construção do saber a partir da contextualização e da interação do sujeito, como objeto do conhecimento.

O curso técnico em enfermagem - área da saúde, está elaborado de acordo com as diretrizes curriculares do nível técnico e legislação vigente da Secretaria de Educação do Estado do Paraná, com carga horária de 1800 horas distribuídas em 03 módulos, dessas, 600 horas são de estágio supervisionado. A organização curricular está pautada nos referenciais curriculares da educação profissional de nível técnico, nas quais estão delimitadas as competências e habilidades necessárias para a sua formação.

Em relação aos sujeitos, os docentes têm média de idade de 39,9 anos e os discentes com predominância entre 21-30 anos, ambos com prevalência do sexo feminino. No que diz respeito à formação profissional dos sujeitos docentes, a maioria é enfermeiro e o tempo de atuação na escola com média de 06 anos.

Com o entendimento de que o estudo de caso parte do princípio que o relatório da pesquisa permite realizar generalizações a partir de experiências ou situações vivenciadas, que permitirão desenvolver novas idéias, novos significados e novas compreensões(14), os resultados foram classificados em 3 categorias, como se apresentam a seguir.

Formação docente - especificidade com a temática do envelhecimento

A promoção e embasamento prático dos educadores no atual sistema estão ancorados em referenciais pedagógicos e ideologias que direcionam as práticas educativas. As implicações pedagógicas do referencial conceitual da medicina comunitária utilizado nas décadas de 70 e 80, do século XX, marcaram o processo de formação profissional em enfermagem(15).

É interessante destacar que os sujeitos docentes deixaram transparecer essa característica em suas formações profissionais e que não estão preparados para trabalhar com a parcela da população que está envelhecendo:

(...) sobre envelhecimento, durante a minha formação profissional não tive nada específico, os conteúdos vistos foram dentro das disciplinas, de forma geral no cuidado do adulto (Doc 2).

(...) minha experiência com idosos é mais na questão pessoal do que profissional. Durante o curso tive poucos conteúdos sobre envelhecimento, buscando a maior parte das informações por interesse próprio" (Doc 10).

A partir da década de 90 iniciou na enfermagem a discussão orientada para a necessidade de investir na educação transformadora, capaz de incitar reflexão e questionamento da prática profissional, bem como a valorização do compromisso do enfermeiro com a sociedade.

Nesse contexto, o currículo mínimo de enfermagem pontua para a necessidade do ensino da saúde do idoso, havendo perspectivas na pós-graduação de criar disciplinas e linhas de pesquisa com abordagem gerontológica e geriátrica(16).

A percepção do déficit de conhecimento sobre envelhecimento humano pelos sujeitos docentes revela que, para eles, é difícil trabalhar com os conteúdos em sala de aula. Contudo, essa percepção faz com que eles compreendam a necessidade de buscar novos saberes e a importância da inserção do tema envelhecimento na formação do técnico em enfermagem.

Os sujeitos docentes, por vontade própria ou pela exigência profissional, percorrem caminhos desconhecidos e, muitas vezes, sem orientação para assimilar novos saberes, colocá-los em prática e promover a formação gerontológica do técnico em enfermagem.

Esse aspecto é interessante, pois, o ser humano, independente de sua formação, de sua posição, quando em situações desconhecidas ou inseguras utiliza mecanismos mentais e busca experiências vividas, marcadas por símbolos, para apresentar soluções e/ou respostas às questões que se apresentam.

O pensamento humano é, basicamente, um ato conduzido em termos de materiais objetivos da cultura. O processo mental do homem quer oriundo do raciocínio orientado, quer da formulação de sentimentos ou da integração de ambos os motivos ocorrem nos diversos momentos experienciados como no jogo de futebol, na escola, no convívio com os amigos e outros(12).

Existe uma perspectiva do pensamento reflexivo que consiste na combinação de processos simbólicos em oposição a estados e processos do mundo mais amplo, é a ausência de estímulos que inicia a atividade mental e a descoberta dos estímulos que a completa. O raciocínio orientador se inicia na perplexidade e termina com o abandono da indagação ou com a sua solução(12).

Envelhecimento - percepção dos sujeitos

A compreensão que existe a respeito da importância do envelhecimento humano está cada vez mais intensa, porém, a alocução não é colocada em prática, não existe movimento por parte da sociedade em fazer com que essa contradição entre o discurso e a prática seja alterada.

(...) hoje em dia o idoso não é visto como um todo é visto como um paciente que veio para tratar da úlcera, para cuidar da doença de base e não é visto no contexto em que está inserido (...) isso que está faltando, um pouco de humildade, sensibilidade para tratar o doente humanamente, o respeito é essencial! (Doc 2).

O ser humano ao envelhecer de forma saudável apresenta não somente um bom estado de saúde física e mental, mas também se sente seguro, respeitado, independente, reconhecido e integrante da sociedade. Os idosos querem ser aceitos como seres humanos com suas necessidades e suas possibilidades, bem como querem ter seus direitos assegurados e não querem ser discriminados pela sociedade(17).

O envelhecimento do mundo está diretamente ligado ao envelhecimento orgânico tanto no nível celular, molecular e funcional, à presença de enfermidades, bem como ao estilo de vida, fatores ambientais e fatores genéticos(18).

A sociedade não vê o idoso como cidadão, pois em alguns momentos evidencia sua participação como, por exemplo, na política nacional do idoso e, por outro lado, o esquece quando se trata de aposentadoria e outras questões. Essa realidade provoca nos idosos sentimentos de fracasso, de insegurança, de impotência, de solidão, de medo, de indiferença frente à vida e que podem ser fatores decisivos para a aquisição de doenças.

Na verdade, esse cidadão idoso, reconhecido por uma história que o torna único, está inserido no contexto socioeconômico e sociocultural e não consegue ganhar espaço e respeito. Para tanto é necessário que haja conscientização por parte da população de um modo geral e, principalmente, dos profissionais de saúde que são, de certa forma, formadores de opiniões e responsáveis por condutas diferenciadas que favorecem a assistência à saúde.

(...) o Brasil está envelhecendo e não se percebeu como tal, não quer conhecer sua realidade... sempre falo com os alunos, o confronto que a idade traz, não necessariamente a senilidade, é a diminuição que se tem entre a capacidade física e mental (...) mas isso não quer dizer redução, quer dizer mudança, adaptação (Doc 5).

Os discentes, também, demonstraram estar conscientes sobre o envelhecimento populacional e/ou características da pessoa idosa:

(...) conhecer sobre o envelhecimento é importante para se cuidar dos idosos, pois, a partir do reconhecimento de que algum dia envelheceremos, permitirá respeitar e dar mais atenção ao idoso. Na verdade, os idosos são sábios que podem nos auxiliar muito em nossas vidas (Disc 12).

É importante refletir que, para atingir um mínimo de compreensão e atuação junto ao processo de envelhecimento, se torna necessário caracterizar os seres humanos individuais. Existem muitas maneiras pelas quais os homens são conscientizados em relação ao tempo. Entre as mais importantes está o reconhecimento em si mesmo e em seus companheiros do processo de envelhecimento biológico, o nascimento, a maturidade e o desaparecimento dos indivíduos concretos(12).

A experiência humana (a vivência real através de acontecimentos) não é simples sensação, é uma sensação significativa, interpretada e apreendida. Para todos os seres humanos, a experiência é construída e as formas simbólicas que a constituem determinam sua composição essencial(12).

A cultura se movimenta como um polvo em que não há uma sinergia de partes perfeitamente coordenadas como um todo, mas por meio de ..."movimentos desarticulados desta parte, depois daquela, e depois ainda outra que, de alguma forma, se acumulam para uma mudança direcional". No entanto, não se apresenta como uma suposição irracional dizer que quando ocorrem impulsos em determinada parte do sistema que está estreitamente interligada e socialmente conseqüente, a força impulsionadora será bastante elevada(12).

Isso permite recair na questão de que a sociedade pode e deve atentar para impulsos que aparecem em certos momentos e são capazes de provocar mudanças. Nesse contexto, é extremamente viável quando se refere ao envelhecimento humano, pois, mesmo que ocorra de forma desajeitada, como o movimento de um polvo, existe a preservação da coletividade e, dessa forma, a promoção de situações que favoreçam a população idosa, priorizando suas características e especificidades, como a valoração dessa contingência.

Envelhecimento - a abordagem ao cuidado do idoso

Os conteúdos e as atividades relacionados à geriatria e gerontologia, inseridos no currículo de enfermagem, favorecem a participação do aluno no cuidado direto do idoso, família e comunidade.

(...) existe uma atividade que tem como objetivo realizar projetos e visitas, para que o aluno tenha a visão dos cuidados e assistência de enfermagem fora do ambiente hospitalar. Dentro dos diversos locais em que podem ser feitas as visitas, existem lares de idosos.

(...) é interessante salientar que os idosos, quer com condições financeiras melhor quer com condições não tão agradáveis, apresentam as mesmas características como solidão, abandono, carência. Para os nossos alunos é claro perceber na prática o que discutimos na teoria (Doc 5).

A enfermagem é um campo profissional que está apto a desenvolver ações efetivas de impacto na atenção à saúde dos idosos, relacionadas ao "assistir" o ser humano. Esse assistir envolve o homem em suas interações pessoais e ambientais, são identificados problemas relativos a eles, estabelecidas as intervenções que se fizerem necessárias para solucionar ou minimizar essas questões(17).

O enfoque dos conteúdos trabalhados em sala de aula parece, num primeiro momento, bastante superficial e sem aprofundamento teórico. Todavia, torna-se evidente a necessidade que os docentes têm em refletir sobre o tema e trabalhar com os alunos essa questão nas situações vivenciadas na prática profissional.

Os relatos dos sujeitos discentes permitem essa visibilidade, mas deixam transparecer a maneira como cada um percebe os conteúdos que foram repassados, tanto na teoria como na prática.

(...) os conteúdos na teoria foram bem poucos. Na prática pudemos desenvolver bastantes cuidados com pacientes idosos como alimentação, atenção diferenciada nos cuidados gerais, o comportamento do idoso, a orientação do paciente no tempo e espaço, assim como, a questão profissional e ética (Disc 15).

Mesmo com a superficialidade aparente, ocorrem situações com características de aprimoramento do enfoque e de elevação do nível da formação do técnico em enfermagem:

(...) na disciplina de emergência o foco é outro, é o atendimento na questão do A - B - C, é a força que se faz no tórax do adulto diferente da força feita no idoso, é quantidade de volume que passo no idoso é diferente da quantidade no adulto, a questão ética ao reanimar ou não, a idade; a doença de base, a família como está encarando a situação, o tempo de vida e a satisfação com a vida que leva, tudo isso é importante! (...) o fato de observarem as diferenças, de prestarem cuidados diferenciados e conhecerem essas diferenças, mesmo que o contato seja maior com adultos, os alunos conseguem relacionar a teoria com a prática e prestar um cuidado específico e com qualidade às pessoas idosas (Doc 8).

Muitas vezes, o que pode levar ao início desses processos são situações experenciadas e vivenciadas pelo homem de forma que possam ser utilizadas como fontes simbólicas, as quais permitirão encontrar sustentação para os seus propósitos.

Isso porque a cultura está relacionada ao comportamento humano, não como padrões concretos (costumes, usos, tradições), mas como um conjunto de controle (planos, receitas, regras, instruções) para governar o comportamento(12).

Os símbolos, em qualquer indivíduo, são dados e encontrados já em uso corrente na comunidade quando nasce e permanecem após sua morte com alguns acréscimos, subtrações e adições das quais o indivíduo pode ou não participar. Enquanto vive utiliza os símbolos com a mesma intenção: "...para fazer uma construção dos acontecimentos através dos quais ele vive, para auto-orientar-se no curso corrente das coisas experimentadas"(12).

A partir desse entendimento, provavelmente, o homem consiga se situar no contexto em que está envolvido, bem como ser um agente ativo e isso permitirá a ele utilizar toda a sua experiência para o desenvolvimento de ações que traduzem a sua singularidade na vida.

É nesse contexto que os sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem do curso técnico em enfermagem podem buscar "iluminação" de origem simbólica, a qual favorece o aparecimento de caminhos que levam a novas práticas para o desenvolvimento desse processo.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Frente ao panorama da educação profissional é importante ressaltar que, além das mudanças administrativas e pedagógicas, torna-se necessário ocorrerem mudanças nos padrões culturais das instituições e dos sujeitos nelas inseridos. Também, as transformações sociais acontecem por inúmeros fatores que influenciam o comportamento e a estrutura dessas sociedades. Essas alterações podem ser produto da utilização de formas simbólicas oriundas de experiências vividas que permitem fazer conjeturas com a realidade.

Os sujeitos participantes do estudo integram o processo ensino-aprendizagem responsável pela formação de pessoal especializado e preparado para atuar junto ao novo perfil populacional, assim como estão inseridos no contexto educacional do nível técnico. Portanto, a possibilidade de promoção de mudanças comportamentais podem levar à conscientização de que há uma demanda diferenciada de contingente com características próprias, necessidades peculiares e precisa de espaço, atendimento diferenciado e, principalmente, respeito pela existência como seres humanos.

A finalidade deste artigo foi apresentar algumas expressões de idéias de um estudo com abordagem cultural que se apresenta em fase final de conclusão e permitiu analisar os sentidos expressos pelos sujeitos envolvidos na formação do técnico em enfermagem, de uma instituição de educação profissional, focalizando o envelhecimento como perspectiva para a formação de profissionais aptos a prestar assistência à população idosa.

 

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Recebido em: 13.5.2004
Aprovado em: 27.6.2005

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