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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.14 no.5 Ribeirão Preto Sept./Oct. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692006000500019 

ARTIGO ORIGINAL

 

A produção científica da enfermagem na perspectiva da representação social. Brasil, 1975-2001

 

 

Sergio Corrêa MarquesI; Maria Antonieta Rubio TyrrelII; Denize Cristina de OliveiraIII

IDoutorando, e-mail: sergiomarques@uol.com.br
IIProfessor Titular, e-mail: direcao@eean.ufrj. Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro
IIIProfessor Titular da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e-mail: dco@uerj.br

 

 


RESUMO

O presente estudo objetivou: levantar os quantitativos de teses e dissertações de enfermagem do período entre 1975 e 2001, com abordagem das representações sociais (RS), caracterizar as produções em relação à instituição de origem, às regiões do país, aos sujeitos dos estudos e objetos de representação, agrupar nas categorias temáticas e linhas de pesquisa em enfermagem. Os dados foram coletados do catálogo do Centro de Estudos e Pesquisas em Enfermagem da Associação Brasileira de Enfermagem. O resultado evidenciou 131 estudos com suporte das RS, originados em 1990, com maior produção no ano de 2000, principalmente na Região Sudeste (83,1%). Registrou-se 145 sujeitos, os objetos mais comuns são "doença", "processo saúde-doença", "prática profissional do enfermeiro" e o "cuidar". Na categorização temática, a área assistencial é a que reúne a maior quantidade de pesquisas. Em suma, a enfermagem vem procurando se apropriar desse referencial teórico-metodológico na fundamentação e guia de parte da produção do seu conhecimento.

Descritores: pesquisa em enfermagem; classificação; métodos


 

 

INTRODUÇÃO

Na enfermagem brasileira, a produção científica não se constituiu em foco especial de atenção por parte das enfermeiras, permanecendo latente, tanto na sua formação como na prática profissional, por várias décadas. Tomou impulso a partir de meados da década de 70 com as pesquisas oriundas do primeiro curso de pós-graduação stricto sensu (mestrado) da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro(1-2). Posteriormente, outros programas de pós-graduação de caráter stricto sensu foram implementados, como o Programa Interunidades, em nível doutorado, pelas Escolas de Enfermagem da Universidade de São Paulo, fortalecendo a construção do saber da enfermagem e fomentando o desenvolvimento da pesquisa de forma regular(3).

É importante ressaltar que a evolução da pesquisa em enfermagem vem encontrando apoio não só nos programas de pós-graduação, mas também dos órgãos de classe da profissão, especialmente da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) e também dos órgãos de fomento da atividade de pesquisa, como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Se, por um lado, por razões históricas, políticas, ou sociais, a enfermagem tardou a se inserir na prática da pesquisa científica, por outro, verifica-se avanço progressivo e constante na experimentação e incorporação de modelos e metodologias que melhor se adequam à análise dos seus objetos de investigação.

Até 1984, as pesquisas em enfermagem no Brasil, acompanhando os paradigmas científicos da época, eram orientadas pelo positivismo, o qual privilegia a mensuração e comparação dos fenômenos, a objetividade das observações e a ausência ou limitação nas análises explicativas(2), ou seja, o predomínio da abordagem quantitativa com ênfase na descrição dos fatos e na padronização dos procedimentos. No início da década de 80, foi observado o interesse pelo desenvolvimento de pesquisas, empregando outras orientações filosóficas e paradigmáticas, como a dialética e a fenomenologia, que visam "apreender o saber e a prática da enfermagem como históricos e articulados a formações sociais concretas"(2).

Isso evidencia a percepção da enfermagem de que as questões relacionadas ao processo saúde-doença envolvem aspectos históricos e sociais, dando início a uma trajetória de distanciamento dos paradigmas da área biomédica e de aproximação àqueles da área das humanidades. Esse campo de estudo passou a experimentar abordagens teórico-metodológicas inovadoras, que se ajustavam a um objeto tão vasto e diversificado quanto "o cuidar no processo saúde-doença".

Essas observações apontam para o predomínio atual na área da enfermagem de pesquisas orientadas por referenciais teóricos das ciências humanas e sociais, tais como a psicologia social e a sociologia, o que reforça a hipótese de ocorrência de mudança do paradigma utilizado nessa área. Essa tendência culminou, nas décadas de 80 e 90, com a busca e incorporação de diferentes teorias, como a Teoria de Representações Sociais, a qual encontrou espaço fecundo no campo da enfermagem(4).

Alguns enfermeiros vêm se dedicando à análise das produções científicas da enfermagem ao longo dos anos, abordando diferentes aspectos: áreas nas quais as pesquisas são desenvolvidas, marco de referência e a contribuição para o corpo de conhecimentos da enfermagem(5), classificação da produção científica de acordo com o método adotado para determinar as fases atingidas pela investigação na enfermagem(6) e, ainda, para analisar o conhecimento em enfermagem e classificá-lo de acordo com determinadas áreas de interesse da pesquisa (7).

Esses e outros trabalhos com propósitos semelhantes mostram-se relevantes, pois evidenciam, sob diferentes aspectos, como o campo da enfermagem vem se apropriando de teorias de outras áreas do conhecimento, evidenciando esse processo de retradução na produção científica, e permitindo ainda vislumbrar as tendências futuras do campo.

Adotando essa mesma vertente, o objeto deste estudo é a análise das pesquisas de enfermagem dos Programas de Pós-Graduação stricto sensu no Brasil, que utilizaram as representações sociais como referencial teórico e/ou metodológico, no período de 1975 a 2001. Definiram-se como objetivos: levantar os quantitativos de teses e dissertações de enfermagem do período de 1975 a 2001 que utilizaram os pressupostos teóricos das representações sociais, caracterizar as produções científicas em relação à instituição de origem, às regiões do país, aos sujeitos de estudo e objetos de representação, agrupar os estudos nas categorias temáticas e linhas de pesquisa em enfermagem dos Programas de Pós-Graduação.

Cabe destacar que a enfermagem, através das Oficinas de Coordenadores de Pós-Graduação, promovidas pela CAPES/CNPq, envidou esforços no sentido de estabelecer uma proposta de esquema classificatório da produção científica que favorecesse a consolidação das linhas e das prioridades de pesquisa em enfermagem. Esse esquema "serve de 'tipologia classificatória' fundamental à ordem dos conhecimentos produzidos. No plano da construção científica serve de estrutura ao arranjo do corpus da enfermagem brasileira"(8). No entanto, é preciso destacar que esse esquema merece ser submetido à experiência para avaliar a sua confiabilidade(9).

O conceito de representação social pode ser observado em diversas áreas de conhecimento das ciências humanas e sociais como a sociologia, a antropologia, psicologia social, história e a filosofia, que apresentam nuances em suas esferas de domínio, particularmente nas concepções grupais e sociais adotadas, e também na forma de identificar os objetos de representação em determinado contexto social. Nessa medida, ficou inviabilizada a pretensão de identificar sob quais perspectivas teóricas as produções da enfermagem foram realizadas, uma vez que, de todas as produções analisadas, somente dezoito registraram explicitamente nos resumos que desenvolveram o estudo no contexto da abordagem psicossocial. As demais não registram a sua filiação teórica.

 

METODOLOGIA

Trata-se de estudo exploratório e descritivo, com abordagem quantitativa, cujas fontes de dados foram os catálogos de Informações sobre Pesquisa e Pesquisadores em Enfermagem do Centro de Estudos e Pesquisas em Enfermagem (CEPEn), da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn). Utilizou-se a edição em CD-room, que reúne os volumes 1 a 18, relativos ao período de 1979 a 2000, e a versão impressa do volume XIX, editado em 2001. Foram consultados os resumos de teses e dissertações defendidas nos programas de pós-graduação stricto sensu, relativos ao período entre 1975 e 2001.

Inicialmente, procedeu-se à leitura dos 2.642 resumos contidos nas referidas publicações, buscando fazer o rastreamento das produções que adotaram as representações sociais no seu referencial teórico-metodológico. A coleta de dados foi realizada no período de agosto a outubro/2004.

A análise dos dados consistiu na quantificação e apresentação em tabelas das seguintes categorias: modalidade de produção, instituição, período, sujeitos do estudo, objetos de representação, distribuição por categoria temática e linhas de pesquisa.

 

DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

Dos 2.642 resumos de teses e dissertações publicados pelo CEPEn/ABEn, no período entre 1975 e 2001, foram identificadas 131 produções que utilizaram a representação social como aporte teórico e/ou metodológico, o que corresponde a 5% do total dessas produções científicas da enfermagem.

Observa-se, na Tabela 1, que, desse quantitativo, a maioria (71,7%) refere-se a dissertações e apenas 28,3% a teses, sendo que uma delas é de livre-docência.

 

 

O Brasil possui 27 Programas de Pós-Graduação stricto sensu em enfermagem, sendo que, desses mais da metade são cursos de mestrado(10), os quais são representativos, uma vez que a sua criação antecede em dez anos a criação dos cursos de doutorado (mestrado, EEAN, 1972 e doutorado, EE/USP, 1982). Os cursos de mestrado, por sua vez, têm habitualmente quantitativo maior de alunos e duração menor (em torno de 2 anos), do que os cursos de doutorado (em torno de 4 anos), donde se conclui que geram volume maior de produções científicas. Dessa forma, confirmam e justificam a concentração mais elevada de produções com o uso das representações sociais nos cursos de mestrado. Inclusive, constatou-se que, nos primeiros três anos da década de 90, quando foram concluídas as primeiras pesquisas, adotando essa abordagem teórica, seis eram dissertações e apenas uma era tese de livre-docência. Cabe enfatizar que, em 1993, foi concluída a primeira tese de doutorado, realizada na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP/São Paulo).

Na Tabela 2 verifica-se que as pesquisas que se fundamentam na perspectiva teórica da representação social, registradas nos catálogos do CEPEN, tiveram início em 1990, apresentando aumento progressivo ao longo dos anos, principalmente a partir de 1995, com pequena queda em 1997, sendo registrado maior número de produções em 2000 (29 trabalhos). No ano 2001 observa-se redução acentuada dos trabalhos, no entanto, supõe-se que tal ocorrência seja resultante do atraso no envio dos resumos ao CEPEn, quando da conclusão do volume XIX. Essa afirmativa é reforçada pela constatação de que, nessa edição, estão catalogadas 360 resumos de produções em 2000 e apenas 89 em 2001, o que, certamente, não reflete o total de produções nesse ano, marcando a defasagem de publicações.

Os programas de pós-graduação stricto sensu que desenvolveram dissertações e teses com mais freqüência nessa perspectiva foram os da Escola de Enfermagem Anna Nery - (EEAN/UFRJ), responsável por 29% das produções, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP (19,8%), da Escola de Enfermagem da USP/São Paulo (18,3%) e da Universidade do Rio de Janeiro - UNIRIO - (11,4%). Dentre aquelas que tiveram menor número de produções destacam-se a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a Universidade Federal de Viçosa e a Universidade de Brasília, com percentual de 0,8% cada.

Convém destacar que nessas três últimas instituições os Programas de Pós-Graduação não são da área da enfermagem, no entanto, como as produções dos enfermeiros constam no catálogo do CEPEN, fonte dos dados desse estudo, considerou-se conveniente não excluí-las.

Esse resultado também evidencia que os programas que tiveram maior produção estão localizados na Região Sudeste do País, a qual conta com maior número de programas, contribuindo, conseqüentemente, para concentrar o maior percentual do total de trabalhos (83,1%) nessa Região, em detrimento das outras.

Embora das treze instituições que integram o presente estudo, oito sejam da Região Sudeste, esse dado não justifica, por si só, a posição de destaque dessa região. Conforme descrito anteriormente, as quatro instituições com maior percentual de produção, não só foram pioneiras, como também continuaram a produzir regularmente pesquisas apoiadas pelo referencial das RS ao longo do período estudado. Esse movimento ocorreu em menor escala nas demais instituições da mesma Região e não é observado nas outras Regiões do País. A Região Norte não possui cursos de pós-graduação stricto sensu, o que explica a ausência de produções nessa região.

É interessante observar que a porta de entrada das representações sociais no Brasil, na perspectiva da psicologia social, o Nordeste, mais precisamente o Estado da Paraíba, não foi o local onde os programas de pós-graduação stricto sensu de enfermagem tiveram o seu primeiro contato com essa abordagem teórica, haja vista que somente em 1996 surgiram nesta região as primeiras pesquisas, sendo uma na Universidade Federal da Paraíba (UFPA) e duas na Universidade Federal do Ceará (UFCE). Contudo, depois da Região Sudeste é a que mais registrou produção (10,8%).

A Teoria das Representações Sociais foi introduzida no Brasil pela Profª Denise Jodelet (Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais/França), em 1982, por intermédio da Profª Ângela Arruda, que a convidou para ministrar um curso, em Campina Grande/PA, sobre metodologia das representações sociais, e assessorar na elaboração de um projeto sobre saúde mental e somática no Núcleo de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal da Paraíba(11).

O início da difusão da Teoria de Representação Social no Brasil, bem como o interesse despertado nas diferentes áreas do conhecimento, inclusive na enfermagem, e a fase de consolidação desse campo de estudos foram aspectos analisados em uma pesquisa que objetivou caracterizar a produção nacional sobre representações sociais, entre os anos 1988 e 1997, através de fontes documentais(11). Nesse estudo, os autores observaram crescimento contínuo de pesquisas na área da saúde, em especial no âmbito da enfermagem e da saúde coletiva, principalmente a partir de 1992. Dentro, especificamente, do campo da saúde, a enfermagem apresentou a maior contribuição (48,1%), o que evidencia o grau de importância atribuído por essa área do conhecimento na apropriação desse referencial teórico.

Considerando que o conceito de representação social pode ser entendido como a reprodução mental de alguma coisa, o dar forma ou significado a algo elaborado mentalmente, ou, ainda, como "um ato do pensamento pelo qual um sujeito se reporta a um objeto"(12), sendo, portanto, fruto de uma atividade mental de um indivíduo acerca de um objeto, as possibilidades de utilização desse conceito são amplas. Isso permite inúmeras possibilidades de apropriação, tanto no nível dos indivíduos, quanto dos grupos sociais, especialmente quando o objeto a ser representado guarda relação social com o seu contexto de vida. Esse pressuposto básico das representações sociais motivou a investigação sobre quais grupos de indivíduos têm sido o foco de interesse dos estudos de enfermagem nessa perspectiva teórica.

Os dados da Tabela 3 mostram que, nas 131 pesquisas, foram identificados 12 categorias de sujeitos, cuja freqüência total corresponde a 145. Isso revela que algumas pesquisas, possuem mais de um tipo de sujeito. Os enfermeiros aparecem como os mais freqüentes nas pesquisas, tanto como categoria isolada (25,5%) como inseridos em outras categorias como "docentes de enfermagem", "profissionais de enfermagem" e "profissionais de saúde". Um outro aspecto revelado por essas categorias é que os profissionais de saúde, em especial aqueles da enfermagem, têm sido privilegiados nas pesquisas dos enfermeiros, pois, agregados, correspondem a 44,1% dos sujeitos.

 

 

Os docentes de enfermagem constituíram-se como foco de atenção dessas produções, tendo apresentado a quarta maior freqüência, motivo pelo qual optou-se por mantê-los destacados do grupo de enfermeiros. Observa-se, portanto, o interesse da análise na formação de profissionais de enfermagem, a partir da incorporação psicossocial desses sujeitos, bem como das suas práticas.

Após os enfermeiros, as mulheres e os pacientes são os sujeitos que vêm se destacando nas pesquisas, como se pode observar pelos percentuais 17,3 e 13,1%, respectivamente, alcançados por eles, que os diferenciam, inclusive, dos demais grupos de sujeitos. No grupo "pacientes", a maioria (14) refere-se a indivíduos que foram submetidos a procedimentos cirúrgicos, e os demais são indivíduos com problemas psiquiátricos.

A análise dos sujeitos merece ainda uma observação relativa à categoria "familiares", cuja freqüência (9) mostra tendência de crescimento do interesse dos investigadores pela análise microssocial do processo saúde-doença, a partir desse grupo.

Os resultados revelam que a pesquisa em enfermagem enfoca uma variedade de sujeitos nas suas pesquisas, e ainda que se apropria de grupos de indivíduos que apresentam, em relação a determinados aspectos, características que os identificam como grupos preocupados com objetos de representação do seu cotidiano, já que esses aspectos são imprescindíveis quando há a proposta de utiliDADE???? a representação social como suporte teórico e/ou metodológico.

A representação social define-se pela representação de algo ou alguma coisa (objeto) e de alguém (sujeito), dos quais as características nela se manifestam(12). Pode-se, ainda, afirmar que toda representação é caracterizada por uma visão global e unitária de um objeto, de um indivíduo, ou grupo, o que lhe confere o seu caráter social(13). Dessa forma, por prescindir dessa indissociabilidade sujeito/objeto, é que se buscou identificar nas pesquisas em estudo quais os objetos de representação que vêm despertando interesse e inquietações nos enfermeiros em suas investigações.

Foram identificados 112 tipos de objetos de representação nas 131 produções, o que significa dispersão de objetos de estudo, fato que exigiu agrupá-los em categorias.

Tendo em vista a hierarquia mostrada na Tabela 4, verifica-se concentração de estudos sobre objetos relacionados à "doença" (26), à prática profissional (23), ao "cuidar" (19), ao "processo saúde-doença" (17) e, em menor proporção, sobre a identidade profissional do enfermeiro (9).

 

 

Um objeto de representação pode ser definido como uma pessoa, um acontecimento material, psíquico ou social, um fenômeno natural, uma idéia ou teoria, podendo, ainda, ser real, imaginário ou mítico(12). Essa gama de possibilidades para a definição de um objeto de representação, provavelmente, se traduz em elemento facilitador para os enfermeiros ao utilizarem essa abordagem teórica, uma vez que as áreas de atuação da enfermagem colocam-na diante de múltiplas situações ou fenômenos.

Por outro lado, há de se advertir que, embora todo objeto seja passível de ser representado, nem todos se constituem em objeto de representação social. Dada a limitação do estudo, tendo em vista que foram utilizados os resumos e não as produções na íntegra, não foi possível fazer uma análise mais refinada em relação a esse aspecto. Ainda assim, pôde ser observado em algumas pesquisas dificuldade de especificação dos objetos, como conseqüência da tomada das representações sociais como conceito isolado, restrito à sua dimensão de imagem ou de conteúdo subjetivo não especificado, conforme já identificado por outros pesquisadores(13). A relevância social do objeto e sua especificidade nem sempre estavam adequadamente definidos nos trabalhos analisados.

Analisando-se, ainda, a Tabela 4, verifica-se que as categorias fazem parte do cotidiano dos profissionais de enfermagem, no entanto, com forte tendência para a adoção de objetos relacionados à representação da doença. Nesse grupo, a loucura e o câncer foram os objetos de representação que tiveram a maior freqüência. O cuidar da ou na enfermagem tem se revelado como objeto de estudo em várias pesquisas e aqui, de igual forma, se destaca. Apresenta-se como objeto de representação sob diferentes enfoques, isto é, como essência do saber/fazer da enfermagem, ou do cuidar em situações específicas ou, ainda, em áreas distintas de atuação do profissional enfermeiro.

A prática e a identidade profissional também se distinguiram entre as categorias, reunindo os objetos "ser enfermeiro", "corpo" (da enfermeira), "prática profissional" e "modelos e práticas gerenciais", seja na forma como são percebidos ou representados pelos próprios profissionais, ou ainda pela clientela por eles assistida. Os estudos mostram também preocupação com a forma como esses aspectos influenciam os modos de fazer e pensar da enfermagem, assim como com o seu aprimoramento.

Procurar identificar como determinados grupos sociais representam o processo saúde-doença, seja ele como tal, ou a partir de seus determinantes sociais ou políticos, constituiu o foco do estudo em dezessete produções, sendo o quarto tipo de objeto de representação social investigado, conferindo-lhe status não desprezível, o qual a enfermagem vem procurando compreender para adequar a sua prática profissional.

Observa-se, ainda, que algumas categorias se apresentam menos expressivas nas produções estudadas, como é o caso da "gravidez/amamentação", "sexualidade", "HIV/AIDS", entre outros. A temática HIV/AIDS, por exemplo, vem sendo bastante explorada em diversos estudos pela sua magnitude como problema de saúde pública e seu impacto na vida social, traduzindo-se em importante objeto de representação do momento presente, tendo sido explorada em apenas sete produções.

Alguns objetos de representação não puderam ser agregados a nenhuma categoria e assim, constam da categoria outros, como é o caso do Sistema Único de Saúde, estrutura social e viver na rua.

Como conclusão geral, destaca-se nesse resultado o fato de a maior parte das categorias enfocare o mesmo objeto da prática profissional do enfermeiro - a saúde, a doença e o processo saúde-doença; bem como a grande ênfase nas práticas profissionais - o cuidar, a prática profissional, a identidade profissional do enfermeiro - revelando o caráter de aplicação da pesquisa em enfermagem.

Buscando proceder à análise dos resultados referentes ao esquema de classificação das linhas de pesquisa no Brasil (conforme definido nas Oficinas de Pós-Graduação CAPES/CNPq(9), ressalta-se que esse é estruturado em três categorias temáticas, quais sejam, profissional, assistencial e organizacional, comportando um conjunto de linhas de pesquisa em cada categoria.

A categoria profissional e suas linhas de pesquisa reportam-se à esfera do sujeito epistêmico/consciência cognoscente, que integram "disciplinas/conteúdos teóricos e experiências que se ajustam ou compõem a parte mais substantiva do saber (profissional) ou área do conhecimento da enfermagem". A categoria assistencial e os tópicos de suas linhas referem-se à esfera do objeto cognoscível/realidade objetiva, ou seja, "no que se cogita (pensar/saber), ou que se possa cogitar, sobre aquilo que a consciência profissional se dá, a si mesma, como real objetivado, e também como tudo aquilo que se possa predicar sobre o 'saber fazer' do profissional, desde que entendidas, evidentemente, as possíveis dimensões do fenômeno do conhecer, tal como relativo ao contexto dos assistidos". A terceira e última categoria, denominada organizacional e suas respectivas linhas integram a esfera da imagem ou "instrumental" que se referem "às disciplinas/conteúdos teóricos e experiências de ciências afins/correlatas/domínio conexo e que servem às aproximações da realidade no âmbito das atividades do conhecimento, tal como interessa à enfermagem"(9).

Nesse estudo, a distribuição dos trabalhos analisados, segundo essas categorias temáticas e linhas de pesquisa mostrou os resultados constantes da Tabela 5.

 

 

Na Tabela 5 são apresentados os resultados do agrupamento das produções científicas, onde se constata que a maior parte das pesquisas se enquadra na categoria temática assistencial, com percentual de (64,8%), que a distingue das categorias temáticas organizacional (18,4%) e profissional (16,8%), reafirmando os resultados da análise anterior sobre o caráter aplicado das pesquisas em enfermagem.

Dentre as linhas de pesquisa da categoria assistencial, aquela do "processo de cuidar em saúde e enfermagem", que envolve o processo sistematizado de cuidar do ser humano sadio ou doente, no âmbito individual ou coletivo e nas dimensões subjetiva e objetiva de cuidar e de ser cuidado, se sobrepõe em freqüência (38,9%) à linha "saúde e qualidade de vida" (25,9%). Essa linha refere-se aos determinantes, indicadores e expressões da saúde e qualidade de vida e sua relação com o processo saúde-doença, no âmbito individual e coletivo.

Esses resultados mostram que o "cuidar", reconhecido como a essência do saber/fazer da enfermagem, tem sido privilegiado nesses estudos, sob a perspectiva da abordagem teórica das representações sociais. Um outro aspecto a ser considerado é que se observa aqui articulação da Teoria das Representações Sociais com os paradigmas do cuidar em enfermagem e da promoção da saúde, evidenciado na afirmação de que a saúde requer o planejamento de ações tecnicamente viáveis e adequadas à realidade apresentada sem, no entanto, esquecer o papel de ser ativo assumido pelos sujeitos coletivos. Nessa perspectiva, a subjetividade social coloca-se como partícipe das ações cotidianas da enfermagem, contribuindo com explicações do processo saúde-doença alicerçada no conhecimento do senso comum, bem como com significações particulares que participam da determinação de processos grupais, tanto de promoção como de cura(13). A categoria organizacional, a segunda, em freqüência no agrupamento das produções (18,4%), compõe-se de cinco linhas de pesquisa que contemplam, na esfera da saúde e da enfermagem, conteúdos relacionados a políticas de saúde, concepções pedagógicas, políticas e de tecnologia educacional, produção do processo de trabalho em saúde, administração de serviços, e comunicação em saúde e enfermagem.

A linha de pesquisa que se destaca, dentro dessa categoria temática, é a da "produção social e trabalho em saúde e enfermagem", com percentual de 8,4%. Verifica-se que, no período estudado, nenhuma produção se agregou à linha "informação/comunicação em saúde e enfermagem". Esse dado remete à hipótese de que esse campo de estudos ainda é insipiente na enfermagem ou, ainda, que os objetos de estudo ligados a essa linha não se ajustaram à proposta do referencial teórico em questão.

Embora em menor escala (3,1%), verifica-se a aplicação da abordagem teórica em estudo na área da enfermagem em sua interface com o plano das políticas públicas de saúde, envolvendo a compreensão dessas políticas e sua operacionalização articulada com as práticas de enfermagem.

Nos resultados da categoria organizacional, verifica-se uma forma particular de articulação da Teoria das Representações Sociais com o campo da saúde, aqui colocado num plano institucional ou posicional, associado à prática profissional(13). Na análise dos resumos, observa-se que os enfermeiros buscaram apreender o conhecimento constituído pelos profissionais de enfermagem sobre os objetos do cotidiano, principalmente, nas dimensões do processo de trabalho em saúde e de práticas educativas no trabalho.

A categoria profissional, que comportou o menor número de produções científicas (16,8%), é constituída por quatro linhas de pesquisa que estão relacionadas às correntes teórico-filosóficas, teorias e aos conceitos que norteiam o saber e o fazer em saúde e enfermagem, os processos de produção e incorporação de bens e serviços, os aspectos éticos, e o desenvolvimento histórico-social da profissão, das práticas e organizações da enfermagem.

No contexto dessa categoria, a maioria (10,7%) das produções de enfermagem foram classificadas na linha "fundamentos teórico-filosóficos do cuidar em saúde e enfermagem", e no tocante às demais linhas de pesquisa observa-se aproximação muito tímida com as representações sociais, especialmente nas pesquisas que abordam aspectos éticos e históricos relacionados à profissão.

Chama a atenção nesse resultado o fato de que as linhas de pesquisa com as maiores freqüências também têm relação com aspectos do cuidar em saúde e enfermagem, o que reforça a idéia de que essa temática encontrou acolhida nos pressupostos da representação social.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os estudos adotando os pressupostos teóricos da representação social são relativamente recentes no Brasil, principalmente na perspectiva da psicologia social, da qual a enfermagem vem se utilizando com maior freqüência. Apesar de recente, observa-se que essa produção vem apresentando ritmo crescente na abordagem teórica mencionada. Desde as primeiras produções em 1990 até o ano de 2001, foram catalogadas pelo CEPEn/ABEn em torno de 1007 pesquisas e, dessas, 13% estavam relacionadas com esse campo de estudo, o que parece ser significativo, uma vez que se tratar de referencial teórico em meio a dezenas de outros disponíveis para a abordagem social da realidade. Além desse aspecto, se se considerar outros, como a pequena quantidade de pesquisadores envolvidos com essa abordagem teórica na enfermagem no Brasil, que o campo de estudo da representação social comporta vários conceitos e dimensões teóricas e, ainda, que as abordagens plurimetodológicas são particularmente indicadas nesses estudos, fazendo com que a sua assimilação e aplicação nem sempre sejam tarefas fáceis, pode-se inferir que essa é uma vertente teórica de importância para o campo da pesquisa em enfermagem no Brasil.

Pelo crescente interesse que essa abordagem teórica vem suscitando nas diversas regiões do País pode-se evidenciar um movimento para consolidação de novos paradigmas de pesquisa na enfermagem, o que implica na busca de modelos teóricos de explicação capazes de produzir diagnósticos ou resultados que atendam às demandas a ela colocadas.

Outro aspecto a destacar refere-se ao fato de este estudo ter utilizado como fonte de dados os catálogos do CEPEN, uma vez que diversos trabalhos acadêmicos de enfermeiros foram defendidos fora dos programas de pós-graduação em enfermagem, especialmente nas décadas de 80 e 90, quando o acesso ao doutorado em enfermagem ainda era restrito, tendo sido responsáveis por um conjunto de produções não computadas neste trabalho.

Como resultado da análise, pode-se afirmar que a pesquisa utilizando o referencial teórico das representações sociais vem se desenvolvendo, no campo da enfermagem, reafirmando o seu caráter de pesquisa aplicada, voltada aos problemas e objetos oriundos da prática profissional cotidiana do enfermeiro. Por outro lado, o próprio trabalho e o desenvolvimento de novas tecnologias de cuidar em enfermagem também tem orientado essas pesquisas.

Ainda, as características particulares da apropriação da Teoria de Representações Sociais no campo da saúde, destacadas na literatura, especialmente a necessidade de articulação dessa teoria aos paradigmas do próprio campo da enfermagem, a sua apropriação a objetos de estudo característicos de um plano institucional ou posicional, associado à prática profissional, e também a adoção da teoria como forma específica de estudo do saber profissional, modalidade intermediária entre o saber do senso comum e o saber científico foram confirmadas (13).

Por fim, considera-se que este estudo permitiu dar visibilidade à evolução das produções científicas da enfermagem no campo das representações sociais, em relação aos aspectos estudados. Portanto, espera-se que esta iniciativa sirva de estímulo à realização de novas pesquisas que possam fornecer análise mais aprofundada de novas nuances que o uso apenas dos resumos das produções não permitiu realizar.

 

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Recebido em: 11.4.2005
Aprovado em: 10.5.2006