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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.16 no.2 Ribeirão Preto Mar./Apr. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692008000200002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Competências para ação educativa da enfermeira

 

 

Valéria Marli LeonelloI; Maria Amélia de Campos OliveiraII

IEnfermeira, Mestranda, e-mail: valeria.leonello@gmail.com
IIEnfermeira, Professor Assistente, e-mail: macampos@usp.br. Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, Brasil

 

 


RESUMO

Este estudo tem como objeto a interface entre o ensino e a assistência de enfermagem, em sua dimensão educativa.
OBJETIVO: Construir perfil de competências para ação educativa da enfermeira, a partir da perspectiva dos sujeitos envolvidos.
MÉTODO: NO Referencial teórico metodológico o materialismo histórico e dialético, e utilizou-se como categoria conceitual a noção de competência definida por Perrenoud, ancorada nas concepções de trabalho em saúde e no saber operante de Mendes-Gonçalves.
RESULTADOS: A análise do material empírico, resultou a construção de dez competências para ação educativa da enfermeira.
CONCLUSÃO: A necessidade de ressignificar a ação educativa, na perspectiva da Educação Popular, implicando o desenvolvimento de competências mediante oportunidades pedagógicas que, durante a formação inicial, permitam aos estudantes utilizar seus conhecimentos e habilidades em prol de atitude dialógica e de reconhecimento das necessidades dos sujeitos assistidos.

Descritores: educação em enfermagem; educação baseada em competências; competência profissional; cuidados de Enfermagem; educação em saúde


 

 

INTRODUÇÃO

As práticas educativas permeiam todo o trabalho assistencial da enfermeira. Historicamente, tais práticas têm enfatizado a transmissão de informações e a mudança de comportamento dos indivíduos, fortemente vinculadas a um modelo de atenção à saúde, voltado para a doença, com ênfase no conhecimento técnico-científico especializado e na fragmentação das ações de saúde, daí seu caráter autoritário e coercitivo(1). Em razão disso, tais práticas têm se mostrado ineficientes para atender as necessidades de cuidado à saúde de indivíduos, famílias e grupos sociais, pois desconsideram a determinação social do processo saúde-doença e não estão orientadas para promover a participação dos sujeitos sociais no enfrentamento de seus problemas(2).

Como conseqüência, observa-se grande distanciamento entre os projetos educativos desenvolvidos pelas enfermeiras nos serviços de saúde e as necessidades de cuidado da população. As enfermeiras, por sua vez, queixam-se de dificuldades e de falta de competência para desenvolver práticas educativas mais dialógicas e participativas, como aquelas defendidas pela Educação Popular(3-4).

A formação inicial em enfermagem tem papel essencial na formação de competências para ação educativa da enfermeira. As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), em vigor desde 2001, reafirmam a necessidade e o dever das Instituições de Ensino Superior de formar profissionais de saúde voltados para as necessidades do SUS, com a finalidade de adequar a formação em saúde às necessidades de saúde da população brasileira(5).

As DCNs preconizam ainda que a formação de todas as profissões da área de saúde deve estar orientada pelos princípios e diretrizes do SUS, de modo a assegurar a integralidade da atenção, a qualidade e humanização da assistência e o atendimento das necessidades de saúde(5).

Nesse sentido, propõe-se, aqui, a aproximação com a temática da educação em saúde, na perspectiva da Educação Popular, considerando que as práticas em saúde e a formação dos profissionais devem estar alicerçadas pelos princípios e diretrizes do SUS. O desenvolvimento de ações educativas nessa perspectiva requer o desenvolvimento de competências específicas, objetivo esse pretendido neste estudo.

 

OBJETIVOS

- Construir perfil de competências para a ação educativa da enfermeira a partir da perspectiva dos diferentes sujeitos implicados na formação inicial em enfermagem;

- Identificar conhecimentos, habilidades e atitudes para a ação educativa da enfermeira em seu processo de trabalho: assistir.

 

REFERENCIAL TEÓRICO E METODOLÓGICO

Estudo exploratório e qualitativo, que tem como marco teórico-metodológico o Materialismo Histórico e Dialético (MHD), tendo em vista sua contribuição para a investigação e intervenção em enfermagem, ao considerar os fenômenos sociais como parte da realidade.

Tomou-se, aqui, como premissa a ação educativa em saúde na perspectiva da Educação Popular(3-4) e Educação Popular em Saúde(1-2). Adotou-se como categoria conceitual a competência(6), ancorada nas concepções de trabalho em saúde(7) e saber operante(7).

Locais de estudo

Compuseram os locais de estudo: a Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP) e dois serviços de saúde vinculados à USP: o Hospital Universitário (HU) e o Centro de Saúde Escola Butantã (CSE-Butantã).

Sujeitos*

Participaram do estudo cinco grupos de sujeitos: o grupo 1, constituído por cinco docentes da EEUSP; o grupo 2, com cinco alunas concluintes do Bacharelado em Enfermagem da EEUSP; grupo 3, com dez enfermeiras assistenciais, cinco de cada serviço mencionado; grupo 4, com dois gestores, um de cada serviço, e o grupo 5, com oito usuários, cinco do HU e três do CSE-Butantã, totalizando 30 participantes.

Técnicas de abordagem

Utilizou-se a técnica de grupo focal com os docentes e alunos (grupos 1 e 2) e a entrevista semi-estruturada com os participantes dos grupos 3, 4 e 5.

Análise dos dados

Para análise do material empírico, utilizou-se a técnica de Análise de discurso(8). O material das entrevistas e dos grupos focais, gravado e transcrito, resultou em textos discursivos para cada grupo abordado. Realizou-se a leitura dos textos e a seleção de trechos relevantes para a pesquisa. Os discursos selecionados foram recompostos em frases temáticas que, por sua vez, foram organizadas segundo os quatro pilares da educação(9), para cada grupo abordado.

Por último, conhecimentos, habilidades e atitudes de todos os grupos foram articulados e recompostos, à luz do referencial teórico, em um quadro síntese de competências para a ação educativa da enfermeira.

 

RESULTADOS

Por meio da articulação entre conhecimentos, habilidades e atitudes provenientes dos discursos dos sujeitos foi possível elaborar quadro síntese das competências para a ação educativa da enfermeira, a partir da perspectiva dos sujeitos implicados na formação inicial em enfermagem, discutido a seguir.

 

 

DISCUSSÃO

Promover a integralidade do cuidado à saúde

A ação educativa em saúde, como prática dialogada e participativa, tem como objetivo a transformação da realidade de saúde dos sujeitos e grupos sociais assistidos. Considerando a estreita relação existente entre o cuidado à saúde e a integralidade, defende-se que a integralidade deve ser o eixo norteador das ações educativas desenvolvidas nos serviços de saúde(10).

A integralidade é entendida como "um princípio pelo qual as ações relativas à saúde devem ser efetivadas, no nível do indivíduo e da coletividade, buscando atuar nos fatores determinantes e condicionantes da saúde, garantindo que as atividades de promoção, prevenção e recuperação da saúde sejam integradas, numa visão interdisciplinar que incorpore na prática o conceito ampliado de saúde"(10).

Destaca-se a importância da utilização da perspectiva da Educação Popular em Saúde que, ao valorizar o saber dos sujeitos, estimular o diálogo, a participação e a transformação da realidade em saúde, defende que toda ação em saúde é uma ação educativa e, portanto, ação que se aproxima da integralidade do cuidado em saúde, pois assume a articulação entre as atividades de promoção, prevenção e assistência, além do trabalho multiprofissional e intersetorial.

Assumir a integralidade do cuidado como alicerce para o desenvolvimento de ações educativas mais dialogadas e participativas, na perspectiva da Educação Popular em Saúde, implica adotá-la como eixo norteador da formação inicial.

Articular teoria e prática - exercitar a práxis no cuidado à saúde

Para promover a integralidade do cuidado também é necessário articular teoria e prática, ou seja, conhecimento e prática precisam ser constantemente aproximados e confrontados, com vistas a construir a verdadeira práxis na atenção à saúde e nas práticas educativas. Os discursos do grupo 1, constituído por docentes, enfatizaram a necessidade de levar a aluna de enfermagem, futura enfermeira, a aprender a exercitar a práxis no cuidado à saúde durante sua formação inicial.

A práxis é reflexão e, ao mesmo tempo, ação dos homens sobre o mundo, com o objetivo de transformá-lo, pois, "num pensar dialético, ação e mundo, mundo e ação, estão intimamente solidários. Mas, a ação só é humana quando, mais que um puro fazer, é um que fazer, quando também não se dicotomiza da reflexão"(4).

Além disso, a práxis constitui um processo de ação-reflexão que tem o potencial de transformar a realidade. Exercitá-la no cuidado à saúde, no que se refere às ações educativas, implica fazer do trabalho de enfermagem uma prática reflexiva, questionadora e com potencial para transformar a realidade em saúde e promover a integralidade do cuidado.

Promover o acolhimento e construir vínculo com os sujeitos assistidos

A noção de acolhimento aqui adotada refere-se à postura diante do usuário, ou seja, a atitude do profissional frente aos usuários dos serviços e suas necessidades. Nesse sentido, promover o acolhimento significa exercitar a escuta ampliada das necessidades de saúde dos sujeitos(11). Essa perspectiva foi traduzida nos discursos de professoras, enfermeiras, alunas e gestores como forma de "reconhecer e saber ouvir as necessidades de saúde dos sujeitos" e, para os usuários, como forma de "oferecer atenção" às pessoas durante a assistência.

Exercitar escuta por meio do acolhimento requer que o profissional de saúde também se envolva e se comprometa com os sujeitos e suas necessidades. Esse envolvimento e comprometimento podem ser expressos pelo vínculo. Por isso, a competência foi denominada promover o acolhimento e construir um vínculo com os sujeitos assistidos, pois se entende que não é possível fazer acolhimento das necessidades de saúde das pessoas, ouvindo-as e compreendendo-as, sem se comprometer.

Construir vínculos significa manter relações próximas e claras com os sujeitos assistidos, sensibilizar-se com o seu sofrimento, facilitar a construção de sua autonomia, responsabilizar-se pelo cuidado e saber relacionar-se e integrar-se com esses sujeitos, no próprio serviço de saúde e na comunidade(12).

Para realizar ações educativas em saúde mais dialogadas e participativas, torna-se fundamental que os profissionais de saúde, dentre eles a enfermeira, consigam em sua prática profissional promover o acolhimento e construir vínculos com os sujeitos assistidos, com vistas a compreender, reconhecer e comprometer-se em atender suas necessidades de saúde.

Reconhecer-se e atuar como agente de transformação da realidade em saúde

Segundo a perspectiva da Educação Popular, a transformação da realidade só é possível por meio da ação dos seres humanos, que devem ser sujeitos e não objetos de transformação. Trazendo as contribuições dessa perspectiva para a área da saúde, pode-se dizer que o profissional frente à realidade de atenção à saúde, observando e convivendo com a freqüente desumanização da assistência, a precariedade dos serviços e de seu próprio trabalho, a desvalorização do ser humano – de si próprio, enquanto trabalhador de saúde e do usuário – desenvolve alguma postura que pode ser crítica e reflexiva ou acrítica e conformista.

Há que se considerar os inúmeros condicionantes da ação profissional no contexto dos serviços de saúde, em seus limites conjunturais e estruturais. Entretanto, os sujeitos não podem ser neutros, ou melhor, não são neutros frente à realidade na qual se inserem. Dito de outra maneira, ou são a favor da transformação e da mudança ou são favoráveis ou coniventes, de alguma forma, com a permanência da situação(3).

Pensando na ação educativa em saúde como prática essencialmente transformadora da realidade em saúde, que só se realiza com a participação dos sujeitos nela envolvidos, faz-se necessário que o profissional de saúde se reconheça como agente de transformação dessa realidade e que, reconhecendo-se, possa atuar em práticas educativas que promovam tal transformação.

Para a enfermagem, esse é um desafio em especial, já que se trata de uma profissão essencialmente feminina, caracterizada por uma prática historicamente associada à função social da mulher - o cuidado. A enfermagem carrega consigo dupla e histórica subordinação, ou seja, a social, representada pela subordinação ao trabalho médico, e a de gênero, representada pela subordinação ao masculino(13).

Dessa forma, reconhecer-se como agente de transformação da realidade em saúde significa, para a enfermeira, dentre outros desafios, a necessidade de redefinir sua prática assistencial, lutando pela transformação de sua subalternidade social e por atenção à saúde integral e humanizada que atenda as necessidades de saúde dos sujeitos que dela necessitam.

Respeitar a autonomia dos sujeitos em relação aos seus modos de andar a vida

A autonomia é aqui entendida como a possibilidade de os sujeitos reconstruírem os sentidos de sua vida, ressignificando, assim, seu modo de viver e de andar a vida(14).

Para que o usuário possa construir sua autonomia, é necessário, primeiramente e dentre outros aspectos, que o profissional de saúde tenha para com ele atitude de respeito e de reconhecimento(15). Essa atitude de respeito em relação à autonomia dos sujeitos sempre causou e ainda causa certo desconforto para os profissionais de saúde. Isso porque muitos tendem a considerar que a posse do conhecimento técnico-científico, socialmente reconhecido, lhes confere a prerrogativa de definir como os usuários devem enfrentar seus problemas de saúde.

É preciso reconhecer que os sujeitos assistidos, pelas suas vivências e experiências, desenvolvem determinada compreensão sobre as condutas e recomendações defendidas pelos serviços de saúde e, conseqüentemente, certas atitudes em relação às mesmas. Dentre os muitos desafios para os profissionais de saúde e para as enfermeiras está o exercício cotidiano de reconhecimento e respeito à autonomia das pessoas, em relação ao seu modo de andar a vida, como forma de reafirmar o compromisso com a atenção à saúde integral e humanizada e, portanto, como norte para o desenvolvimento de ações educativas nos serviços.

Reconhecer e respeitar o saber de senso comum, reconhecendo a incompletude do saber profissional

O termo senso comum tem origem na filosofia e está relacionado, de maneira geral, aos conhecimentos e saberes originados nas vivências cotidianas e, portanto, voltados para ela. Como é um saber construído no cotidiano, não é legitimado socialmente.

Já o saber científico, expresso na forma do saber profissional, é o que tem legitimidade perante a sociedade, constituindo-se, portanto, saber válido e que deve ser difundido.

Na história das práticas educativas em saúde do Brasil, observa-se que a valorização do saber científico, em detrimento do saber de senso comum, contribuiu para a atenção à saúde mais voltada para as demandas dos serviços e de seus profissionais, do que para as necessidades dos sujeitos assistidos(1).

A hierarquização entre o saber científico e o saber de senso comum também contribuiu para desenvolver postura onipotente do profissional de saúde que, possuidor do saber legítimo, deprecia e desqualifica o saber de senso comum, invalidando-o. Essa postura diante do outro faz com que o profissional não se comprometa verdadeiramente com os sujeitos que assiste, distanciando-se cada vez mais deles(4).

Não se trata, entretanto, de valorizar um saber em detrimento de outro. É claro que o saber de senso comum está cheio de contradições, incertezas, limites e até mesmo preconceitos, assim como o saber científico, ainda que esse último se ancore nas "certezas" científicas indiscutíveis.

Para ser dialógica, a ação educativa precisa reconhecer e respeitar como legítimo e válido o saber de senso comum, em geral subsumido ao saber científico na atenção à saúde. Reconhecer e respeitar o saber de senso comum pressupõe reconhecer a incompletude do saber profissional, o que não significa abdicar do conhecimento científico produzido ou submetê-lo ao senso comum. Trata-se de reconhecer que há diferentes saberes, dentre eles, o saber profissional, que também é incompleto, ou seja, está em constante construção e, por isso, precisa ser reformulado, contextualizado, confrontado e aproximado de outros saberes, principalmente, o de senso comum, para se transformar em conhecimento útil.

Utilizar o diálogo como estratégia para a transformação da realidade em saúde

Define-se o diálogo como um encontro de seres humanos para um saber agir comum. O diálogo se estabelece a partir de quatro elementos: o amor ao mundo dos sujeitos, a humildade, a fé nos homens e o pensar crítico(4).

Defendendo esses alicerces para a construção do diálogo, acredita-se na possibilidade de uma relação pedagógica horizontal, no qual a confiança em um pólo - do educando - seria a conseqüência para o outro pólo, do educador(4).

Historicamente, as ações educativas nos serviços de saúde prestaram-se mais a legitimar o saber técnico-científico e impô-lo à população, do que propriamente promover o diálogo compartilhado e participativo com esses sujeitos, na busca por um projeto comum capaz de enfrentar os problemas de saúde e atender as necessidades de saúde dos sujeitos.

As experiências que utilizaram a perspectiva da Educação Popular como método norteador para ações educativas nos serviços de saúde foram marcantes ao romper com a tradição normativa e autoritária das relações entre profissionais e usuários e construir relação mais horizontal, participativa, tomando o diálogo como estratégia para o enfrentamento dos problemas de saúde e para a transformação dessa realidade(16).

Operacionalizar técnicas pedagógicas que viabilizem o diálogo com os sujeitos assistidos

Para utilizar o diálogo como estratégia para transformação da realidade de saúde, a enfermeira necessita apropriar-se de técnicas pedagógicas, em especial as técnicas grupais, definidas como "conjunto de procedimentos que, aplicados a uma situação de grupo favorece a consecução dos objetivos grupais: coesão, interação, produtividade e gratificações grupais"(17).

No campo das práticas educativas em saúde, observa-se atualmente grande preocupação com a questão da abordagem de grupos. A utilização de técnicas grupais revela-se importante ferramenta de trabalho para a enfermeira em atividades educativas com sujeitos coletivos, principalmente aquelas que adotam perspectiva pedagógica dialogada e participativa, como a da Educação Popular em Saúde. Ainda, assim, verifica-se que a formação inicial dos profissionais dessa área, entre elas a de enfermagem, ainda não permite o desenvolvimento de competências em relação às técnicas grupais.

Durante a formação inicial, a aluna de enfermagem necessita ter contato com diferentes técnicas grupais, apropriando-se dos conhecimentos e habilidades necessários para conduzi-las quando nos serviços de saúde. É preciso, entretanto, entendê-las como meios para alcançar uma finalidade e nunca como uma finalidade em si mesmas(17). As técnicas grupais podem ser usadas para promover e viabilizar o diálogo como estratégia de transformação da realidade em saúde.

Instrumentalizar os sujeitos com informação adequada

No campo das práticas educativas em saúde, a "educação bancária", definida pela Educação Popular como método no qual o educador "deposita" no educando informações e conhecimentos legitimados e comprovados cientificamente, vem se mostrando ineficiente, pois não considera o modo de vida das pessoas e a compreensão que têm em relação à sua saúde.

A competência para instrumentalizar os sujeitos com informação adequada refere-se ao provimento da informação necessária aos sujeitos para que possam refletir e exercer análise crítica acerca de sua realidade(3-4).

Como o profissional de saúde pode lançar mão desses conhecimentos em sua prática educativa? Propõe-se que o profissional de saúde tenha sempre uma "mochila" repleta de saberes, conhecimentos ou informações, lançando mão de seus conteúdos. Alerta-se, entretanto, para o risco de "despejar" todo o conteúdo da mochila. Recomenda-se o bom senso de utilizar a informação conforme a necessidade dos sujeitos(2) . Além disso, o conteúdo da mochila não é algo acabado, pronto, completo. Ele pode e deve ser construído com os sujeitos assistidos.

Valorizar e exercitar a intersetorialidade no cuidado à saúde

Para superar os problemas de saúde da realidade brasileira, marcada cada vez mais pela complexidade e diversidade, é necessário reconhecer que o setor saúde não consegue resolver sozinho, ou elaborar estratégias de enfrentamento dessa realidade, se fechado em si mesmo, em seus saberes e práticas profissionais.

Torna-se cada vez mais urgente e necessária a valorização e o exercício da intersetorialidade, ou seja, a construção de parcerias com os diferentes sujeitos envolvidos e comprometidos com uma nova realidade de saúde(18).

A intersetorialidade envolve, ação coletiva e organizada que pressupõe o respeito à diversidade e às singularidades de cada sujeito, seja ele individual ou coletivo, social ou institucional. Aproxima-se, então, do entendimento de educação dialógica defendida por Freire, na qual são necessários o diálogo e a participação de todos os sujeitos.

Sabe-se que a heterogeneidade e a diversidade dos sujeitos, expressas nos seus interesses e reivindicações, são elementos que tornam a ação intersetorial uma prática processual, que se constrói na medida em que há o reconhecimento mútuo(18).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O perfil de competências para ação educativa da enfermeira expressa em grande medida a necessidade de ressignificar a ação educativa no cuidado à saúde, ressignificação que pressupõe não só a contextualização das práticas educativas na história da saúde brasileira, mas também a observação e a avaliação de tais práticas, procurando identificar suas possibilidades e limites, pontos de convergência, ou dissonância, com o propósito de aproximá-las da perspectiva da Educação Popular em Saúde.

Tal superação leva a considerar a ação educativa não só como uma atividade a mais, realizada nos serviços de saúde, mas como prática que alicerça e reorienta toda a atenção à saúde.

Sabe-se que a construção de um perfil de competências, por si só, não garante a renovação das práticas educativas em saúde. É necessário investir também na discussão e reflexão sobre a forma como esse perfil pode ser operacionalizado no cotidiano dos serviços e no ensino de enfermagem(6).

Construir perfil de competências para a ação educativa da enfermeira no seu processo de trabalho assistencial é, portanto, uma das tarefas que se coloca para a formação inicial em enfermagem na interface entre o ensino e o processo de trabalho em enfermagem. Este estudo tem o propósito de contribuir nessa direção.

 

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Recebido em: 3.5.2007
Aprovado em: 10.1.2008

 

 

* A pesquisa foi aprovada pelos Comitês de Ética e Pesquisa dos respectivos locais estudados. Os sujeitos foram abordados, respeitando-se o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, fundamentado na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.