SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.16 special issueConsumption of energy drinks among physical education studentsUndergraduate students' motivations for the consumption of legal drugs author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Latino-Americana de Enfermagem

On-line version ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.16 no.spe Ribeirão Preto July/Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692008000700010 

ARTIGO ORIGINAL

 

O trabalho do acadêmico de enfermagem como fator de risco para o consumo de álcool e outras drogas1

 

 

Elias Barbosa de OliveiraI; Antonia Regina Ferreira FuregatoII

IEnfermeiro, Doutor em Enfermagem, Professor Adjunto da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e-mail: eliasbo@tutopia.com.br
IIDoutora em Enfermagem, Professora Titular da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Brasil, e-mail: furegato@eerp.usp.br

 

 


RESUMO

Estudo qualitativo descritivo que objetivou descrever os fatores de risco no ambiente de trabalho para o consumo de álcool e outras drogas, e também ratificar a importância dos fatores protetores. Utilizou-se entrevista com roteiro em 51 acadêmicos de enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro que atuam nos serviços de saúde do município.
RESULTADOS: os alunos referiram ao trabalho como fator de risco para o consumo de drogas como o álcool, cigarro e ansiolíticos. Concluiu-se que na abordagem da prevenção, deve-se trabalhar com metodologias participativas e valorizar as experiências pregressas dos alunos, o convívio familiar e grupal, e as características individuais. Recomenda-se atenção aos fatores protetores.

Descritores: enfermagem; bebidas alcoólicas; ansiolíticos; estudantes de enfermagem


 

 

INTRODUÇÃO

Estudos nacionais e internacionais e a própria realidade têm mostrado que o uso e o abuso de drogas vêm aumentando significativamente, com conseqüências graves para a saúde dos indivíduos e com altos custos para o sistema de saúde e para a sociedade. Essa situação exige maior atenção tanto dos governantes como dos profissionais da saúde. O estresse, o desemprego, a violência e as condições precárias de atenção à saúde e à educação são fatores de grande impacto social e emocional na vida das pessoas, mantendo um nexo causal ou consequencial do uso abusivo das drogas(1).

Na área da saúde, constata-se que o trabalhador de enfermagem, hoje, enfrenta uma diversidade de situações em sua vida pessoal e profissional geradoras de estresse físico e emocional, ao lidar com a dor e o sofrimento dos clientes, as jornadas ocupacionais repetitivas e intensivas, defrontando-se em seu trabalho com uma possibilidade concreta de uso de substâncias psicoativas(2).

Tal possibilidade, também deve ser pensada em relação ao acadêmico de enfermagem, pois apesar de ser um trabalhador temporário, ele está sujeito ao desgaste psicofísico em função das atividades acadêmicas e do convívio com os riscos no ambiente de trabalho de trabalho de natureza ergonômica, psicossocial e organizacional; fatores que podem manter um nexo causal ou consequencial para o consumo de drogas. Assim o acadêmico ao ser inserido no mundo do trabalho, na modalidade de ensino teórico-prático denominado internato, vivencia o que é ser enfermeiro, porém com o agravante de não possuir a qualificação e as habilidades exigidas pela organização.

O internato, modalidade de ensino adotado pela Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FENF/UERJ), desde 1982, tem como objetivo propiciar ao graduando uma práxis reflexiva, sendo exigido o cumprimento de uma carga horária de 40 horas semanais de trabalho nas unidades de saúde do município, sob a supervisão de professores e enfermeiros. Com as mudanças realizadas no currículo de graduação da FENF/UERJ em 1996 e a extinção das habilitações, a modalidade de internato foi mantida, sendo incluídas na grade curricular atividades práticas em unidades de maior complexidade e dentre elas emergência, unidades de tratamento intensivo e de doenças transmissíveis.

Com a inclusão de unidades de maior complexidade na formação do enfermeiro, o acadêmico passou a conviver com situações de visível desgaste psicofísico devido a pouca familiaridade com o processo de trabalho, agravada pela falta de controle e de poder decisório. Nestas circunstâncias, o sofrimento advém da tensão permanente em ter que lidar com situações de pouca ou nenhuma familiaridade o que dificulta a previsão e o desenrolar das ações, bem como enfrentar os problemas inerentes ao processo e os imprevistos(3).

Deste modo há de se considerar a possibilidade do trabalho atuar como fator de risco para o consumo de drogas pelo acadêmico como estratégia (disfuncional) para lidar com as pressões da vida acadêmica. Esse comportamento, associado a outros fatores de risco (influência grupal, antecedentes familiares de dependência, expectativas positivas quanto ao uso) acaba por facilitar o aparecimento de problemas relacionados ao consumo(4).

Estabelecer uma causa para a prevalência ou o consumo de drogas entre estudantes universitários não é tarefa das mais fáceis, pela multiplicidade de fatores que se conjugam. No entanto, fatores estressantes ou desencadeantes como a pressão devido a uma carga horária excessiva, independência financeira tardia, maior quantidade e responsabilidade de trabalho (o aluno lida com a vida, com o sofrimento humano e a morte) além da privação do convívio familiar e lazer, são possivelmente importantes fatores na gênese desta ocorrência(5).

O objeto de estudo desta pesquisa foi o trabalho do interno de enfermagem como fator de risco para o consumo de álcool e outras drogas e se justifica devido à escassez de pesquisas na enfermagem que discutam esta problemática.

Os OBJETIVOS deste estudo foram: descrever os fatores de risco no ambiente de trabalho em saúde para o consumo de álcool e outras drogas aos quais os acadêmicos encontram-se expostos e ratificar a importância dos fatores protetores como estratégia de prevenção ao uso e abuso de drogas.

 

MATERIAL E MÉTODO

Trata-se de pesquisa descritiva com abordagem qualitativa que permite desvelar processos sociais pouco conhecidos. O projeto foi aprovado por Comitê de Ética atendendo à Resolução 196/96. Na assinatura do consentimento livre e esclarecido, enfatizou-se que a identidade dos entrevistados seria preservada e que em qualquer momento poderiam desistir da participação no estudo. Esclareceu-se que os resultados seriam divulgados através de artigos e apresentação em eventos, no intuito de contribuir para a pesquisa e o ensino na área.

Optou-se pela entrevista semi-estruturada que combina perguntas fechadas (ou estruturadas) e abertas, onde o entrevistado tem a possibilidade de discorrer sobre o tema proposto, sem respostas ou condições prefixadas pelo pesquisador(6). Utilizou-se um questionário contendo: na primeira parte, o perfil sociodemográfico do grupo; na segunda parte, sete questões abertas sobre a relação trabalho e uso de substâncias psicoativas e na terceira parte dois quadros contendo dados referentes ao uso e a classificação de substâncias psicoativas, para que o entrevistado registrasse as suas experiências. As entrevistas ocorreram na FENF/UERJ, em local privativo no horário de 13 às 16 horas e em quatro encontros (grupos de no máximo 15 alunos). Optamos por trabalhar com grupos para facilitar a coleta de dados, no entanto, cabe destacar que os instrumentos foram preenchidos individualmente e mantidos todos os procedimentos no que se referiram ao anonimato.

Para a categorização dos dados, utilizou-se a análise temática, por ser considerada a mais rápida e eficaz, pois se aplicava a conteúdos diretos (manifestos) e simples(7).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Perfil sociodemográfico dos sujeitos

Participaram do estudo 51 acadêmicos cursando os dois últimos períodos de graduação em enfermagem, respeitando-se os critérios de inclusão adotados. São adultos jovens com idade variando de 21 a 29 anos, estando a maior concentração (75%) entre os 21 e 24 anos. Vivem um momento de transição em suas vidas, principalmente no que se refere à dependência familiar, à formação, às expectativas em termos de entrada no mercado de trabalho e de planos futuros.

Na atualidade, percebe-se que por conta dos aspectos econômicos na maioria dos países, a questão do ingresso no mercado de trabalho e a posterior independência financeira parece estar deixando a "adolescência" mais prolongada nas camadas médias e altas. Enquanto nas camadas populares tornar-se adulto está, em geral, associado ao fato de conseguir sustentar-se economicamente, nas classes médias e altas existem outros ritos de passagem tais como o vestibular e o exercício de profissões de prestígio social(8).

Os sujeitos deste estudo pertencem à classe média, cuja renda salarial ficou em torno de cinco salários mínimos. Moravam em casa própria (83%), e com os pais no município do Rio de Janeiro (90%); são solteiros (100%); do sexo feminino (83%); declararam ter a cor da pele branca (61%), parda (24%), negra (9,5%). As religiões referidas foram católica (42%), espírita (24,5%) e evangélica (13%).

Inserção dos acadêmicos nos campos de práticas: o sofrimento no trabalho

Após cumprir os sete primeiros períodos de graduação que incluem atividades teóricas e práticas (estágios), o acadêmico retorna aos campos, no oitavo e no nono períodos, na modalidade de internato em horário integral.

No oitavo período, o aluno cumpre uma carga horária semestral de 1060 horas, atuando nos centros de saúde, no programa de saúde da família, nos hospitais e ambulatórios, desenvolvendo atividades de prevenção primária e secundária com diferentes grupos humanos e faixas etárias distintas.

No nono período, por já ter avançado em algumas competências, o aluno cumpre outras 1060 horas nas unidades de maior complexidade como: emergência, centro de terapia intensiva de adulto e neonatal, unidade coronariana, psiquiatria, maternidade, centro cirúrgico, clínica cirúrgica e supervisão no hospital geral. A média de permanência dos acadêmicos em cada cenário, dependendo dos objetivos propostos, pode variar de uma a três semanas.

Apesar das estratégias de ensino-aprendizagem adotadas pela coordenação de graduação que inclui: a programação com os objetivos a serem alcançados em cada área; a supervisão direta dos professores e os sistemas de avaliação que, proporcionam a discussão e a busca de soluções para os problemas enfrentados nos campos, inexistem pesquisas na instituição que abordem tais problemas na formação.

Os resultados do presente estudo são o produto da análise de situações de trabalho vivenciadas pelo grupo - utilizadas como pano de fundo - para discutir o seu próprio cenário de estágio / trabalho como fator de risco para o consumo de álcool e outras drogas.

Dentre os problemas referidos pelos acadêmicos que contribuem para o desgaste psicofísico ressalta-se: deslocamento de um campo para outro; falta de afinidade com o trabalho desenvolvido nestes espaços; precariedade das condições de trabalho; risco de exposição a materiais biológicos; necessidade de se adaptarem rapidamente ao ritmo de trabalho de cada local de estágio.

Como os acadêmicos são "trabalhadores temporários", portanto, não fazem parte do quadro efetivo das instituições onde estagiam, a passagem pelos respectivos cenários contribui para o sofrimento no trabalho em função dos seguintes fatores: o curto tempo de permanência nestes espaços, a necessidade de se adaptarem rapidamente às exigências impostas pela organização, a convivência nem sempre pacífica com as equipes, a desqualificação decorrente do desconhecimento de algumas tecnologias e a pouca familiaridade com o processo de trabalho.

O acadêmico encontra-se em fase de aquisição de conhecimentos lidando com situações novas. O trabalho suscita tensão e ansiedade, assim como sentimentos de impotência, frustração e baixa estima, principalmente quando seu desempenho não corresponde às expectativas dos professores, dos demais trabalhadores, do cliente ou a sua própria.

Enquanto para os trabalhadores formais existe um espaço de liberdade entre o trabalho prescrito e o real, que possibilita a criação de estratégias de enfrentamento de modo a se manterem no trabalho, apesar das exigências da organização(9), para os acadêmicos este espaço é restrito. Contribui para esta restrição a inexperiência, a necessidade de seguir o estabelecido, o medo de incorrer em erros e as poucas experiências anteriores que nem sempre possibilitam o rearranjo diante de situações novas e imprevisíveis.

Face a esta situação, o aluno encontra-se em um nível maior de dependência do professor e dos demais trabalhadores em relação processo de trabalho. Esta dependência aumenta em função da complexidade das tarefas e das adversidades.

O trabalho real incita o acadêmico a lidar com uma diversidade de tecnologias relacionadas ao cuidado, com as condições de trabalho, com o ambiente e com as adversidades. Estas adversidades vinculam-se ao relacionamento interpessoal, pois como referido pelo grupo, alguns membros das equipes, principalmente de enfermagem e de medicina, por já terem o domínio do processo de trabalho, por vezes exigem do aluno, conhecimentos, rapidez e tomada de decisão que extrapolam a sua capacidade.

Esta vivência do aluno nos campos de prática vai ao encontro do conceito clássico da organização do trabalho com divisão de tarefas, ritmos impostos e modos prescritos, e especialmente divisão de homens para garantir a execução das tarefas representadas pelas hierarquias, repartições de responsabilidade e sistemas de controle(9).

Na visão do aluno, o trabalho nem sempre corresponde às expectativas dos trabalhadores, em termos de desempenho. Cria-se um clima de animosidade, de pouca receptividade referidas pelo grupo a partir de atitudes dos trabalhadores como impaciência, indiferença, apatia, irritação, cobranças e pressão para o cumprimento da tarefa.

A posição assumida pelos profissionais reproduz as exigências da organização de forma pouco flexível, o que pode propiciar a tensão no ambiente de trabalho, gerar insegurança e desmotivação no acadêmico.

Compete ao professor identificar as limitações técnicas e de relacionamento interpessoal do aluno, principalmente nas situações que exigem rapidez nas ações ao lidar com o imprevisível, compartilhar a dor e o sofrimento dos pacientes sob seus cuidados(10).

Implicações psicofísicas decorrentes do trabalho do interno nas unidades de saúde

O acadêmico de enfermagem, ao ingressar no internato, desenvolve atividades teórico-práticas previstas currículo em horário integral. Nos plantões de final de semana, o aluno fica sob a supervisão do enfermeiro, compartilhando do trabalho com as equipes locais e vivenciando os problemas de ordem administrativa e assistencial. Dependendo da dinâmica do setor, das condições do trabalho e da gravidade dos clientes, a carga de trabalho e as exigências aumentam o que propiciam o desgaste psicofísico, principalmente em função da tecnologia e do pouco domínio do processo de trabalho.

Portanto é mister ratificar que cabe à organização do trabalho grande responsabilidade na manutenção de condições dignas de trabalho aos trabalhadores de enfermagem. Assim, muito precisa ser feito para que o desempenho do trabalhador de saúde seja correto e o mais isento possível de erros e acidentes. Para tanto, treinamento e atualização, assim como boas condições de trabalho, são tão ou mais importantes do que a própria tecnologia(11).

Questionados sobre como se sentiam diante dos inúmeros problemas durante o internato, os acadêmicos referiram queixas de ordem subjetiva: irritação (33%), ansiedade (21, 5%), estresse, (21%) e tensão (19,7%). Tais expressões vão ao encontro de palavras-índice como "penosidade". O trabalho é penoso quando o seu contexto gera incômodo, esforço e sofrimento demasiado, especialmente se o trabalhador não tem controle nem capacidade de intervir nas situações que imprimem sofrimento psíquico(3).

Além das queixas subjetivas, foram identificadas as psicofísicas: cansaço geral (44%), cefaléia (21%), alterações do padrão de sono (19,5%) (insônia e sonolência durante o dia), problemas dermatológicos (17,5%) (descamação, seborréia, alopecia), problemas gastrintestinais (15%) (diarréia, constipação, cólicas) instabilidade do humor (13, 7%) e alterações do peso corporal em alguns casos aumento e em outros perda (11,5%).

As queixas de ordem objetiva e subjetiva evidenciam que o acadêmico sofre de estresse decorrente do trabalho e estudar a sua manifestação entre enfermeiros possibilita compreender e elucidar alguns problemas, tais como a insatisfação profissional, a produtividade do trabalho, o absenteísmo, os acidentes de trabalho e algumas doenças ocupacionais, além de permitir a proposição de intervenções e a busca de soluções(12).

Infere-se que a organização do trabalho atua na gênese do sofrimento psíquico, levando à insatisfação e conseqüente agressão à vida psíquica, através de alguns elementos facilmente identificáveis, quais sejam: as jornadas prolongadas de trabalho, os ritmos acelerados de produção, a pressão claramente repressora e autoritária instalada numa hierarquia rígida e vertical, a inexistência ou exigüidade de pausas para descanso ao longo das jornadas, a falta de controle do trabalhador sobre a execução do trabalho, a alienação do trabalho e do próprio trabalhador, a fragmentação de tarefas e a desqualificação para o trabalho realizado(13)

O trabalho do interno nas unidades de saúde como fator de risco para o consumo de álcool e outras drogas

Na análise do trabalho como fator de risco para o consumo de drogas há que se atentar para as condições objetivas e as subjetivas e, neste caso, destacam-se as dimensões cognitivas e afetivas inerentes à história de vida, valores e desejos do acadêmico frente à organização do trabalho. Portanto, para se pensar a preven-ção é preciso olhar o indivíduo enquanto sujeito, em um dado contexto ambiental, social, cultural e político bem como estudar os fatores de risco e os fatores protetores à saúde relacionados(14)

Considerando o contexto de trabalho e a sua vinculação com o consumo de drogas, 47% dos acadêmicos responderam que além de estabelecerem a relação, o trabalho é tão desgastante que as drogas são utilizadas como válvula de escape ou como uma forma de relaxar, devido à pressão que sofrem para dar conta das inúmeras atividades.

Ao se referirem aos colegas do internato, 54.9% dos acadêmicos afirmaram que ingerem bebidas alcoólicas em festas e encontros para extravasar, para aliviar o estresse e para obter prazer; 9.8% relataram que o consumo de cigarros e álcool aumentou com a entrada no internato e 3.8% sabem de colegas que utilizam ansiolíticos para dormir. Os demais (17.6%) não souberam opinar, 9.8% não estabeleceram relação entre o trabalho como acadêmico e o consumo de drogas e 4.1% apenas afirmaram não saber acerca do uso de drogas pelos colegas.

No intuito de apreender as experiências dos acadêmicos relacionadas ao uso de drogas que podem ter ocorrido mesmo antes do ingresso na universidade, foi apresentado um quadro sobre o uso e a freqüência dos principais tipos de drogas lícitas e ilícitas para que o grupo registrasse as experiências.

Após consultar o quadro, os acadêmicos responderam que 30% já experimentaram bebidas alcoólicas, 88% fazem uso esporádico, principalmente nos encontros em grupo e festas, 19% utilizam freqüentemente. Ao comparar os alunos dos 8° e 9° períodos constatou-se que o consumo de álcool ampliou-se no 9° período em todos os itens ao afirmarem já terem experimentado, fazerem uso esporádico e utilizarem sempre. Cabe salientar que enquanto no 8° período, 17% dos acadêmicos alegaram nunca ter experimentado bebidas alcoólicas, no 9° período todos os 27 alunos tiveram algum tipo de experiência.

Sobre o cigarro, 54% nunca experimentaram, 25,5% experimentaram e 13% fazem uso freqüente. As experiências relacionadas ao consumo de cigarros ampliou-se no 9° período com aumento significativo (experimentado, fazer uso freqüente e sempre utilizar). Os dois últimos itens não apareceram no 8° período.

Os ansiolíticos são citados como a terceira droga lícita com maior freqüência sendo que, 75% alegaram nunca ter experimentado 5,5% experimentaram 7,5% utilizam esporadicamente e 4% fazem uso freqüente. Estes resultados referem-se ao total dos acadêmicos, independente do período em que se encontram. No entanto, observou-se que no 8° período, apenas um aluno referiu o uso contínuo de ansiolíticos, no 9° período 11 alunos experimentaram, 15 usam esporadicamente e um aluno usa sempre.

O uso de ansiolíticos entre os acadêmicos pode estar vinculado às exigências impostas pelo trabalho, ao referirem irritação, ansiedade e estresse; 68,5% consideram-se insatisfeitos com as horas de sono e 63% apresentam problemas relacionados ao sono (insônia, agitação durante o sono e sonolência durante o dia) acompanhados de irritabilidade e diminuição da concentração.

Quanto às drogas ilícitas, apenas a maconha foi citada por 9,5% de alunos que alegam ter experimentado e 4% que fazem uso esporádico. Deste modo o álcool, o cigarro e os ansiolíticos são as drogas de uso mais freqüente no grupo, provavelmente por serem de fácil acesso e mais toleradas socialmente. Com exceção dos ansiolíticos há de se considerar a influência da mídia (televisão e cinema) que ainda associam o álcool e o cigarro ao prazer.

Observa-se o risco das experiências relacionadas ao consumo de drogas. Analisando a história natural da doença "dependência de substâncias psicoativas", reconhecem-se os estágios iniciais de experimentação e uso esporádico, em que o consumo destas drogas é quase sempre de desejo do indivíduo. Em determinado momento, com a adição de uma ou mais substâncias, o "usuário" perde o controle sobre o consumo, tornando-se um "dependente" quando a vontade de consumi-las torna-se compulsiva e as vezes irresistível, mesmo após um período de abstinência(15)

Fatores protetores contra o risco do trabalho em saúde para o consumo de drogas entre os internos

Os fatores protetores fazem parte de uma política de prevenção ao uso e abuso de droga cujas ações têm como objetivo fornecer informações e educar os jovens para adotarem hábitos saudáveis e protetores em suas vidas, na expectativa de que essas pessoas não utilizem, diminuam ou parem de consumir drogas, devendo ser estimulados pelas escolas e comunidade, com o apoio do Estado. Tais fatores são implementados e fortalecidos a partir de uma gama de atividades sociais e esportivas que despertem no jovem o interesse por leitura, música, dança, atividades artesanais e esportes.

Tradicionalmente, a educação tem sido o celeiro da prevenção, mas sozinha pouco irá conseguir, pois precisa da aliança com a família e do apoio da comunidade para desenvolver estratégias contextualizadas, estabilizando as condições sociais e garantindo o melhor para todos. A escola como espaço ideal de prevenção trouxe diversas metodologias, definindo o seu papel de pólo irradiador de ações de prevenção para os diferentes seguimentos sociais(16)

Como os jovens estão ingressando em idade cada vez mais precoce na graduação (alguns em plena adolescência) as universidades devem ter uma política de prevenção que contemple os fatores protetores a partir de estudos que considerem o perfil do grupo, os hábitos, os costumes, os conhecimentos sobre o fenômeno drogas na sociedade e o modo como aplicam esses conhecimentos em suas vidas.

Dentre os fatores protetores referidos pelos acadêmicos, 60,7% buscam alguma forma de entretenimento (passear, viajar, ver tv, ler livro, cuidar de plantas, namorar); 21.5% exercitam-se (ginástica), apesar do pouco tempo livre e de se sentirem cansados; 17.6% optam pelo descanso. Observe-se que 68.5% dos acadêmicos sentem-se insatisfeitos com as horas de sono. Ratificaram a importância do apoio da família neste momento da formação, afinal é no universo da família que acontecem as trocas afetivas, marcantes para os indivíduos e decisórias no modo de ser e agir consigo mesmo e com os outros. A família tem a responsabilidade na transmissão dos valores sociais e a função de cuidadora de seus membros, os quais convivem por afetividade, assumindo compromissos de cuidado mútuo(17).

 

CONCLUSÕES

O acadêmico de enfermagem, por ter a adolescência postergada em função dos estudos, da dependência familiar e da entrada tardia no mercado de trabalho encontra-se vulnerável ao apelo das drogas, sejam lícitas ou ilícitas.

A relação com o trabalho em unidades de saúde do município e o consumo destas drogas foi referida como uma forma de minimizar o desgaste psicofísico decorrente das diversas atividades acadêmicas e dentre elas o trabalho nos campos de prática.

Além das atividades acadêmicas, as de cunho social podem funcionar como fatores de risco, rompendo o equilíbrio entre os fatores protetores. Estar com a família, passear, namorar, dedicar-se à religião, à atividade física, resolver pequenos problemas ou fazer compras são fatores protetores. Há que se buscar o equilíbrio entre estas atividades e as acadêmicas, pois dependendo do nível de exigência podem potencializar o desgaste psicofísico.

Apesar dos acadêmicos relatarem o entretenimento como fator de proteção, como forma de minimizar o estresse e se distanciarem dos problemas do dia-a-dia, recorrem ao uso de bebidas alcoólicas e cigarros nos encontros em grupos e em festas. Esta atitude indica que as drogas, principalmente as lícitas, exercem um forte atrativo para o grupo, talvez em função de sua maior tolerância, por serem aceitas socialmente e pelo fácil acesso.

Assim, o conceito de risco, no qual se baseiam as ações de prevenção, não está dado pela mera identificação de fatores de risco, já que a mediação das relações intersubjetivas e as condições concretas da existência interferem na sua compreensão. É importante analisar cada situação no seu contexto, identificando os grupos mais expostos a estes riscos. O foco da atuação, nesta perspectiva, é a pessoa, como sujeito, e não as drogas, pela atividade repressiva(18).

Portanto, na abordagem da prevenção de drogas junto aos acadêmicos deve-se trabalhar com uma multiplicidade de fatores que contribuem para a experimentação como as características individuais, as experiências pregressas ao ingresso na universidade, o núcleo familiar e a convivência grupal.

Recomenda-se reforço aos fatores protetores como o apoio familiar, a realização de atividades físicas, a manutenção de espaços de reflexão sobre os problemas vivenciados nos campos de estágio tal como vem sendo adotado pela FENF/UERJ, o suporte dos professores e a revisão das estratégias de ensino.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de Drogas/CICAD da Subsecretaria de Segurança Multidimensional da Organização dos Estados Americanos/OEA, a Secretaria Nacional Antidrogas/SENAD, aos docentes da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem, a população da amostra dos estudos e aos representantes dos oito países Latinoamericanos que participaram do I e II Programa de Especialização On-line de Capacitação e Investigação sobre o Fenômeno das Drogas - PREINVEST oferecido no biênio 2005/2006 pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, na modalidade de ensino a distância.

 

REFERÊNCIAS

1. Martins CM, Pillon SC. Análise do programa Saúde da Família e o uso de álcool e drogas. In: Luis MAV, Pillon SC, organizadores. Assistência a usuários de álcool e drogas no Estado de São Paulo. Ribeirão Preto (SP): Fundação Instituto de Enfermagem de Ribeirão Preto; 2004. p. 105-10.         [ Links ]

2. Martins ERC, Corrêa AK. Lidar com substâncias psicoativas: o significado para o trabalhador de enfermagem. Rev Latino-am Enfermagem 2004 março-abril; 12 (número especial):398-405.         [ Links ]

3. Sato L. A representação social do trabalho penoso. In: Spink MJ, organizadora. O conhecimento no cotidiano: as representações sociais na perspectiva da psicologia social. São Paulo(SP): Brasiliense; 1995. p. 188-211.         [ Links ]

4. Carrilo LLP, Mauro MYC. O Trabalho como fator de risco ou fator de proteção para o consumo de álcool e outras drogas. Texto & Contexto Enferm 2004 abril-junho; 13(2): 217-25.         [ Links ]

5. Braga VAB, Bastos AFB. Formação do acadêmico de enfermagem e seu contato com as drogas psicoativas. Texto & Contexto Enferm 2004 abril-junho; 13(2):241-9.         [ Links ]

6. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 8. ed. São Paulo (SP): Hucitec; 2004.         [ Links ]

7. Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa (PO): Edições 70; 1977.         [ Links ]

8. Silva RC. Metodologias participativas para trabalhos de promoção de saúde e cidadania. São Paulo (SP): Vetor; 2002.         [ Links ]

9. Dejours C. A psicodinâmica do trabalho: contribuições da escola djouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho. São Paulo (SP): Atlas; 1994.         [ Links ]

10. Oliveira EB, Lisboa MTL, Lúcido VA, Sisnando SD. A Inserção do acadêmico de enfermagem em uma unidade de emergência: a psicodinâmica do trabalho. Rev Enferm. UERJ 2004 maio-agosto; 12(2):179-85.         [ Links ]

11. Bulhões I. Riscos do trabalho de enfermagem. Rio de Janeiro (RJ): I. Bulhões; 1998.         [ Links ]

12. Murofuse NT, Abranches SS, Napoleão AA. Reflexões sobre estresse e burnout e a relação com a enfermagem. Rev Lat-am Enfermagem Ribeirão Preto (SP) 2005 março-abril; 13 (2):255-61.         [ Links ]

13. Seligmann-Silva E. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de Janeiro (RJ): Editora Cortez; 1994.         [ Links ]

14. Caldeira ZF. Prevenção ideal versus prevenção possível. In: Inem C, Baptista M, organizadores. Toxicomanias: abordagem multidisciplinar. Rio de Janeiro (RJ): Editora Sette Letras; 1997.         [ Links ]

15. Gobi RS, Giovannett BJP, Veloso HJ, Montanheiro ML, Pillon SC. Avaliando os riscos do uso de álcool e tabaco entre funcionários de um hospital público. In: Luis MAV, Pillon SC, organizadoras. Pesquisas sobre a prática da assistência a usuários de álcool e drogas no Estado de São Paulo. Ribeirão Preto (SP): Fundação Instituto de Enfermagem; 2004.         [ Links ]

16. Laranjeira R. Prevenção do uso abusivo de drogas: conceitos básicos. São Paulo (SP): 2005.         [ Links ]

17. Schenkerl M, Minayo MCS. A implicação da família no uso abusivo de drogas: uma revisão crítica. Ciênc Saúde Coletiva 2003; 8 (1): 299-305.         [ Links ]

18. Bucher R. Prevenindo contra as drogas e DST/AIDS: populações em situação de risco. Brasília (DF): Ministério da Saúde. Programa Nacional de DST/AIDS; 1995.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 6.3.2007
Aprovado em: 14.11.2007

 

 

1 Trabalho apresentado no IV Instituto Internacional de Liderança de Enfermagem de e o fenômeno das drogas na América Latina, Bogotá

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License