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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versión impresa ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.19 no.4 Ribeirão Preto jul./ago. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692011000400005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Validade de conteúdo de versão resumida da subescala do Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE)1

 

 

Juana Perpiñá-GalvañI; Miguel Richart-MartínezII; Maria José Cabañero-MartínezIII; Inmaculada Martínez-DuráIV

IMestre em enfermagem, Professora, Departamento de Enfermería, Universidad de Alicante, Espanha. E-mail: rotenimeyer@gmail.com
IIDoutor em Psicologia, Professor, Escuela Universitaria, Universidad de Alicante, Espanha. E-mail: m.richart@ua.es
IIIDoutora em Enfermagem, Professora, Departamento de Enfermería, Universidad de Alicante, Espanha. E-mail: mariajose.cabanero@ua.es
IVEnfermeira, Hospital General Universitario de Alicante, Espanha. E-mail: inmamartinez60@hotmail.com

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Teve-se como objetivo descrever a validade de conteúdo de uma versão resumida da subescala estado do State-Trait Anxiety Inventory (STAI) de Spielberger, a partir da versão original adaptada ao espanhol, em pacientes espanhóis, sob ventilação mecânica invasiva (VMI). A amostra foi composta por 16 pacientes, sob VMI, no hospital de Alicante, Espanha, que selecionaram os itens da versão espanhola completa do Idate-estado de maior relevância para eles. Os itens nº1, 5, 9, 10, 12 e 20 da escala original são os mais relevantes para os pacientes espanhóis sob VMI, e 5 deles estão incluídos na versão resumida da escala (83,3% de concordância). A escala resumida mostrou adequada validade de conteúdo para pacientes espanhóis sob VMI.

Descritores: Ansiedade; Escala de Ansiedade Frente a Teste; Validade.


 

 

Introdução

A ansiedade tem sido assinalada como uma das experiências negativas que mais se recordam os pacientes que têm estado nas unidades de cuidados intensivos (UCI). O desconforto associado ao tubo endotraqueal e à dificuldade de comunicação com os profissionais aparecem como uma das causas de ansiedade(1).

A avaliação da ansiedade não se realiza de forma rotineira pelos profissionais de UCI(2-3). Quando se realiza, a avaliação geralmente se baseia em indicadores fisiológicos(2) ou nas percepções subjetivas do próprio profissional(3-4). A literatura mostra que os indicadores fisiológicos não refletem, de forma precisa, o nível de ansiedade dos pacientes(5-9), e as percepções subjetivas dos profissionais não coincidem com os autorrelatórios dos pacientes(3-4).

No ambiente de UCI, em poucas ocasiões se utilizam autorrelatórios dos pacientes. Esses devem reunir boas propriedades psicrométricas e condições de aplicabilidade especiais (devem ser breves e cognitivamente pouco exigentes), já que os pacientes com debilidade física e/ou cognitiva, como os conectados à ventilação mecânica invasiva (VMI), têm dificuldades para completar instrumentos extensos(10).

As evidências mostradas recomendam, para esses pacientes, o uso de questionários de extensão intermediária: o questionário curto de sintomas –BSI - e a versão curta do STAI-e, ambos com seis itens(11). Essas duas escalas têm mostrado boas propriedades psicrométricas, mas a segunda é a única utilizada em pacientes com VMI(12). Das duas versões curtas encontradas no STAI-e(12-13), somente a de Chlan(12) se desenvolveu em pacientes submetidos à VMI, mas nenhuma delas foi adaptada ao espanhol, nem utilizada em pacientes espanhóis com VMI. Já a escala completa original de Spielberger (STAI) tem sido adaptada em nosso país(14), mas, também, não tem sido utilizada em pacientes espanhóis submetidos à VMI.

Dado que a escala original do STAI-e de 20 itens está adaptada ao espanhol, mas não a curta de 6 itens, é necessário adaptar essa última ao presente contexto, sendo necessário estabelecer a validade de conteúdo do instrumento, questão à qual, atualmente, tem-se dado grande atenção, por parte dos investigadores, seja de instrumentos de nova criação ou de instrumentos já existentes(15). Para os investigadores, é importante examinar se os itens são realmente relevantes para os entrevistados, para descrever seu estado emocional em relação a uma situação estressante em particular. No presente caso, refere a, se estar submetido à VMI. Isso permite identificar problemas potenciais nas respostas que podem surgir por mal-entendidos, conceitos ambíguos, interpretações inconsistentes e efeitos do contexto(16).

Assim, o propósito, aqui, foi avaliar quais itens da versão espanhola completa do STAI-e são selecionados pelos pacientes com VMI, para descrever seu estado emocional, e se esses itens coincidem com aqueles incluídos na escala curta, desenvolvida em pacientes com VMI(12). Por isso, o objetivo deste estudo foi descrever a validade de conteúdo de uma versão curta da subescala estado do State-Trait Anxiety Inventory (STAI) de Spielberger, a partir da versão original adaptada ao espanhol, em pacientes espanhóis, submetidos à VMI.

 

Metodologia

Desenho e amostra

A população de interesse foi a dos pacientes de UCI do Hospital Geral Universitário de Alicante, Espanha, entubados endotraquealmente. Trata-se do hospital de referência da província de Alicante que tem 820 leitos de hospitalização e dispõe de UCI com 19 leitos para adultos. Foram excluídos pacientes com estado cognitivo que os impede de compreender os enunciados do questionário, as explicações dos entrevistadores ou manter a concentração. Também se excluíram pacientes pediátricos e pacientes com transtornos neurológicos. A seleção foi realizada mediante amostragem não probabilística consecutiva, entre os meses de julho e novembro de 2007. Selecionaram-se 16 pacientes nos quais estão representadas as principais características da amostragem teórica que define esse tipo de pacientes: idade, sexo, nível de estudos, diagnóstico médico, tipo e duração da entubação e administração da sedação e/ou analgesia.

Procedimento

O procedimento recomendado, atualmente, pela literatura(15,17), para garantir a validade de conteúdo de um instrumento que já existe, concede muita importância à entrevista e aos entrevistados para conhecer se os itens são realmente relevantes a eles. Seguindo essa recomendação, solicitou-se aos pacientes que indicassem quais os itens da versão espanhola completa do STAI-estado de Spielberger que melhor descreviam o estado que se supõe sentirem numa UCI, quando submetidos à VMI. Foi solicitado que dessem a cada item um valor entre "o descreve muito", "não o descreve nem muito nem pouco" ou "o descreve pouco". Também foi solicitado que indicassem quais os itens confusos ou que não podiam ser compreendidos.

As entrevistas foram realizadas por três enfermeiros/as que trabalhavam na unidade, com experiência no cuidado de pacientes críticos e acostumados a comunicar-se com pacientes entubados. Foram treinados para realizar as entrevistas e lhes foi oferecido um manual para administração do questionário. Esse incluía uma folha de papelão plastificada com as 3 possibilidades de resposta, para que o paciente pudesse assinalar a opção escolhida, mesmo assim, o entrevistador lia os itens consecutivamente.

Instrumentos

Adaptação ao espanhol da subescala estado do State-Trait Anxiety Inventory (STAI) de Spielberger(14). Esse questionário consta de 20 itens e a escala de respostas varia de 0=nada a 3=muito, assim a pontuação oscila entre 0 e 60.

Elaborou-se um caderno para a coleta de dados que incluía outras variáveis: se teve descansos durante a entrevista e seu motivo, o modo no qual o paciente respondia (por escrito, assinalando numa folha, levantando os dedos etc.), se a escala de respostas tipo Likert lhes parecia confusa, se a escala STAI lhes parecia extensa e se era difícil compreender o significado de algum item. Também se coletaram variáveis sociodemográficas e clínicas: idade, sexo, nível de estudos, diagnóstico médico, tipo e duração da entubação e administração da sedação e/ou analgesia.

Análise de dados

Realizou-se análise descritiva, utilizando-se a mediana e intervalo nas variáveis contínuas e porcentagens e frequências nas variáveis categóricas. Os cálculos se realizaram usando-se a versão 14 do programa SPSS para Windows.

Considerações éticas

Este estudo (PI06/90476-90492) teve a aprovação do Vice-reitorado de Investigação da Universidade de Alicante e da Direção do Hospital Geral Universitário de Alicante. Todas as pessoas participaram de forma voluntária, dando seu consentimento verbalmente ou confirmando com a cabeça.

 

Resultados

A mediana de idade foi de 52,50 anos, com intervalo entre 17 e 80. Do total, 56,3% (n=9) foram mulheres, e 43,8% (n=7) tinha estudos de primeiro grau. Quanto às variáveis clínicas, o diagnóstico médico principal foi pós-operatório de cirurgia cardíaca (31,3%; n=5), 87,5% (n=14) não tiveram entubações prévias, 50% (n=8) eram portadores de analgesia e nenhum paciente era portador de sedação. A maioria dos pacientes respondeu mediante a vocalização (62,5%; n=10) e 56,3% (n=9) percebeu o questionário como extenso e a escala de respostas confusa. Sete (43,8%) precisaram descansar durante a entrevista, por fadiga.

A relevância que cada um dos 20 itens, da escala STAI-e de Spielberger, tem para os pacientes está apresentada na Tabela 1. Os 6 itens mais relevantes foram os nº1, 5, 9, 10, 12 e 20, já que são considerados importantes por alta porcentagem de pacientes (68,8% – 93,8%). Cinco deles coincidem com os seis da escala curta de Chlan(12), o que supõe concordância de 83,3% entre ambas as versões. O item nº17 (preocupado), incluído na escala curta de Chlan(12), é considerado relevante pela metade dos pacientes, enquanto que o item nº1 (calmo), considerado importante pela maioria de pacientes do estudo, não está incluído na escala curta.

Por outro lado, 31,3% (n=5) dos pacientes tiveram dificuldade para compreender ou interpretar algum dos itens. Os itens identificados como confusos foram nº7, 13, 16 e 19 que já foram excluídos da escala curta de Chlan, por serem considerados problemáticos(12). Esses itens, junto com o resto de itens excluídos(12) por Chlan, têm sido considerados pelos pacientes deste estudo como aqueles que menos descreviam seu estado na UCI.

 

Discussão

Os resultados obtidos neste estudo são muito similares aos obtidos por Chlan, nos pacientes submetidos à VMI(12). Entre ambos os estudos, existe concordância maior que 80% nos itens que descrevem melhor a ansiedade-estado, em pacientes submetidos à VMI, em UCI, apesar de se ter desenvolvido em contextos diferentes e de se ter utilizado distintos métodos de análise: análise fatorial(12) e avaliação dos pacientes. Por outro lado, mais de um terço dos pacientes, aqui, teve dificuldade para compreender ou interpretar algum dos itens, o mesmo ocorreu com 17% dos pacientes do estudo de Chlan(12). As razões também são coincidentes: não compreender bem o significado do item (por exemplo: item 7 "estou preocupado por desgraças futuras" e item 13 "estou inquieto"), ou itens que não descrevem a situação de estar conectado à ventilação mecânica (por exemplo: item 16 "sinto-me satisfeito" e item 19 "sinto-me alegre"). Esses itens e os eliminados por Chlan(12), por serem problemáticos, foram considerados pelos pacientes, aqui, os menos relevantes.

A diferença do estudo de Chlan, que contém o item 17, "preocupado", nesta pesquisa os pacientes não o consideraram relevante, preferindo o item 1, "calmo". Seria interessante incluí-lo em futuros estudos com a escala curta, para avaliar seu peso dentro dessa, e comparar seu funcionamento com o item nº17.

Mais da metade dos pacientes submetidos à VMI, neste estudo, considerou que a escala completa do STAI-e resultava extensa, o tipo de resposta Likert de 3 pontos era confusa, e mais de um terço precisou descansar alguma vez durante o preenchimento por causa da fadiga. Essas dificuldades também foram assinaladas por 15,5% dos pacientes do estudo de Chlan(12), apoiando a ideia de que os pacientes debilitados física e cognitivamente têm dificuldades para responder instrumentos extensos(3,7,10,12,18-20).

Estabelecer a validade de conteúdo de um instrumento já existente, utilizado amplamente em distintos grupos de população, é aspecto relevante no processo de revisão do mesmo(15). Esse tipo de análise melhora a compreensão e adequação semântica e linguística dos itens numa população particular, neste caso os pacientes submetidos à VMI, em UCI.

Quando se gera um instrumento, seus criadores devem incluir um conjunto de itens que constituam mostra representativa do total de itens que poderiam definir o constructo. No caso desta amostra de itens que representa o constructo ansiedade/estado vem operacionalizada na versão espanhola do STAI-e(14). Portanto, não se aprofundou no significado dos itens, já que não se objetivava modificá-los, o objetivo era buscar a subamostra mais representativa para os pacientes deste estudo.

Talvez fosse recomendável indagar as razões para a eleição desses itens e não de outros, mas as dificuldades de comunicação com esse tipo de pacientes desaconselhava indagar.

A coincidência destes resultados com os de Chlan(12) permite confirmar a validade de conteúdo dessa escala em pacientes espanhóis, submetidos à VMI, em UCI, e, dadas as propriedades psicrométricas da escala de Chlan e da versão espanhola do STAI-e, permite aventurar uma boa consistência interna, boas correlações itens/teste e estrutura monofatorial. Porém, a escala não poderá ser utilizada até que se confirme o desempenho psicrométrico da escala.

 

Conclusão

A novidade do estudo consiste em revisar o conteúdo de um instrumento amplamente utilizado em âmbito internacional, obtendo-se versão curta, coincidente com a versão de Chlan, elaborada em outro contexto geográfico e com outra metodologia.         

A versão do STAI-e de Spielberger de 6 itens mostra adequada validade de conteúdo para pacientes espanhóis, ubmetidos a VMI, e em UCI.

A Figura 1 mostra os itens que compõem a escala.

 

 

Referências

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