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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-1169versão On-line ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.25  Ribeirão Preto  2017  Epub 20-Abr-2017

http://dx.doi.org/10.1590/1518-8345.1632.2872 

Artigo Original

Acidente de trabalho e autoestima de profissionais de enfermagem em ambientes hospitalares

Sérgio Valverde Marques dos Santos2 

Flávia Ribeiro Martins Macedo3 

Luiz Almeida da Silva4 

Zelia Marilda Rodrigues Resck5 

Denismar Alves Nogueira6 

Fábio de Souza Terra6 

2 Doutorando, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Centro Colaborador da OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil

3MSc, Pesquisador, Universidade José do Josário Vellano, Alfenas, MG, Brasil

4Pós-doutorando, Escola de Enfermagem, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO, Brasil. Professor Adjunto, Escola de Enfermagem, Universidade Federal de Goiás, Jataí, GO, Brasil

5PhD, Professor Titular, Escola de Enfermagem, Universidade Federal de Alfenas, Alfenas, MG, Brasil

6 PhD, Professor Adjunto, Escola de Enfermagem, Universidade Federal de Alfenas, Alfenas, MG, Brasil

Resumo

Objetivo:

analisar a ocorrência de acidentes de trabalho e a autoestima de profissionais de enfermagem em ambientes hospitalares de um município de Minas Gerais.

Método:

estudo descritivo-analítico e transversal, desenvolvido com 393 profissionais de enfermagem de três hospitais de um Município do sul de Minas Gerais. Para coleta de dados utilizou-se a Escala de Autoestima de Rosenberg e um questionário de caracterização da população e de acidente de trabalho. Para análise dos dados foram utilizados os testes Qui-quadrado de Person, Exato de Fisher, Alfa de Cronbach, odds ratio e regressão logística.

Resultados:

dos profissionais pesquisados, 15% sofreram acidente de trabalho e 70,2% possuía autoestima alta. Por meio das análises, observou-se que o tabagismo, a crença religiosa e o evento marcante na carreira apresentaram associação significativa com acidente de trabalho. Em relação a autoestima, a renda familiar mensal, o tempo de atuação na profissão e o evento marcante na carreira tiveram associação significativa.

Conclusão:

fatores como tabagismo, crença religiosa, renda familiar, tempo de atuação na profissão e evento marcante na carreira podem conduzir o profissional ao acidente e/ou provocar alterações na autoestima, podendo comprometer a sua saúde física e mental e sua qualidade de vida e trabalho.

Descritores: Saúde do Trabalhador; Autoestima; Acidentes de Trabalho; Saúde Mental; Equipe de Enfermagem; Enfermagem

Introdução

Com as transformações ocorridas no mundo do trabalho no século XXI, os profissionais passaram a ter maiores exigências no local de trabalho, aumentando sua carga psicológica e de trabalho. Com isso, o número de registros de acidentes no ambiente laboral tem crescido. Em 2010 ocorreram 709.974 acidentes de trabalho no Brasil, já em 2013 este número aumentou para 717.911 registros1-2.

O trabalho pode ser visto, muitas vezes, como um fator causador de modificações das condições de vida, adoecimento e morte dos seres humanos. Assim, o próprio trabalho, que valoriza e dignifica o homem, pode provocar sofrimento e adoecimento quando não realizado em condições adequadas, que não favorece as capacidades psicofisiológicas dos indivíduos, principalmente daqueles que atuam na área da saúde, como os profissionais de enfermagem3.

A representatividade dos profissionais de enfermagem no mercado de trabalho, no Brasil, é elevada. Um levantamento dos profissionais da saúde realizado em 2015 mostrou que, de 3,5 milhões de trabalhadores da saúde, 1.800.000 eram de profissionais da enfermagem. Isso salienta a importância desses trabalhadores no contexto da saúde no país4.

O trabalho realizado pelos profissionais de enfermagem necessita de uma proximidade física do paciente, devido ao processo do cuidado. Assim, esses trabalhadores expõem-se a fatores de riscos ocupacionais como: físico, biológico, químico, ergonômico e psicossocial, que podem causar doenças ocupacionais e/ou acidentes de trabalho. Entre os acidentes mais sofridos pelos profissionais de enfermagem, então os acidentes com materiais biológicos e os com objetivos perfurantes e cortantes5.

A exposição dos profissionais de enfermagem aos materiais biológicos provocados por acidentes, tem sido um fator de sofrimento no trabalho. Estes trabalhadores, além de enfrentarem dificuldades emocionais, como medo de adoecer, repercussões familiares e no trabalho, ainda estão sujeitos ao constrangimento por terem sofrido o acidente. Estes fatores podem causar problemas pessoais e sociais, provocando alterações no bem-estar e marcas psíquicas, incluindo alterações a autoestima6.

A autoestima reflete em atitudes positivas ou negativas em relação ao próprio indivíduo. Assim, é considerada um conjunto de sentimentos e pensamentos sobre seu próprio valor, competência e adequação7. Em meio a isto, faz-se necessário relacionar a ocorrência de acidentes de trabalho com os profissionais de enfermagem e as alterações na autoestima, visto que, os problemas emocionais podem afetar o indivíduo em seu trabalho e em sua vida.

Em pesquisa realizada nos Estados Unidos, evidenciou-se que a perda da produtividade do trabalhador estava relacionada a problemas emocionais, reduzindo seu desempenho em quase 36%8. Estudos nacionais e internacionais5-8 tem observado a ocorrência de acidente de trabalho com profissionais de enfermagem e sua exposição a danos psíquicos, como ansiedade, depressão, estresse e autoestima baixa.

Frente a essas acepções, devido aos problemas que o acidente de trabalho e a alteração na autoestima podem causar aos trabalhadores e relacionado à limitação de estudos abordando essa temática (acidentes de trabalho e autoestima), justifica-se a importância de analisar a ocorrência de acidentes de trabalho sofridos pelos profissionais de enfermagem e sua autoestima, com a finalidade de subsidiar conhecimentos para fortalecer a promoção da saúde desses profissionais, incluindo uma melhor qualidade de vida e saúde mental, que consequentemente, poderá influenciar na qualidade da assistência prestada aos usuários.

Mediante o exposto, este estudo teve como objetivo analisar a ocorrência de acidentes de trabalho e a autoestima de profissionais de enfermagem em ambientes hospitalares de um município de Minas Gerais.

Método

Estudo descritivo-analítico, transversal, de abordagem quantitativa, desenvolvido em três instituições hospitalares: uma privada de médio porte (Instituição A, com 289 profissionais), uma filantrópica de médio porte (Instituição B, com 181 profissionais) e a outra privada de pequeno porte (Instituição C, com 50 profissionais), todas localizadas em um município do Sul de Minas Gerais, que é responsável por atender outros 26 municípios da região. Ressalta-se que este município possuí somente estas três instituições hospitalares. A população do estudo constituiu-se por todos os profissionais de enfermagem que atuavam nos referidos hospitais, entre auxiliares, técnicos de enfermagem e enfermeiros. Assim, a população foi de 520 trabalhadores.

Neste estudo foram adotados os seguintes critérios de inclusão: profissionais de enfermagem que trabalhavam nas instituições e que tivessem mais de três meses de trabalho, devido o tempo de experiência exigido. Foram excluídos os trabalhadores que estavam de licença/afastamento saúde, maternidade ou férias. Desta forma, a amostra da presente investigação constituiu-se por 393 profissionais de enfermagem (Instituição A=213, B=143 e C=37). Dos 127 profissionais que foram excluídos da pesquisa, 60 estavam de férias, 28 com licença saúde/maternidade, 12 com menos de três meses de contrato e 20 recusaram participar do estudo. Destaca-se ainda que, foram excluídos sete trabalhadores, por erros de preenchimento nos instrumentos.

A coleta dos dados foi realizada no próprio setor de trabalho, em horários estabelecidos pela coordenação e que não interferisse no andamento das atividades, durante o período de novembro de 2014 a fevereiro de 2015. Os profissionais receberam envelopes lacrados, contendo dois instrumentos autoaplicáveis e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e foi realizada uma breve apresentação da pesquisa.

O primeiro instrumento referiu-se a um questionário semiestruturado desenvolvido pelos pesquisadores, com intuito de avaliar dados de caracterização da população e de ocorrência de acidentes de trabalho. As variáveis foram selecionadas de acordo com a literatura e o objetivo desta pesquisa. Este instrumento foi submetido a um processo de refinamento com cinco juízes experientes na área estudada. Posteriormente, foi realizado um teste piloto com dez profissionais de enfermagem em uma instituição hospitalar com características semelhantes às instituições participantes desse estudo .

O segundo instrumento foi a Escala de Autoestima de Rosenberg, desenvolvida em 1965 em inglês, traduzida e validada para o português em 2001. Este instrumento é do tipo Likert com dez questões, destinadas à avaliação de sentimentos positivos e negativos do indivíduo. O intervalo dessa escala é de 10 a 40, assim, quanto maior o escore, maior o nível da autoestima. Portanto, a classificação da autoestima é alcançada por meio dos seguintes pontos de cortes: escore maior que 30 pontos= autoestima alta, escore de 20 a 30 pontos= autoestima média, e escore menor que 20 pontos= autoestima baixa9.

Os dados coletados foram digitados em uma planilha do Excel, versão 2010, para elaboração do banco de dados, posteriormente, foi feita dupla digitação para evitar erros de transcrição. Para análise estatística descritiva e inferencial foi utilizado o software Statistical Package for the Social Science versão 17.0.

Para avaliação da confiabilidade da Escala de Autoestima de Rosenberg, foi utilizado o Coeficiente Alfa de Cronbach. Na análise univariada foram utilizados os testes Qui-quadrado de Pearson e Exato de Fisher para verificar a existência de associação entre as variáveis: sexo, idade, estado civil, crença religiosa, quantidade de filhos, renda familiar mensal, tipo de moradia, consumo de bebida alcoólica, consumo de cigarro, prática de atividades físicas, doenças crônicas, uso contínuo de medicamentos, categoria profissional, tempo de profissão na enfermagem, tempo de profissão na enfermagem na atual instituição, carga horária de trabalho, período de trabalho/turno, possui outro emprego, ocorrência de evento marcante na vida e ocorrência de evento marcante na carreira, com as variáveis ocorrência de acidente de trabalho e a medida de autoestima, e também para verificar se a variável ocorrência de acidente de trabalho estava associada a medida de autoestima.

Neste estudo foi adotado o nível de significância de 5%, ou seja, os dados foram estatisticamente significantes para P<0,05. Foi estimado o odds ratio (razão de chance) e utilizado o modelo de regressão logística das variáveis de caracterização da população com a ocorrência de acidente de trabalho e a medida de autoestima.

Com base na Resolução 466 de 2012, este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Alfenas, conforme Parecer nº 773.900. As Instituições hospitalares autorizaram a realização da pesquisa e os trabalhadores que aceitaram participar assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

A amostra foi composta em sua maioria por profissionais do sexo feminino (80,4%), com idade entre 30 a 39 anos (37,4%, mediana 35 anos), casados/com companheiros (54,7%), tendo o catolicismo como crença religiosa (78,4%) e com renda familiar de 1.501 a 3.000 reais (39,2%, mediana 2.500,00 reais). Ressalta-se que, 75 profissionais não relataram a renda familiar mensal. Constatou-se que 43,5% consumiam bebida alcóolica, 11,5% deles eram tabagistas, 38,7% não praticavam atividades físicas, 23,2% possuíam doenças crônicas e 32,6% usavam medicamentos contínuos.

Com relação à categoria profissional, a maioria era de técnicos de enfermagem (75,1%), com tempo de profissão na enfermagem e de atuação na instituição de até 10 anos de trabalho (62,3% e 71,8%, respectivamente). Além disso, trabalhavam 42 horas semanais (72,5%), no período noturno (38,4%) e não possuíam outro emprego (78,9%). Dos profissionais avaliados, 52,9% relataram a ocorrência de eventos marcantes na vida, sendo os mais citados a perda/morte de ente querido, o nascimento de filho/neto/parente e o diagnóstico de doença em ente querido. Vale ressaltar que 37,4% tiveram algum evento marcante na carreira, destacando a falta de reconhecimento profissional, o acúmulo de responsabilidades/função e o conflito com chefias/coordenação.

Do total de 393 profissionais de enfermagem, 60 sofreram algum tipo de acidente de trabalho (15%), ou seja, 40 acidentes na Instituição A (10%), 18 na Instituição B (4,5%) e dois na C (0,5%). A maior ocorrência de acidente se deu no período de trabalho noturno (35%), seguida do turno da tarde (33,3%) e manhã (31,7%). Observou-se que 70% dos profissionais notificaram na Comunicação de Acidentes de Trabalho (CAT). Desses acidentes, 58,3% foram com objeto perfurante/cortante, 25,0% com contato com fluidos corporais, 18,3% com quedas, 18,3% com exposição à radiação/medicamentos, 15,0% com contato com mobília/equipamento, 10% de trajeto e 6,6% com queimaduras. Entre os causadores destes acidentes, foram citados à falta de atenção (28,3%), a sobrecarga de trabalho (28,3%), a agitação do paciente (26,6%), o desgaste físico e mental (18,3%) e a falta de equipamentos de proteção individual (13,3%). Ressalta-se que existiu mais de uma resposta por trabalhador nestas duas últimas variáveis.

A Tabela 1 apresenta as únicas variáveis que tiveram associação significativa com a ocorrência de acidente de trabalho entre os profissionais de enfermagem.

Tabela 1 Análise univariada dos fatores associados à ocorrência de acidente de trabalho com profissionais de enfermagem hospitalar, conforme as variáveis: tabagismo e evento marcante na carreira. Alfenas, MG, Brasil, 2015 

Variáveis Não sofreu acidente Sofreu acidente Valor-p* OR IC 95%
Tabagista
Sim 33 (73,3%) 12 (26,7%) 0,024 2,273 1,098 - 4,705
Não 300 (86,2%) 48 (13,8%) 1,000
Evento marcante na carreira
Sim 114 (77,6%) 33 (22,4%) 0,002 2,348 1,346 - 4,097
Não 219 (89,0%) 27 (11,0%) 1,000

*Teste Qui-Quadrado de Pearson

†Odds ratio

‡Intervalo de Confiança

Pela análise univariada dos fatores associados à ocorrência de acidente de trabalho, dentre todas as variáveis analisadas, apenas o tabagismo e o evento marcante na carreira apresentaram associação com a ocorrência de acidente de trabalho. Desta forma, os participantes que fumavam apresentaram 2,3 vezes mais chance de sofrer acidentes de trabalho, e os participantes que passaram por algum evento marcante na carreira apresentaram 2,4 vezes mais chance de sofrer acidentes de trabalho, conforme Tabela 1.

Com relação à autoestima dos profissionais, a Tabela 2 apresenta a distribuição dos profissionais de enfermagem conforme a classificação observada.

Tabela 2 Distribuição dos profissionais de enfermagem hospitalar conforme a classificação da autoestima. Alfenas, MG, Brasil, 2015 

Classificação da Autoestima f %
Autoestima Alta 276 70,2
Autoestima Média 115 29,3
Autoestima Baixa 2 0,5
Total 393 100,0

Ao avaliar a distribuição dos profissionais de enfermagem conforme a classificação da autoestima verificou-se que a maioria possuía autoestima alta. Cabe ressaltar que um percentual relevante de profissionais foi classificado com autoestima média e autoestima baixa, conforme apresentado na Tabela 2.

Na avaliação da consistência interna da Escala de Autoestima de Rosenberg, o coeficiente interno de Alpha de Cronbach obteve um valor de 0,784. Desta forma, considerou-se a consistência interna do instrumento aceitável para os itens avaliados e correlacionados uns aos outros, apontando uma confiabilidade do instrumento para este estudo.

Na análise univariada dos fatores associados à autoestima, apenas duas variáveis apresentaram associação significativa, conforme a Tabela 3.

Tabela 3 Análise univariada dos fatores associados à autoestima dos profissionais de enfermagem hospitalar, conforme as variáveis: renda familiar mensal e evento marcante na carreira. Alfenas, MG, Brasil. 2015 

Variáveis Autoestima Alta Autoestima Baixa/Média Valor-p* OR IC 95%
Renda familiar mensal
Até 3.000 reais 156 (67,0%) 77 (33,0%) 0,041 1,837 1,021 - 3,306
Acima de 3.000 reais 67 (78,8%) 18 (21,2%) 1,000
Evento marcante na carreira
Sim 91 (61,9%) 56 (38,1%) 0,005 1,866 1,201 - 2,901
Não 185 (75,2%) 61 (24,8%) 1,000

*Teste Qui-Quadrado de Pearson

†Odds ratio

‡Intervalo de Confiança

Nesta análise, constatou-se que as variáveis renda familiar mensal e evento marcante na carreira mostraram associação significativa com a autoestima. Desta forma, evidenciou-se que os profissionais de enfermagem que possuíam renda familiar mensal de até 3.000 reais tiveram quase 2 vezes mais chance de apresentarem autoestima baixa/média, e os profissionais que passaram por algum evento marcante na carreira tiveram quase 2 vezes mais chance de terem autoestima baixa/média, de acordo com a Tabela 3

O modelo de regressão logística das variáveis que apresentaram significância com a ocorrência do acidente de trabalho e com a medida de autoestima é apresentado na Tabela 4.

Tabela 4 Avaliação dos parâmetros do modelo de regressão logística das variáveis independentes com o acidente de trabalho e a autoestima dos profissionais de enfermagem hospitalar. Alfenas, MG, Brasil, 2015 

Variáveis Parâmetro Erro-padrão OR* Valor-p
Acidente de trabalho
Crença religiosa 1,049 0,499 2,854 0,036
Evento marcante na carreira 0,875 0,320 2,399 0,006
Autoestima
Tempo de profissão na enfermagem 0,771 0,287 2,162 0,007
Evento marcante na carreira 0,650 0,261 1,916 0,013

*Odds ratio

Ao analisar os parâmetros de todas as variáveis independentes, com a ocorrência do acidente de trabalho pelo modelo de regressão logística, verificou-se que somente as variáveis crença religiosa e evento marcante na carreira demonstraram significância estatística, respectivamente, p=0,036 e p=0,006, resultando em um modelo final ajustado, conforme é apontado na Tabela 4. Sendo assim, no modelo final evidenciou-se que o profissional que é católico tem 2,8 vezes mais chance de sofrer de acidente de trabalho. Além disso, os profissionais de enfermagem que vivenciaram algum evento marcante na carreira têm 2,4 vezes mais chance de sofrerem acidente de trabalho.

Após análise dos parâmetros de todas as variáveis com a medida de autoestima pelo modelo de regressão logística, constatou-se que somente as variáveis tempo de profissão na enfermagem e evento marcante na carreira tiveram significância estatística, resultando no modelo final ajustado, conforme a Tabela 4. Sendo assim, os profissionais com mais de 10 anos de profissão na área enfermagem tiveram duas vezes mais chance de terem autoestima baixa/média, bem como os que vivenciaram algum evento marcante na carreira tiveram quase 2 vezes mais chance de possuírem autoestima baixa/média.

Ao avaliar a associação da variável autoestima com a ocorrência de acidente de trabalho entre os profissionais de enfermagem, percebe-se que não existiu associação significativa entre estas duas variáveis (p=0,966).

Discussão

Observou-se nesta investigação que uma parte dos profissionais de enfermagem sofreu algum tipo de acidente de trabalho. A maioria desses acidentes foi com objetos perfurantes ou cortantes, ocorridos no turno da noite e existiu notificação da CAT pelos profissionais. Em um estudo realizado em um município do interior do estado da Paraíba com 39 profissionais de enfermagem, mostrou que 49% deles sofreram acidente de trabalho, sendo que 84% dos acidentes foram causados por objetos perfurantes e cortantes e 79% das ocorrências não foram notificadas10. Já em outra pesquisa desenvolvida na região Nordeste do Brasil, com 45 profissionais de enfermagem, apontou que 60% deles sofreram acidente e 24% ocorreram no turno da noite11.

Os acidentes de trabalho muitas vezes são justificados pelo fato de algumas instituições não possuírem efetivas políticas para promover segurança no trabalho, deixando os profissionais expostos aos riscos. Os principais fatores que favorecem a ocorrência desses acidentes com objetos perfurantes e cortantes estão ligados às condições de trabalho, destacando-se as condições insalubres e os perigos ao manusear o material de trabalho1,12.

Com relação ao turno de trabalho, os profissionais que trabalham no período noturno, devido às cargas e as extensas jornadas de trabalho, possuem mais riscos de desenvolverem doenças ocupacionais e envolverem-se em acidentes, devido ao cansaço, ao desgaste físico e mental e as alterações biológicas do organismo13.

Após o acidente os profissionais devem fazer o registro da ocorrência. Entretanto, nota-se que a quantidade de registro da CAT ainda é pequena diante da real situação de saúde dos profissionais. Isto ocorre porque algumas empresas negligenciam os aspectos relacionados à saúde do trabalhador e as respectivas condições de trabalho1.

A principal causa de acidente de trabalho, nesta investigação, foi à falta de atenção e sobrecarga de trabalho. Com isso, infere-se que diversos fatores do ambiente laboral dos profissionais de enfermagem podem contribuir para a ocorrência de acidente. Dentre estes fatores, cita-se a rapidez nas tarefas, a falta de atenção durante a execução de um procedimento, o cansaço físico e mental do trabalhador e a sobrecarga de trabalho14.

No presente estudo, notou-se que o profissional que usava tabaco tinha maior chance de sofrer acidente de trabalho. Este fator pode ser justificado devido o uso de tabaco poder provocar perturbações psiquiátricas como ansiedade, déficit de atenção, dentre outros15.

Verificou-se ainda que o profissional que era católico tinha mais chance de sofrer acidente de trabalho. Este achado pode estar relacionado ao fato de 78,4% dos profissionais deste estudo serem católicos, e dos 60 trabalhadores que acidentaram, 52 relataram possuir esta crença religiosa. O resultado pode ter sido influenciado por este fator, mas pode ser justificado também pelo cuidado de enfermagem ser movido por sentimentos cristãos, executados com solidariedade, compaixão e proximidade, expondo o profissional a cargas psíquicas e aos acidentes de trabalho6.

Outra variável que teve associação significativa com os acidentes de trabalho foi à ocorrência de eventos marcantes na carreira, sendo que o profissional que teve algum desses eventos tinha mais chance de sofrer acidente de trabalho. Dessa forma, cabe destacar que o trabalhador que vivencia algum acontecimento na vida ou no trabalho pode desencadear problemas como desgaste emocional e desequilíbrio mental, que o expõe a cargas psíquicas. Com isso, pode apresentar insegurança no trabalho, deixando-o mais vulnerável aos riscos ocupacionais e aos acidentes16.

As cargas psíquicas que favorecem o desgaste do trabalhador podem ser provenientes de vários fatores, como: supervisão rigorosa, ritmos acelerados, monotonia, repetitividade das tarefas, dificuldades de comunicação, agressões psíquicas, tensão e insatisfação. Deste modo, estas situações podem agravar a saúde do trabalhador e gerar acidentes laborais17.

Com relação à medida de autoestima dos profissionais de enfermagem, observou-se que a maioria deles possui autoestima alta, que reflete em condições psíquicas adequadas para o trabalho. Cabe inferir que, existiu percentual de profissionais que apresentaram autoestima baixa, o que pode limitar severamente inspirações e realizações individuais. Suas consequências podem se apresentar de forma indireta, em que o profissional trabalha sem os devidos cuidados, susceptível a erros e a infelicidade no trabalho e na vida pessoal18.

Constatou-se nesta investigação que a renda familiar apresentou associação significativa com a autoestima. Assim, profissionais de enfermagem que possuía renda familiar de até 3.000 reais tinha mais chance de ter autoestima baixa ou média. A remuneração insuficiente pode gerar ao profissional insegurança e medo de perder o emprego, e isso contribui para o regime de trabalho precário. Este fator pode levar também o profissional à necessidade de manter outro vínculo empregatício. Assim, o trabalhador sacrifica seus horários de lazer e descanso para manter outro trabalho6,19.

Com isso, percebe-se a importância das instituições hospitalares manterem salários dignos aos profissionais, uma vez que pode promover melhores condições de saúde e de trabalho e, assim, elevar a autoestima e a autoconfiança dos profissionais de enfermagem.

A variável tempo de profissão na enfermagem também apresentou associação significativa com a autoestima. Evidenciou-se que os profissionais que possuíam mais de 10 anos de profissão na área da enfermagem, tinham mais chance de ter autoestima baixa ou média.

Cabe destacar que existem aspectos no trabalho da enfermagem que podem se agravar com o tempo. Esses aspectos referem-se ao cotidiano do trabalho da enfermagem, como: tensões, cobranças, sobrecarga de trabalho, dentre outras. Com o passar dos anos exercendo a profissão, esses fatores podem provocar perturbações mentais no profissional, como o aborrecimento e a sensação de fadiga, que resulta em uma autoestima baixa19-20.

Observou-se que a variável evento marcante na carreira teve associação significativa com a autoestima. Os profissionais que tiveram algum evento marcante na carreira tinham mais chance de apresentar autoestima baixa ou média. Muitos fatores podem estar associados a esses eventos, podendo causar desgaste emocional e acarretar sentimentos de impotência e desmotivação, resultando em sobrecargas psíquicas e alteração da autoestima16.

Destaca-se que as cargas geradas pela ocorrência dos eventos marcantes são inúmeras e dizem respeito ao trabalho acelerado e repetitivo, à falta de interação da equipe, à pressão da chefia e colegas, ao cansaço físico e mental, entre outros. Estas situações podem colocar o profissional em condições inapropriadas de saúde mental para a prática da enfermagem6.

Ao verificar possível associação da variável autoestima com o acidente de trabalho, constatou-se que não existiu associação significativa. Entretanto, ressalta-se que a ocorrência de acidentes de trabalho pode ser um fator de sofrimento psíquico para os profissionais.

Os transtornos psicológicos fazem parte da realidade da saúde do trabalhador, influenciam no desempenho do trabalho e na produtividade dos profissionais, favorecendo o adoecimento e a ocorrência de acidentes. Por isso, torna-se relevante mencionar que a complexidade das tarefas da enfermagem, somada às responsabilidades e as preocupações técnico-científicas, podem contribuir com possíveis alterações na autoestima. Assim, estes trabalhadores podem não conseguir executar suas tarefas com segurança, prejudicando seu desempenho profissional e expondo-se ao risco de acidente no trabalho1,21.

Conclusão

Conclui-se que alguns dos profissionais avaliados sofreram acidente de trabalho e que a maioria deles possuem autoestima alta. Das variáveis analisadas, o tabagismo, a crença religiosa e o evento marcante na carreira apresentaram associação significante com o acidente de trabalho, bem como as variáveis renda familiar mensal, tempo de profissão na enfermagem e evento marcante na carreira tiveram associação com a autoestima.

Assim, percebe-se a necessidade de promoção de melhores condições de trabalho nos ambientes hospitalares, uma vez que os profissionais de enfermagem estão expostos a fatores de riscos ocupacionais, que podem comprometer sua saúde física e mental, deixando-os vulneráveis a acidentes laborais e às alterações na autoestima. Neste contexto, sugere-se que sejam adotadas medidas que promovam a qualidade de vida e de trabalho, por meio de educação permanente, apoio psicólogo e valorização do profissional.

Para melhor investigação da saúde dos profissionais de enfermagem, sugere-se a realização de estudos longitudinais nesta temática, para evidenciar o nexo-causal e a causa-efeito do acidente de trabalho com a autoestima.

Este estudo apresentou algumas limitações, como o desenho transversal da pesquisa, que não permitiu verificar a relação causa-efeito dos resultados; a amostragem, devido à coleta não ter sido realizada com a população total de profissionais de enfermagem hospitalar; a complexidade de alguns setores das instituições, devido o acesso ser limitado; a técnica de autopreenchimento dos instrumentos, pelos profissionais negligenciar algumas respostas.

Diante ao exposto, pode-se afirmar que, ao adotar tais medidas sugeridas, os profissionais terão condições de trabalho adequadas e uma vida mais saudável, que favorecerá a qualidade da assistência prestada aos usuários dos serviços de saúde.

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1 Artigo extraído da dissertação de mestrado "Avaliação dos acidentes de trabalho e da autoestima de profissionais de enfermagem em ambientes hospitalares", apresentada à Escola de Enfermagem, Universidade Federal de Alfenas, Alfenas, MG, Brasil. Apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), Brasil.

Recebido: 03 de Maio de 2016; Aceito: 16 de Janeiro de 2017

Correspondência: Sérgio Valverde Marques dos Santos Av. São José, 133 Centro CEP: 37002-133, Varginha, MG, Brasil E-mail: sergiovalverdemarques@hotmail.com

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