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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-1169versão On-line ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.25  Ribeirão Preto  2017  Epub 05-Jun-2017

http://dx.doi.org/10.1590/1518-8345.1472.2884 

Artigo Original

Impacto do ambiente de cuidados críticos no burnout , percepção da qualidade do cuidado e atitude de segurança da equipe de enfermagem1

Edinêis de Brito Guirardello2 

2PhD, Professor Associado, Faculdade de Enfermagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

avaliar a percepção da equipe de enfermagem sobre o ambiente da prática em unidades de cuidados críticos e sua relação com atitude de segurança, percepção da qualidade do cuidado e nível de burnout.

Método:

estudo transversal com a participação de 114 profissionais de enfermagem da unidade de terapia intensiva de um hospital de ensino. Foram utilizados os instrumentos: Nursing Work Index-Revised, Inventário de Burnout de Maslach e o Questionário de Atitudes de Segurança.

Resultados:

os profissionais que perceberam maior autonomia, boas relações com a equipe médica e melhor controle sobre o ambiente de trabalho, apresentaram menores níveis de burnout, avaliaram como boa a qualidade do cuidado e relataram uma percepção positiva da atitude de segurança para o domínio satisfação no trabalho.

Conclusão:

os achados evidenciaram que ambientes favoráveis à prática desses profissionais resultam em menores níveis de burnout, melhor percepção da qualidade do cuidado e atitudes favoráveis à segurança do paciente.

Descritores: Segurança do Paciente; Qualidade da Assistência à Saúde; Ambiente de Instituições de Saúde; Enfermagem; Cuidados Críticos; Satisfação no Trabalho

Introdução

Nas últimas três décadas, tem sido expressiva a produção do conhecimento acerca da relevância do ambiente da prática da enfermagem para o enfermeiro, paciente e instituição. O ambiente de assistência à saúde é complexo, requer recursos tecnológicos e humanos para atender as demandas de cuidado dos pacientes e familiares e a enfermagem, por representar o maior contingente dos profissionais da saúde, tem como atividade principal a vigilância do paciente nas 24 horas do dia1.

O ambiente da prática é definido como as características organizacionais de um ambiente de trabalho que facilitam ou dificultam a prática da enfermagem2. A Associação Americana de Enfermeiros de Cuidados Críticos reconhece a ligação inseparável entre a qualidade do ambiente de trabalho, a excelência da prática de enfermagem e os resultados da assistência ao paciente e familiar e destaca seis padrões essenciais para estabelecer e sustentar um ambiente de trabalho saudável como: habilidade de comunicação, colaboração entre os membros da equipe, tomada de decisão efetiva pelos enfermeiros, número adequado de profissionais, reconhecimento do enfermeiro por sua contribuição e liderança autêntica pelos enfermeiros líderes3.

O Instituto de Medicina nos Estados Unidos identificou muitos riscos para a segurança do paciente, oriundos de cada componente e nível do sistema de prestação do cuidado como: processo de trabalho, sobrecarga e horas de trabalho e ambiente de trabalho da equipe de enfermagem. Destacou também que as mudanças no sistema de prestação do cuidado nas últimas décadas tem afetado a maneira na qual a enfermagem fornece o cuidado e mantém a segurança do paciente1.

Neste contexto, vários estudos abordam o impacto do ambiente da prática e os resultados para o paciente e a enfermagem mostrando que em ambientes no qual o enfermeiro possui autonomia, controle sobre o ambiente e boas relações com a equipe médica, resultam em menores níveis de burnout4-6, maior satisfação profissional5,7 menor intenção de deixar o emprego5,8 e melhores resultados para o paciente no que se refere a qualidade do cuidado5,9 e segurança do paciente5,8,10.

Destaca-se que no Brasil o estudo desta temática é recente. Evidências apontam que ambientes favoráveis à prática da enfermagem repercutem para os profissionais em menores níveis de exaustão emocional, maior satisfação profissional e menor intenção de deixar o emprego11-12. No entanto, não se dispõe de estudos que avaliem o impacto do ambiente da prática no nível de burnout, satisfação profissional e atitude de segurança da equipe de enfermagem em unidades de cuidados críticos.

O objetivo deste estudo foi avaliar a percepção da equipe de enfermagem sobre o ambiente da prática em unidades de cuidados críticos e sua relação com atitude de segurança, percepção da qualidade do cuidado e nível de burnout.

Método

Trata-se de um estudo transversal, realizado em três unidades de terapia intensiva (UTI) de um hospital de ensino na cidade de Campinas do Estado de São Paulo. As três UTIs estão localizadas em estruturas físicas separadas, sendo a primeira com 22 leitos divididos em três postos de enfermagem: neurologia (sete leitos), unidade coronariana (cinco leitos) e UTI geral (dez leitos). A segunda, UTI de Emergência Clínica e Trauma, com 20 leitos distribuídos em três postos, sendo dez leitos para emergência clínica e dez leitos para pacientes vítimas de trauma. A terceira UTI, com oito leitos, denominada UTI de Transplante.

A equipe de enfermagem dessas unidades é composta por enfermeiros, técnicos de enfermagem, supervisores e diretor de serviço. Com exceção do diretor de enfermagem, os demais membros possuem jornada de trabalho de 30 horas. Para o estudo foram considerados todos os enfermeiros e técnicos de enfermagem. Fizeram parte da amostra os profissionais de enfermagem envolvidos na assistência direta aos pacientes e com tempo de experiência no atual local de trabalho igual ou superior a três meses. Como critérios de exclusão, foram considerados os sujeitos que exerciam atividades gerenciais ou estavam ausentes da unidade, por motivo de férias, afastamentos ou licença saúde.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição (Parecer nº 512.574). Os sujeitos que aceitaram participar do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

A coleta de dados foi realizada pela pesquisadora e por uma aluna bolsista do curso de graduação em enfermagem no período de dezembro de 2014 a fevereiro de 2015, após autorização formal da gerência de enfermagem da instituição e aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição. Os profissionais que atenderam aos critérios de inclusão foram abordados, de forma individual, em seus postos de trabalho, receberam informações sobre o objetivo da pesquisa e para aqueles que concordaram em participar do estudo, foi entregue um envelope contendo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e os instrumentos de coleta de dados. Foi combinado previamente uma data e horário para devolução dos instrumentos.

Para a coleta de dados foram utilizados os intrumentos: Nursing Work Index - Revised (NWI-R) - versão brasileira13-14, versão brasileira do Safety Attitudes Questionnaire - Short Form 2006 (SAQ)15) e o Inventário de Burnout de Maslach (IBM).

O Nursing Work Index - Revised (NWI-R) validado para a cultura brasileira, tem como objetivo avaliar a percepção da enfermagem em relação ao seu ambiente de trabalho11. Contém 15 itens, distribuídos em quatro subescalas: autonomia (cinco itens), suporte organizacional (dez itens), controle sobre o ambiente (sete itens) e relações entre médicos e equipe de enfermagem (três itens). Destaca-se que os itens que compõem a subescala suporte organizacional foram extraídos das três primeiras subescalas e portanto não são acrescentados ao total de itens do instrumento. Para o presente estudo foram consideradas duas versões do NWI-R, uma para enfermeiros13 e outra para técnicos de enfermagem14. A escala de medida é a do tipo Likert com quatro pontos e as opções de respostas são: 1 (concordo totalmente); 2 (concordo parcialmente); 3 (discordo parcialmente) e 4 (discordo totalmente) e, quanto menor a pontuação, maior a presença de atributos favoráveis à pratica desses profissionais.

O Safety Attitudes Questionnaire Short Form 2006 - (SAQ) é um instrumento com a finalidade de avaliar a percepção do profissional de saúde sobre as atitudes de segurança que permeiam seu ambiente de trabalho15. Contém 41 itens distribuídos em oito domínios: satisfação no trabalho, reconhecimento de estresse, clima de trabalho em equipe, clima de segurança, comportamento seguro, percepção da gestão da unidade, condições de trabalho e percepção da gestão do hospital.

A escala de resposta é do tipo Likert com cinco pontos, em que A = discordo totalmente, B = discordo um pouco, C = neutro, D = concordo um pouco e E = concordo totalmente. O profissional também conta com a opção de resposta "X" = não se aplica. Os escores são obtidos pela média das pontuações nos itens que compõem cada subescala e pontuações acima de 75 indicam a percepção de um ambiente seguro para o paciente.

O Inventário de Burnout de Maslach (IBM) tem como objetivo mensurar o desgaste físico e emocional do profissional por meio da avaliação do seu sentimento em relação ao próprio trabalho. Contém 22 itens distribuídos em três subescalas: exaustão emocional (nove itens), realização pessoal (oito itens) e despersonalização (cinco itens). A escala de medida é do tipo Likert com cinco pontos e o sujeito é solicitado a responder com que frequência vivencia determinadas situações no seu ambiente de trabalho com as opções de resposta: 1 (nunca); 2 (raramente); 3 (algumas vezes); 4 (frequentemente) e 5 (sempre). Os escores são obtidos por meio da soma das pontuações dos itens de cada subescala, seguidos da classificação em nível baixo, moderado e alto com base nos tercis.

Para a subescala exaustão emocional, valores iguais ou inferiores a 25 foram considerados baixo, maiores que 25 e igual ou inferior a 27 moderado e, maiores que 27, alto nível de burnout. Para a subescala despersonalização, pontuações iguais ou menores que 11 baixo, maiores de 11 e igual ou inferiores a 15 moderado e, maiores que 15 alto nível de burnout. Já a subescala realização pessoal, por possuir um escore inverso às outras subescalas, valores iguais ou inferiores a 33,5 nível alto, maiores que 33,5 e igual ou menores que 24 moderado e, maiores que 33,5 baixo nível de burnout.

A ficha de caracterização contém as variáveis: idade, sexo, tempo de formação profissional, tempo de trabalho na instituição e local de trabalho atual. Contém também questões que abordam a percepção do profissional sobre a qualidade do cuidado oferecida ao paciente, numa escala que varia de muito ruim (1 ponto) para muito boa (4 pontos); a percepção quanto a adequação de recursos humanos, recursos materiais e tecnológicos, com as opções sim e não e a intenção do profissional em deixar a enfermagem nos próximos 12 meses foi avaliada por meio de uma escala visual analógica de zero a dez e, quanto maior a pontuação, maior a intenção em deixar a profissão.

Os dados coletados foram transferidos para uma planilha eletrônica no programa Microsoft (r) Office Excel 2007 e analisados com a assessoria de um estatístico por meio do programa SPSS(r) 20.0 for Windows (Statistical Package for the Social Sciences versão 20.0) e SAS 9.1.3 for Windows (Statistical Analysis System versão 9.1.3).

Realizou-se estatística descritiva para análise das subescalas do NWI-R, IBM, SAQ, variáveis pessoais e profissionais. A confiabilidade das subescalas dos instrumentos foi avaliada pelo coeficiente alfa de Cronbach. Os valores podem variar entre zero e um, sendo que resultados iguais ou superiores a 0,60 foram considerados satisfatórios.

As correlações entre as subescalas dos instrumentos NWI-R, IBM, SAQ e as demais variáveis em estudo foram avaliadas por meio do coeficiente de correlação de Spearman, o qual varia de -1 a 1, analisados de acordo com os seguintes critérios: ausência de correlação (0,00), correlação fraca (0,10 - 0,30), correlação moderada (0,31 - 0,50) e correlação forte (0,51 - 1,00). Para os testes estatísticos foi considerado um nível de significância de 5%.

Resultados

Participaram do estudo 114 profissionais de enfermagem, dos quais 41 (36,0%) eram enfermeiros e 73 (64,0%) técnicos de enfermagem. A idade média dos profissionais foi de 35,4 anos (Min=23; Max= 60, dp= 8,7 anos) sendo que 75% da amostra possuía idade menor ou igual a 41 anos. A maioria era do sexo feminino (79,8%), com apenas um vínculo de trabalho (81,4%).

No que se refere à formação profissional, 26 (63,4%) enfermeiros possuíam especialização em terapia intensiva ou gestão em enfermagem; 3 (2,63%) eram mestres; 1 (0,88) doutor e 11 (26,8%) graduados. Quanto aos técnicos de enfermagem, 27 (37,0%) possuíam graduação em enfermagem.

O tempo de formação desses profissionais foi de 10,4 anos (Min=2; Max= 32, DP= 6,2 anos), tempo de trabalho na unidade de 5,2 anos (Min=0,5 anos; Max= 26,3 DP=5,3 anos) e tempo de trabalho na instituição de 7,7 anos (Min= 0,25 anos; Max=30,3, DP= 7,4 anos).

A maioria dos profissionais avaliou a qualidade do cuidado oferecida aos pacientes como boa (77,2%) e muito boa (15,0%), estava satisfeito com o trabalho (71,9%), concordava que a unidade possuía número de profissionais adequado para prestar assistência (68,42%) e que os recursos materiais e tecnológicos na unidade estavam adequados em número e qualidade (59,65%). Sobre a intenção de deixar a profissão, numa escala visual analógica de zero a dez, a média foi de 1,69 (Min=0,0; Max= 10, DP= 2,69).

As avaliações do ambiente da prática, nível de burnout e percepção da atitude de segurança pelos profissionais de enfermagem estão apresentadas na Tabela 1. Destaca-se que para os três instrumentos os resultados da confiabilidade foram satisfatórios. Para o NWI-R os valores da confiabilidade foram de 0,70 para a subescala autonomia, 0,83 para relações entre médico e equipe de enfermagem e 0,73 para a subescala controle sobre o ambiente. Quanto aos domínios do SAQ os valores da confiabilidade variaram de 0,64 a 0,81. Já para as subescalas do IBM esses valores foram de 0,91, para a subescala exaustão emocional 0,79 para realização pessoal e 0,73 para a subescala despersonalização.

Tabela 1 Descrição da percepção dos profissionais de enfermagem para as subescalas do Nursing Work Index-Revised, Inventário de Burnout de Maslach e Safety Attitude Questionnaire. Campinas, SP, Brasil, 2014-2015. 

Variáveis Média Desvio Padrão Mínimo Primeiro Quartil Mediana Terceiro Quartil Máximo
Nursing Work Index-Revised
Autonomia 1,93 0,53 1,00 1,60 1,80 2,20 3,60
Suporte organizacional 2,04 0,48 1,10 1,70 2,00 2,30 3,40
Controle sobre o ambiente 2,08 0,53 1,00 1,71 2,00 2,29 3,71
Relações médicos e equipe enfermagem 2,10 0,65 1,00 1,67 2,00 2,33 4,00
Inventário de Burnout de Maslach
Exaustão emocional 20,74 6,36 9,00 16,00 19,00 25,00 43,00
Realização pessoal 30,88 4,20 20,00 29,00 31,00 33,50 40,00
Despersonalização 9,15 3,39 5,00 6,00 9,00 11,00 21,00
Safety Attitude Questionnaire
Satisfação no trabalho 76,19 20,72 0,00 60,00 80,00 90,00 100,00
Reconhecimento do estresse 69,04 26,68 0,00 56,25 75,00 93,75 100,00
Clima de trabalho em equipe 68,62 17,22 20,83 54,17 70,83 79,17 100,00
Clima de segurança 60,18 18,33 14,29 46,43 62,50 71,43 95,83
Comportamento seguro 64,53 22,75 0,00 50,00 66,67 83,33 100,00
Percepção da gestão unidade 56,53 22,51 0,00 50,00 58,33 70,83 100,00
Condições de trabalho 56,49 26,27 0,00 37,50 58,33 75,00 100,00

Em seguida, foi avaliado se existiam diferenças na percepção dos profissionais quanto ao ambiente da prática, burnout, atitudes de segurança e percepção da qualidade do cuidado. Verificou-se que os profissionais diferiram na percepção da atitude de segurança com relação ao reconhecimento do estresse, um dos domínios do SAQ, no qual os enfermeiros apresentaram maiores pontuações em relação aos técnicos de enfermagem (p = 0,0025).

Outra análise realizada foi avaliar a existência de correlação entre as subescalas do NWI-R, domínios do SAQ, subescalas do IBM e a variável percepção da qualidade do cuidado (Tabela 2).

Tabela 2 Coeficiente de correlação de Spearman entre as subescalas do Nursing Work Index-Revised, subescalas do Inventário de Burnout de Maslach, subescalas do Safety Attitude Questionnaire e percepção da qualidade do cuidado (n= 114). Campinas, SP, Brasil, 2014-2015. 

Variáveis Autonomia Relação médico enfermagem Controle sobre o ambiente Exaustão emocional Realização pessoal Despersonalização Clima de trabalho em equipe Clima de segurança Satisfação no trabalho Reconhecimento do estresse Gestão da unidade Gestão do hospital Condições de trabalho Comportamento seguro
Qualidade do cuidado -0,44* -0,37* -0,30 -0,29 0,33 -0,22 0,39* 0,39* 0,34 -0,04 0,27 0,19 0,20 0,31
Autonomia 0,41* -0,25 0,25 -0,46* -0,43* -0,39* 0,15 -0,47* -0,39* -0,49* -0,46*
Relação médico e Enfermagem 0,23 -0,12 0,21 -0,48* -0,37* -0,25 0,15 -0,29 -0,21 -0,36 -0,38*
Controle sobre o ambiente 0,48* -0,24 0,18 -0,48* -0,42* -0,38* 0,15 -0,43* -0,39* -0,44* -0,43*
Exaustão emocional -0,47* -0,41* -0,37* 0,18 -0,37* -0,37* -0,41* -0,39*
Realização pessoal 0,33 0,31 0,36* -0,04 0,25 0,27 0,17 0,19
Despersonalização -0,29 -0,20 -0,30 -0,08 -0,27 -0,33 -0,36 -0,23

*p < 0,0001

†p < 0,05

Ao avaliar a existência de correlação entre as subescalas do SAQ, tempo de experiência na unidade e intenção de deixar a profissão, verificou-se uma correlação de fraca magnitude entre o tempo de experiência na unidade e os domínios clima de segurança (r= -0,24; p= < 0,0112), satisfação no trabalho (r= -0,24; p= < 0,0108), percepção da gestão da unidade (r= -0,26; p= < 0,0054) e percepção da gestão do hospital (r= -0,26; p= < 0,0067).

Discussão

Neste estudo investigou-se o impacto do ambiente da prática profissional, nível de burnout, percepção da qualidade do cuidado e atitudes de segurança dos profissionais de enfermagem em unidades de terapia intensiva.

Tratou-se de um grupo de profissionais adulto jovem, a maioria mulheres e com um único vínculo empregatício. A maioria dos enfermeiros possuía alguma especialização, porém poucas estão relacionadas à sua área de atuação, apontando que não existe uma cultura na instituição para estimular que os profissionais busquem qualificação/especialização relacionada ao próprio trabalho. E, com relação aos técnicos de enfermagem, 27 (37,0%) possuíam o curso de graduação em enfermagem, o que demonstra a preocupação ou busca pela formação qualificada.

Destaca-se que a maioria dos profissionais avaliou a qualidade do cuidado oferecida aos pacientes como boa e muito boa. A avaliação positiva da qualidade do cuidado converge com outros achados do presente estudo, nos quais os profissionais estavam satisfeitos com o trabalho e não tinham intenção de deixar a profissão, além da percepção positiva quanto a adequação de recursos humanos, recursos materiais e tecnológicos na unidade. Estudos enfatizam a importante relação entre percepção da qualidade do cuidado, satisfação profissional e menor intenção de deixar o emprego5,8, as quais são influenciadas pelas dimensões do ambiente da prática do enfermeiro.

No que se refere à percepção do ambiente da prática, a maioria dos profissionais possui uma percepção positiva do seu ambiente de trabalho para todas as subescalas do NWI-R, com destaque para a subescala autonomia, que obteve a melhor média em relação as demais dimensões do NWI-R. A avaliação entre categorias profissionais não resultou em diferenças significantes. Esses achados corroboram com um estudo em unidade de cuidados críticos16, um dos poucos que avaliaram o ambiente da prática nesse tipo de unidade.

Quanto ao burnout, a maioria apresentou nível baixo de exaustão emocional e sentimento de despersonalização e nível moderado de realização pessoal. Em um estudo prévio, a exaustão emocional foi uma variável importante, não só quando avaliada individualmente quanto ao enfermeiro, mas também quando mensurada entre grupos. Em relação à unidade, a exaustão emocional indica a pressão vivenciada por enfermeiros no contexto da equipe em que trabalha e reflete a experiência da equipe17. É importante destacar que na presente investigação, o nível de burnout não diferiu entre os enfermeiros e técnicos de enfermagem.

No que diz respeito à percepção da atitude de segurança, foi possível identificar que somente o domínio satisfação no trabalho foi considerado favorável, fato observado anteriormente15. No entanto, os domínios reconhecimento de estresse e clima de trabalho em equipe obtiveram médias acima de 68 pontos e devem ser valorizados pelo gerente da unidade, pois poderão influenciar na percepção de atitude de segurança na instituição.

Foram verificadas diferenças significantes entre as categorias profissionais com relação ao reconhecimento do estresse, pois a maioria dos enfermeiros, que corresponde a mais de 3/4 destes, apresentou médias iguais ou acima de 93,75 pontos, sinalizando que a percepção do estresse foi uma variável importante que interfere na percepção da atitude de segurança desses profissionais .

Como apontado em outros estudos internacionais, foi encontrada uma correlação significante entre as subescalas do NWI-R (autonomia, relações entre equipe médica e controle sobre o ambiente), exaustão emocional e satisfação no trabalho4-5,7-8,17.

A percepção da qualidade do cuidado resultou em uma correlação significante de moderada magnitude com as subescalas autonomia, relação entre médico e equipe de enfermagem, realização pessoal e com os domínios: clima de trabalho em equipe, clima de segurança, satisfação no trabalho e comportamento seguro. Ou seja, os profissionais que possuem autonomia e boas relações com a equipe médica sentem-se realizados pessoalmente, relatam que oferecem uma boa qualidade do cuidado ao paciente e que possuem uma atitude de segurança positiva demonstradas pelo clima de trabalho em equipe, clima de segurança, satisfação no trabalho e comportamento seguro.

Outro aspecto importante que se assemelha aos estudos internacionais8,18 foi a correlação de moderada magnitude entre exaustão emocional e as subescalas autonomia e controle sobre o ambiente. Isto significa que em ambientes nos quais os profissionais relatam ter autonomia e controle sobre o ambiente apresentam menores níveis de exaustão emocional. Além disso, evidenciou-se a existência de correlação de moderada e fraca magnitude entre as subescalas: autonomia, controle sobre o ambiente, boas relações entre médico e equipe de enfermagem e todos os domínios do SAQ, com exceção do domínio reconhecimento de estresse que não apresentou correlação com qualquer das variáveis.

E por último, mas não menos importante, foi a correlação de fraca magnitude entre tempo de experiência na unidade e os domínios clima de segurança, satisfação no trabalho, percepção da gestão da unidade e do hospital, indicando que quanto menor o tempo de experiência na unidade pior a percepção da atitude de segurança por esses profissionais.

Destaca-se que este é um dos primeiros estudos realizados em unidades de terapia intensiva no Brasil mostrando que ambientes favoráveis à pratica profissional com percepção da autonomia, boas relações profissionais e controle sobre o ambiente resultam em satisfação com o trabalho e menores níveis de burnout para os profissionais de enfermagem.

Limitações do estudo

Este estudo apresenta várias limitações. A amostra por conveniência não permite a generalização dos dados. O cenário de investigação foi um hospital de ensino do setor público e pode não retratar a realidade das unidades de terapia intensiva do estado de São Paulo e de outras regiões do Brasil. Por último, recomenda-se a realização de estudos de intervenção com o objetivo de avaliar estratégias que resultem em melhorias no ambiente da prática.

Conclusão

Os achados evidenciam que ambientes favoráveis à prática profissional da equipe de enfermagem podem resultar em menores níveis de exaustão emocional, melhor qualidade do cuidado e uma percepção positiva sobre atitudes de segurança.

REFERÊNCIAS

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1Apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil, processo nº 2013/05096-6.

Recebido: 02 de Fevereiro de 2016; Aceito: 22 de Fevereiro de 2017

Correspondência: Edinêis de Brito Guirardello Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Enfermagem Rua Tessália Vieira de Camargo, 126 Cidade Universitária CEP: 13083-887, Campinas, SP, Brasil E-mail: guirar@unicamp.br

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