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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-1169versão On-line ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.25  Ribeirão Preto  2017  Epub 12-Set-2017

http://dx.doi.org/10.1590/1518-8345.1891.2925 

Artigo Original

Binge drinking: padrão associado ao risco de problemas do uso de álcool entre universitários1

André Bedendo2 

André Luiz Monezi Andrade3 

Emérita Sátiro Opaleye4 

Ana Regina Noto5 

2Doutorando, Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil. Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil.

3PhD, Professor Doutor, Departamento de Psicologia, Universidade Anhembi-Morumbi, São Paulo, SP, Brasil.

4PhD, Pesquisadora, Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

5PhD, Professor Adjunto, Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Brasil.

RESUMO

Objetivo:

avaliar problemas associados ao uso de álcool entre universitários que relataram binge drinking em comparação a estudantes que consumiram álcool sem binge drinking.

Método:

estudo transversal entre universitários (N=2.408) que acessaram website sobre o uso de álcool. Nas análises estatísticas incluíram-se modelos de regressão logística e linear.

Resultados:

o uso de álcool, nos últimos três meses, foi relatado por 89,2% dos universitários e 51,6% referiram uso binge. Comparados a estudantes que não praticaram binge, universitários que apresentaram esse padrão tiveram maior chance de relatar todos os problemas avaliados, entre eles: incapacidade de lembrar o que aconteceu (aOR:5,4); problemas acadêmicos (aOR:3,4); agir impulsivamente e se arrepender (aOR:2,9); envolver-se em brigas (aOR:2,6); dirigir após beber (aOR:2,6) e pegar carona com alguém que bebeu (aOR:1,8). Estudantes que consumiram álcool no padrão binge também apresentaram maior pontuação no Alcohol Use Disorders Identification Test (b=4,6; p<0,001), mais consequências negativas (b=1,0; p<0,001) e menos percepção da negatividade das consequências (b=-0,5; p<0,01).

Conclusão:

a prática de binge drinking esteve associada ao aumento das chances de manifestação de problemas relacionados ao uso de álcool. As conclusões deste estudo não podem ser reproduzidas para toda realidade brasileira.

Descritores: Consumo de Bebidas Alcoólicas; Consumo de Álcool na Faculdade; Bebedeira; Internet; Estudantes; Universidades

Introdução

No Brasil, existem mais de 7,3 milhões de estudantes universitários1, os quais apresentam maior prevalência de uso de álcool no ano e no mês2-3 do que a população geral. Um dos padrões de uso de álcool especialmente comuns entre universitários é o binge drinking, o qual é definido como a ingestão de cinco ou mais doses na mesma ocasião3. O uso binge de álcool tem sido associado a diversos riscos e/ou consequências negativas, como dirigir sob efeito de álcool, problemas cardíacos, violência, lesões (quedas, envenenamentos, afogamentos, acidentes de trânsito) e morte4-5. Estima-se que 76% do dinheiro gasto nos Estados Unidos com saúde, em relação ao uso excessivo de álcool, é decorrente do binge drinking6. No Brasil, um em cada quatro estudantes relatou uso em padrão binge durante os últimos 30 dias, indicando determinado grupo de alunos frequentemente exposto aos diversos riscos associados3.

A avaliação das consequências do consumo de álcool deve considerar não somente a frequência do uso, mas, também, o padrão binge, sendo esse padrão de uso associado a problemas relacionados ao uso de álcool7. No Brasil, em estudo entre universitários observou-se que a prática de binge drinking foi associada a diversas consequências negativas (dirigir após beber, envolvimento em acidentes de trânsito, perder atividades na universidade, baixo desempenho escolar e envolvimento em brigas ou problemas com a lei)8. Contudo, no estudo em questão, foram considerados somente estudantes de alguns cursos da área de saúde e de uma única instituição pública de ensino superior; e dados indicam que a frequência do binge drinking varia de acordo com as áreas de estudo, tipo de instituição de ensino e regiões do país3. Dessa forma, ainda são necessários estudos brasileiros comparando a prática de binge e consequências associadas ao uso de álcool entre amostras de estudantes universitários de cursos de diversas áreas de estudo, instituições de ensino e regiões do país.

Neste estudo, o objetivo foi avaliar as consequências e problemas associados ao uso de álcool entre universitários que referem binge drinking, quando comparados a estudantes que não o referem. As hipóteses deste estudo foram: estudantes universitários que consomem álcool com prática de binge apresentam - 1) maior pontuação no AUDIT, 2) maior número de consequências negativas associadas ao uso de álcool e 3) maior chance de relatar problemas ou consequências associadas ao uso.

Método

O Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveram um website interativo, de acesso gratuito, sobre o consumo de álcool entre estudantes universitários. O site pode ser acessado por meio do endereço www.ciee.org.br/portal/estudantes/inicial_pesq.asp

O recrutamento de participantes (previamente cadastrados no CIEE) ocorreu via e-mail, e a coleta de dados foi realizada entre outubro de 2014 e março de 2015. Somente estudantes convidados tiveram acesso à pesquisa. Ao todo, 2.596 indivíduos acessaram o site e responderam à pesquisa. Os critérios de inclusão para este estudo foram: ter entre 18 e 30 anos e estar matriculado em qualquer Instituição de Ensino Superior (IES). Os participantes que não se enquadraram nesses critérios puderam concluir os questionários, mas tiveram seus dados desconsiderados nas análises (N=167). Como forma de assegurar a veracidade das respostas dos participantes, foi incluída questão sobre o uso de uma droga fictícia9, os universitários que responderam positivamente a essa questão tiveram seus dados excluídos das análises (N=21). A amostra final, avaliada neste estudo, foi de 2.408 estudantes universitários (N=2.408).

Instrumentos

Para avaliação do padrão de uso de álcool utilizou-se o Alcohol Use Disorders Identification Test (AUDIT)10, previamente validado entre universitários11, e na população brasileira12, e adaptado para se referir aos últimos três meses. Por sua vez, para as consequências do consumo de álcool foram utilizadas oito questões baseadas na escala Rutgers Alcohol Problem Index (RAPI)13, entre elas questões sobre o comportamento de dirigir após consumir bebidas alcoólicas, pegar carona com alguém que consumiu álcool, enjoo ou vômitos, comportamento impulsivo e uma sobre a avaliação do participante acerca do quão negativas eram as consequências apresentadas. A respeito dos problemas associados ao uso de álcool foram utilizadas as respostas das questões 4 a 10 do AUDIT.

Considerações éticas

Este estudo foi submetido e aprovado (CEP: 429.170) pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (CAAE: 22423513.4.0000.5505). O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi disponibilizado na página inicial do site.

Análises estatísticas

Os participantes foram classificados em três grupos, de acordo com o perfil de consumo de álcool nos três últimos meses: sem consumo de álcool, consumo de álcool Sem prática de Binge (SB) e Consumo de álcool com prática de Binge (CB).

Foram utilizados testes estatísticos de qui-quadrado e ANOVA de uma via. Modelos de regressão linear e logística foram utilizados para comparação dos grupos de uso de álcool com e sem prática de binge. Os desfechos primários avaliados foram: pontuação total no AUDIT, número total de consequências associadas ao consumo de álcool, problemas associados ao consumo de álcool (questões 4 a 8 AUDIT) e consequências do consumo de álcool. Os desfechos secundários avaliados foram: gasto financeiro com bebidas alcoólicas (R$), número máximo de doses consumidas por hora e percepção sobre o quão negativas são as consequências para o participante. Todos os modelos de regressão foram ajustados para gênero, idade, renda, tipo de instituição, idade ao primeiro uso de álcool e idade ao primeiro episódio de embriaguez. O nível mínimo de significância estatística adotado foi de 5%. As análises foram realizadas no software Stata, v.12.0.

Resultados

Mais da metade dos estudantes era do sexo masculino (55,2%), residente das Regiões Sul e Sudeste (54,2%), com renda familiar mensal de 1 a 3 salários-mínimos (56,3%) e idade média de 21,6 anos (Desvio-Padrão-dp de 0,06). Aproximadamente 85% dos universitários eram provenientes de instituições privadas e frequentavam a universidade, em média, há 2,4 anos (dp=0,02), sendo 54% alunos de cursos de humanas (Tabela 1). Além disso, a frequência do consumo de álcool nos últimos três meses foi de 89,2%, e 51,6% dos universitários declararam uso em padrão binge. Entre estudantes que consumiram bebidas alcoólicas, a maioria consumiu entre 1 e 4 doses (65,6%). Observou-se, também, que a frequência de mulheres foi maior no grupo SB, enquanto homens foram mais frequentes no grupo CB (x2(2)=39,13; p<0,001). Por sua vez, estudantes da Região Centro-Oeste relataram uso menos frequente de álcool, com ou sem padrão binge (x2(4)=12,03; p=0,02), enquanto estudantes com renda familiar maior que 10 salários-mínimos foram mais prevalentes nos grupos SB e CB (x2(8)=31,68; p<0,001).

Tabela 1 Características sociodemográficas entre indivíduos que não consumiram álcool, consumiram sem binge e consumiram com binge, nos três meses anteriores à pesquisa (N=2.408). São Paulo, SP, Brasil, 2014/2015 

Total (N=2.408) Não bebeu (N=261) Bebeu sem binge (N=911) Bebeu com binge (N=1.236) χ² ou F
Gênero - N (%)
Feminino 1.079 (44,8%) 125 (47,9%) 475 (52,1%) 479 (38,8%) 39,13*
Masculino 1.329 (55,2%) 136 (52,1%) 436 (47,9%) 757 (61,3%)
Idade - média (dp) 21,6 (0,06) 21,6 (0,18) 21,6 (0,10) 21,7 (0,08) 0,37
Região - N (%)
Norte e Nordeste 651 (27,1%) 70 (26,8%) 212 (23,3%) 369 (29,9%) 12,03
Centro-Oeste 226 (18,7%) 51 (19,5%) 174 (19,1%) 226 (18,3%)
Sul e Sudeste 1.305 (54,2%) 140 (53,6%) 525 57,6%) 640 (51,8%)
Renda(R$) - N (%)
N ão sei 138 (5,7%) 17 (6,5%) 33 (3,6%) 88 (7,1%) 31,68*
1 a 3 salários-mínimos 1.355 (56,3%) 157 (60,2%) 557 (61,1%) 641 (51,9%)
3 a 5 salários-mínimos 435 (18,1%) 48 (18,4%) 153 (16,8%) 234 (18,9%)
5 a 10 salários-mínimos 337 (14,0%) 27 (10,3%) 126 (13,8%) 184 (14,9%)
10 ou mais salários-mínimos 143 (5,9%) 12 (4,6%) 42 (4,6%) 89 (7,2%)
Instituição - N (%)
Privada 2.048 (85,1%) 227 (87,0%) 788 (86,5%) 1.033 (83,6%) 4,37
Pública 360 (15,0%) 34 (13,0%) 123 (13,5%) 203 (16,4%)
Área do curso - N (%)
Biológicas 157 (6,5%) 12 (4,6%) 57 (6,3%) 88 (7,1%) 3,75
Exatas 952 (39,5%) 98 (37,6%) 358 (39,3%) 496 (40,1%)
Humanas 1.299 (54,0%) 151 (57,9%) 496 (54,5%) 652 (52,8%)
Ano do curso - média (dp) 2,4 (0,02) 2,4 (0,07) 2,4 (0,03) 2,4 (0,03) 1,64

*p<0,001; †dp: desvio-padrão; ‡p<0,01; salários-mínimos em 2014, Brasil.

A maior parte dos universitários foi classificada com Uso de Baixo Risco pelo AUDIT (77,5%), e a frequência do Uso de Risco foi significativamente superior no grupo CB (31,3% - x2(3)=344,64; p<0,001). Por sua vez, universitários do grupo CB relataram consumir significativamente maior número máximo de doses (F(1,2145)=518,71; p<0,001) e mais gastos com bebidas alcoólicas (F(1,2145)=109,71; p<0,001) que o grupo SB (Tabela 2).

Tabela 2 Características do padrão de uso de álcool entre indivíduos que consumiram álcool sem binge e consumiram com binge, nos três meses anteriores à pesquisa (N=2.147). São Paulo, SP, Brasil, 2015 

Total (N=2.147) Bebeu sem binge (N=911) Bebeu com binge (N=1.236) χ² ou F
Idade ao primeiro uso de álcool - média (dp)* 16,1 (0,05) 16,6 (0,08) 15,7 (0,06) 66,8
Idade à primeira embriaguez - média (dp)* 17,7 (0,05) 18,2 (0,08) 17,3 (0,07) 79,1
Pontuação AUDIT - média (dp)* 5,1 (0,09) 2,2 (0,06) 7,3 (0,12) 1079,4
Zona de Risco AUDIT - N (%)
Baixo Risco 1.663 (77,5%) 883 (96,9%) 780 (63,1%) 344,6
Uso de Risco 415 (19,3%) 28 (3,1%) 387 (31,3%)
Uso Nocivo 41 (1,9%) 0 (0) 41 (3,3%)
Dependência 28 (1,3%) 0 (0) 28 (2,3%)
Número máximo de doses consumidas - média (dp)* 6,5 (0,13) 3,4 (0,11) 8,9 (0,19) 518,7
Número máximo de doses consumidas por hora - média (dp)* 1,8 (0,03) 1,3 (0,04) 2,1 (0,05) 123,2
Gasto com bebidas alcoólicas - média (dp)* 54,0 (1,62) 34,7 (1,60) 68,2 (2,47) 109,7

*dp: desvio-padrão; †p<0,001.

As consequências e problemas associados ao consumo de álcool nos últimos três meses estão apresentadas na Tabela 3. Todas as consequências e problemas mostraram-se mais prevalentes no grupo CB. Contudo, o mesmo grupo avaliou as consequências, em média, como menos negativas (F(1, 2145)=6,40; p<0,01). A Tabela 4 apresenta os modelos de regressão logística comparando os participantes dos grupos SB e CB, prevendo as consequências e problemas associados ao uso de álcool. Para todos os desfechos avaliados, os modelos demonstraram que universitários do grupo CB tiveram maior chance de relatar alguma das consequências ou problemas associados ao uso de álcool.

Tabela 3 Prevalência de consequências e problemas associados ao uso de álcool entre indivíduos que consumiram álcool sem binge e consumiram com binge, nos três meses anteriores à pesquisa (N=2.147). São Paulo, SP, Brasil, 2015 

Total (N=2.147) Sim Bebeu sem binge (N=911) Sim Bebeu com binge (N=1.236) Sim χ² ou F
Consequências do consumo de álcool - N (%)
Dirigiu após ter consumido 398 (18,5) 82 (9,0) 316 (25,6) 95,3*
Pegou carona com alguém que consumiu bebidas 1.245 (58,0) 444 (48,7) 801 (64,8) 55,6*
Problemas acadêmicos 232 (10,8) 40 (4,4) 192 (15,5) 67,6*
Problemas com namorado ou parente próximo 402 (18,7) 114 (12,5) 288 (23,3) 40,1*
Enjoo ou vômito 979 (45,6) 286 (31,4) 693 (56,1) 128,7*
Brigas físicas 123 (5,7) 25 (2,7) 98 (7,9) 26,1*
Relações sexuais sem uso de preservativo 444 (20,7) 127 (13,9) 317 (25,7) 43,8*
Agiu de maneira impulsiva e se arrependeu 638 (29,7) 153 (16,8) 485 (39,2) 126,5*
Número de consequências associadas ao consumo de álcool - média (dp) 2,1 (0,04) 1,4 (0,05) 2,6 (0,05) 243,0*
O quão negativas são as consequências para o participante - média (dp) 3,7 (0,08) 3,9 (0,13) 3,5 (0,09) 6,4
Problemas associados ao uso de álcool - N (%)
Achou que não conseguiria parar de beber 306 (14,3) 46 (5,1) 260 (21,0) 109,7*
Não conseguiu fazer o que era esperado 309 (14,4) 44 (4,8) 265 (21,4) 117,4*
Precisou beber pela manhã para se sentir bem 94 (4,4) 13 (1,4) 81 (6,6) 32,9*
Sentiu-se culpado ou com remorso após ter bebido 563 (26,2) 141 (15,5) 422 (34,1) 94,4*
Foi incapaz de lembrar o que aconteceu 463 (21,6) 67 (7,4) 396 (32,0) 188,9*
Alguma vez na vida já causou ferimentos ou prejuízos 387 (18,0) 8 8 (9,7) 299 (24,2) 74,9*
Alguma vez na vida alguém já se preocupou com seu hábito de consumo 344 (16,0) 66 (7,2) 278 (22,5) 90,6*

*p<0,001; †dp: desvio-padrão; ‡p<0,01.

Tabela 4 Modelos de regressão logística ajustados* comparando universitários que consumiram álcool sem binge (referência) e consumiram com binge, nos últimos três meses (N=2.146). São Paulo, SP, Brasil, 2015 

Bebeu com binge (N=1.236)
OR (IC 95%) aOR § (IC 95%)
Consequências do consumo de álcool
Dirigiu após ter consumido 3,5 (2,7-4,5) || 2,6 (2,0-3,5) ||
Pegou carona com alguém que consumiu bebidas 1,9 (1,6-2,3) || 1,8 (1,5-2,2) ||
Problemas acadêmicos 4,0 (2,8-5,7) || 3,4 (2,4-4,9) ||
Problemas com namorado ou parente próximo 2,1 (1,7-2,7) || 1,9 (1,4-2,4) ||
Enjoo ou vômito 2,8 (2,3-3,3) || 2,8 (2,3-3,3) ||
Brigas físicas 3,1 (2,0-4,8) || 2,6 (1,6-4,1) ||
Relações sexuais sem uso de preservativo 2,1 (1,7-2,7) || 1,8 (1,5-2,3) ||
Agiu de maneira impulsiva e se arrependeu 3,2 (2,6-3,9) || 2,9 (2,3-3,6) ||
Problemas associados ao uso de álcool
Achou que não conseguiria parar de beber 5,0 (3,6-6,9) || 4,6 (3,3-6,5) ||
Não conseguiu fazer o que era esperado 5,4 (3,9-7,5) || 4,7 (3,4-6,7) ||
Precisou beber pela manhã para se sentir bem 4,8 (2,7-8,8) || 5,0 (2,7-9,1) ||
Sentiu-se culpado ou com remorso após ter bebido 2,8 (2,3-3,5) || 2,6 (2,1-3,2) ||
Foi incapaz de lembrar o que aconteceu 5,9 (4,5-7,8) || 5,4 (4,1-7,2) ||
Alguma vez na vida já causou ferimentos ou prejuízos 3,0 (2,3-3,9) || 2,4 (1,8-3,2) ||
Alguma vez na vida alguém já se preocupou com seu hábito de consumo 3,7 (2,8-4,9) || 3,0 (2,2-4,1) ||

*Ajustado para gênero, idade, renda, instituição, idade ao primeiro uso de álcool e idade à primeira embriaguez; †OR: Odds Ratio; ‡IC 95%: intervalo de confiança de 95%; §aOR: Odds Ratio ajustado; || p<0,001.

Os modelos de regressão linear apresentados na Tabela 5 indicam que, comparados ao grupo SB, universitários CB tiveram pontuação, em média, 4,60 no AUDIT; uma consequência negativa a mais; consumo máximo de doses cerca de 0,65 doses a mais por hora e gasto financeiro com bebidas de R$29,68 a mais. Apesar de o grupo CB ter apresentado mais consequências negativas, o mesmo apresentou percepção sobre a negatividade das consequências, em média, 0,45 pontos a menos do que o grupo SB.

Tabela 5 Modelos de regressão linear ajustados* comparando universitários que consumiram álcool sem binge (referência) e consumiram com binge, nos últimos três meses (N=2.146). São Paulo, SP, Brasil, 2015 

b Erro-padrão b β p value IC 95% inferior IC 95% superior R 2
Pontuação AUDIT 4,60 0,16 0,53 0,000 4,29 4,90 0,38
Número de consequências associadas ao consumo de álcool 1,01 0,08 0,27 0,000 0,85 1,16 0,15
O quão negativas são as consequências para o participante -0,45 0,16 -0,06 0,005 -0,75 -0,14 0,01
Número máximo de doses consumidas por hora 0,65 0,07 0,20 0,000 0,51 0,79 0,08
Gasto com bebidas alcoólicas (R$) 29,68 3,30 0,20 0,000 23,21 36,16 0,07

*Ajustado para gênero, idade, renda, instituição, idade ao primeiro uso de álcool e idade à primeira embriaguez; †IC 95%: intervalo de confiança de 95%.

Discussão

O presente estudo indicou que na amostra de universitários brasileiros, os quais acessaram o site sobre uso de álcool, indivíduos que relataram consumo de álcool com prática de binge nos últimos três meses apresentaram maior número de consequências negativas associadas ao uso, bem como maior incidência de problemas associados ao uso e maior gasto financeiro com bebidas. Porém, esses universitários perceberam as consequências por eles relatadas como não tão negativas. Os resultados corroboram as três hipóteses iniciais propostas: estudantes universitários que consomem álcool com prática de binge apresentariam maior pontuação no AUDIT, maior número de consequências negativas associadas ao uso de álcool e mais chances de relatar problemas ou consequências associadas ao uso.

Em relação ao uso de álcool nos últimos três meses, neste estudo observou-se frequência de 89,2%, a qual é superior ao uso na vida (86,2%), relatado na principal referência nacional sobre o tema: I Levantamento Nacional Sobre Uso de Álcool, Tabaco e Outras Drogas entre Universitários das 27 Capitais Brasileiras. A frequência do padrão de uso binge, nos últimos três meses, neste estudo (51,6%) também foi maior do que a observada ao longo do ano no Levantamento (43,7%)3. Dados de pesquisas norte-americanas indicam prevalência do binge durante as duas últimas semanas (35%), sem grandes alterações desde o início dos anos 199014. Por sua vez, a comparação direta entre os dados deste trabalho com os de outros estudos possui limitações, uma vez que foram utilizados métodos diferentes de coleta de dados, além de se referirem a dados de frequência com recortes temporais diferentes. Além disso, neste estudo, a coleta de informações foi realizada via internet, enquanto no Levantamento foi realizada a partir da aplicação coletiva de questionário de papel, durante horário de aula. O uso da internet para esse tipo de procedimento pode atenuar o constrangimento em temas como o uso de drogas15, refletindo, possivelmente, maior frequência de relato do uso de álcool. Outro aspecto relevante: durante o recrutamento, os participantes eram convidados a acessar uma pesquisa para conhecer mais sobre seu hábito de consumo de álcool atual. Dessa forma, conforme anteriormente mencionado, é possível que esta amostra apresente sub-representação de universitários que não consomem bebidas alcoólicas.

A frequência de homens foi maior no grupo CB, enquanto mulheres foram mais prevalentes no grupo SB. Esses dados sugerem que mulheres parece que não se abstêm do uso de álcool, mas, sim, praticam com menor frequência o consumo em padrão binge em comparação aos homens. Esse dado corrobora alguns achados em que o padrão binge drinking entre homens é maior que entre mulheres14,16. O mesmo dado é semelhante aos de estudos internacionais que indicam maior prevalência de binge entre homens17. Neste estudo, as Regiões Norte-Nordeste apresentaram maior frequência do uso de álcool em padrão binge, dado semelhante ao observado no Levantamento Nacional3. Por sua vez, a variável renda familiar de 10 ou mais salários-mínimos foi associada ao consumo de álcool com e sem binge. Em estudo anterior, realizado entre estudantes do ensino médio de escolas privadas de São Paulo, verificou-se maior frequência do uso de álcool, inclusive binge drinking, entre classes socioeconômicas mais altas18.

A frequência do comportamento de pegar carona com alguém que tenha consumido bebidas alcoólicas foi, aproximadamente, três vezes maior do que o comportamento de beber e dirigir. Em 2008, foi publicada a Lei Seca, atualizada em 2012, definindo penalidades às pessoas que dirigirem sob influência de álcool. Apesar da redução de 45% na frequência de adultos que dirigiam após prática de binge, entre 2007 e 201319, 60,2% dos motoristas foram passageiros de motoristas que também consumiram bebidas alcoólicas20. Entre estudantes de 11 a 21 anos de idade, 8% relataram beber e dirigir, enquanto 32% pegaram carona, nos últimos 12 meses, com alguém que havia consumido bebidas alcoólicas, sendo que 16,6% afirmaram ter pegado carona com motorista que havia bebido demais para dirigir com segurança21. Esses dados sugerem que, apesar da redução no comportamento de beber e dirigir, a frequência de indivíduos que se colocam em risco de acidentes de trânsito ainda é alta, uma vez que, mesmo não conduzindo veículos após beber, muitos pegam carona com alguém que tenha consumido bebidas alcoólicas.

A prática de binge foi associada a maiores chances de se relatar qualquer uma das consequências ou problemas avaliados neste estudo. Nas ocasiões em que mais consumiram álcool, universitários do grupo CB apresentaram o consumo médio de 2,1 doses/hora, durando, em média, 5,2 horas. Tais dados sugerem que esses universitários apresentaram sinais relevantes de embriaguez. Nesse sentido, é razoável pensar que o respectivo grupo apresente maiores chances de se engajar em comportamentos de risco. O uso binge está associado a problemas cognitivos, fisiológicos, sociais e acadêmicos de curto e longo prazo. Por exemplo, a prática de binge por estudantes universitários já foi associada a maiores chances de se vivenciar mais problemas durante o período da universidade, ou abuso e dependência de álcool após 10 anos22. Além disso, esse padrão de uso está associado a inúmeras outras consequências negativas agudas5.

Apesar de os universitários do grupo CB apresentarem mais consequências associadas ao uso de álcool, os mesmos avaliaram como menos negativas as consequências vivenciadas. Seria esperado que quanto maior o número de consequências vivenciadas maior a percepção do impacto negativo das mesmas. Contudo, apesar de poucos estudos explorarem a percepção sobre as consequências do consumo de álcool, menor avaliação negativa de consequências comportamentais/físicas, por universitários, já foi previamente associada a um maior número de problemas relacionados ao consumo de álcool23. Outro estudo também indicou que universitários que consomem álcool em excesso tendem a perceber algumas consequências (ressaca, apagões, vômitos, perder aula ou trabalho), como experiências mais positivas do que negativas24. Assim, consequências tradicionalmente percebidas como negativas por pesquisadores podem assumir caráter positivo entre alguns estudantes, atuando de maneira a reforçar o comportamento de uso de álcool25.

Entre as limitações deste estudo destaca-se que, por se tratar de estudo transversal, seus resultados não permitem afirmar relação de causalidade. Apesar dos resultados serem provenientes de grande amostra nacional, e com distribuição de instituições públicas e privadas muito semelhantes aos dados provenientes do Censo da Educação Superior1, os resultados deste estudo não são representativos da população de estudantes universitários brasileiros, uma vez que o mesmo não foi delineado para obter amostragem representativa dessa população. Outra limitação é a baixa taxa de resposta de estudantes da Região Sul, característica da base de dados de e-mails do próprio CIEE decorrente da descentralização de algumas regionais da empresa. Em virtude das características do convite para acesso ao site, possivelmente há sub-representação de universitários que não consomem bebidas alcoólicas.

Conclusão

Entre os participantes do estudo, observou-se o relato do consumo de álcool em padrão binge em considerável parcela da amostra. Comparado ao uso de álcool sem prática de binge, a variável binge drinking foi significativamente associada à maior chance de relatar diversos problemas e consequências negativas do consumo de álcool. Esses resultados sugerem um grupo de risco específico para problemas associados ao uso de álcool. A fim de reduzir o impacto dos problemas associados a esse consumo, as informações do presente estudo devem ser consideradas em futuras políticas públicas ou institucionais focadas em universitários brasileiros.

Agradecimentos

Ao Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), Brasil, pelo desenvolvimento do site e fornecimento dos e-mails para o recrutamento de participantes.

REFERÊNCIAS

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1Apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Brasil e da Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa (AFIP), Brasil.

Recebido: 11 de Outubro de 2016; Aceito: 27 de Maio de 2017

Correspondência: Ana Regina Noto Universidade Federal de São Paulo. Departamento de Psicobiologia Rua Botucatu, 862 Vila Clementino CEP: 04023-062, São Paulo, SP, Brasil E-mail: arnpsicobio@gmail.com

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