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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão On-line ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.26  Ribeirão Preto  2018  Epub 17-Maio-2018

http://dx.doi.org/10.1590/1518-8345.2377.3002 

Artigos Originais

Flebite e infiltração: traumas vasculares associados ao cateter venoso periférico

Luciene Muniz Braga1 

Pedro Miguel Parreira2 

Anabela de Sousa Salgueiro Oliveira3 

Lisete dos Santos Mendes Mónico4 

Cristina Arreguy-Sena5 

Maria Adriana Henriques6 

1 MSc. Doutorando. Universidade de Lisboa, Instituição, Lisboa, Portugal, Portugal. Professor Adjunto. Departamento de Medicina e Enfermagem, Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, MG, Brasil. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior-CAPES . Processo Número 0867/14-4.

2 PhD. Professor Adjunto. Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem Fundamental, Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Coimbra, Portugal, Portugal.

3 PhD. Professor Adjunto. Unidade Científico-Pedagógica de Enfermagem Fundamental, Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Coimbra, Portugal, Portugal.

4 PhD. Professor Assistente.Unidade, Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal, Portugal.

5 PhD. Professor Associado. Departamento de Enfermagem Aplicada, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, MG, Brasil.

6 PhD. Professor Adjunto. Unidade, Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, Lisboa, Portugal, Portugal.

RESUMO

Objetivo:

determinar a taxa de incidência e os fatores de risco para os indicadores sensíveis aos cuidados de Enfermagem, flebite e infiltração, em pacientes portadores de cateteres venosos periféricos (CVPs).

Método:

estudo de coorte com 110 pacientes. Utilizou-se escalas para avaliar e documentar flebite e infiltração. Recolheram-se variáveis sociodemográficas, clínicas, relativas ao CVP, à medicação e à internação, bem como efetuou-se análise descritiva e inferencial, e modelação logística multivariada.

Resultados:

a taxa de incidência de flebite e infiltração foi de 43,2 e 59,7 por mil cateteres-dia, respectivamente. A maioria dos CVPs foi removida nas primeiras 24h devido a esses traumas vasculares. Foram fatores de risco para flebite o tempo de internação (p=0,042) e o número de cateteres inseridos (p<0,001), sendo para infiltração a piperacilina/tazobactan (p=0,024) e o número de cateteres inseridos (p<0,001).

Conclusão:

a investigação documentou a incidência de indicadores sensíveis aos cuidados de Enfermagem (flebite e infiltração) e evidenciou novos fatores de risco relacionados à infiltração. Possibilitou, também, uma reflexão sobre os cuidados de Enfermagem para prevenir esses traumas vasculares, as indicações e as contraindicações do CVP, tendo subsidiada a implementação do PICC nas práticas de Enfermagem como alternativa ao CVP.

Descritores: Enfermagem; Cateterismo Periférico; Flebite; Infusões Intravenosas; Extravasamento de Materiais Terapêuticos e Diagnósticos; Segurança do Paciente

Introdução

Os cuidados de Enfermagem a pacientes em contexto hospitalar são imprescindíveis para o sucesso da prevenção, promoção, segurança e restabelecimento da saúde e do bem-estar dos pacientes. Entre esses cuidados destacam-se aqueles relacionados com a inserção de cateteres venosos periféricos (CVPs), bem como sua manutenção e vigilância1-2.

As evidências demonstram que 58,7% a 86,7% dos pacientes têm um cateter venoso inserido durante o período de internação, representando uma parcela significativa e diferenciada dos cuidados realizados por parte dos enfermeiros3-5. Os CVPs tornaram-se um recurso indispensável ao cuidado em ambiente hospitalar para a administração intravenosa de medicamentos, soluções, componentes sanguíneos, nutrição parenteral e também para fins diagnósticos4,6-7. No entanto, a utilização desses dispositivos não está isenta de riscos de complicações. Tal afirmação é suportada por vários estudos que têm documentado uma incidência elevada de traumas vasculares periféricos quando da utilização do CVP, destacando-se entre eles a flebite e a infiltração7-11.

A flebite refere-se a uma inflamação da camada íntima da veia, como resposta à lesão tecidual causada por diversos fatores associados à inserção e à utilização do CVP, além de medicamentos nele administrados. Essa inflamação é identificada por manifestações clínicas como dor, eritema, rubor, edema e cordão venoso palpável12-13. A incidência documentada em vários estudos situa-se entre 1,2% e 54,5%7,14-17. Os estudos apontam como fatores de risco para o desenvolvimento da flebite aqueles que se relacionam com as características intrínsecas do paciente, do CVP e dos medicamentos administrados14-15,17.

A infiltração reporta-se a outro tipo de trauma vascular, proveniente de uma lesão nas camadas da veia e subsequente perfuração, resultando na infiltração de soluções ou medicamentos não vesicantes nos tecidos próximos à inserção do cateter venoso. Quando as soluções ou medicamentos apresentam características vesicantes, a infiltração é denominada de extravasamento18-19. O edema constitui-se no sinal clínico mais frequente para identificação da infiltração, podendo associar-se a outros, como palidez cutânea, dor, diminuição da temperatura e/ou sensibilidade no local. A infiltração poderá, também, desencadear comprometimento circulatório e necrose tecidual nos casos mais graves8,18,20. A incidência da infiltração varia entre 7% e 40,5%2,8,16. Os fatores de risco descritos na literatura são fundamentados em relatos ou séries de casos e estão relacionados, principalmente, com os medicamentos administrados através do CVP, tais como: dopamina, betabloqueadores/adrenalina, gluconato de cálcio, solução isotônica de glicose, cloreto de potássio, nutrição parenteral, bicarbonato de sódio, vários tipos de antimicrobianos, soluções e medicamentos quimioterápicos18,20-22.

Neste artigo, alerta-se para o risco de trauma vascular periférico associado à utilização do CVP, bem como para a necessidade de melhorar as evidências sobre os indicadores de qualidade sensíveis aos cuidados de Enfermagem, nomeadamente para a incidência de flebite e de infiltração, e os possíveis fatores de risco dessas complicações, com vista à produção de conhecimento e à implementação de práticas baseadas em evidências nos cuidados de Enfermagem. Almejando a melhoria da qualidade dos cuidados de Enfermagem e o bem-estar do paciente, realizou-se investigação com o objetivo de determinar a taxa de incidência e os fatores de risco para os indicadores sensíveis aos cuidados de Enfermagem, especificamente flebite e infiltração, em pacientes portadores de CVPs.

Método

Realizou-se estudo com delineamento de coorte descritivo, num serviço de clínica médica de um hospital da região centro de Portugal. A escolha da unidade estudada foi fundamentada nos resultados dos indicadores sensíveis aos cuidados de Enfermagem, nomeadamente na incidência de flebite (43,8%) e infiltração (13%), evidenciados no serviço em 201214, e na necessidade de avaliar ao longo do tempo os resultados desses indicadores. Outra razão para a escolha desse serviço foi a motivação da equipe de Enfermagem para conhecer os resultados de suas práticas e, assim, subsidiarem a reflexão e a implementação de ações baseadas em evidências para melhorar os cuidados prestados aos pacientes.

A amostra em estudo é do tipo não probabilística, com inclusão sequencial de 121 pacientes admitidos no serviço entre os dias 10 de julho e 10 de setembro/2015, que atendiam aos seguintes critérios de inclusão: idade ≥ 18 anos e ser portador de um ou mais CVPs. Foram excluídos 12 pacientes (quatro pacientes com CVC, três por recusa e quatro pela ausência de assinatura no consentimento informado). Assim, a amostra ficou constituída por 110 pacientes que fizeram uso de um ou mais CVPs, totalizando 526 CVPs (1389 cateteres-dia).

Cabe mencionar que foi permitida a entrada de novos pacientes ao longo da coorte e não houve perdas de seguimento. No último dia determinado para o estudo (10 de setembro), havia 28 pacientes em terapia intravenosa. Tendo em vista o objetivo de avaliar todo o período de tratamento dos pacientes com CVP, os 28 pacientes foram avaliados até o término do tratamento intravenoso, totalizando 82 dias de acompanhamento. No caso da inserção de mais de um CVP no paciente, consideraram-se para efeito de análise estatística todos os CVPs.

As variáveis sociodemográficas (idade e sexo), da internação (motivo e tempo da internação), clínica (doenças de base) e aquelas relacionadas com os medicamentos administrados no CVP foram obtidas no prontuário eletrônico do paciente. As variáveis relativas ao CVP, não disponíveis no prontuário do paciente, foram recolhidas através da avaliação do local de inserção e remoção do CVP pelos enfermeiros do serviço, além de avaliação pela investigadora principal. Tais variáveis constituem tempo de permanência (horas), calibre em gauge (G), número de tentativas de punção venosa, local de inserção, tipo de curativo para fixação do CVP, bem como sinais e sintomas de flebite e infiltração. A inserção de cada CVP foi considerada como um caso novo e os pacientes foram acompanhados desde a internação até a alta, transferência ou óbito.

Os 27 enfermeiros que prestavam cuidados diretos aos pacientes foram capacitados, previamente e individualmente pela investigadora, para avaliação do local da inserção do CVP quanto à presença dos sinais e sintomas de flebite e infiltração. Com o objetivo de padronizar a forma de avaliar e registrar os sinais e sintomas de flebite e infiltração, foram utilizadas as Escalas Portuguesas de Flebite e Infiltração13,19. Para evitar viés de informação, ausência do preenchimento de algum dado e uma potencial influência dos enfermeiros nos resultados, a investigadora avaliou os pacientes no local da inserção e remoção dos CVPs quanto à presença dos sinais e sintomas de flebite e infiltração antes do término de cada turno de trabalho dos enfermeiros (manhã, tarde e noite). Além disso, a investigadora consultava diretamente os enfermeiros sobre a substituição dos CVPs e quando pertinente comparava os registros efetuados pelos enfermeiros com as manifestações clínicas apresentadas pelo paciente. Cabe mencionar que não houve divergência entre a avaliação e os registros dos enfermeiros e aqueles da investigadora quanto à presença de flebite e infiltração.

Para reduzir o risco de influência dos enfermeiros nos graus de flebite e infiltração, disponibilizou-se no instrumento de coleta de dados apenas os sinais e sintomas, os quais foram assinalados. Posteriormente, a investigadora converteu os sinais e sintomas para os respectivos graus de flebite e infiltração.

Os dados obtidos foram analisados com o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 20,0 (IBM SPSS, Chicago). Inicialmente, recorreu-se à estatística descritiva (frequências absolutas e relativas), às medidas de tendência central (média e mediana) e de dispersão (valores interquartis, desvio-padrão, valores mínimo e máximo), seguindo-se a estatística inferencial.

Para avaliação dos possíveis fatores de risco associados às variáveis dicotômicas flebite e infiltração (0=não; 1=sim), realizou-se inicialmente uma análise da correlação ponto bisserial entre a flebite e infiltração e as variáveis contínuas: idade do paciente, tempo de internação, número de cateteres inseridos, número de punções venosas, tempo de permanência do cateter, número de vezes que administrou antimicrobianos e número de vezes que administrou outros medicamentos. O coeficiente de correlação phi foi utilizado para analisar a existência de associações com as variáveis nominais expressas em forma de frequência (sexo, motivo da internação, doenças de base, local de inserção, curativo usado na fixação e medicamento administrado) e o coeficiente de correlação ρdr entre a flebite e a infiltração e a variável ordinal (rank) calibre do cateter23. Essas análises permitiram-nos selecionar os preditores com correlação estatisticamente significativa com a presença de flebite e infiltração.

Em seguida, com os preditores resultantes dos testes de associação, realizou-se uma regressão logística multivariada hierárquica, tomando como variáveis dependentes a flebite e a infiltração. O modelo foi ajustado de forma a manter no modelo logístico final somente as variáveis preditoras com um erro do tipo I (p<0,05). A qualidade do ajuste foi verificada pelo teste de Hosmer & Lemeshow. Para analisar o poder discriminante do modelo, recorreu-se à análise da Area Under Curve (AUC), da Receiver Operating Characteristic Curve (Curva de ROC).

A análise da taxa de incidência considerou o quociente entre o número de cateteres que apresentaram o desfecho (flebite ou infiltração) e o número total de dias de utilização de cateter venoso no período por mil. A incidência cumulativa considerou o quociente entre o número de cateteres que apresentaram o desfecho (flebite ou infiltração) e o número total de cateteres no período, multiplicando por 10024).

A investigação atendeu os aspectos éticos para pesquisa envolvendo seres humanos e foi aprovada pelo Comitê de Ética do Hospital (Refª. 020-15).

Resultados

Metade dos pacientes eram mulheres (52,7%), com média de idade de 79 anos (18-96, DP±13,0) e a mediana de 82 anos (Q1=77,0; Q3=86,0). A hipertensão arterial (60,9%) e as patologias metabólicas (48,2%) foram as doenças pré-existentes mais comuns nos pacientes. A patologia infecciosa foi o principal motivo da internação (72,7%).

Foram inseridos em média cinco CVPs em cada paciente durante todo o tratamento (1-20; DP±3,6), com média de 1,5 tentativas de punção venosa até obter sucesso na inserção do CVP (1-8;DP ± 0,8) e mediana de uma punção em 80% dos casos (Q1=1,0; Q3=1,0). Durante toda a internação, os pacientes foram puncionados em média 6,5 vezes (1-49; DP±6,5), com mediana de quatro punções (Q1=2,0; Q3=8,0). O local de inserção dos CVPs foram principalmente o dorso da mão (39,7%) e o antebraço (35,4%), com os calibres 22G (59,9%) e 20G (37,3%). O curativo mais utilizado foi a película transparente estéril (88,8%). A Tabela 1 apresenta uma caracterização dos pacientes quanto à idade em classe etária, à utilização do CVP e aos principais medicamentos administrados nos pacientes através do CVP.

Tabela 1 Caracterização dos pacientes quanto à idade, à utilização do cateter venoso periférico e aos medicamentos administrados. Coimbra, PT, 2015 

Variáveis N %
Classe etária em anos (N=110 pacientes)
18 - 34 2 1,8
35 - 49 3 2,7
50 - 64 3 30,0
65 - 79 68 61,8
≥ 80
Local anatômico da inserção do cateter (N=526 CVP)
Dorso mão 209 39,7
Fossa antecubital 55 10,4
Antebraço 186 35,4
Braço 49 9,4
Membro inferior - Pé 27 5,1
Calibre do cateter (N=526 CVP)
≤ 18G 12 2,3
20G 196 37,3
22G 316 60,0
24G 2 0,4
Número de tentativas de punção venosa (N = 526 CVP)
1 punção 422 80,2
2 punções 53 10,1
3 punções 33 6,3
4 a 8 punções 18 3,4
Curativo usado na fixação do cateter (N = 526 CVP)
Adesivo branco não estéril 59 11,2
Película transparente estéril 467 88,8
Medicamentos administrados (N=110 pacientes)*
Antiácido 55 50,0
Antiarrítmico 6 5,5
Antimicrobiano 95 86,3
Broncodilatador 2 1,8
Corticosteróide 3 2,7
Diurético 64 58,2
Solução intravenosa contínua 89 80.9

Nota: *A porcentagem não corresponde a 100% porque essa variável apresenta múltiplas respostas; CVP - Cateter Venoso Periférico.

A taxa de incidência de flebite e infiltração foi de 43,2 e 59,7 por mil cateteres-dia e a incidência cumulativa por cateter foi de 11,5% e 15,8%, respectivamente. Não foram evidenciadas flebite no grau 4 e infiltração nos graus 3 e 4. A presença de flebite pós-infusão não foi estudada. O tempo médio de permanência dos CVPs nos pacientes foi de 61,1h, ou seja 2,5 dias (1-528h;DP±66,7), com mediana de 38h (Q1=23,0; Q3=73,0). Os CVPs que não culminaram em complicação nos pacientes, ou seja, foram removidos por motivo de término de tratamento ou alta (M=86,5h; DP±79,1), demoraram significativamente mais tempo para serem removidos do que os CVPs removidos devido a complicações (M=55h; DP±62,0; t(136,261)=3,770; p<0,001). O tempo médio de permanência dos 60 CVPs removidos por motivo de flebite foi de 83,5h (8-528; DP±101,3), com mediana de 38h (Q1=24,0; Q3=107,0), e aqueles com infiltração foi em média 40,5h (1-195;DP±35,4), com mediana de 28h (Q1=19,0; Q3=48,0). A Tabela 2 apresenta uma caracterização quanto ao tempo de permanência dos CVPs de acordo com o motivo de remoção por flebite e infiltração e os respectivos graus.

Tabela 2 Caracterização do tempo de permanência do cateter venoso periférico até a remoção por motivo de flebite e infiltração e os respectivos graus. Coimbra, PT, 2015 

Flebite (n=60) Infiltração (n=83)
Variáveis n % n %
Tempo de permanência do cateter*
Menos 24h 18 30,0 37 44,6
25 a 48h 17 28,3 29 35,0
49 a 72h 7 11,8 5 6,0
73 a 96h 3 5,0 5 6,0
97 a 120h 2 3,3 5 6,0
121 a 168h 5 8,3 1 1,2
Mais de 169h 8 13,3 1 1,2
Grau
Grau 1 38 63,5 70 84,5
Grau 2 15 25,0 13 15,5
Grau 3 7 11,5 - -
Grau 4 - - - -

Nota: *O tempo médio de permanência do CVP nos pacientes foi de 61,1h (1 - 528h; DP ± 66,7).

De acordo com o modelo logístico multivariado, as variáveis que apresentaram um efeito estatisticamente significativo sobre o Logit da probabilidade do paciente apresentar flebite foram o tempo de internação (p=0,042) e o número de cateteres inseridos (p<0,001). Dessa forma, ao acrescentar um dia para qualquer período no tempo de internação, aumentou-se a probabilidade do paciente apresentar flebite em 1,07 vezes. Ao aumentar um CVP para qualquer quantidade, aumentou-se a probabilidade em 1,37 vezes do paciente vir a desenvolver flebite. Verificou-se um bom ajustamento do modelo de acordo com o teste de Hosmer & Lemeshow (p=0,549), que classificou corretamente 77,5% dos casos (p<0,001), apresentou sensibilidade de 54% e especificidade de 90%, bem como uma boa capacidade discriminante (AUC=0,816; p<0,001; IC 95% [0,735-0,897]).

Para o desfecho infiltração, as variáveis com maior probabilidade de risco foram o antibiótico piperacilina/tazobactam (p=0,024) e o número de cateteres inseridos (p<0,001). A probabilidade do paciente que recebeu piperacilina/tazobactam pelo CVP desenvolver infiltração foi 3,65 vezes maior em relação aos pacientes que não usaram esse antibiótico. Por cada incremento no número de CVPs no paciente, aumentou a probabilidade em 1,45 vezes do paciente vir a desenvolver infiltração. Apesar do modelo não ter se ajustado bem aos dados, de acordo com o teste de Hosmer & Lemeshow (p=0,044), classificou corretamente 78% dos casos (p<0,001), apresentou sensibilidade de 68% e especificidade de 86,7%, bem como uma boa capacidade discriminante (AUC=0,837; p<0,001; IC 95% [0,762-0,912]). Na Tabela 3 são assinaladas as variáveis que apresentaram maior probabilidade de risco para flebite e infiltração e os respectivos valores do odds ratio (OR) e p-valor.

Tabela 3 Coeficientes do Logit do modelo de regressão logística multivariada das variáveis de desfecho flebite e infiltração. Coimbra, PT, 2015 

Variáveis ß* SE OR IC§ [95%] X 2 Wald ǁ p-valor
Flebite
Tempo de internação 0,06 0,03 1,07 [1,00-1,14] 4,153 0,042
Número cateteres inseridos 0,31 0,08 1,37 [1,15-1.63] 12.258 <0,001
Infiltração
Piperacilina/tazobactam 1,29 0,57 3,65 [1,18-11,25] 5,079 0,024
Número cateteres inseridos 0,37 0,09 1,45 [1,21-1,71] 16,761 <0,001

Nota: *ß= beta; SE = erro padrão; OR =odds ratio; §IC [95%] = intervalo com 95% de confiança; || X 2 Wald.

Discussão

O estudo sobre o indicador de qualidade sensível aos cuidados de Enfermagem -incidência de flebite - em 110 pacientes portadores de CVP evidenciou uma incidência cumulativa de 11,5%. Esse resultado enquadra-se na variação entre 10,1% e 43,0% de flebite documentada em outros estudos9-11,16,25. Ao comparar a incidência de flebite (43,8%) documentada no serviço anteriormente14 com a taxa atual (11,5%), verificou-se uma redução substancial, embora ainda supere os 5% recomendados pela Infusion Nurses Society11. Essa diferença na incidência entre os dois estudos poderá estar associada à implementação de novas práticas baseadas em evidências nos cuidados de Enfermagem (substituição dos curativos não estéreis no local da inserção pelo semipermeável e estéril, indicação para seleção do CVP de menor calibre e a utilização de garrotes desinfetados entre os cuidados nos pacientes, entre outros cuidados) na sequência da investigação-ação realizada no serviço entre 2012 e 201414. Outra diferença poderá ser devida à utilização de diferentes escalas para avaliar os sinais e sintomas de flebite, assim como seus graus.

A infiltração foi outro indicador de resultado analisado, apresentando importância clínica e epidemiológica, tendo em vista a incidência cumulativa de 15,8% evidenciada nesta investigação. Esse resultado é inferior àqueles de outros estudos com taxas de 23% e 31,5% 9-10 e superior à incidência de infiltração documentada em estudos realizados em Portugal, com 7% e 13%14,16. A diferença observada poderá ser em decorrência da utilização de uma escala19 para avaliar os sinais e sintomas de infiltração na presente investigação, reduzindo a variabilidade na documentação e viés de informação. A padronização da avaliação desse indicador por meio de escala não foi assegurada nos outros estudos14,16.

Cabe mencionar que as diferenças na incidência de flebite e infiltração entre os estudos podem dever-se, também, às características dos pacientes da amostra e às limitações peculiares a cada estudo.

Em relação aos fatores de risco para flebite, nesta investigação foram evidenciados o tempo de internação e o número de cateteres inseridos nos pacientes, os quais são os mesmos destacados num estudo realizado na Espanha25. Todavia, não se verificou associação desses fatores de risco em outros estudos14,16-17,26.

No que diz respeito aos fatores de risco para ocorrência do indicador infiltração, foram evidenciados o antibiótico piperacilina/tazobactam e o número de cateteres inseridos no paciente. Esses fatores de risco não foram identificados em outras investigações, as quais apresentam baixo nível de evidência, pois são fundamentados em relatos e séries de casos, com amostras pequenas18,20-22. Apenas um estudo retrospectivo com crianças analisou os fatores de risco para infiltração através de regressão logística, sendo evidenciado o local de inserção nos membros inferiores, a internação em pediatria e a administração de medicamentos27.

Relativo à análise das manifestações clínicas de flebite e infiltração, observou-se que foram identificadas pelo enfermeiro principalmente nas primeiras 72h após a inserção do CVP (70,1% e 85,6%, respectivamente) e com maior percentual nas primeiras 24h. Esse resultado corrobora com o período de apresentação das manifestações clínicas de flebite e infiltração em outros estudos9,11,16-17. Além disso, reforça a importância da remoção do CVP quando identificados os primeiros sinais e sintomas, e não de acordo com um período de tempo definido. Os resultados ratificam, também, a importância da vigilância frequente do local de inserção do CVP e áreas próximas pelo enfermeiro, sendo recomendável que esse profissional utilize de escalas validadas para padronizar a avaliação do local de inserção e áreas próximas ao cateter, para subsidiar a sua tomada de decisão e auxiliar na documentação e análise da magnitude do problema13,19. Assinala-se também a necessidade em contemplar a participação do paciente e/ou familiares nos cuidados28, com o objetivo de identificar atempadamente os primeiros sinais e sintomas de traumas vasculares periféricos e melhorar a qualidade dos cuidados. A dor no local de inserção do CVP e áreas próximas é um dos primeiros sinais de flebite e infiltração, presente no grau 113,19. A identificação precoce da dor e a remoção do CVP por esse motivo poderá interromper a progressão do processo inflamatório para manifestações clínicas de maior comprometimento tecidual.

Tendo em vista a melhoria da qualidade dos cuidados de Enfermagem e a prevenção da ocorrência de flebite e infiltração, antes de selecionar um cateter venoso o enfermeiro deverá analisar as características do paciente e dos medicamentos prescritos pela via intravenosa (irritante e/ou vesicante, pH e osmolaridade), o tempo previsto de tratamento intravenoso e os fatores de risco para a ocorrência dessas complicações. Além disso, é necessária uma avaliação dos riscos e benefícios de cada tipo de cateter, bem como considerar as preferências do paciente6. Tal análise poderá assinalar a indicação de outros cateteres venosos ao paciente, como o cateter venoso central de inserção periférica (PICC)6.

No que diz respeito às limitações da presente investigação, consideram-se os dados serem relativos a um único serviço, a amostra e o seu tamanho serem não probabilísticos, o que limitou a generalização dos resultados. Outra limitação foi a ausência de avaliação da flebite pós-remoção do CVP.

Apesar das limitações, os resultados do presente estudo trazem novas contribuições para elucidar o conhecimento sobre os fatores de risco para a ocorrência da infiltração em pacientes adultos portadores de CVP para administração de medicamentos intravenosos. Além disso, o retorno dos resultados à equipe de Enfermagem possibilitou uma reflexão sobre os indicadores de qualidade sensíveis aos cuidados de Enfermagem que envolvem a flebite, a infiltração e os respectivos fatores de risco. Possibilitou, também, uma reflexão sobre os cuidados de Enfermagem para prevenir esses traumas vasculares, bem como sobre as indicações e contraindicações do CVP. Tal fato subsidiou a implementação do PICC nas práticas de Enfermagem como alternativa ao CVP. Os resultados da utilização do PICC nos pacientes da instituição têm sido alvo de investigação.

Conclusão

A investigação realizada possibilitou documentar os resultados de indicadores sensíveis aos cuidados de Enfermagem (flebite e infiltração) no âmbito da cateterização venosa periférica para administração de medicamentos intravenosos. Além disso, evidenciou novos fatores de risco relacionados com a ocorrência de infiltração em pacientes adultos portadores de CVP.

Agradecimento

Agradecemos aos enfermeiros que colaboraram na recolha dos dados; à chefia de enfermagem e diretor clínico do serviço; pacientes e familiares que possibilitaram e contribuíram para a realização do estudo.

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Recebido: 03 de Julho de 2017; Aceito: 12 de Janeiro de 2018

Correspondência: Luciene Muniz Braga Universidade Federal de Viçosa. Departamento de Medicina e Enfermagem Rua PH Rolfes, s/n Centro CEP: 36570-000, Viçosa, MG, Brasil E-mail: luciene.muniz@ufv.br

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