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Revista Latino-Americana de Enfermagem

On-line version ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.27  Ribeirão Preto  2019  Epub Jan 17, 2019

https://doi.org/10.1590/1518-8345.2456.3115 

Artigo Original

Efeito da musicoterapia sobre o estresse de dependentes químicos: estudo quase-experimental

Gunnar Glauco De Cunto Taets1 
http://orcid.org/0000-0003-4427-7864

Rafael Tavares Jomar2 

Angela Maria Mendes Abreu3 

Marcia Alves Marques Capella4 

1Universidade Federal do Rio de Janeiro, Departamento de Fundamentos do Cuidado de Enfermagem, Macaé, RJ, Brasil.

2Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva, Coordenação de Assistência, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

3Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Enfermagem Anna Nery, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

4Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.


RESUMO

Objetivo:

avaliar o efeito da musicoterapia sobre o estresse de dependentes químicos.

Método:

estudo quase-experimental realizado em instituição filantrópica com 18 dependentes químicos em tratamento. O cortisol salivar (hormônio do estresse) foi coletado antes, 60 e 120 minutos após única intervenção musicoterapêutica realizada em grupo. A análise estatística adotou nível de significância de p < 0,05 mediante aplicação dos testes não paramétricos de Wilcoxon e de Kruskal-Wallis.

Resultados:

após 60 minutos da intervenção musicoterapêutica, houve redução estatisticamente significante nas médias dos níveis de cortisol salivar (p < 0,001). Após 120 minutos, também houve redução, mas sem significância estatística (p = 0,139).

Conclusão:

sessão única de 60 minutos de musicoterapia em grupo mostrou-se capaz de reduzir o estresse (níveis de cortisol salivar) de dependentes químicos.

Descritores: Musicoterapia; Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias; Dependência; Estresse Emocional; Adição a Drogas; Saúde Pública

ABSTRACT

Objective:

to evaluate the effect of music therapy on the stress of chemically dependent people.

Method:

quasi-experimental study conducted at a philanthropic institution with 18 chemically dependent people undergoing treatment. Salivary cortisol (stress hormone) was collected in three moments: before, 60 minutes after, and 120 minutes after a music therapy group intervention. Statistical analysis adopted a significance level of p < 0.05 and used the Wilcoxon and Kruskal-Wallis non-parametric tests.

Results:

after 60 minutes of intervention, there was a statistically significant reduction in mean salivary cortisol levels (p < 0.001). A reduction was also noted after 120 minutes, but without statistical significance (p = 0.139).

Conclusion:

a single session of 60 minutes of group music therapy was able to reduce stress (salivary cortisol levels) of chemically dependent people.

Descriptors: Music Therapy; Related Disorders Substance Use; Dependency; Emotional Stress; Drug Addition; Public Health

RESUMEN

Objetivo:

evaluar el efecto de la musicoterapia sobre el estrés de dependientes químicos.

Método:

estudio cuasi-experimental realizado en institución filantrópica con 18 dependientes químicos en tratamiento. El cortisol salivar (hormona del estrés) fue recogido antes, 60 y 120 minutos después de una única intervención musicoterapéutica realizada en grupo. El análisis estadístico adoptó un nivel de significancia de p <0,05 mediante la aplicación de las pruebas no paramétricas de Wilcoxon y de Kruskal-Wallis.

Resultados:

después de 60 minutos de la intervención musicoterapéutica, hubo reducción estadísticamente significativa en las medias de los niveles de cortisol salivar (p <0,001). Después de 120 minutos, también hubo reducción, pero sin significancia estadística (p = 0,139).

Conclusión:

uma única sesión de 60 minutos de musicoterapia en grupo se mostró capaz de reducir el estrés (niveles de cortisol salivar) de dependientes químicos.

Descriptores: Musicoterapia; Transtornos Relacionados con el Uso de Sustancias; Dependencia; Estrés Emocional; Adición de Drogas; Salud Pública

Introdução

O uso de drogas é tão antigo quanto a humanidade. Utilizadas primeiramente como meio de contato com divindades e depois como fuga da realidade ou como facilitadoras da criatividade e da expressão, as drogas podem trazer sérios problemas aos seres humanos, afetando âmbitos físico, psicológico, social e espiritual1.

Atualmente, o uso de drogas se apresenta em proporções alarmantes em todo o mundo, associado à violência e ao crime organizado, atingindo pessoas de todas as classes sociais em idades cada vez mais precoces. A banalização do consumo e a publicidade excessiva das drogas lícitas, como álcool e tabaco, abrem portas para que o uso abusivo e a dependência química se desenvolvam2.

Segundo a 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Norte Americana (DSM-5), o termo uso nocivo de drogas caracteriza um tipo de uso que resulta em dano físico ou mental e o termo abuso de drogas considera as consequências sociais de um uso problemático, desde que estejam ausentes fenômenos característicos de dependência, tais como compulsividade, tolerância e abstinência3.

A dependência de drogas é um fenômeno mundial que gera diversas consequências para o dependente e para as pessoas com quem convive, seja no âmbito físico, psíquico ou social. No campo físico, causa doenças que podem levar à morte; no psíquico, dependência psicológica; e no social pode causar problemas no relacionamento familiar, no trabalho e com o sistema judiciário4.

Uma característica fundamental da dependência química é a presença de sintomas psico-fisiológicos que indicam que o indivíduo continua a utilizar uma droga, mesmo diante de problemas significativos relacionados a ela. Há um padrão de autoadministração repetida que, em geral, resulta em tolerância, abstinência e comportamento compulsivo de consumo da substância3.

O estresse é considerado o fator que mais colabora para o comportamento compulsivo durante o curso da dependência de drogas5. Existem hipóteses de que a dependência esteja implicada com mecanismos motivacionais; e o estado motivacional é controlado por processos básicos de regulação homeostática5.

Um estudo de revisão sistemática sobre a associação entre eventos estressores e recaídas em usuários de substâncias psicoativas concluiu que os eventos estressores crônicos e agudos aumentam consideravelmente o risco de recaída, sendo que os eventos agudos aumentam em quase três vezes o risco e diminuíram o tempo até a recaída, constatando a necessidade de intervenção terapêutica no tratamento do dependente químico que está mais vulnerável6.

As respostas hormonais ao estresse compreendem aumento na secreção de growth hormone (GH - hormônio do crescimento), ativação de células do sistema imunológico como monócitos, neutrófilos, linfócitos e células Natural Killer, aumento de inter leucinas, aumento na secreção do hormônio estimulador da tireoide (TSH), aumento na secreção de paratormônio (PTH), aumento da vasopressina e do fator liberador de corticotrofina7.

O cortisol, principal glicocorticoide liberado pelo córtex adrenal diante de uma situação estressora, é considerado o hormônio do estresse, já que sua produção e secreção aumentam durante e após a exposição a fatores estressores8. Assim, o cortisol salivar mostra-se uma importante variável de mensuração do estresse, constituindo-se em uma medida eficaz, acessível, rápida e não invasiva desse fenômeno.

A musicoterapia vem se consolidando como coadjuvante no tratamento e atenção aos usuários de substâncias psicoativas em instituições públicas, clínicas especializadas e comunidades terapêuticas1. Dentro de um programa de tratamento, a aplicação da musicoterapia pode ser feita tanto na área sonoro-musical quanto na área de expressão e movimentação. O som musical, integrado no sistema de representações que lhe confere poder específico, surpreende não só porque intervém diretamente no estado de consciência do indivíduo, mas também por sua capacidade de influenciar coletivamente o comportamento das pessoas9.

A questão ou o problema que este estudo pretendeu responder foi a seguinte: a musicoterapia é capaz de reduzir o estresse de dependentes químicos? Isso porque o objetivo primário da musicoterapia é facilitar aos pacientes a abertura de canais de comunicação e/ou a reabilitação de necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas9. Logo, avaliar se o uso da musicoterapia contribui para o tratamento e para a reabilitação de dependentes químicos merece ser estudado, já que a musicoterapia tem por objetivo desenvolver potenciais e/ou restabelecer funções do indivíduo para que este possa alcançar uma melhor integração intra e/ou interpessoal e, em consequência, uma qualidade de vida melhor, pela prevenção, reabilitação ou tratamento1.

Considerando a hipótese de que a musicoterapia pode reduzir o estresse, o objetivo do estudo foi avaliar o efeito da musicoterapia sobre o estresse de dependentes químicos.

Método

Estudo quase-experimental, do tipo antes e depois, conduzido em instituição filantrópica localizada na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, que oferece atendimento multiprofissional (psiquiatria, psicologia e musicoterapia) a dependentes químicos e a seus familiares/amigos.

A população-alvo desta pesquisa era composta pelos 28 dependentes químicos em tratamento - psiquiátrico e psicológico - que participaram de sessão única de musicoterapia em grupo conduzida em dezembro de 2016 na instituição em que o estudo foi realizado. Dos 28 dependentes, cinco recusaram-se a participar e, dos 23 que aceitaram, 18 compuseram a amostra intencional deste trabalho por atenderem aos seguintes critérios de elegibilidade: estar abstinente do uso de droga (lícita ou ilícita); ter 18 anos ou mais de idade; não estar usando inibidores de cortisol, tais como glutamina, vitamina C, proteína whey, chá verde, magnésio, prednisona e dexametasona; e não sofrer de doença de Addison ou de Cushing. Para avaliação desses critérios de elegibilidade, os dependentes foram entrevistados por enfermeiros treinados em local reservado sem a presença de terceiros.

A musicoterapia utilizada neste estudo pode ser definida como a utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo, em um processo facilitador e promotor de comunicação, relação, aprendizagem, mobilização, expressão, organização e de outros objetivos relevantes, no sentido de alcançar necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas1.

A sessão única de musicoterapia em grupo ocorreu entre as 18:00 e 20:00 horas e durou 120 minutos. Foi conduzida por musicoterapeuta que, acompanhado por um violonista, cantava com o objetivo de incentivar os dependentes químicos a fazer o mesmo com as letras das músicas impressas em mãos. As músicas utilizadas foram escolhidas pelos próprios participantes e compuseram um repertório de 13 músicas populares brasileiras de diversos cantores, quais sejam: Beto Guedes, Cazuza, Elis Regina, Lenine, Pixinguinha, Raul Seixas, Renato Russo, Roberto Carlos, Sandra de Sá e Tim Maia. Cabe ressaltar que a escolha por única intervenção se deve ao fato da pretensão deste estudo avaliar o efeito imediato da musicoterapia sobre o estresse.

Na área sonoro-musical, específica da musi coterapia, foram utilizadas técnicas de recriação e improvisação vocal, nas quais o participante aprende, executa, transforma e interpreta qualquer trecho ou uma música completa. Além destas, também foi utilizada a técnica receptiva, em que o participante escuta a música em execução e responde à experiência em silêncio ou verbalmente10.

No presente estudo foi utilizado o biomarcador cortisol como recurso diagnóstico do estresse por ser considerado pela literatura11-12 o hormônio do estresse. Para sua avaliação, enfermeiros devidamente treinados coletaram saliva dos dependentes químicos, antes do setting musicoterápico, 60 e 120 minutos após seu início, através de um cotonete de algodão (Salivette®) mantido por um a dois minutos sob a língua; em seguida, o cotonete identificado com o número do sujeito era guardado em caixa térmica para ser conduzido ao laboratório, onde era adequadamente armazenado para posterior análise do cortisol12. A dosagem de cortisol nas amostras de saliva foi realizada através de imunoensaio por eletroquimioluminescência. O valor de referência de cortisol adotado pelo laboratório que analisou as amostras de saliva foi < 0,252 ug/dL, que corresponde aos valores normalmente encontrados no período de 16:00 às 20:00, mesmo intervalo de horas em que as coletas aconteceram.

Além da saliva para análise do cortisol, enfermeiros devidamente treinados coletaram, através de entrevista, dados sociodemográficos e clínicos dos pacientes, quais sejam: idade, sexo, cor de pele autorreferida, escolaridade e de qual(is) droga(s) é dependente.

A análise dos dados foi feita, inicialmente, submetendo-os à técnica estatística exploratória com distribuição de frequências simples para a descrição da população estudada (sexo, idade e dependência de drogas); depois, realizou-se a comparação das médias de cortisol salivar antes, 60 e 120 após a sessão musicoterapêutica através dos testes de Wilcoxon e de Kruskal-Wallis, testes estatísticos não paramétricos apropriados para comparar, respectivamente, dois e três ou mais grupos. As análises foram realizadas no software Graph Pad Prisma 7 e o nível de significância adotado foi de p < 0,05.

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Parecer: 1.217.635), após atender às exigências da Resolução Nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

Resultados

A idade média dos sujeitos foi de 40 anos (± 12,44), sendo 61% do sexo masculino. A droga mais usada foi o álcool com 55,5%, sendo que 72,2% dos sujeitos eram dependentes de múltiplas drogas, isto é, além de álcool, também eram dependentes de maconha e/ou cocaína.

Após 60 minutos da intervenção musicoterapêutica, houve redução estatisticamente significante nas médias dos níveis de cortisol salivar (p < 0,001). Após 120 minutos, também houve redução, mas sem significância estatística (p = 0,139) (Tabela 1, Figura 1, Figura 2).

Tabela 1 Médias e desvio-padrão dos níveis de cortisol salivar antes, 60 e 120 minutos após a intervenção musicoterapêutica (N = 18). Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2016 

Níveis de Cortisol Média Desvio-padrão p valor
Antes 0,30 0,17 -
60 minutos depois 0,23 0,10 < 0,001*
120 minutos depois 0,19 0,06 0,139

*Teste Wilcoxon; Teste de Kruskal-Wallis

Figura 1 Médias dos níveis de cortisol salivar antes e 60 minutos após a intervenção musicoterapêutica. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2016 

Figura 2 Médias dos níveis de cortisol salivar antes, 60 e 120 minutos após a intervenção musicoterapêutica. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2016 

Discussão

Os resultados do presente estudo evidenciaram que, após 60 minutos de intervenção musicoterapêutica, houve redução estatisticamente significante nas médias dos níveis de cortisol salivar, um marcador bioquímico de estresse. Uma vez que o estresse é um fator prejudicial conhecido para a reabilitação de dependentes químicos, o cortisol salivar apresenta-se como promissor na avaliação da resposta ao estresse neurobiológico nessa população13.

Estudos mostram que participantes que abando naram o tratamento para dependência química tiveram liberação de cortisol aumentada e maior pico de estresse do que aqueles que continuaram. Cada aumento de uma unidade do pico de cortisol esteve relacionado ao aumento de quatro vezes na probabilidade de abandono do tratamento. Outros estudos descreveram aumento significativo do nível de cortisol em resposta ao estresse e apenas um apresentou resultado de aumento moderado14-15.

Embora a musicoterapia venha sendo usada pela medicina complementar no tratamento de várias doenças, ainda existem poucos estudos avaliando os efeitos da musicoterapia na dependência química. Além disso, tais estudos avaliam o estresse de modo subjetivo, buscando uma percepção alterada dos sujeitos16. O diferencial na presente pesquisa está justamente em mostrar de forma objetiva e clara que o estresse em dependentes químicos pode ser avaliado pela mensuração de cortisol salivar, descortinando, assim, um olhar clínico para enfermeiros e outros profissionais de saúde que cuidam desses pacientes.

Padrões de consumo de drogas podem ser modificados por intervenções desenvolvimentais e ambientais, bem como por mudanças intencionais, tal como ocorre na psicoterapia4. Contudo, tratamentos de drogadição enfrentam diversas limitações, como a heterogeneidade dos dependentes, a diversidade das substâncias consumidas, os custos econômicos envolvidos, as dificuldades com recursos humanos e as dificuldades de materiais especializados5. Os fatores críticos na abstinência das adições não estão relacionados à maturação, ao tratamento ou mesmo ao ajustamento pessoal, mas, sim, à severidade da adição e ao tipo de experiência curativa disponível ao dependente químico5.

No período de abstinência de drogas, o dependente pode apresentar irritabilidade, ansiedade, estresse emocional, distúrbios do sono, disforia, comportamentos agressivos e fissura, associados a mudanças neuroadaptativas do estresse e nos circuitos de recompensas do cérebro. Embora a ocorrência de estresse e de evento estressor não seja preditiva de recaída, a redução do estresse isolada ou combinada com farmacoterapia pode ser benéfica na redução da fissura e na manutenção da abstinência17.

A utilização da música em pacientes psiquiátricos mostrou que esta tem grande potencial de atuação nas suas emoções e comportamentos12. Não se tem a pretensão de afirmar que a musicoterapia por si só seria capaz de curar a dependência química, mas os resultados desta pesquisa apontam, a partir de uma investigação clínica, um impacto significativo na redução do estresse vivido pelos dependentes químicos, em conjunto com tratamento psiquiátrico e psicológico, podendo ajudá-los nos momentos de fissura durante a abstinência.

Observou-se uma significativa redução estatística na média de cortisol salivar 60 minutos após sessão única de musicoterapia, evidenciando que essa terapia complementar é eficaz para reduzir o estresse durante o tratamento da dependência química.

Há pouco mais de três séculos, a ciência começou a investigar o efeito da música e da vibração acústica em geral sobre as funções fisiológicas do ser humano, incluindo as frequências cardíaca e respiratória e, com isso, estudos sobre a relação da música com as respostas fisiológicas e psicológicas do homem também começaram18. No século XIX, a música tornou-se usada por instituições psiquiátricas e, desde então, foi possível observar que ouvir melodias suaves poderia acalmar pacientes agitados18.

Alguns autores afirmam que canções lentas e com pouca variação rítmica podem ser consideradas sedativas, pois são capazes de reduzir o estresse e promover o relaxamento, sinalizando positivo para seu uso como moderador do processo terapêutico19.

Na musicoterapia realizada neste estudo, que pode ser definida como interativa, o musicoterapeuta e o paciente estiveram ativamente envolvidos no processo de fazer música18. Autores salientam que a musicoterapia não intenciona resolver os problemas enfrentados pelos pacientes, mas pretende aumentar sua percepção dos recursos psicossociais disponíveis e fortalecê-los19-20.

Quando os dependentes químicos ouvem ou cantam as músicas escolhidas por eles próprios, tem-se uma questão importante de empoderamento. Muitos dependentes químicos relatam sofrer com baixa autoestima e o ato de escolher a música pode mostrar a eles que são capazes de ter o controle sobre as escolhas nas suas vidas. O musicoterapeuta pode notar uma reflexão intensa sobre as palavras que estão sendo cantadas quando muitos participantes da sessão de musicoterapia externam sentimentos e emoções durante as músicas por meio de lágrimas ou sorrisos.

Um estudo brasileiro mostrou que um programa de musicoterapia foi eficaz na redução de 60% do nível de estresse em profissionais de saúde da área hospitalar21. Já um estudo realizado na Itália constatou que a musicoterapia pode reduzir o estresse e a resposta ao estresse mostrando que o nível de cortisol plasmático diminuiu nos pacientes que ouvem música22. Recentemente, um estudo realizado com a finalidade de determinar os efeitos da musicoterapia na autoeficácia de evitação de drogas mostrou que os participantes na condição de musicoterapia tendiam a ter os maiores escores de autoeficácia de evitação de drogas23.

Outros estudos mostram que a intervenção musical pode ser um recurso terapêutico que tem sido cada vez mais utilizado como terapia complementar para promover relaxamento, conforto emocional e sensação de bem-estar24-25. Na área de saúde mental, em particular, o musicoterapeuta pode atuar com pacientes com dependência química tratando o estresse no indivíduo através de técnicas da musicoterapia1.

A substância química mais usada pelos sujeitos da pesquisa foi o álcool com 55,5% do total. Já 72,2% dos sujeitos eram dependentes de múltiplas drogas, isto é, além do álcool, também eram dependentes de maconha e/ou cocaína. Esses resultados estão em consonância com os do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, que apontam que o maior índice de dependência é o do álcool4.

Por determinantes culturais e históricos, o álcool é a droga com maior disponibilidade entre os povos. As drogas, especialmente o álcool, são intrínsecas à nossa cultura e consumidas por motivos diversos, embora seja a substância que leva o maior número de pessoas ao tratamento especializado. Todavia, com o crescimento do tráfico de drogas e a maior variabilidade de substâncias ofertadas, esse quadro pode mudar nos próximos anos26.

Os aspectos novos e importantes do estudo ficam evidenciados quanto ao uso da musicoterapia no cotidiano de cuidar junto a pessoas com dependência química, visto ser um método não invasivo, podendo ser entendida como uma tecnologia leve do cuidado, com benefícios para a redução do estresse tão importante perante as possibilidades de recaídas durante o curso do tratamento de dependentes químicos.

A musicoterapia, vista como uma tecnologia leve, utiliza atributos próprios da relação humana, essenciais para a construção de vínculo no espaço do cuidado, nesta pesquisa, o setting terapêutico. A música também pode ser apontada como “uma tecnologia inovadora de cuidado se for organizada como uma atividade ao mesmo tempo sistemática e criativa, pois facilita a expressão de emoções, a comunicação interpessoal e a possibilidade de efeito terapêutico”27.

Convém mencionar que este estudo apresenta limitações, tais como a amostra ser de conveniência e pequena, o que impediu a análise do efeito da musicoterapia sobre o estresse de dependentes químicos considerando a influência de outras variáveis, como sexo, idade e tipo de droga da qual é dependente, bem como a análise do potencial efeito do consumo de álcool e/ou outras substâncias psicoativas na redução do estresse. Assim, sugere-se que estudos futuros com grupo controle sejam realizados a fim de avaliar o efeito da musicoterapia no estresse ao longo do tratamento contra a dependência química, bem como a possível modificação de efeito ao considerar outras variáveis.

Conclusão

Não obstante suas limitações, este estudo apresentou evidências de que sessão única de 60 minutos de musicoterapia em grupo mostrou-se capaz de reduzir o estresse (níveis de cortisol salivar) de dependentes químicos.

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Recebido: 12 de Setembro de 2017; Aceito: 18 de Outubro de 2018

Autor correspondente: Gunnar Glauco De Cunto Taets E-mail: oenfermeiro2007@hotmail.com

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