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Revista Latino-Americana de Enfermagem

On-line version ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.27  Ribeirão Preto  2019  Epub July 18, 2019

https://doi.org/10.1590/1518-8345.2874.3156 

Artigos Originais

Dinâmica de geração e dissipação do estresse na equipe de enfermagem num centro de oncologia

Jorge Luiz Guedes Sant'ana1 
http://orcid.org/0000-0001-6521-6660

Mauricio Uriona Maldonado1 
http://orcid.org/0000-0002-1174-4828

Leila Amaral Gontijo1 
http://orcid.org/0000-0001-6679-610X

1Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.


RESUMO

Objetivo:

representar a dinâmica de geração, acumulação e dissipação do estresse na equipe de enfermagem em um centro de terapia oncológica.

Método:

um modelo de simulação matemático de dinâmica de sistemas foi desenvolvido com base na coleta de dados in loco. O modelo serviu para testar o impacto de três políticas direcionadas a reduzir o estresse na equipe: i) incremento na carga de atendimento; ii) incremento do tamanho das equipes de turno e iii) redução de horas de atendimento por leito.

Resultados:

o modelo demonstrou que a política de incremento de tamanho da equipe obteve os melhores resultados, sintetizados com o índice de absenteísmo, estabilizando-se em 8%; pessoal afastado também se estabilizando em 4-5 pessoas por mês, bem como o estresse acumulado reduzido aos níveis do cenário base.

Conclusão:

as medidas no sentido de acompanhamento das demandas físicas e emocionais, a contratação de pessoal, um melhor treinamento técnico para as atividades ditas estressantes e uma melhor distribuição de tarefas podem ser eficazes na redução dos índices de absenteísmo e melhorar a qualidade de vida desses trabalhadores.

Descritores: Estresse Ocupacional; Equipe de Enfermagem; Absenteísmo; Qualidade da Assistência à Saúde; Segurança do Paciente; Modelo Matemático

ABSTRACT

Objective:

to represent the dynamics of stress generation, accumulation and reduction in the nursing team at an oncology therapy center.

Method:

a mathematical simulation model of system dynamics was developed based on data collection in loco. The model served to test the impact of three policies aimed at reducing stress in the team, namely i) increase in the service load; ii) increase in the size of shift teams and iii) reduction of service hours per bed.

Results:

the model showed that the policy of increasing the size of the team obtained the best results, with the absenteeism index stabilizing at 8%; staff at leave also stabilizing at 4-5 people per month, as well as accumulated stress reduced to baseline levels.

Conclusion:

measures to monitor physical and emotional demands, hiring staff, better technical training for so-called stressful activities, and a better distribution of tasks can be effective in reducing absenteeism rates and improving the quality of life of these workers.

Descriptors: Occupational Stress; Nursing Personnel; Absenteeism; Quality of Health Care; Patient Safety; Mathematical Model

RESUMEN

Objetivo:

representar la dinámica de generación, acumulación y disipación del estrés en el equipo de enfermería en un centro de terapia oncológica.

Método:

un modelo de simulación matemático de dinámica de sistemas fue desarrollado basado en la recolección de datos in loco. El modelo sirvió para testar el impacto de tres políticas dirigidas a reducir el estrés en el equipo: i) incremento en la carga de atendimiento; ii) incremento del tamaño de los equipos de turno y iii) reducción de horas de atendimiento por lecho.

Resultados:

el modelo demostró que la política de incremento de tamaño del equipo obtuvo los mejores resultados, sintetizados con el índice de ausentismo estabilizándose en 8%; personal alejado también estabilizándose en 4-5 personas por mes, así como el estrés acumulado reducido a los niveles del escenario base.

Conclusión:

las medidas en el sentido de acompañamiento de las demandas físicas y emocionales, la contratación de personal, mejor entrenamiento técnico para actividades llamadas estresantes y una mejor distribución de tareas pueden ser eficaces en la reducción de los índices de ausentismo y mejorar la calidad de vida de esos trabajadores.

Descriptores: Estres Laboral; Equipo de Enfermeria; Ausentismo; Calidad de los Cuidados de Salud; Seguridad del Paciente; Modelo Matemático

Introdução

Os profissionais da saúde vêm enfrentando mudanças significativas na organização do trabalho e nas relações de trabalho, tendo que conviver com o estresse para satisfazer as exigências da vida profissional moderna(1). O estresse relacionado ao trabalho(2) ocorre quando o trabalhador reage diante de demandas e pressões que não correspondam às suas habilidades e seus conhecimentos e que desafiam sua capacidade de lidar com situações estressantes.

Existem vários efeitos do estresse prolongado, dentre eles a depressão e o absenteísmo, que além de representar o cansaço físico e mental são sinais de um agravo à saúde física e emocional(13). No ambiente hospitalar, o impacto do estresse ocupacional(4) no desempenho dos profissionais de enfermagem foi reconhecido como uma importante preocupação para os gestores, pois, além de afetar a saúde física e mental, afeta também o seu desempenho.

Devido à questão do estresse e às consequências que o mesmo pode gerar no ambiente de trabalho, os gestores precisam encontrar formas de reduzi-lo nas equipes e, com isso, melhorar a qualidade do atendimento por meio da redução do absenteísmo(5). Contudo, pouco se conhece sobre quais políticas gerenciais são as mais eficientes e sobre o tempo necessário para reduzir efetivamente o absenteísmo provocado pelo estresse.

Assim, os pesquisadores deste estudo optaram por aplicar uma metodologia advinda do pensamento sistêmico, que tem como foco a análise de problemas em que interagem componentes técnicos, humanos e organizacionais por meio da simulação por computador, conhecida como dinâmica de sistemas(6). A dinâmica de sistemas pode ajudar na representação explícita da inter-relação entre os fatores que provocam o estresse e o seu efeito no absenteísmo, bem como apontar a direção para melhores políticas objetivando reduzir a carga física e emocional da equipe de enfermagem.

O objetivo deste artigo é representar a dinâmica de geração, acumulação e dissipação do estresse na equipe de enfermagem em um centro de terapia oncológica. Para isso, é utilizado um modelo matemático, seguindo a metodologia da dinâmica de sistemas.

A escolha desse grupo de trabalhadores para o desenvolvimento desse modelo deu-se devido à forte carga de trabalho físico, mental e emocional aos quais são expostos, refletindo uma amostra fortemente suscetível ao adoecimento no trabalho. Problemas de sono(5), altos níveis de estresse e exaustão e baixa satisfação no trabalho também são comuns entre enfermeiros. Quanto à incapacidade física propriamente dita, muitas vezes, não é a razão principal dos afastamentos, mas esta apresenta-se como uma medida preventiva. Dessa forma, a principal contribuição deste artigo é proporcionar uma melhor compreensão da efetividade de políticas gerenciais visando à redução do estresse em equipes de enfermagem a partir do uso do modelo desenvolvido como um banco de testes custo-efetivo para avaliar a eficácia de programas de melhoria da qualidade do trabalho ou sessões de treinamento antes de sua implementação.

Método

O modelo de simulação foi desenvolvido seguindo o procedimento metodológico da dinâmica de sistemas(6). A dinâmica de sistemas tem sido amplamente utilizada para simular problemas nas áreas de gestão empresarial, ambiental e de planejamento energético, dentre outras e mais recentemente em diversos problemas da área da saúde(711).

A metodologia de dinâmica de sistemas utiliza equações diferenciais para representar o comportamento das variáveis de interesse no modelo(6), sendo o principal elemento os chamados ‘estoques’. Os estoques são as variáveis que definem o estado do sistema e mudam de valor pela influência de taxas. Por exemplo, o número de trabalhadores (estoque) aumenta à medida que mais trabalhadores são contratados (taxa de entrada) e diminui à medida que trabalhadores são desligados (taxa de saída). Matematicamente, um modelo de dinâmica de sistemas pode ser representado por equações do tipo(6):

ddtX=f(X,p) (1)

Sendo:

X = vetor de ‘n’ estoques; dX/dt = taxa líquida de mudança do vetor X; f = função n-dimensional e usualmente não-linear; e p = vetor de parâmetros.

O modelo representa um grupo de profissionais de enfermagem que trabalha em um centro de oncologia de um hospital público, constituído por seis enfermeiras e vinte e um técnicos de enfermagem, sendo os turnos de 12 horas com descanso de 60 horas. Cada equipe é composta por uma enfermeira e quatro técnicos. Para que os plantões possam estar completos, alguns profissionais se veem na obrigação de reduzir o período de descanso realizando até 15 (quinze) plantões, quando o número ideal seria 10 (dez) plantões por mês.

A pesquisa foi possível devido à colaboração de um grupo de vinte e sete enfermeiras e técnicas de enfermagem do centro de oncologia na construção do modelo. Seis “informantes-chave” foram escolhidos em razão da sua exposição às condições pessoais, psicossociais e organizacionais da equipe. Cada um é membro de equipes de atendimento que variam de 4 a 25 anos de experiência no serviço.

Para participar, todos os informantes deveriam ter experiência em enfermagem, no trabalho e experiências pessoais que pudessem representar o status quo da equipe. Primeiramente, todos os participantes responderam ao questionário de Burnout Inventory validado para a cultura brasileira(12), que avalia a sobrecarga e o estresse no trabalho, e o resultado considerou índices elevados.

Logo, os seis informantes participaram de três sessões, fornecendo dados e insights para a construção do modelo, cada sessão com duração de 60 a 120 minutos. Um dos autores do presente artigo facilitou as discussões para elucidar a estrutura e o processo de geração, acumulação e dissipação do estresse no local de estudo, ao mesmo tempo em que traduzia as conversas em mapeamento visual do modelo.

Alguns dos aspectos discutidos nas três sessões foram: i) rotina de trabalho; ii) intercorrências que geravam estresse; iii) forma de lidar com a morte de crianças (pacientes do centro oncológico), com a perda e o luto em si e iv) questões organizacionais, tais como a sobrecarga dos plantões, a falta de pessoal e a falta de companheirismo.

Finalmente, após várias discussões críticas, uma estrutura final do modelo foi gerada e inserida no software Stella Architect (www.iseesystems.com).

O próximo passo foi a parametrização do modelo. Para isso, dados foram extraídos de uma pesquisa no centro de oncologia com enfermeiros e auxiliares de enfermagem e com base neles o modelo foi ajustado para representar o cenário base.

O comportamento do cenário base foi comparado com a situação atual da unidade de oncologia e foi verificada a capacidade do modelo de reproduzir o comportamento observado pela equipe, bem como o número usual de enfermeiros afastados a cada período (aproximadamente três). Finalmente, o modelo foi utilizado para testar três políticas para mitigação do estresse, conforme experiências de pesquisas anteriores(13): i) incremento na carga de atendimento (ou seja, no número de leitos atendidos por turno); ii) incremento do tamanho das equipes de turno e iii) redução de horas de atendimento por leito.

Por outro lado, a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa e Ética com número 80845417.3.0000.0121, de 5 de julho de 2018 e foi conduzida de acordo com a pesquisa humana do Conselho Nacional de Saúde e Código de Ética e Pesquisa. Todos os sujeitos concordaram em participar da pesquisa, foram informados sobre o objetivo e procedência do estudo e assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), adequado à Resolução 466/2012. A análise e a especificação dos riscos estão contidas no projeto e no referido TCLE e os pesquisadores reconhecem os riscos da pesquisa, comprometendo-se em ressarcir quaisquer danos causados.

Resultados

A Figura 1 representa a estrutura simplificada do modelo, mostrando a acumulação do estresse (retângulo) como o resultado de dois laços de retroalimentação, um de efeito crescente, o de geração de estresse (laço vermelho) e o outro de efeito decrescente, o de dissipação (laço azul).

Figura 1 Diagrama de enlaces causais*O símbolo (+) na ponta das setas representa que as variáveis mudam na mesma direção; †O símbolo (-) na ponta das setas representa que as variáveis mudam na direção oposta. 

A seguir, são formuladas as equações matemáticas que, de acordo com a Figura 1, têm efeito no estresse acumulado. Ressalta-se que as equações formuladas (a serem apresentadas na Seção Resultados) são o produto de operações algébricas simples, tais como soma, subtração, divisão e produto. Em outras palavras, as equações 2 a 10 foram deduzidas pelos autores para a explicação dos fenômenos observados nelas.

Assim, o estresse acumulado εt é a diferença entre o estresse gerado no período t, γte e o estresse dissipado no mesmo período δte , representado na linguagem da dinâmica de sistemas pela equação a seguir:

ddtεt=γteδte (2)

A geração de estresse γte é definida como a razão entre o número de leitos que devem ser atendidos βte (a taxa ideal de atendimento dimensionada com equipes de 5 enfermeiros por turno) e o número de leitos atendidos por turno αte (ou seja, a taxa real de atendimento):

γte=βteαte (3)

Em outras palavras, quando a capacidade real de atendimento αte for menor que a capacidade dimensionada βte , o estresse acumular-se-ia acima do que tivesse se a capacidade real atendesse completamente à demanda.

Já a dissipação de estresse δte responde proporcionalmente ao estresse acumulado εt e inversamente aos turnos necessários para dissipar o estresse, a constante τ, conforme pesquisa anterior(13):

δte=εtτ (4)

O estresse acumulado εt contribui ao incremento na taxa de afastamentos ϕta – além de outros fatores κ1 – reduzindo a equipe disponível total ρtd e, portanto, restringindo a formação de equipes em turno ρtp , como mostram as equações a seguir, em que κ1, κ2, κ3 são constantes:

ϕta=εt+κ1 (5)
ddtρtd=σtdϕta (6)
ddtρtp=(ρtd×κ2)(ρtp×κ3) (7)

A restrição na formação de equipes em turno, por sua vez, reduz as horas disponíveis de trabalho por turno htd e esta, por sua vez, o número de leitos atendidos por turno αte , em que κ4 é uma constante e htl é uma função não linear do estresse acumulado εt:

htd=ρtp×κ4 (8)
αte=htdhtl (9)
htl=f(εt) (10)

Em síntese, a Figura 1 mostra que, quando o mecanismo de dissipação funciona adequadamente, o sistema permanece em equilíbrio. Porém, quando o mecanismo de dissipação não é totalmente efetivo ou quando o estresse é gerado a uma taxa superior, o estresse acumulado tende a crescer, levando a mais afastamentos e, assim, incrementando o índice de absenteísmo e o adoecimento na equipe.

A Figura 2 apresenta o resultado do cenário base. O cenário base estima um índice de absenteísmo de 12% aproximadamente, cinco enfermeiros afastados, trinta enfermeiros na equipe disponível total e um índice de 0,4 de estresse acumulado, ao longo do período de 50 turnos. Nota-se que, no cenário base, o estresse não é dissipado, permanecendo em um valor diferente de zero, ou seja, representando uma carga constante de estresse. Assim também, o índice de absenteísmo de 12% está bem acima do valor de referência de 4% identificado na literatura, o que significa que, nesse nível de estresse, a equipe tenderá a adoecer em longo prazo mais do que a média do setor.

Figura 2 Cenário Base reproduzindo o comportamento atual da unidade de oncologia 

Uma vez explicado o modelo e apresentado o cenário base, alguns cenários foram simulados com o objetivo de verificar o impacto no estresse e no absenteísmo da equipe. O primeiro grupo de cenários estabelece incrementos na carga de atendimentos recebidos pela unidade de oncologia, ou seja, simula-se o efeito de um incremento de atendimentos, considerando que a equipe permanece fixada a cinco enfermeiros por turno. Os incrementos são 5% e 10%, relativos ao número de leitos que precisam de atendimento e iniciam no turno 10. A Figura 3 apresenta os resultados.

Figura 3 Cenários de incremento de carga de trabalho 

Conforme os resultados da Figura 3, pode-se observar que, na medida em que os turnos vão se sucedendo e ocorre o incremento de trabalho, há um aumento de afastamento de pessoal e do índice de absenteísmo, ocasionando desfalque nas equipes e estrese acumulado. Esse comportamento de colapso é mais evidente no cenário de incremento de 10% na taxa de atendimento, levando a um índice de absenteísmo maior que 30% e uma redução similar da equipe disponível total.

O próximo conjunto de cenários procura apresentar o impacto do incremento de mais um enfermeiro à equipe de turno, a partir do 10º turno, considerando, novamente, os incrementos de demanda de 5% e 10%. A Figura 4 apresenta os resultados do segundo conjunto de cenários.

Figura 4 Cenários da política de aumento da equipe 

Com uma política de aumento nas equipes de vinte e sete indivíduos que cumprem os plantões, que deveria ser de trinta profissionais para trinta e seis, as equipes irão ter mais um componente e o serviço será mais brando. Com uma composição de trinta e seis profissionais efetivos, os enfermeiros e técnicos não terão de cobrir faltas ou ausências por absenteísmo. Dessa forma, o tempo gasto nos atendimentos será melhor dividido, evitando, desse modo, a sobrecarga física e emocional dos trabalhadores envolvidos. Assim, de acordo com a Figura 4, mesmo com incrementos na taxa de atendimento, o aumento da equipe leva a uma redução considerável do estresse, praticamente dissipando-o por completo no período de cinquenta turnos para o caso do incremento de 5%. Em paralelo, o índice de absenteísmo – para esse mesmo cenário de 5% - reduz para um valor próximo da média do setor, aproximadamente 5%.

Por fim, o último conjunto de cenários testa os impactos de uma política de redução de horas de atendimento por leito, relativo à mensuração do absenteísmo na unidade, mantendo o tamanho da equipe em cinco enfermeiros, ou seja, a partir do acompanhamento do índice de absenteísmo, reduz-se o número de horas de atendimento por leito em 20% (ou seja, de 11 horas por leito por turno para 8,8 horas por leito por turno). A Figura 5 apresenta os resultados desse cenário para os mesmos incrementos de 5% e 10% na carga de trabalho.

Figura 5 Cenários da política de redução de horas de atendimento por leito 

Como pode ser observado na Figura 5, mesmo com incrementos consideráveis na demanda (10%), o índice de absenteísmo estabiliza-se em 5% aproximadamente. O pessoal afastado também estabiliza-se em duas pessoas por turno, bem como o estresse acumulado é dissipado praticamente por completo. Esse cenário apresenta limitações, uma vez que o serviço prestado depende da evolução de cada caso. Na medida que o profissional administra o tempo gasto nos atendimentos, melhor será o seu rendimento para enfrentar a carga de trabalho.

Discussão

Este estudo apresenta a dinâmica de geração, acumulação e dissipação do estresse na equipe de enfermagem de um setor de oncologia e o absenteísmo utilizando um modelo de dinâmica de sistemas. O modelo utilizou informações e insights obtidos nos diálogos com alguns profissionais desse setor.

Consistiu em múltiplos ciclos de feedback contendo uma gama diversificada de componentes, incluindo o número de membros das equipes, o efeito dos afastamentos do trabalho, o efeito do estresse nas equipes, a carga de trabalho, o atendimento ao paciente e as horas de descanso.

O modelo oferece dados que proporciona ao gestor controlar as demandas do trabalho e acompanhar a evolução do estresse entre esses profissionais. Além disso, é possível prever tendências para situações futuras sob vários cenários(14), como foi o caso da situação de militares americanos com transtorno do estresse pós-traumático e um possível agravo desse quadro em envolvimentos do país em novos conflitos.

Um dos principais valores dos modelos de sistemas é que eles mostram como um conjunto de mudanças afeta muitos aspectos de uma estrutura complexa(13). A criação de modelos matemáticos representa a cadeia produtiva, favorece diagnosticar e monitorar pontos problemáticos em sua estrutura utilizando simulações computacionais e empregando uma representação de fácil compreensão.

Uma perspectiva única é oferecida aos pesquisadores e profissionais para verem o estresse no local de trabalho como um processo dinâmico(7). Múltiplos ciclos de feedback recursivo são disponibilizados para orientação e desenvolvimento de políticas e programas dentro de contextos organizacionais complexos.

As demandas apresentadas no modelo retratam situações reais de profissionais que convivem com agentes estressores e abordaram questões de impacto cotidiano e de condições organizacionais. A melhoria das condições físicas e mentais e a redução do estresse podem ser alcançadas com o incentivo de relações positivas no local de trabalho, motivação dos funcionários por meio de condições adequadas de trabalho, motivação positiva da chefia e avaliação objetiva do desempenho do trabalho(15).

A falta de interesse em abordar o estresse no trabalho tanto por parte do empregador quanto do empregado pode comprometer a saúde e o desempenho do profissional, podendo ter impacto em uma variedade de consequências fisiológicas, psicológicas e comportamentais. As organizações podem se concentrar em construir bons níveis de desempenho de seus funcionários se esses efeitos forem tratados, promovendo o desenvolvimento de uma sociedade melhor como um todo(16).

Cabe às organizações adotarem políticas de gestão visando melhorar as condições do setor(17), visto que no momento em que se conclui que foi no trabalho que o sofrimento e o desgaste foram gerados, o sujeito merece atenção dos dispositivos de gestão. Reuniões com equipes são importantes para o planejamento de atividades que busquem a valorização dos distintos saberes com ênfase nas experiências dos profissionais, em prol da manutenção da saúde dos trabalhadores.

A identificação e o monitoramento dos problemas no local de trabalho utilizando modelos de dinâmica de sistemas podem proporcionar maior segurança ao gestor que, com isso, pode acompanhar melhor o trabalho das equipes. Além do que, é mais provável que uma pessoa que labora em um ambiente de trabalho melhor não se estresse e não se ausente do trabalho comparado a uma pessoa que trabalha em um ambiente fisicamente exaustivo e psicologicamente deprimente(18).

A gestão da saúde e bem-estar devem começar pela mudança de atitudes; a promoção da satisfação psicológica básica (ou seja, autonomia, relacionamento e competência), o bem-estar e a saúde podem evitar consequências negativas para funcionários e organizações, bem como ter o potencial de maximizar o desempenho organizacional(19). Além disso, as relações interpessoais, o diálogo(20) e o atendimento das demandas físicas e emocionais dos profissionais são fatores considerados importantes para melhorar a qualidade de vida no trabalho.

Outro fator importante está no fato de que a satisfação(5) do paciente está ligada ao absenteísmo da equipe e, para aumentar a satisfação do paciente, os gerentes precisam encontrar uma maneira de reduzir o absenteísmo do pessoal a fim de evitar o desgaste e melhorar a atmosfera no local de trabalho.

O modelo, com sua dinâmica, propõe mudanças no sentido de melhorar o apoio às equipes, aos aspectos psicossociais, à colaboração mútua na execução das tarefas, ao equilíbrio no trabalho e à família. As ações que visem à mediação dos problemas de relacionamento em equipes são importantes(21), pois os atritos, desavenças e a violência horizontal são comuns em locais de trabalho.

Além disso, o tratamento com oncologia envolve sobrecarga de trabalho, falta de equipamentos, tratamentos longos e agressivos, efeitos colaterais, sentimentos de desespero e pânico dos pacientes e morte(22), demandando mais envolvimento, conhecimento e equilíbrio emocional.

Em uma perspectiva de longo prazo, será interessante explorar melhor as questões referentes aos fatores humanos de inter-relacionamento para melhor entender às complexidades do comportamento humano para diferentes situações de estresse. A aplicação do modelo em outros ambientes e amostra com um “n” maior de participantes poderiam enriquecer mais a qualidade do modelo.

A adoção de um modelo com mais elementos e maiores relações aumenta a validação de maneira significativa. A literatura científica em gestão e psicologia nem sempre concorda sobre como e em que medida as variáveis influenciam umas às outras e estudos empíricos longitudinais ainda estão faltando. Apesar das barreiras mencionadas, há uma sinalização de que o desenvolvimento de ferramentas de simulação por computador oferece um potencial considerável para a gestão dos serviços de saúde.

Em especial, os resultados deste estudo podem contribuir para a ciência da enfermagem no sentido de projetar iniciativas de reformas relacionadas à gestão de pessoal e à sobrecarga de trabalho, no controle do estresse entre enfermeiros e para diminuir suas consequências negativas em termos de qualidade de vida no trabalho, na prestação de serviço e nos custos.

Conclusão

O modelo de dinâmica de sistemas apresentado é capaz de representar os complexos mecanismos de feedback envolvendo os processos mentais de trabalhadores de uma unidade de enfermagem oncológica. A representação dinâmica de geração, acumulação e dissipação do estresse, bem como o efeito no absenteísmo na equipe de enfermagem que atende os requisitos requeridos e a relação dos estoques e fluxos respondem de forma coerente às mudanças propostas nas simulações.

O modelo disponibiliza ao gestor uma ferramenta que permite acompanhar, de forma dinâmica, as demandas do setor apresentando o quadro atual e simulando situações futuras, como os efeitos na redução e na contratação de pessoal, o controle das folgas, a distribuição de tarefas de forma igualitária e as variações dos níveis de estresse conforme as suas decisões.

Diante da complexidade que é o serviço de enfermagem e apesar das limitações, espera-se que o estudo forneça mais uma alternativa para os gestores de enfermagem no enfrentamento do estresse, do absenteísmo e na melhoria da qualidade de vida no trabalho.

Finalmente, sugere-se que pesquisas adicionais sejam incentivadas aplicando a metodologia de dinâmica de sistemas para estudar o estresse e as suas consequências no ambiente de trabalho.

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Recebido: 18 de Julho de 2018; Aceito: 17 de Fevereiro de 2019

Autor correspondente: Mauricio Uriona Maldonado. E-mail: m.uriona@ufsc.br

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