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Revista Latino-Americana de Enfermagem

On-line version ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.27  Ribeirão Preto  2019  Epub Oct 07, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1518-8345.3168.3182 

Artigo Original

Satisfação no trabalho da equipe de enfermagem em unidades de terapia intensiva

Kelly Yukari Teruya1  2 
http://orcid.org/0000-0002-7100-9681

Ana Cláudia de Souza Costa3 
http://orcid.org/0000-0003-1784-2928

Edinêis de Brito Guirardello1 
http://orcid.org/0000-0003-0457-2850

1Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Enfermagem, Campinas, SP, Brasil.

2Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica da Unicamp (PIBIC/PIBITI), Brasil.

3Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Poços de Caldas, MG, Brasil.


RESUMO

Objetivo:

avaliar a satisfação no trabalho e sua relação com as características pessoais e profissionais da equipe de enfermagem.

Método:

estudo descritivo e transversal com 163 trabalhadores da enfermagem de unidades de terapia intensiva de um hospital de ensino. Para a coleta de dados, foi utilizada a versão brasileira do Job Satisfaction Survey e uma ficha de caracterização pessoal e profissional. Analisaram-se os dados por meio de estatística descritiva, comparações e correlações.

Resultados:

os profissionais demonstraram ambivalência para satisfação no trabalho de forma global e para o domínio comunicação. Estavam satisfeitos no que tange a supervisão, colaboradores e natureza do trabalho e insatisfeitos quanto aos demais domínios. Houve correlação entre intenção de permanecer no trabalho e a maioria dos domínios do Job Satisfaction Survey, com exceção de colaboradores e condições operacionais, e entre o tempo de trabalho na unidade, e na instituição, com os domínios remuneração, recompensas e supervisão.

Conclusão:

houve ambivalência em relação à satisfação no trabalho e quanto às variáveis intenção de permanecer no trabalho e tempo de trabalho na unidade e na instituição apresentaram correlação com satisfação profissional para os domínios remuneração, recompensa e supervisão.

Descritores: Satisfação no Emprego; Unidades de Terapia Intensiva; Enfermagem; Ambiente de Instituições de Saúde; Cuidados Críticos; Serviço Hospitalar de Enfermagem

ABSTRACT

Objective:

to evaluate job satisfaction and its relationship with the personal and professional characteristics of the nursing team.

Method:

a descriptive and cross-sectional study with 163 nursing workers from the intensive care units of a teaching hospital. For data collection, the Brazilian version of the Job Satisfaction Survey and a personal and professional characterization form were used. Data were analyzed using descriptive statistics, comparisons and correlations.

Results:

the professionals demonstrated ambivalence for job satisfaction in a global way and concerning the communication domain. They were satisfied with the supervision, co-workers, and nature of work, while dissatisfied with other domains. There was a correlation between the intention to stay in the job and the majority of the Job Satisfaction Survey domains, except for co-workers and operating procedures, and a correlation between time working at the unit and at the institution with the domains pay, contingent rewards, and supervision.

Conclusion:

there was an ambivalence regarding job satisfaction and the variables intention of stay in the job and time working at the unit and at the institution were correlated with job satisfaction concerning the domains pay, contingent rewards, and supervision.

Descriptors: Job Satisfaction; Intensive Care Units; Nursing; Health Facility Environment; Critical Care; Nursing Service, Hospital

RESUMEN

Objetivo:

avaliar la satisfacción en el trabajo y su relación con las características personales y profesionales del equipo de enfermería.

Método:

estudio descriptivo y transversal con 163 trabajadores de enfermería de unidades de terapia intensiva en un hospital escuela. Para la recolección de datos, se utilizó la versión brasileña del Job Satisfaction Survey y una ficha de caracterización personal y profesional. Se analizaron los datos por medio de estadística descriptiva, comparaciones y correlaciones.

Resultados:

los profesionales mostraron ambivalencia para la satisfacción en el trabajo de forma global y para el dominio de la comunicación. Estaban satisfechos por lo que se refiere a la supervisión, colaboradores y naturaleza del trabajo, e insatisfechos en cuanto a los demás dominios. Se observó correlación entre la intención de permanecer en el trabajo y la mayoría de los dominios del Job Satisfaction Survey, excepto de los dominios colaboradores y condiciones operativas, y la correlación entre el tiempo de trabajo en la unidad y en la institución con los ámbitos de la remuneración, las recompensas y la supervisión.

Conclusión:

Se verificó ambivalencia en relación a la satisfacción y las variables intención de permanecer en el trabajo, y tiempo de trabajo en la unidad y en la institución se correlacionaron con satisfacción en el trabajo para los dominios remuneración, recompensa y supervisión.

Descriptores: Satisfacción en el Trabajo; Unidades de Cuidados Intensivos; Enfermería; Ambiente de Instituciones de Salud; Cuidados Críticos; Servicio de Enfermería en Hospital

Introdução

A satisfação profissional é um fenômeno complexo, com múltiplos fatores causais relacionados ao ambiente de trabalho, à supervisão e ao gerenciamento, sendo definida como a resposta positiva dos profissionais às condições de trabalho que satisfazem suas necessidades, como resultado de sua avaliação do valor ou equidade de sua experiência profissional(1)

Benefícios e remuneração salarial são os fatores que mais influenciam a satisfação dos profissionais de enfermagem(2), seguido de carga horária de trabalho, reconhecimento, incentivo institucional(3-4), autonomia e respeito pelos colegas(5). Por outro lado, a satisfação profissional influencia na intenção de permanecer no trabalho(6) e na instituição(7) refletindo na qualidade e segurança da assistência em enfermagem(8).

No ambiente de cuidados críticos, a presença contínua do sofrimento e da morte, cuidados altamente complexos e uso de tecnologias avançadas, entre outros elementos, podem acarretar insatisfação profissional e prejudicar a qualidade de vida no trabalho dos profissionais de enfermagem(9). A prática de liderança e o comprometimento organizacional foram preditores da satisfação profissional de enfermeiros em unidades de cuidados críticos(10), assim como a carga de trabalho(11), relação com a equipe de trabalho, autonomia, remuneração e reconhecimento(12-13).

Trata-se de um ambiente que necessita de constante atualização dos profissionais ante as inovações tecnológicas e a complexidade do cuidado dos pacientes, assim como do apoio da gestão para lidar com conflitos e desenvolver o trabalho interdisciplinar no contexto da saúde, promovendo uma assistência segura. Além disso, a enfermagem constitui a maior categoria de profissionais da saúde, responsável pela assistência contínua aos pacientes, o que reforça a necessidade de valorizar um ambiente em que os profissionais possam estar satisfeitos com seus trabalhos, exercendo suas atividades com qualidade e garantindo a segurança dos pacientes. Diante do exposto, este estudo teve como objetivo avaliar a satisfação no trabalho e sua relação com as características pessoais e profissionais da equipe de enfermagem.

Método

O presente estudo, de caráter correlacional e transversal, foi realizado em três Unidades de Terapia Intensiva (UTI) de uma instituição de ensino pertencente à rede pública de saúde, localizada no interior do estado de São Paulo. Trata-se de um hospital de grande porte e alta complexidade, cujas UTIs estão localizadas em três estruturas físicas diferentes. A primeira, denominada UTI Geral, contém unidade pós-operatória, neurologia e coronária; a segunda, UTI Trauma e Clínica, atende as especialidades de trauma e medicina interna; e a terceira, UTI Transplante.

A equipe de enfermagem é constituída por enfermeiros, técnicos em enfermagem, supervisores e diretor. No entanto, para o estudo, foram considerados apenas os enfermeiros e técnicos em enfermagem que prestam assistência direta ao paciente e com tempo de experiência no local igual ou superior a três meses. Trata-se de uma amostra por conveniência. Os critérios de exclusão foram: trabalhar na área gerencial ou estar de férias, licença ou outro tipo de afastamento durante o período de coleta de dados.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição (Parecer nº 2.237.564) e atendeu à Resolução 466/2012, do Conselho Nacional de Saúde do Brasil, para pesquisa envolvendo seres humanos. Todos os sujeitos que participaram do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

A coleta de dados foi realizada nos meses de novembro e dezembro de 2017. Para aqueles que aceitaram participar do estudo, foi entregue um envelope contendo os instrumentos e o TCLE. Dessa forma, os sujeitos responderam a uma ficha de caracterização pessoal e profissional e à versão brasileira do Job Satisfaction Survey (JSS)(14). A ficha de caracterização pessoal e profissional contém as variáveis idade, sexo, estado civil, categoria profissional, qualificação profissional, unidade, turno de trabalho, tempo de experiência na enfermagem, tempo de trabalho na unidade e na instituição, existência de outro vínculo empregatício e intenção de permanecer no trabalho no próximo ano, em uma escala visual de zero a dez, na qual quanto maior a pontuação, maior a intenção de permanecer no trabalho.

A versão brasileira do JSS tem por finalidade avaliar a satisfação do indivíduo com o seu trabalho. É composta por 32 itens e nove domínios: remuneração (quatro itens), benefícios (três itens), promoção (três itens), colaboradores (quatro itens), recompensas (quatro itens), natureza do trabalho (três itens), supervisão (quatro itens), condições operacionais (três itens) e comunicação (quatro itens). A escala de medida é do tipo Likert de seis pontos, que pode variar de Discordo muito (um ponto) a Concordo muito (seis pontos) e, quanto maior a pontuação, maior a satisfação no trabalho. Os valores do coeficiente alfa de Cronbach dos domínios do JSS variaram de 0,50 a 0,74(14).

Destaca-se que, na análise dos dados, para os domínios benefícios, promoção, natureza do trabalho e condições operacionais, foram considerados: satisfação no trabalho para valores médios entre 12 e 18 pontos; insatisfação para médias entre três e nove pontos; e, para valores entre dez e 11, foi considerado que não estão satisfeitos nem insatisfeitos com o trabalho, o que é denominado ambivalência. Já para os domínios remuneração, recompensas, supervisão e comunicação, valores médios entre 16 e 24 pontos indicaram satisfação; entre quatro e 12 pontos, insatisfação; e entre 13 e 15 pontos, ambivalência(14).

Para este estudo, a consistência interna das subescalas do JSS, avaliada por meio do coeficiente alfa de Cronbach, foi, conforme cada domínio: supervisão (α=0,81), promoção (α=0,74), colaboradores (α=0,66), comunicação (α=0,63), recompensa (α=0,62), natureza do trabalho (α=0,61), remuneração (α=0,59), benefícios (α=0,57) e condições operacionais (α=0,33). Os dados coletados foram inseridos em uma planilha do programa Microsoft Office Excel 2013 e submetidos à análise por um estatístico.

Para a análise das subescalas do JSS e das variáveis pessoais e profissionais, realizou-se estatística descritiva. Quanto às comparações entre uma variável qualitativa com duas categorias e uma variável quantitativa, foi utilizado o teste não paramétrico de Mann-Whitney ou o teste t de Student não pareado, conforme a distribuição dos dados. Já para as comparações entre uma variável qualitativa com mais de duas categorias e uma variável quantitativa, foi utilizado o modelo de Anova seguido do pós-teste de Tukey, ou o teste não paramétrico de Kruskal-Wallis seguido do pós-teste de Dunn, de acordo com a distribuição dos dados.

As correlações entre as subescalas do JSS e as outras variáveis em estudo foram verificadas por meio do coeficiente de correlação de Spearman, o qual varia de -1 a 1, de acordo com a seguinte classificação: ausência de correlação (0,00), correlação fraca (0,10-0,29), correlação moderada (0,30-0,49) e correlação forte (≥0,5)(15). Para todas as análises, foram utilizados os softwares estatísticos SAS® versão 9.4 e SPSS® versão 22. Para os testes estatísticos foi considerado um nível de significância de 5%.

Resultados

Participaram do estudo 163 profissionais de enfermagem, com média de idade de 38,7 anos (±8,6), sendo a taxa de resposta de 93,34%. Os dados de caracterização da amostra estão apresentados na Tabela 1.

Tabela 1 Descrição das características da amostra. Campinas, SP, Brasil, 2017 

Variável n %
Sexo
Feminino 123 75,46
Masculino 40 24,54
Estado civil
Solteiro 51 31,48
Casado/amasiado 91 56,17
Separado/divorciado 20 12,35
Sem informação 1
Categoria profissional
Enfermeiro 49 30,06
Técnico em enfermagem 114 69,94
Qualificação profissional
Stricto Sensu
Mestrado/doutorado
5 3,07
Lato Sensu
Aprimoramento/residência
2 1,22
Especialização 35 21,47
Unidade de Terapia Intensiva
Pós-operatória/neurologia/coronária 74 45,40
Trauma e clínica 65 39,88
Transplante 24 14,72
Turno
Manhã 44 26,99
Tarde 42 25,77
Noite 77 47,24
Outro vínculo empregatício
Sim 36 22,09
Não 127 77,91

O tempo médio de experiência profissional foi de 14,9 anos (±7,6), de trabalho na unidade sete anos (±5,5) e na instituição 9,6 anos (±7,1). Quanto à intenção de permanecer no trabalho atual no próximo ano, a média foi 8,5 (±2,7), em uma escala de zero a dez pontos. Ao avaliar as variáveis pessoais e profissionais, verificou-se que as UTIs Pós-operatória/Neurologia/Coronária e Trauma e Clínica diferem quanto ao tempo de trabalho na unidade (p=0,0222).

Com relação à avaliação da satisfação no trabalho, obteve-se valor médio de 107,98 (±33,9) para o escore total, indicando ambivalência. Quanto aos domínios, os valores médios variaram de 5,68 a 16,81 (Tabela 2), demonstrando que os trabalhadores se encontram satisfeitos com supervisão, colaboradores e natureza do trabalho; ambivalentes no que tange à comunicação; e insatisfeitos com recompensas, remuneração, benefícios, condições operacionais e promoção.

Tabela 2 Análise descritiva da satisfação no trabalho para os domínios do Job Satisfaction Survey - versão brasileira (n=163). Campinas, SP, Brasil, 2017 

Satisfação no trabalho Média Desvio padrão Mínimo Primeiro quartil Mediana Terceiro quartil Máximo
Supervisão 16,81 4,78 4,00 14,00 17,00 20,00 24,00
Colaboradores 16,04 3,58 4,00 14,00 16,00 18,00 24,00
Natureza do trabalho 14,41 2,91 5,00 13,00 15,00 17,00 18,00
Comunicação 13,55 4,24 4,00 10,00 14,00 16,00 24,00
Recompensa 11,38 4,33 4,00 8,00 12,00 14,00 24,00
Remuneração 10,67 4,26 4,00 8,00 11,00 14,00 21,00
Benefícios 9,96 3,71 3,00 8,00 10,00 12,00 18,00
Condições operacionais 9,48 2,84 3,00 8,00 10,00 11,00 17,00
Promoção 5,68 3,28 3,00 3,00 4,00 8,00 18,00

Em seguida, foi avaliado se a percepção quanto à satisfação no trabalho difere entre as características pessoais e profissionais. Verificaram-se diferenças entre os sexos para o domínio natureza do trabalho (p=0,0251); entre categoria profissional para os domínios recompensa (p=0,0228), natureza do trabalho (p=0,0158), condições operacionais (p<0,0001) e comunicação (p=0,0442); e entre as UTIs para o domínio comunicação (p=0,0242). No que se refere ao turno de trabalho, houve diferença estatisticamente significante entre os três períodos quanto à remuneração (p=0,0186), benefícios (p=0,0187) e recompensa (p=0,0220), tendo o período da tarde obtido maiores médias de satisfação no trabalho, seguido pelo da noite e, por conseguinte, pelo da manhã. Entretanto, para essas três subescalas, a comparação foi estatisticamente significante somente entre os turnos manhã e tarde. A avaliação da existência de correlação entre os domínios do JSS e as outras variáveis pessoais e profissionais encontra-se na Tabela 3.

Tabela 3 Coeficiente de correlação de Spearman entre as subescalas do Job Satisfaction Survey - versão brasileira e variáveis pessoais e profissionais. Campinas, SP, Brasil, 2017 

Subescalas do Job
Satisfaction Survey
Idade Tempo de experiência Tempo de trabalho
na unidade
Tempo de trabalho
na instituição
Intenção de permanecer
Remuneração -0,01 -0,06 -0,22* -0,18* 0,31
Benefícios -0,06 -0,01 -0,09 -0,08 0,19*
Promoção 0,12 0,05 -0,11 -0,11 0,24*
Colaboradores 0,09 0,09 0,00 0,04 0,10
Recompensas -0,00 -0,09 -0,24* -0,22* 0,39
Natureza do trabalho 0,17 0,04 0,09 0,03 0,20*
Supervisão -0,12 -0,15 -0,25* -0,24* 0,24*
Condições operacionais -0,03 -0,00 0,04 -0,00 -0,02
Comunicação 0,02 -0,06 -0,05 -0,03 0,16*

*p<0,05;

p<0,0001

Discussão

Este estudo buscou avaliar a satisfação no trabalho e sua relação com as variáveis pessoais e profissionais da equipe de enfermagem em UTI. A amostra foi representada majoritariamente por mulheres jovens, casadas e com apenas um vínculo empregatício.

A maioria dos enfermeiros possui especialização, mas nem sempre relacionada a sua área de atuação. Embora a especialização em UTI não seja pré-requisito para o exercício da profissão, verifica-se que os enfermeiros demonstram preocupação na busca contínua por capacitação e atualização do conhecimento.

Os profissionais relataram tempo médio de experiência na unidade superior a sete anos e, aqueles que trabalhavam nas unidades Pós-operatória/Neurologia/Coronária possuíam maior tempo de experiência em relação aos da UTI Trauma e Clínica. O tempo de experiência retrata uma equipe com nível de conhecimento e habilidades apropriados para atuar em unidades tão complexas, como é o caso das UTIs. Assim como em outro estudo sobre o tema, o valor médio para a variável intenção de permanecer no trabalho foi alto, indicando que os profissionais pretendem continuar no emprego atual(16).

O JSS possibilita avaliar a satisfação de uma forma geral, considerando os itens como um todo, bem como separadamente, por meio de domínios. Na análise, levando em conta o escore total, os profissionais não se encontraram satisfeitos nem insatisfeitos com o seu trabalho, o que pode ser compreendido como percepção de ambivalência para a satisfação profissional. Entretanto, tais achados não são possíveis de serem comparados com outros estudos no Brasil, visto que este é o primeiro que avaliou a satisfação no trabalho da equipe de enfermagem com o uso da versão brasileira do JSS. Todavia, em um estudo realizado com enfermeiros na Arábia Saudita, também se relatou ambivalência quanto à satisfação no trabalho(17).

No entanto, ao avaliar a satisfação por domínios do JSS, encontrou-se satisfação em supervisão, colaboradores e natureza do trabalho, o que também foi identificado em outros estudos internacionais(18-19). Por outro lado, os profissionais demonstraram insatisfação com a maioria dos domínios do JSS, os quais foram: recompensa, remuneração, benefícios, condições operacionais e promoção. A percepção da insatisfação expressa nos domínios recompensa e condições operacionais também foi relatada pelos enfermeiros na Arábia Saudita(17), enquanto para os enfermeiros na Turquia a insatisfação foi atribuída a recompensa, remuneração e benefícios(19).

Alguns estudos que avaliaram a satisfação no trabalho utilizando outros instrumentos, que não o JSS, também evidenciaram que benefícios(4) e remuneração(20) influenciaram negativamente na percepção da satisfação no trabalho. É importante destacar que, no presente estudo, os profissionais relataram ambivalência somente para o domínio comunicação, o que difere dos enfermeiros sauditas, para os quais maioria dos domínios foi percebida como ambivalente(17).

Quanto ao gênero, os homens encontraram-se mais satisfeitos do que as mulheres, no que tange ao domínio natureza do trabalho, corroborando dados da literatura nacional em que homens apresentam índices mais elevados de satisfação profissional(21). Já em pesquisas internacionais, as mulheres apresentam níveis mais altos de satisfação do que os homens(22).

Os profissionais de enfermagem também diferiram entre categorias quanto à satisfação no trabalho, visto que os técnicos de enfermagem demonstraram estar mais satisfeitos que os enfermeiros, principalmente quanto aos domínios: recompensa, natureza do trabalho, condições operacionais e comunicação. Dado semelhante foi encontrado em estudo que utilizou o Índice de Satisfação no Trabalho e revelou que os técnicos de enfermagem estavam mais satisfeitos que os enfermeiros(23).

Os profissionais da UTI de Transplante estavam mais satisfeitos para o domínio comunicação em relação aos da UTI Trauma e Clínica, o que pode ser justificado pelo perfil de pacientes e composição da equipe multiprofissional. A comunicação em ambientes complexos torna-se um desafio para esses profissionais, principalmente pela necessidade de estabelecer comunicação clara e segura com a equipe multiprofissional, para assistência a esse perfil de pacientes(24).

O turno de trabalho também influenciou na percepção da satisfação, pois os profissionais que trabalhavam no período da tarde estavam mais satisfeitos - o que é demonstrado pelos domínios remuneração, benefícios e recompensas - em relação aos do turno matutino. É interessante destacar que a maioria dos profissionais que trabalhavam no turno tarde, além de ser mais jovem, possuía menor tempo de trabalho na unidade e na instituição e esse sentimento de satisfação pode ser explicado pelos domínios mencionados, que os motivaram na busca e permanência pelo trabalho atual.

No que se refere aos domínios do JSS e às variáveis idade, tempo de experiência profissional e tempo de trabalho na unidade e na instituição, verificou-se correlação positiva de fraca magnitude entre idade e natureza do trabalho; correlação negativa de fraca magnitude entre tempo de trabalho na unidade e na instituição e os domínios remuneração, recompensas e supervisão; correlação positiva de moderada magnitude entre intenção de permanecer no trabalho e os domínios remuneração e recompensas; e correlação positiva de fraca magnitude nos domínios benefícios, promoção, natureza do trabalho, supervisão e comunicação. Tais achados assemelham-se ao estudo de correlação realizado na Turquia, em que a satisfação no trabalho foi diretamente relacionada à idade e inversamente relacionada à intenção de deixar o emprego(19).

A intenção de permanecer no trabalho atual no próximo ano foi diretamente proporcional à satisfação profissional, corroborando estudos que evidenciaram que a satisfação favorece a retenção(25) e a insatisfação a rotatividade no trabalho(19).

Este estudo possibilitou avaliar a satisfação no trabalho dos profissionais de enfermagem de unidades de cuidado crítico. No entanto, apresenta algumas limitações relacionadas à natureza do estudo transversal, o que impossibilita encontrar as relações causais existentes, bem como a generalização dos dados. Além disso, foi realizado em uma única instituição de ensino e os resultados encontrados podem diferir de outras UTIs.

Os achados do presente estudo sugerem que implementar planos de carreira e benefícios, assim como readequação do quadro de pessoal e melhoria das condições de trabalho podem resultar em satisfação profissional. Além disso, o estudo poderá contribuir para que gestores e administradores desenvolvam estratégias voltadas à melhoria das condições profissionais da enfermagem, com consequente repercussão na qualidade da assistência e na segurança do paciente, melhorando os indicadores institucionais.

Conclusão

Os profissionais, de modo geral, relataram sentimento de ambivalência em relação à satisfação no trabalho. Na análise por domínios, estavam satisfeitos com supervisão, colaboradores e natureza do trabalho e insatisfeitos com recompensa, remuneração, benefícios, condições operacionais e promoção.

As variáveis idade, sexo, categoria profissional, turno de trabalho e tipo de UTI foram associadas com a satisfação no trabalho. Ademais, quanto menor o tempo de experiência na unidade e na instituição e, quanto maior a intenção de permanecer no emprego, maior a satisfação no trabalho.

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Recebido: 18 de Janeiro de 2019; Aceito: 26 de Abril de 2019

Autor correspondente: Edinêis de Brito Guirardello. E-mail: guirar@unicamp.br

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