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Revista da Associação Médica Brasileira

On-line version ISSN 1806-9282

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.46 n.1 São Paulo Jan./Mar. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302000000100007 

Comunicação

 

Educação via Internet: experiência preliminar de Hematologia e Oncologia da Faculdade de Medicina da Fundação ABC

A.A. Moura, M.G. Lhano, A. Del Giglio

 

Disciplina de Hematologia e Oncologia da Faculdade de Medicina da Fundação ABC, São Paulo, SP

 

 

RESUMO
OBJETIVO:
Com o intuito de estimular o uso da Internet pelos nossos estudantes de medicina, criamos uma prova virtual a qual se submeteu toda a classe durante o curso de Oncologia e Hematologia ministrado no 3º ano do curso médico.
MATERIAL E MÉTODO: Através de uma página na Internet especialmente criada para esta prova, avaliou-se através de perguntas específicas dados pessoais, padrões de uso e conhecimentos básicos sobre o acesso à rede. Ofereceu-se ainda, dentro desta mesma página, um pequeno curso virtual sobre como utilizar a Internet.
RESULTADOS: Notamos que apenas 53% dos nossos alunos tinham usado a Internet antes da prova. O uso da Internet se correlacionou com a presença de outros usuários entre os membros da família (p < 0,001) mas não com sexo, idade ou renda familiar dos alunos estudados.
CONCLUSÃO: A reação dos alunos a esta experiência educacional foi positiva sendo que através dela cerca da metade deles utilizou a Internet pela primeira vez.

UNITERMOS: Internet. Educação médica.

 

 

INTRODUÇÃO

O crescimento exponencial da utilização da Internet tem fomentado múltiplas oportunidades para aprendizado, atualização e comunicação interpessoal1.

Tais possibilidades, indubitavelmente, se projetam também no cenário da educação médica2, oferecendo uma gama enorme de recursos de pesquisa de vários tipos de bancos de dados, serviços bibliográficos e acesso a colegas e professores, muitas vezes localizados a enormes distâncias do usuário3,4.

A despeito destas enormes potencialidades, a Internet é provavelmente subutilizada em nosso meio. Cerca de 25% de nossos alunos em 1997 utilizavam regularmente a Internet (dados não publicados). Assim, com o intuito de estimular um maior conhecimento dos recursos necessários para acessar a Internet e demonstrar algumas das suas potencialidades para nossos alunos, criamos uma prova virtual como parte da avaliação do curso curricular de Hematologia e Oncologia dado regularmente ao terceiro ano de nossa Faculdade. Para realizar esta prova, nossos alunos tiveram que se conectar à Internet através de um endereço especialmente criado para esta forma de avaliação onde, além de fazerem de um curso básico virtual sobre a Internet, responderam também às questões que visavam caracterizar o seu padrão de uso da rede. Adicionalmente, averiguamos o seu domínio acerca de conceitos básicos de utilização da Internet através de perguntas específicas respondidas antes e repetidas após o curso básico. Visamos, desta maneira, testar também o grau de fixação de informação possível através deste pequeno curso simulado pela e sobre a Internet. Reportamos a seguir os nossos resultados iniciais com este tipo de experiência educacional.

 

MÉTODOS

Oferecemos essa prova virtual para todos os alunos do terceiro ano do curso de medicina da FMABC durante o curso curricular de Oncologia e Hematologia dado no 2º semestre de 1998. Criamos para esta finalidade uma página ("home page") específica acessável na ocasião no endereço eletrônico www.esei.com.br/fmabc. Nesta página incluímos questões que visavam conhecer : a) características pessoais do aluno; b) padrões de uso da Internet do aluno e de sua família; c) conhecimentos básicos de acesso e utilização da Internet, além de princípios de pesquisa bibliográfica na rede. Estas perguntas foram repetidas após um pequeno curso virtual "on line" inserido nesta prova que esclarecia estes conceitos básicos e d) satisfação dos alunos com esta experiência educativa. As questões acima encontram-se descritas no anexo ao final do trabalho.

Antes desta prova virtual os alunos tiveram uma aula explicativa sobre como fazê-la. Após esta aula estipulou-se um prazo de três semanas para que se completasse a prova.

Atribuiu-se nota máxima a todos os alunos que responderam esta prova independente da taxa de acertos obtida nas qüestões acerca de seus conhecimentos básicos antes ou depois do curso virtual.

Dois dos autores (AAM e MGL) se disponibilizaram a monitorar os alunos que tivessem dúvidas sobre como fazer esta prova durante as três semanas de prazo que tiveram para completá-la.

Utilizamos os testes estatísticos de Fisher, quiquadrado e t de student pareado para estudar a correlação entre as variáveis estudadas.

 

RESULTADOS

Todos os 100 alunos responderam a prova virtual. O perfil dos alunos está representado na tabela 1. Observamos que a idade média foi de 21 anos e a distribuição entre os sexos foi equilibrada. Apesar de 67% dos alunos não terem respondido à pergunta acerca de sua renda familiar, notamos que a maioria dos que responderam são provenientes de famílias que tem renda superior a 10 salários mínimos.

 

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O padrão de uso da Internet destes alunos aparece na tabela 2. Notamos que, curiosamente, apenas 53% dos nossos alunos reportaram que já tinham usado a Internet. Apesar disso, 64% já pesquisaram na rede. A maioria destes usuários é recente (menos de um ano) e utilizam a rede com pouca freqüência.

 

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A tabela 3 ilustra o índice de acertos obtidos nas perguntas sobre conceitos básicos acerca do acesso e utilização da rede. Como podemos observar, quando analisamos a classe como um todo, houve um significativo acréscimo na taxa de acertos (p < 0,001) quando as mesmas perguntas foram feitas depois do curso virtual "on line" acerca da utilização da rede.

 

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Não encontramos correlação estatísticamente significativa entre o uso ou não da Internet pelos alunos com renda familiar, sexo ou idade. Entretanto, quando avaliamos se havia uso ou não da rede pelos alunos com o número de pessoas nas suas casas que usaram a rede, notamos uma correlação significativa (p < 0,001) no sentido de uma maior freqüência de acesso à Internet por alunos oriundos de famílias onde outros membros também usam a rede. Nós não observamos correlação significativa entre renda familiar e número de pessoas na casa que acessam a Internet.

Finalmente, a tabela 4 ilustra esquematicamente as opiniões dos alunos ao término desta experiência educativa. Observamos a aceitação positiva por grande parte da classe desta prova virtual e a sensibilização dos alunos para a importância da utilização da rede no estudo da medicina e atualização dos seus conhecimentos.

 

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DISCUSSÃO

É indiscutível atualmente que a Internet se inseriu de maneira importante no seio da comunidade médica como uma ferramenta fundamental da comunicação interpessoal e pesquisa. As facilidades propiciadas pela Internet devem, portanto, ser estendidas ao ensino médico através de atividades como o ensino virtual2, pesquisa bibliográfica3, consulta a bancos de dados3,4 e comunicação com preceptores e colegas.

Com o intuito de fomentar a utilização da Internet e sensibilizar os nossos alunos para a importância de sua utilização na educação médica, criamos uma prova virtual que requisitou a estes estudantes acessar a rede. Durante este acesso pesquisamos o perfil destes alunos e o seu padrão de uso da rede, além de prover-lhes um curso virtual inserido na prova que permitisse ensinar conceitos básicos do acesso e utilização da rede para leitura de pesquisas bibliográficas.

Notamos que cerca de metade dos nossos alunos nunca tinha utilizado diretamente a Internet. É possível que alguns destes alunos que não tenham usado diretamente a rede, o tenham feito mediante outros indivíduos já que 64% reportaram já terem feito pesquisas na rede. Pusic5, estudando o uso da Internet por residentes de pediatria americanos, descreveu que 26% deles nunca tinham acessado a Internet. Ao contrário deste autor, entretanto, não encontramos uma maior freqüência de uso por residentes de sexo masculino. A correlação que encontramos entre uso da Internet com a presença de outros familiares que utilizam a rede nas suas casas pode indicar a importância do estímulo ao uso da rede oriundo de suas famílias.

Notamos ainda que esta experiência educativa foi bem aceita pelos alunos e que houve um grau de aprendizado envolvido na medida em que ocorreu uma significativa melhora no desempenho da classe após passar pelo curso virtual inserido na prova.

É possível que, com a utilização crescente da Internet em vários outros setores, mais alunos e leigos deverão utilizá-las no futuro. Assim, devemos ensinar estes alunos como acessar a rede e dela retirar informações pertinentes para a resolução de problemas clínicos. Portanto, a proficiência de nossos alunos com a manipulação adequada de todas as potencialidades de pesquisa da Internet é fundamental e se constitui em uma área do ensino médico que deverá ser crescentemente estimulada em nossos currículos.

 

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SUMMARY
Medical education through the Internet: preliminary experience of the Hematology-Oncology Discipline of the ABC Foundation School of Medicine.

BACKGROUND: In order to foster the use of the Internet by our medical students, we devised a virtual test to be taken by the whole class during the Hematology–Oncology course given in the third year.
MATERIAL AND METHODS: Through a specially designed home page in the Internet students were asked questions regarding their personal characteristics, knowledge of basic Internet skills and were also given a short virtual course on line on the use of the Internet.
RESULTS: We noted that only 53% of our students had used the Internet before.
The use of the Internet was correlated with having more members of the household accessing the net (p < 0,001) but not with the student's sex, age or family income.
CONCLUSION: Most of the students reacted favourably to this educational experience through which about half of them got acquainted with the use of the Internet for the first time.
[Rev Ass Med Bras 2000; 46(1): 47-51]
KEY WORDS: Internet. Medical Education.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Spooner SA. The Pediatric Internet. Pediatric 1996; 98: 1185-1192.

2. Mooney GA, Bligh JG. Information technology in medical education: current and future applications. Postgrad Med J 1997; 73: 701-4.

3. Cook DJ, Meade MO, Fink MP. How to keep up with the critical care literature and avoid being buried alive. Critical Care Medicine 1996; 24:1757-1768.

4. Frisby AJ. The Internet and medical education. Del Med J 1996; 68: 602-5.

5. Pusic MV. Pediatric residents: are they ready to use computer-aided instruction? Arch Pediatr Adolesc Med 1998;152: 494-8.

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