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Revista de Sociologia e Política

Print version ISSN 0104-4478On-line version ISSN 1678-9873

Rev. Sociol. Polit.  no.23 Curitiba Nov. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-44782004000200016 

ENTREVISTA

 

Sexo, gênero, sujeito: uma entrevista com Alain Touraine1

 

Sex, gender, subject: an interview with Alain Touraine

 

Sexe, genre, sujet: un entretien avec Alain Touraine

 

 

Miriam Adelman

 

 


RESUMO

Em entrevista realizada em 2002, durante o XV Congresso Mundial de Sociologia, ocorrido em Brisbane, na Austrália, o sociólogo francês Alain Touraine – um dos principais convidados do evento e grande figura da Sociologia atual – comentou a contribuição do feminismo e dos estudos de gênero para a Sociologia contemporânea e avaliou o modo como influenciam sua própria obra. Para o Professor Touraine – que, em um primeiro momento, estudou o feminismo como um dos novos movimentos sociais –, a perspectiva feminista fornece hoje uma perspectiva necessária para a compreensão das relações sociais, culturais e políticas do mundo contemporâneo. Da mesma forma, citou o trabalho de algumas teóricas feministas – por exemplo, as norte-americanas Judith Butler e Nancy Chodorow e a francesa Monique Wittig – que vêm sendo importantes para ele, nos seminários de pesquisa que conduz atualmente na École de Haute Études en Sciences Sociales (EHESS) em Paris.

Palavras-chave: teoria feminista; estudos de gênero; teoria sociológica contemporânea; sujeito.


ABSTRACT

In this interview, conducted during the XVth World Congress of Sociology held in Brisbane, Australia, the French sociologist Alain Touraine – one of the event's keynote speakers and major figure of contemporary sociology – comments on the contribution of feminism and gender studies to the latter and evaluates the ways in which they have influenced his own work. For Prof. Touraine, whose earliest interest in feminism was linked to his concern for the new social movements, a feminist perspective provides a necessary lens for our understanding of the social, cultural and political relations of today's world. With this in mind, he cites the work of several feminist theorists – such as the North Americans Judith Butler and Nancy Chodorow, and the French writer, Monique Wittig – whose writings have been important for him in the research seminars that he is currently conducting, at the École de Haute Études en Sciences Sociales (EHESS)in Paris.

Keywords: feminist theory; gender studies; Contemporary Sociology; the subject.


RÉSUMÉ

Dans un entretien réalisé en 2002, lors du XVième Congrès Mondial de Sociologie qui a eu lieu à Brisbane, en Australie, le sociologue français Alain Touraine – un des principaux invités de la rencontre et importante figure de la sociologie actuelle – a commentée la contribution du féminisme et des études sur le genre à la Sociologie contemporaine et a evalué comment il subit leur influence dans son oeuvre. Pour le professeur Touraine qui a auparavant étudié le féminisme comme l'un des nouveaux mouvements sociaux -, la perspective féministe offre aujourd'hui une perspective nécessaire à la compréhension des relations sociales, culturelles et politiques du monde contemporain. Il a également cité le travail de certaines femmes théoriciennes féministes – par exemple, les nord-américaines Judith Butler et Nancy Chodorow et la française Monique Wittig – qui lui sont importantes aux séminaires de recherche qu'il assure en ce moment à l'Ecole de Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS), à Paris.

Mots-cles: théorie féministe; études de genre; théorie sociologique contemporaine; sujet.


 

 

Em 11 de julho de 2002, no XV Congresso Mundial de Sociologia em Brisbane, na Austrália, tive a honra de entrevistar um dos principais convidados do evento e grande figura da Sociologia atual, Professor Alain Touraine. Expliquei-lhe que realizava um estudo sobre a relação entre a teoria feminista e a Sociologia contemporânea e que gostaria que comentasse sobre a influência do feminismo e dos estudos de gênero na sua própria obra. Na ocasião, Touraine confirmou-me seu interesse pela temática, ao referir-se a um seminário a ela pertinente que vinha ministrando desde 2000 na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) em Paris. O sociólogo francês dispôs-se a conversar sobre seu encontro com o pensamento feminista e a importância que este teria, na sua avaliação, para o atual desenvolvimento da Sociologia. A entrevista a seguir é o resultado dessa conversa.

* * *

Miriam Adelman: Como o sr. vê a relação entre a Sociologia contemporânea, a partir do início da década de 1970, e a teoria feminista?

Alain Touraine: Anteriormente, eu não tinha um interesse direto nos estudos de gênero, no women's studies como tal. Foi quando escrevi um livro sobre igualdade e diferença que aconteceu meu encontro com o women's studies... Nesse momento ficou claro para mim que o que eu chamo de sujeito – uma categoria de pessoas cuja ação possui um sentido universal – é, no nosso tempo, um sujeito feminino. Foi ali que eu comecei a ler as autoras, particularmente as norte-americanas, que já tinham ido muito longe em termos intelectuais, pós-Foucault. Assim, tornei-me um leitor muito sério de Judith Butler e de outras pessoas que não são nada fáceis para mim: primeiro, porque não sou filósofo por formação e, segundo, porque é como se começasse a Sociologia com Foucault. Eu admiro Foucault, que eu conhecia pessoalmente, mas sua orientação é muito diferente da minha. Assim, foi muito difícil para mim, mas eu decidi dedicar meu seminário de pesquisa à área de women's studies. Isso faz três anos e agora vou iniciar a pesquisa. Hoje observo com grande satisfação que amplas áreas da teoria sociológica foram transformadas pelos estudos da mulher e pelas feministas e mais ainda quando se trabalha com o tema de igualdade e diferença. Aqui sim, os estudos sobre a mulher e das autoras feministas acrescentam algo realmente importante. Bom, os estudos latino-americanos ainda têm muito interesse para mim e, nesse campo, também os estudos da mulher transformaram muito profundamente nossas idéias. Mas ainda mais importante é a noção da mulher como sujeito. Estou completamente convencido de que toda a teoria sociológica tem que ser reconstruída para corresponder ao pensamento feminista e pós-feminista. Em 1848, o papel central passou de cidadão a trabalhador; foi uma mudança profunda. Da mesma forma, hoje em dia temos que passar de categorias sociais para categorias culturais. Estamos vivendo o fim do que eu chamaria de modelo europeu de modernização, que trata, como você sabe, de criar e enfatizar pólos de contradição: o moderno e o não moderno, a inteligência e o sentimento, homens e mulheres, público e privado, o triunfo do Ocidente sobre o Oriente – com implicações enormes. Mas recentemente, ou seja, nos últimos 150 anos, estamos esforçando-nos na transformação da nossa imagem do mundo, reintegrando e combinando categorias que mantínhamos em oposição. Assim, começamos estendendo o conceito de cidadania à democracia industrial, à democracia social e assim por diante. E depois vêm os movimentos de descolonização, que eliminam a polarização entre as nações. Agora entramos em uma fase em que a polarização na vida econômica – em termos de capital e trabalho – enfraqueceu, de tal maneira que o que está em jogo no movimento de mulheres é a possibilidade e a necessidade de pôr fim a tal sistema polarizado, no campo das relações de gênero. E assim, de uma forma um tanto hegeliana, eu diria que as mulheres são a categoria por meio da qual uma dimensão importante da antiga relação amo-escravo chegará a seu fim.

Assim, o papel das mulheres não seria tanto o de transformar ou substituir o feminino com o masculino mas de superar, quer dizer, recriar a unidade entre os pólos que se criaram como opostos. Exatamente a mesma coisa que fazemos com a dicotomia Oriente-Ocidente. Em certo sentido, é o problema de reincorporar coisas que se pensavam como contrárias. Para mim, o fundamental é a idéia de que essas oposições, essas contradições, essas polarizações podem ser superadas, não no nível universalista mas no nível individual, pois como indivíduo eu posso ser inteligente, sentir, eu posso ter uma noção das minhas heranças culturais e ao mesmo tempo participar da vida econômica. Cada um de nós está tentando reconstruir as duas partes do mundo na sua própria vida. O fato novo é que agora o instrumento para isso é o sexo – "sexo" no sentido de algo que não é social como a idéia do sujeito. Minha idéia é de uma aliança entre sujeito e sexo contra, digamos, o poder e a economia. E não acho que haja realmente uma sexualidade masculina e outra feminina. Mas é mais fácil, dada a história do mundo, para as mulheres – são elas que foram definidas em termos naturalizados e identificadas com categorias inferiores – descobrir que o sexo pode ser o aliado necessário da idéia do sujeito contra a organização social, que continua sendo desigual e polarizada.

Então, agora, a dificuldade é que as mulheres – como todos os povos subjugados – basicamente colaboram com sua inferiorização. As mulheres vivem em uma situação inferior e têm menos oportunidades de vida. Mas, ao mesmo tempo, têm a compensação de ser mães pois, como disse Lacan, os homens têm o falo, mas as mulheres são o falo... O que me interessa basicamente – por isso vou pesquisá-lo –é descobrir como as mulheres "inventam-se" como sujeito, saindo desse dualismo eterno e internalizado e redefinindo-se, reinventando-se, não especialmente como mulheres, mas como aquelas que criam o significado de si mesmas, seu próprio significado; isso se faz por meio da conexão entre subjetivação e sexualidade.

M. A.: Qual o sentido que dá a esse termo, "sexo"? No sentido de "sexualidade" ou em lugar do termo "gênero"?

A. T.: Eu sou ambivalente como todo mundo, digamos, como em geral são-no as feministas em relação ao conceito de gênero. O gênero foi criado pelas categorias dominantes, que definem a mulher como um ser que não tem poder. Nossa cultura criou um pólo de inferioridade e depois inventou a mulher como sua figura central. Se você usar esse conceito de gênero como protesto é muito positivo. "Eu sou mulher, minhas palavras não são minhas, são do amo". Mas, ao mesmo tempo, se quisermos entender movimentos de libertação e a ação autônoma das mulheres, precisamos ir além do gênero. É por isso que eu digo"sujeito", de um lado, e "sexo", de outro; quando se associa "sexo" a "sujeito", torna-se "sexualidade". Falando de sexualidade, você pode até certo ponto ir além dessa dependência fundamental que está inscrita no conceito de gênero. Por isso que Judith Butler questiona o conceito de gênero: porque as mulheres precisam ir além de gênero. E não é só isso: acho fascinante que tantas autoras rejeitem o dualismo homem-mulher, ou homossexual-heterossexual. Acho que fundamentalmente elas têm razão; é necessário ir além desses dualismos, que em si só são formas de hierarquização e inferiorização. Os sociólogos norte-americanos, já faz muito tempo, reconhecem a importância da transexu-alidade, porque destrói a hegemonia das relações heterossexuais. Mas na França, os transexuais são rejeitados. Tornam-se prostitutas porque todo mundo rejeita-os. Mas nos EUA são mais visíveis. Na cidade de San Francisco, por exemplo, o City Council [Conselho Municipal] dá dinheiro para assistência à saúde mental dos transexuais. Então penso que há uma certa reconstrução da sexualidade que resiste à hierarquia social. Na palavra e no conceito de libido, há algo que é biológico, que em grande medida não estaria determinado pela sociedade. Isto ajuda mais do que os muitos livros que falam sobre como as meninas são socializadas para serem mães, que podem ser úteis, mas tendem a repetir-se. Há um que é excelente: The Reproduction of Mothering, de Nancy Chodorow [1978], professora de Sociologia em Berkeley. Depois ela dedicou-se à Psicanálise e escreveu outros livros, incluindo um, The Power of Feelings [1999], que desenvolve uma abordagem bem mais complexa.

Quando uso o termo "sexualidade", refiro-me a uma forma de o sujeito construir-se: essa abordagem opõe-se ao conceito de gênero. Tenho interesse na diferença que se faz entre gays e lésbicas, porque todos os bons livros são lésbicos, não gays. Acho ainda mais interessante a bissexualidade, que eu diria que é o tipo de comportamento mais reprimido precisamente porque elimina os dualismos de gênero e decompõe as categorias. O lesbianismo é uma posição privilegiada para compreender a mulher. É preciso isolar "sexo" o mais que se puder das iniqüidades socialmente definidas e evitar a armadilha de dizer: "Agora as mulheres vão criar uma sociedade feminina, que substituirá a sociedade masculina". A questão mais importante é que as mulheres constróem um modelo universal; os estudos que existem são um tanto superficiais, mas há vários estudos italianos que são interessantes. Hoje, quando você pergunta para os homens – jovens, 20, 25, 30 anos – o que querem da vida, os homens estão perdidos. Eles podem ainda ter dinheiro, poder e uma certa atitude agressiva – por que não? Mas eles perderam o sentido da sua situação. Não só carecem de uma visão, de um modelo cultural; nem sabem "quem eles são". Exatamente o contrário das mulheres: quando você pergunta para elas, elas têm idéias muito claras. Eu lembro-me de uma pesquisa em que perguntavam: "Quando você pensa no seu futuro, você se enxerga morando basicamente em função da família, das crianças, ou em termos de profissão?". Essas jovens mulheres diziam: "O quê? Poderia repetir a pergunta? Não entendi", "Nunca imaginei ter que fazer opção". As mulheres, mesmo nesse nível – o mais básico – constróem alguma coisa e os homens não constróem nada. Isso demonstra que as mulheres, como todas as categorias dominadas, procuram o significado da dominação, em um sentido hegeliano: em uma relação amo-escravo, quem entende a relação é o escravo. Não é só isso, mas eu penso que as mulheres – eu já vou esclarecer como uso o termo – têm a capacidade de não se integrar à sociedade de consumo de massa, mas de criar uma nova value-orientation [orientação do valor], que é aquilo que eu chamo de "sujeito": é o trabalho de criar ou manter sua individualidade, sua singularidade. Quando falo em "mulher", eu falo de um ponto de visto teórico; não descrevo uma "natureza feminina".

Eu já comecei uma nova fase na minha vida intelectual, um novo conjunto de livros. Então, porque elaborei o conceito do sujeito, descobri que o sujeito era mulher – o que não quer dizer que as mulheres sejam melhores do que os homens! Eu ainda me interesso em compreender a mulher e estou preparando uma espécie de pesquisa experimental. Tentarei também compreender a presença constante dessa dualização, dessa "auto-inferiorização". Da mesma forma que já passei muito tempo estudando a consciência de classe entre os operários nas fábricas, tentarei descobrir, no processo de "autocriação" das mulheres, um processo que serviria para todo mundo e que não acharia por meio dos homens. Para mim – não quero generalizar –, não há women's studies. Interesso-me pelo conceito de sujeito, e a expressão do sujeito encontramos nas mulheres, as mulheres como mulheres. Mas, para mim, falar de mulheres é [fazer] uma teoria geral ou carecerá de sentido. Para mim, uma Sociologia das mulheres é uma Sociologia geral.

M. A.: Nesse sentido, o que o sr. está dizendo parece-se com o que muitas teóricas feministas falam: que não querem ficar somente no gueto dos women's studies ou dos estudos de gênero, por que só os especialistas no tema interessam-se; queremos estar no "centro".

A. T.: Com certeza. Eu compartilho essa noção. Mas, nesse sentido, podem fazer a mesma argumentação contra mim que fazem contra essas estudiosas, que sou um filósofo mas não me interesso pelas mulheres. Bom, é verdade. Mas os matemáticos não se interessam muito pelas pontes. Eles importam-se com a teoria da matemática. O pós-feminismo está falando sobre os problemas mais abstratos e gerais: como alcançar mais igualdade entre homens e mulheres. De fato, eu participei ativamente do debate sobre a eqüidade; evidentemente, interesso-me por tais questões. Mas tenho clareza neste outro sentido: ou os women's studies são uma teoria geral ou são de interesse limitado. Você pode estudar marceneiros, pessoas idosas, é perfeitamente respeitável, mas concentrar-se em categorias específicas é muito limitado. Com as mulheres, a grande vantagem é que não se trata de uma minoria. Assim, quando se fala das mulheres, está-se falando de todo mundo.

M. A.: Quer dizer, quando falamos das mulheres, estamos falando dos homens?

A. T.: Sim, mas cada vez mais espero que estejamos falando de indivíduos que são homens e mulheres, gays, lésbicas, bissexuais e assim por diante. É por isso que gostaria de dar mais unidade aos conceitos de "sexo" e "sexualidade". "Sexo" deve ser uma forma de ir além de gênero; para mim, a questão do sexo é mais profunda, porque o "gênero" nunca vai escapar de ser uma construção das relações de poder. Você não consegue separar gênero e dominação. Eu entendo que algumas lésbicas digam: "Eu não sou mulher". Monique Wittig visitou uma faculdade na Nova Inglaterra, deu uma conferência e no final alguém, uma mulher, perguntou: "Sra. Wittig, você tem vagina?". Ela respondeu: "É óbvio que não. Sou lésbica. Não sou mulher!". Quase uma piada. Mas não era um absurdo. Não era. Eu gosto muito disso. Por isso a questão do transexualismo torna-se tão interessante. Eu observo que as mulheres são muito mais interessantes, muito mais interessantes que os homens. Eu interesso-me pelos women's studies desde que comecei a pensar no problema da igualdade e da diferença. Eu lembro que um excelente antropólogo francês, Louis Dumont, escreveu que não há diferença sem desigualdade. E lembro que uma vez, uns anos atrás em uma reunião organizada por Richard Sennett no Norte da Itália, eu apresentei um artigo e meu comentador era o antropólogo de maior renome dos EUA, Clifford Geertz; ele disse-me: "Você está tentando achar a quadratura do círculo... É contraditório: não existe igualdade com diferença... mas sei que você pode escrever um livro sobre isso". Então, foi o primeiro passo: igualdade e diferença. Hoje em dia, minhas idéias estão muito claras, mas o que preciso é testá-las. Ou, para dizê-lo de uma forma um tanto diferente: é porque eu continuo com interesse nos movimentos sociais que me dedico ao estudo do pós-feminismo. Um movimento social sempre serve a algum objetivo, um ideal sobre direitos, da justiça, da liberdade, da cidadania... alguma coisa transcendente, o movimento operário, a justiça social, uma sociedade livre. Mas o movimento de mulheres tem muito pouco a ver com esse tipo de objetivo. É o problema que já enunciei: o movimento de mulheres trata da autocriação das mulheres como sujeitos. É um movimento que não tem metas externas. É um movimento de libertação "puro". Mesmo em um nível muito mais simples, por exemplo nas revistas femininas, encontramos essa idéia central da "autocriação".

M. A.: Do tipo das revistas de "auto-ajuda"?

A. T.: Sim. E agora uma aluna minha escreveu um curto ensaio mostrando que esse vocabulário está permeando também as revistas masculinas; essa coisa que é aparentemente "de macho", mas agora demostra uma certa fragilidade masculina. Por trás desse fenômeno, mesmo nesse nível mais simples, há um movimento forte que compreende que se trata de você avaliar-se como sujeito. Exatamente isso é fundamental e transforma completamente a Sociologia, pois a Sociologia tem geralmente se preocupado com a construção de nexos entre sistema e atores. Algumas pessoas já me disseram que isto é muito perigoso porque as mulheres tendem a contemplar-se de maneira passiva. Mas é exatamente ao contrário!

M. A.: Acha suas idéias parecidas com as de Anthony Giddens, da forma que as idéias dele evoluíram? Há uma socióloga feminista norte-americana, Roslyn Bologh, que fez uma resenha do livro A transformação da intimidade, em que ela disse que, para Giddens, as mulheres são as "emotional revolutionaries" da modernidade...

A. T.: Eu diria que, em um certo sentido, sim. Não é tão fácil entender o que esses intelectuais querem dizer com o termo reflexividade; não tem o mesmo sentido em Beck e em Giddens. Mas basicamente eu acho que se trata do que eu antes chamava de "historicidade" e hoje chamo "sujeito". Significa que você conscientiza-se do fato que você age sobre uma situação que você também criou... Por exemplo, em muitas atividades tecnológicas: a meteorologia não lida com "o clima", mas com o que temos feito com o clima, nossa ação sobre o clima. Então, essas idéias sobre reflexividade – que agimos sobre a nossa própria ação – e o meu conceito, acho que pertencem ao mesmo universo. Aparentemente, eu pertenço ao mesmo universo de Habermas. Conheço-o muito melhor. Mas, avaliando, não é bem assim. Habermas ainda acredita no Iluminismo, na universalidade, Kant etc. Então, você tem razão ao achar que, no interesse de Giddens pela intimidade, há algo que pertence à mesma orientação que eu expresso.

M. A.: Inicialmente, quando comecei a estudar sua obra e a de Giddens, parecia-me que só davam relevância às mulheres identificando-as com a subjetividade e a intimidade. Mas quando reconsiderei, percebi que tinha um outro aspecto: o reconhecimento de quão fundamentais são essas experiências femininas.

A. T.: O objetivo é ir além de mas sem eliminar a intimidade, o sentimento etc. Isso significa tentar reunificá-las com atitudes objetivas e análise intelectual. Quando as mulheres juntam-se, falam da situação do mundo, ao mesmo tempo em que dão ênfase ao significado simbólico dos gestos, de muitos aspectos da linguagem corporal. Isso é muito importante, especialmente considerando que fui educado em um meio muito masculino... porque, na minha geração, separavam-se as meninas dos meninos. Na idade em que as pessoas entravam na universidade, eu entrei em um colégio especial que preparava para a grande école, que ainda era exclusivamente masculina. Eu senti a distância muito grande entre homens e mulheres, de tal maneira que, quando falo da tendência a referir-se a uma sexualidade que não está definida como masculina ou feminina, falo de algo que vai totalmente de encontro à minha própria experiência no passado. Hoje estou tentando decifrar o que significa ser masculino e feminino e ir além dessas categorias. Acho que essas foram, de fato, as categorias mais fortes que agiram na minha própria educação – o que era comportamento masculino e comportamento feminino – e é por isso que é importante para mim participar de um projeto de pesquisa com uma pequena equipe de pesquisadoras. Serão todas pesquisadoras mulheres preparadas para trabalhar com um grupo maior de mulheres. Terei que passar para elas tudo o que lhe contei aqui – e como eu, como homem e com toda a minha história como homem, sendo ao mesmo tempo o chefe da pesquisa, como é que vou fazer isso? Como poderei participar como um pesquisador a mais? Como conseguirei que seja uma pesquisa bem-sucedida?

M. A.: A pesquisa não trata do movimento das mulheres, mas da subjetividade feminina.

A. T.: Sim. Eu tenho minhas reticências porque, vinte anos atrás, quando escrevi uma série de livros sobre os movimentos sociais, fizemos pesquisa sobre feminismo. Isso foi no final da década de 1970, assim as mulheres de maio de 1968 já tinham 40, 42 anos e elas faziam um balanço das suas vidas, ter ou não um filho... Ao mesmo tempo, estavam muito ressentidas porque os homens nunca as aceitaram. Eram muito agressivas... As mulheres pesquisadoras, elas também eram bem feministas, mas para elas foi um choque. Foi realmente um desastre! Então eu disse-lhes: "Vamos fazer um segundo estudo, com mulheres 'comuns': professoras de escola, vendedoras etc.". Nunca se publicou, mas foi muito interessante. Essas mulheres estavam discutindo os problemas em um nível muito alto, mulheres sem nenhum tipo de formação especial. Isso me lembra do caso de camponeses analfabetos na Índia, que analisam sua própria situação em um nível muito alto. Também na América Latina fizemos estudos com mulheres que eram muito pobres mas nunca tivemos dificuldade para escutar delas uma fala muito elaborada. As mulheres que estudamos no Sul, eu diria que tinham uma visão muito realista de suas vidas. No Chile, a definição mais positiva de um homem que encontramos foi: "Ele não me dá uma vida penosa". Isso significava duas coisas: "ele não me machuca" e "ele não traz outra mulher para casa". Assim, o nível das expectativas é muito baixo. Porque a vida é assim. Essas mulheres estão basicamente sozinhas. Elas fazem as decisões; trate-se de obter água ou apoio da polícia ou de hospitais, elas são as responsáveis; os homens sumiram. Não mudou muito nos últimos 20 anos. Claro, na França é diferente. Nesses países, as mulheres têm um forte sentido de responsabilidade, mas são ainda muito afetadas pelos modos tradicionais. Mas o problema de compreender-se, de expressar-se, nunca encontrei! Na Polônia, nos tempos do Solidariedade, não só os operários e os técnicos, mas muitas pessoas com pouquíssima educação formal tinham uma forma maravilhosa de expressar-se. Bom, penso que para as mulheres é mais difícil, pois há uma espécie de duplicidade. Quando você está na presença de um homem, você pode ser muito agressiva ou, pelo contrário, submissa. Você pode também desenvolver um tipo de meio feminino que exclui os homens e dessa forma evitar a tarefa da autocriação. Seria bom evitar que as mulheres adotem ou conservem um comportamento feminino tradicional ou que ajam como homens de "segunda classe". Trata-se de progredir, demonstrando idéias. Não de descrever, mas criar uma situação em que os novos comportamentos emerjam.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHODOROW, N. 1978. The Reproduction of Mothering : Psychoanalysis and the Sociology of Gender. Berkeley, Calif. : University of California.

_____. 1999. The Power of Feelings : Personal Meaning in Psychoanalysis, Gender and Culture. New Haven : Yale University.

 

 

Recebido em 15 de junho de 2004.
Aprovado em 1 de julho de 2004.

 

 

Miriam Adelman (miriamad@brturbo.com) é Mestre em Sociologia (M.Phil.) pela New York University (NYU), Doutora em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
1 Entrevista realizada originalmente em inglês; tradução de Miriam Adelman e Miriam Pillar Grossi.

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