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Revista de Sociologia e Política

Print version ISSN 0104-4478On-line version ISSN 1678-9873

Rev. Sociol. Polit.  no.23 Curitiba Nov. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-44782004000200017 

RESENHAS

 

Comunidade, utopia e realidade: uma reflexão a partir do pensamento de Zygmunt Bauman

 

 

Daniel Soczek

 

 

BAUMAN, Zygmunt. 2003. Comunidade : a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro : J. Zahar.

A discussão de algum tema ou conceito em trabalhos eminentemente teóricos nas Ciências Sociais circunscreve-se a duas ordens de dificuldades. A primeira, relativa à revisão da discussão clássica a respeito do tema a ser debatido, necessita da retomada do pensamento dos autores clássicos, bem como de seus comentadores que discutiram, aprofundaram e propuseram desdobramentos diversos. Todos sabemos: uma boa revisão teórica exige um esforço considerável. A segunda ordem de dificuldades é realizar uma interlocução entre os clássicos e seus comentadores com os autores contemporâneos, de modo a explorar suas idéias, ponderar seus avanços e demonstrar seus limites, testando e avaliando a capacidade explicativa do argumento em termos práticos, o que exige uma apurada leitura crítica. Esses dois momentos, por si sós, constituem um importante progresso no debate teórico e como princípio para uma intervenção na prática social. Passar deles para um terceiro, sugerindo ou propondo novas formas de pensar um determinado recorte da realidade, é algo que poucos conseguem realizar e esse é o grande mérito de Bauman em sua mais recente obra traduzida no Brasil, intitulada Comunidade: a busca por segurança no mundo atual.

Raros pensadores conseguem dialogar com profundidade, coerência e simplicidade estilística com autores tão díspares como Kant, Heidegger, Tönnies, Rorty, Habermas, Beck e Hobsbawm – só para citar alguns nomes. Sem perder em profundidade e consistência lógica seu horizonte analítico, em pouco mais de cem páginas o autor traça, sob o pano de fundo teórico da tensão entre modernidade e pós-modernidade, uma importante reflexão sobre o senso de convivência em comunidade na alvorada do século XXI.

O objetivo de sua discussão, expresso no título de sua obra, é oferecer luzes sobre as dinâmicas de convivências humanas em tempos de globalização, de modo inteligente, persuasivo e criativo. Já em suas primeiras linhas somos convidados a refletir a respeito do principal conceito de sua obra – a idéia de comunidade – não apenas e restritivamente em termos semânticos, mas também a partir da ideologia que o envolve, ou seja, a partir da pré-concepção acrítica desse conceito, que nos remete sempre à idéia de uma "coisa boa". Essa definição positiva a priori, sempre reafirmada e raras vezes questionada, é também expressa, na definição de Rosenberg citado no texto, como "círculo aconchegante", talvez por nos remeter, segundo a definição de Redfield, a um agrupamento "distinto, pequeno e auto-suficiente". Em uma concepção mais elaborada teoricamente, a concepção de comunidade segundo Tönnies e Heidegger relaciona-se à idéia de entendimento, não à de consenso, como bem frisado pelo autor.

Entretanto, de onde viria essa percepção a priori positiva e positivada do conceito de comunidade? Seja na mitologia grega, seja na bíblica, a idéia de paraíso está ligada à idéia de inocência, de pertencimento a um grupo sem interesses individualistas. A perda desse paraíso está guardada em nossa memória; temos uma memória da felicidade que tínhamos e que não é mais passível de aceder e que se transformou em utopia. Existe em nós, se assim podemos dizer, portanto, um saudosismo atávico que reproduz e reinventa, no conceito de comunidade, a idéia do paraíso perdido, em que o senso de pertencimento fazia-nos sentir-nos "dentro do ninho", confortáveis e seguros. Por outro lado, comenta o autor, existe uma tensão entre essa utópica e almejada segurança com a idéia de liberdade, ainda que o último conceito não seja devidamente explorado pelo autor, permanecendo uma concepção de liberdade excessivamente imprecisa. Na medida em que a vivência em comunidade significa a perda da liberdade, esse processo acaba gerando uns dos dilemas mais significativos para compreensão das dinâmicas sociais da contemporaneidade. Paradoxalmente, almejamos e resistimos à segurança coletiva, em prol da liberdade individual.

Entender as origens dessa tensão no contexto pós-moderno na tentativa de sugerir alternativa(s) a esse processo é o fio condutor dessa interessante obra. Em seus livros anteriores, Bauman tinha como preocupação entender e diagnosticar o século XX, em especial os últimos 50 ou 60 anos, ou seja, uma condição de vida pós-moderna destituída ainda, segundo ele, de uma visão de mundo pós-moderna. Em função de problemas de distinção desses dois termos, suas reflexões neste livro utilizam o conceito mais restrito de "modernidade líquida" – idéia que Bauman utiliza para expressar sua concepção de modernidade, que, para ele, adquiriu uma perspectiva "transbordante", "esvaída", em oposição ao conceito de "sólido" enquanto duradouro, dada a fluidez do mundo contemporâneo1. O avanço das discussões de Bauman neste livro – isso é importante frisar – está no fato de o autor localizar na Revolução Industrial e na formação do Estado-nação o processo de desconstrução da idéia de comunidade, estabelecendo com esses processos sociais, resultados e ápices do projeto da modernidade uma relação causal com os dilemas com que nos confrontamos hoje.

Tomando de empréstimo as reflexões de Weber e Marx, Bauman vê como esses autores pensaram a separação e a conseqüente tensão entre os produtores e as fontes de sobrevivência, os negócios e o lar, que resultaram por um lado na busca livre pelo lucro, mas também, por outro, o rompimento dos laços morais e emocionais. Como conseqüência, temos, segundo o autor, duas tendências que acompanharam o capitalismo moderno: por um lado, "o esforço de substituir o entendimento natural pelo ritmo regulado da natureza, tradição personificada nas rotinas artificialmente projetadas e coercitivamente impostas e monitoradas" (p. 36). Por outro, a tendência de criar do nada um sentido de comunidade dentro do quadro de uma nova estrutura de poder, ou seja, a busca pela naturalização dos padrões de conduta impostos pelo processo de racionalização, "abstratamente projetados e ostensivamente artificiais" (p. 39). Temos, assim a exigência de um controle forte, porém difícil de realizar, cuja figuras emblemáticas, com relativo sucesso, são Ford e Taylor. Face às insuficiências das tentativas de manipulação e adequação dos trabalhadores às tendências mencionadas acima, oriundas do início do século XX, temos a emergência da idéia de desregulamentação sob uma dupla possibilidade. Normalmente analisada como uma relação única entre mercado e Estado, Bauman lança um novo olhar sobre o tema, vendo nele uma dupla mão: ele é também um processo entre mercado e trabalhadores. Como os custos da regulação dos trabalhadores é alto (necessidade de instrumentos de controle e capatazes), o sentimento de incerteza torna-se o mecanismo mais simples de dominação da classe trabalhadora. A incerteza quanto ao futuro do emprego, sua precariedade, faz com que a empregabilidade não seja assegurada nem pelo cargo que se exerce nem pela qualificação do trabalhador, nem por qualquer outro motivo. Em uma sociedade de risco, o medo vem "de dentro" das pessoas e não é mais necessário um panóptico externo.

As conseqüências desses refinamentos históricos das formas de exploração, perpetuação e aprofundamento da divisão da sociedade em classes econômicas tem como resultado a formação de guetos, expressão extrema da negação do conceito de comunidade. Como afirma Bauman, se a idéia de comunidade foi destruída, a de comunitarismo como "pertencer a" continua uma demanda em nossa sociedade. Essa demanda estaria orientada, segundo o autor, nas duas formas de autoridades possíveis no mundo contemporâneo: a autoridade dos especialistas – geralmente a classe que tem acesso aos bens culturais – e a autoridade numérica – em que o conceito de identidade como categoria "mental", por oposição a uma categorização econômica que já não dá mais conta de explicar a realidade, procura estabelecer marcos explicativos que dêem conta da multiplicidade dos entes sociais.

Essas grandes massas, indica o autor a partir de Hobsbawm, resultantes da desarticulação de sua organização em termos de comunidade, inventaram historicamente como substitutivo o conceito de "identidade", em que o pressuposto de ser diferente acaba gerando um processo de distanciamento, separação e divisão cada vez maior entre as pessoas. Argumenta Bauman que a dificuldade de trabalhar com essa categoria (identidade) está no fato de que não podemos, em um processo político, supor a superioridade ou a inferioridade de uns sobre outros. Mas também, tomando de empréstimo as reflexões de Taylor, devemos levar em consideração que o reconhecimento como igual é inaceitável – uma crítica direta à postura multiculturalista. Ainda que essa crítica proceda em termos de argumentação lógica, cremos que o universo identidário que é o ponto de partida para a organização de inúmeras organizações não-governamentais tem sido relevante para constituição de comunidades, ainda que com inúmeras limitações, nos moldes sugeridos por Bauman.

Com relação ao primeiro grupo, ao contrário de e em paralelo às grandes massas, temos os poucos bem-sucedidos que não se importam com a idéia de comunidade – preferem o isolamento. Partindo do pressuposto da escolha racional, o autor afirma que o cálculo individual desses afortunados tem como resultado o entendimento de que não ganhariam nada permanecendo na comunidade. A auto-independência econômica contrapõem-se ao espírito de comunidade gerando o novo cosmopolitismo dos bemsucedidos, cuja carência da existência em comunidade é suprimida por uma concepção estética da sociedade em termos kantianos.

O guetos constituem-se na materialização desse processo, e não obstante suas múltiplas formas e possibilidades, podem ser ordenados segundo duas macrodistinções: os guetos "voluntários" e os "verdadeiros". Em linhas gerais, lembrando Wacquant, os guetos caracterizam-se pelo confinamento espacial, combinado com a idéia de fechamento social, ou seja, a construção de uma homogeneidade dos "de dentro" e de uma heterogeneidade dos "de fora". A diferença entre ambos está no fato de que, enquanto nos guetos voluntários as pessoas "querem ficar" (condomínios fechados), nos guetos verdadeiros as pessoas "não podem sair" (favelas). O isolamento, em ambos os casos, perpetua e exacerba-se a cada momento. A vida no gueto não sedimenta a comunidade porque no primeiro caso amplia a individualização e no segundo, a partilha do estigma da humilhação –"ficar ao lado de outros sofredores" – só faz aumentar o ódio e vontade de não estar ali.

Se esse diagnóstico da realidade é convincente e seus efeitos perversos são perceptíveis em nosso cotidiano, restam duas questões a serem respondidas: se podemos (em termos teóricos e práticos) e se devemos (em termos ético-morais) reconstruir a idéia de comunidade hoje, residindo aqui, talvez, a principal dificuldade teórica do autor neste texto, ou seja, a implementação prática do mesmo. Durante todo o livro, a disjuntiva entre liberdade e segurança (estar ou não em comunidade, com todos os bônus e ônus que isso acarreta) é apresentada taxativamente como uma impossibilidade de conciliação, de volta ao paraíso perdido. Entretanto, em seu último capítulo, quando critica o conceito de multiculturalismo e, mais precisamente, em seu posfácio, o seu discurso aponta para o dever de buscarmos essa conciliação, a partir de um discurso genérico fundado sobre conceitos como "responsabilidade" e "direitos humanos", sem argumentar como isso se realizaria. Entre as políticas de identidade (Taylor) e o Estado constitucional de Direito (Habermas), entre a segurança e a liberdade, existe a tensão, a dificuldade e a necessidade de pensarmos nossa ação orientada para a responsabilidade em relação aos direitos humanos de modo universal e também a ação em comunidade na defesa desses direitos. O problema levantado pelo autor e deixado em nossas mãos é pensar a possibilidade teórico-prática de efetivar essa proposta frente à realidade, a que não estamos determinados, mas condicionados – ou seja, a viabilidade da utopia.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

BAUMAN, Z. 2003. A sociedade líquida de Zygmunt Bauman. Folha de S. Paulo, 19.out., Caderno "Mais!", p. 5.

 

 

Recebida em 26 de outubro de 2003.
Aprovada em 20 de dezembro de 2003.

 

 

Daniel Soczek (soczpk@terra.com.br; danielsoczek@bol.com.br) é Doutorando em Sociologia Política na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Professor de Sociologia do Centro Universitário Campos de Andrade (Uniandrade).
1 A respeito dessa discussão entre uma condição de vida pós-moderna e uma visão de mundo pós-moderna, conferir Bauman (2003, p. 5).

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