Anais Brasileiros de Dermatologia
On-line version ISSN 1806-4841
An. Bras. Dermatol. vol.78 no.3 Rio de Janeiro May/June 2003
http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962003000300008
CASO CLÍNICO
Kerion Celsi por Microsporum gypseum*
Celsus Kerion caused by Microsporum gypseum*
Coaraci Melo-MonteiroI; Carlos José MartinsI; Cristina de Sousa MonteiroII; Maria Bandeira de Melo PaivaII; Renato de Oliveira FagundesII
IProfessor Adjunto
IIPós-graduando em Dermatologia
RESUMO
Os autores apresentam um caso de Kerion Celsi por Microsporum gypseum em criança do sexo masculino,de 3 anos de idade, natural e procedente do Rio de Janeiro. Revisa-se a literatura, demonstrando a importância do caso.
Palavras-chave: arthrodermataceae; criança; microsporum.
SUMMARY
The authors report a case of Kerion Celsi caused by Microsporum gypseum in a 3-year-old boy. The literature was reviewed and demonstrated the significance of the case.
Keywords: arthrodermataceae; child; Microsporum.
INTRODUÇÃO
O kerion Celsi é uma forma clínica de tinha do couro cabeludo que geralmente acomete as crianças. Apresenta-se clinicamente como placa edematosa, bem delimitada, dolorosa, com pústulas e abscessos que drenam pus. Esse quadro traduz uma resposta inflamatória aguda, intensa, do hospedeiro, formada principalmente contra os antígenos do dermatófito envolvido e não a uma infecção bacteriana secundária.1
No Brasil, os agentes etiológicos de kerion Celsi são o Trichophyton verrucosum, o Trichophyton mentagrophytes, o Microsporum canis e o Microsporum gypseum,2,3 que esporadicamente causa infecção humana.4
O Microsporum gypseum é um dermatófito geofílico, isolado pela primeira vez do solo, por Sabouraud, em 1894. Bodin, em 1907, realizou um estudo completo desse fungo com a descrição macroscópica e microscópica de culturas.5
RELATO DO CASO
FVS, do sexo masculino, pardo, três anos de idade, natural e procedente do Rio de Janeiro, apresentando há um mês, segundo o acompanhante, placa elevada, edematosa, de limites precisos, dolorosa, recoberta por crostas hemáticas na periferia, supurativa e localizada no couro cabeludo (Figura 1). A lesão era pruriginosa.

Material crostoso e purulento foi obtido por raspagem da lesão com bisturi objetivando a realização de exame micológico. O exame direto com potassa (KOH) a 20% evidenciou hifas septadas e artrósporos em parasitismo do tipo ectotrix. O material, semeado em meio de Sabouraud com cloranfenicol e actidiona (Mycosel) à temperatura ambiente, permitiu o isolamento de fungo identificado macro e microscopicamente como Microsporum gypseum (Figura 2).

O paciente foi tratado com griseofulvina oral, 250mg por dia, com regressão completa do quadro cutâneo em dois meses e sem apresentar seqüelas.
DISCUSSÃO
O Microsporum gypseum é fungo que também pode ser encontrado em animais como gatos e roedores.6 Dos dermatófitos geofílicos que infectam o homem, o Microsporum gypseum é o mais freqüente, mas, apesar da facilidade com que o mesmo é isolado do solo, as dermatofitoses causadas por ele são casuais, o que sugere certa resistência natural à infecção ou ao pequeno poder patógeno do fungo.5,7,8,9
O paciente em questão morava com os familiares numa residência, em que conviviam com animais como cachorro e gato. Segundo a mãe, a criança tinha contatos freqüentes com o solo do quintal de sua casa.
Setenta e um casos de dermatofitoses por Microsporum gypseum foram diagnosticados no interior do Rio Grande do Sul no período de 1960 a 1990, sendo 10 casos de kerion do couro cabeludo.8
O tratamento de escolha para o kerion Celsi é a administração de griseofulvina, por via oral, na dose de 20-25mg/kg/dia, durante período variável de seis a oito semanas.10
A apresentação desse relato visa chamar a atenção para a baixa incidência de infecção por Microsporum gypseum na cidade do Rio de Janeiro.9 
REFERÊNCIAS
1. Midgley G, Clayton Y M, Hay R J. Micologia Médica. 1ª ed. São Paulo: Manole, 1998: 38. [ Links ]
2. Lacaz C S, Porto E, Martins J E C. Micologia Médica. 7ª ed. São Paulo: Sarvier,1984: 163. [ Links ]
3. Cucé L C, Fiesta Neto C. Manual de Dermatologia. 2ª ed. São Paulo: Ateneu, 2001: 182. [ Links ]
4. Severo L C, Conci L M A, Amaral A A. Microsporum gypseum - relato de surto de infecção e isolamento do solo. An Bras Dermatol 1989; 64(2): 119-120. [ Links ]
5. Gonçalves A P. Considerações sobre as micoses causadas por Microsporum gypseum. An Bras Dermatol Sif 1953; 1(28):15-26. [ Links ]
6. Offidani A, Simoncini C, Arzem D, Cellini A, Amerio P, Scalise G. Tinea capitis due to Microsporum gypseum in an adult. Mycoses 1998; 41:239-241. [ Links ]
7. Gonçalves A P. Presença do Microsporum gypseum no solo como saprofita. O Hospital 1961;60(4):413-423. [ Links ]
8. Lopes J O, Alves S H, Benevenga J P. Dermatofitose por Microsporum gypseum no interior do Rio Grande do Sul: estudo clínico. An Bras Dermatol 1992; 67(2):71-72. [ Links ]
9. Fernandes N C, Lamy F, Akiti T, Barreiros M G C. Microsporum gypseum infection in Aids patient: a case report. An Bras Dermatol 1998; 73(1):39-41. [ Links ]
10. Elewski B E. Tinea capitis: A current perspective. J Am Acad Dermatol 2000; 42:1-20. [ Links ]
Endereço para correspondência
Coaraci Melo-Monteiro
Rua Conde de Bonfim, 159/308 Tijuca
Rio de Janeiro RJ 20520-050
Tel: (21) 2234-3427
E-mail: coaraci@internet.com.br
Recebido em 26.07.2001.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 14.08.2002.
* Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle - Escola de Medicina e Cirurgia - Universidade do Rio de Janeiro (UNI-RIO).











Curriculum ScienTI