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Cerâmica

Print version ISSN 0366-6913On-line version ISSN 1678-4553

Cerâmica vol.47 no.302 São Paulo Apr./May/June 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0366-69132001000200003 

Mapeamento de argilas do Estado da Paraíba

 

(Map of clays of Paraíba State)

 

R. R. Menezes, G. A. Neves, H. C. Ferreira
Departamento de Engenharia de Materiais
Centro de Ciências e Tecnologia, Universidade Federal da Paraíba
Av. Aprígio Veloso, 882, Bodocongó, Campina Grande, PB, 58109-970
rrmboca@zaz.com.br, gelmires@dema.ufpb.br, heber@dema.ufpb.br

 

 

Resumo

O Brasil é um grande produtor de materiais cerâmicos possuindo um grande número de jazidas de argilas. Essas argilas são de grande importância na fabricação de grés sanitários, porcelanas, cerâmicas de revestimento bem como tijolos e telhas. Na Paraíba e regiões circunvizinhas é observada uma acentuada atividade industrial nessas áreas. Os pesquisadores da região têm dedicado grande esforço na caracterização bem como na avaliação da possibilidade de uso destas argilas. Esses estudos possibilitaram um mapeamento das jazidas do estado já estudadas e analisadas. Assim, este trabalho tem por objetivo complementar o trabalho de mapeamento das jazidas de argilas já estudadas no Estado da Paraíba, visando seu uso em cerâmica vermelha, branca e/ou refratária. Pelo mapeamento conclui-se que os estudos ainda são insuficientes para abrangência de todo Estado, concentrando-se nas regiões de maior densidade demográfica, sendo que várias bacias hidrográficas ainda não tiveram estudos representativos.

Palavras-chave: Argila, cerâmica, mapeamento, jazidas, Paraíba.

 

Abstract

Brazil is a large potential producer of ceramic materials because of the large number of clay deposits. These clays are very important to the production of porcelains, sanitaryware, bricks roof tiles and floor and wall tiles. The State of Paraíba, Brazil, has several areas where an intense activity in ceramic industry can be observed. The researchers have dedicated a great effort for characterizing and evaluating the potential uses of these clays. These works allowed for a mapping of the deposits of the already studied clays. The aim of this work is to complement the mapping of these clay deposits already studied in the State of Paraiba that can be used in the ceramic industry. The performed work is not sufficient for evaluating the whole State and the majority of the work is concentrated in the more dense areas of the State; some basins were not studied properly.

Keywords: clay, ceramic, map, clay deposits, Paraíba.

 

 

INTRODUÇÃO

O Brasil é um grande produtor de matérias primas cerâmicas, em virtude do grande número de jazidas de argilas que possui, nas diversas áreas da indústria cerâmica. Todavia a grande maioria destas reservas natural é desconhecida ou permanece indevidamente estudada, não havendo assim dados técnico-científicos que orientem sua utilização e aplicação industrial, bem como sua utilização de maneira mais racional e otimizada por parte do setor industrial.

O estado da Paraíba não foge a esta regra geral disseminada pelo país, mesmo com todo o esforço dos pesquisadores da região na caracterização mineralógica e tecnológica, que resultem na possibilidade de uso dessas jazidas argiláceos existentes no estado. Um dos pioneiros no estudo dessas argilas foi Ferreira [1] que realizou pesquisas no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, IPT, com argilas tanto da Paraíba como do Rio Grande do Norte, sendo seguido por outros pesquisadores que tiveram por objetivo fornecer informações técnico-científicas a respeito das reservas do estado.

O Departamento de Engenharia de Materiais da UFPB, através da área de cerâmica, vem buscando fazer estudos sistemáticos das matérias primas das indústrias cerâmicas do estado da Paraíba e regiões circunvizinhas, e das jazidas de argilas ainda não exploradas. Exemplo desses estudos são os trabalhos realizados na análise e caracterização de argilas das diversas regiões do Estado da Paraíba [2-5], os quais indicaram a grande potencialidade das matérias-primas paraibanas para utilização na indústria de cerâmica vermelha e branca.

O Estado da Paraíba encontra-se segmentado em quatro mesorregiões, de acordo com a regionalização atual do IBGE: o Sertão, a Boroborema, o Agreste e a Mata Paraibana, a qual corresponde ao Litoral. Essas mesorregiões foram caracterizadas com base na configuração espacial e no processo de povoamento do estado, que ocasionaram paisagens distintas e características especiais que as diferem. O estado também possui várias bacias hidrográficas, a do Paraíba, a do Mamanguape, a do Espinharas, etc., com características bastante distintas, sendo essas modeladas em rochas cristalinas, com exceção da do Peixe e das áreas da baixada litorânea [6]. Evidencia-se assim a complexidade geográfica do estado e a necessidade de levá-la em consideração quando da sistematização das pesquisas para que se possa ter uma estrutura para comparação mais adequada dos dados.

Recentemente foi feito um levantamento das pesquisas realizadas no estado visando prever usos cerâmicos e um mapeamento do Estado da Paraíba quanto às regiões geográficas e bacias hidrográficas, concluindo que os estudos estão concentrando-se em algumas regiões específicas do estado, principalmente o Litoral e o Agreste, que existem várias regiões sem estudos sistemáticos e que há uma grande concentração de jazidas potencialmente utilizáveis para cerâmica branca no Litoral paraibano [7]. No Litoral encontra-se a Formação Barreiras de origem sedimentar que além de possuir lentes argilosas de "ball clays", possui depósitos de caulim.

Assim, visando dar continuidade a este trabalho bem como completá-lo de forma a se ter informações mais concisas e precisas acerca das microrregiões em que as pesquisas estão se concentrando, em que regiões e bacias hidrográficas precisam ter os estudos intensificados e onde há jazidas em potencial para aplicação cerâmica, esse trabalho tem por objetivo fazer um mapeamento das jazidas de argilas já estudadas no estado da Paraíba, visando seu uso em tecnologia cerâmica. Com base em trabalhos de caracterização de argilas que usaram a sistemática de ensaios proposta por Souza Santos [8].

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Foram levantados todos os trabalhos [2-5, 7, 9-20] de caracterização mineralógica e tecnológica de argilas paraibanas que utilizaram sistemática de ensaios preliminares proposta por Souza Santos [8], os quais totalizaram 122 amostras analisadas. Com base em mapas políticos e geográficos do Estado da Paraíba e no Atlas do Estado da Paraíba [6] pode-se complementar o mapeamento das jazidas estudadas nas regiões geográficas do estado e seus respectivos usos tecnológicos em materiais cerâmicos convencionais.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Com base nos vários trabalhos [2-5, 7, 9-20] de caracterização de argilas do Estado da Paraíba, complementou-se o levantamento dos municípios que tiveram amostras de argilas estudadas. A Fig. 1 ilustra este levantamento, evidenciando os locais onde observou-se argilas indicadas como possivelmente adequadas à cerâmica vermelha, branca e refratária. Pode-se observar que 39 municípios paraibanos tiveram amostras analisadas através da sistemática proposta por Souza Santos [8] e que houve uma grande concentração de estudos no Litoral, em proporção a sua extensão territorial. Esta região deteve cerca de 26% das áreas estudadas, o que pode ser explicado pelo fato de ser uma região de elevada densidade demográfica, requerendo um maior número de olarias e, por conseguinte, de análises de amostras argilosas. A Fig. 1 ilustra ainda que o Agreste paraibano, juntamente com o Planalto da Borborema, apresentaram em termos absolutos a grande maioria dos municípios estudados, 61%. Possivelmente em virtude dessas mesorregiões serem conglomeradas pela Cidade de Campina Grande, centro de desenvolvimento na região, onde localiza-se o Campus II da UFPB, o que facilita o desenvolvimento de pesquisas e análises de amostras.

 

 

Já o Sertão, não possui uma quantidade representativa de áreas com argilas estudadas, possivelmente pela baixa concentração demográfica dessa região.

A Fig. 2 apresenta a porcentagem de amostras que foram indicadas para cerâmica vermelha, branca e/ou refratária, com relação às três regiões do estado descritas anteriormente. Pode-se observar que independentemente da região, a maioria das argilas tem possível aplicação na indústria de cerâmica vermelha, e que no Litoral há grande porcentagem de argilas com possível utilização em cerâmica branca.

 

 

A Tabela I apresenta as proporções de amostras que foram indicadas para cerâmica vermelha, branca e ou refratária com relação aos municípios estudados, bem como a indicação dos trabalhos que abordaram estudos das argilas dos respectivos municípios. É possível rastrear os trabalhos já realizados em determinadas áreas, a fim de dar prosseguimento às pesquisas, bem como confrontar dados e informações obtidos por outros autores.

 

 

Em virtude da possível influência das bacias hidrográficas nas características das argilas, fez-se o levantamento das argilas estudadas com relação às bacias hidrográficas do estado da Paraíba. A Fig. 3 apresenta o mapa das bacias hidrográficas do estado sobreposto ao seu mapa político. Pode-se observar que bacias importantes como as do Peixe, Piancó, e Alto Paraíba apresentam-se muito pouco estudadas e que bacias como as do Alto e Médio Piranhas e Espinharas, ainda não foram analisadas. Deve-se observar a existência de micropolos como Patos, Souza e Cajazeiras fazendo parte destas bacias.

 

 

Com base na Fig. 3 pode-se observar que as bacias do Taperoá e do Seridó apresentam significativo número de pesquisas, embora a grande concentração de estudos, em termos de área física absoluta, está localizada nas bacias do Mamanguape, Baixo e Médio Paraíba e Gramame/Mamuaba com 51,6% das amostras estudadas e 46,2% dos municípios abordados.

A Fig. 4 ilustra a proporção de argilas possivelmente adequadas à indústria de cerâmica vermelha, branca e/ou refratária com relação as mais estudadas bacias hidrográficas do estado. Pode-se observar que a bacia Gramame-Mamuaba e a região que engloba parte da bacia Mamanguape e Miriri possuem elevado potencial para a indústria de cerâmica branca, sendo as únicas que apresentaram porcentagem de amostras possivelmente indicadas para cerâmica branca maior que àquelas indicadas para cerâmica vermelha.

 

 

A bacia do Paraíba foi a única que apresentou amostras com potencial de uso em cerâmica refratária, diferindo das demais bacias que indicaram, com base nas amostras estudadas, índice zero. Ressaltando que vários dos estudos realizados não buscaram analisar a potencialidade de uso na indústria de refratários, não excluindo assim, a possibilidade de uso de algumas das demais amostras para os devidos fins.

De forma geral, a grande predominância em todas as bacias é de amostras indicadas como de possível uso em cerâmica vermelha, tal como mostra a média dos valores das bacias do estado.

 

CONCLUSÕES

Partindo-se dos trabalhos nos quais amostras de argilas do Estado da Paraíba foram submetidas a ensaios preliminares, perfazendo um total de 122 amostras, foi efetuado um mapeamento das jazidas de argilas já estudadas no Estado da Paraíba. Pela análise desses dados conclui-se que os estudos têm-se concentrado nas regiões geográficas de maior densidade demográfica, destacando-se a Litorânea, o Agreste e parte do Planalto da Borborema, enquanto o Sertão apresenta poucos trabalhos. As bacias hidrográficas mais estudadas são a do Paraíba e a do Manguape, ficando várias outras bacias sem estudos. É observada grande concentração de argilas como possível uso em cerâmica branca na faixa litorânea, enquanto no restante do estado a grande maioria das amostras estudadas apresentou características que indicam possível utilização na indústria de cerâmica vermelha.

 

REFERÊNCIAS

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(Rec. 22/08/2000, Ac. 06/04/2001)

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