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Revista Brasileira de Reumatologia

versão impressa ISSN 0482-5004

Rev. Bras. Reumatol. v.46 n.1 São Paulo jan./fev. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0482-50042006000100009 

ARTIGO DE REVISÃO REVIEW ARTICLE

 

A prevalência de fibromialgia: uma revisão de literatura

 

The prevalence of fibromyalgia: a literature review

 

 

Alane B. CavalcanteI; Juliana F. SauerI; Suellen D. ChalotI; Ana AssumpçãoII; Lais V. LageIII; Luciana Akemi MatsutaniIV; Amélia Pasqual MarquesV

Trabalho realizado pelo Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
IGraduandas do Curso de Fisioterapia da FMUSP
IIPós-Graduanda do Programa de pós-graduação da Fisiopatologia Experimental da FMUSP
IIIReumatologista do Departamento de Medicina Interna do Hospital das Clínicas da FMUSP
IVProfessora do Departamento de Fisioterapia da Fundação Instituto de Ensino para Osasco (FIEO)
VProfessora associada do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da FMUSP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO E OBJETIVO: este trabalho teve como objetivo realizar uma revisão da literatura sobre a prevalência da fibromialgia (FM) na população a partir dos critérios propostos pelo American College of Rheumatology (ACR).
MÉTODOS: foi realizado levantamento bibliográfico do período de 1990 a 2005 nas bases de dados MedLine, Lilacs, Embase e ISI. Foram utilizadas as palavras-chave "fibromialgia" e "prevalência" e as correspondentes em inglês, "fibromyalgia" e "prevalence". Foram selecionados 97 artigos e, após leitura dos resumos, foram excluídos os que se referiam à prevalência em doenças. Somente 30 abordavam o tema prevalência da fibromialgia na população. Os artigos selecionados foram agrupados em cinco categorias: a) prevalência da FM em populações adultas; b) prevalência da FM em mulheres; c) prevalência da FM em crianças e adolescentes; d) prevalência da FM em populações específicas; e) prevalência de dor crônica e difusa na população, segundo os critérios do ACR.
RESULTADOS: a literatura aponta a prevalência da FM na população com valores entre 0,66 e 4,4%, sendo mais prevalente em mulheres do que em homens, especialmente na faixa etária entre 35 e 60 anos. Os estudos com crianças e adolescentes e em grupos especiais são escassos e pouco conclusivos. A prevalência de dor crônica difusa na população em geral também tem poucos estudos, com valores entre 11 e 13%.
CONCLUSÃO: mais estudos sobre prevalência de dor crônica e difusa devem ser estimulados, assim como os de prevalência na população adulta, crianças e jovens.

Palavras-chave: fibromialgia, prevalência, população.


ABSTRACT

INTRODUCTION AND OBJECTIVE: The aim of this study was to review the literature concerning of the prevalence of fibromyalgia in general population using the criteria from the American College of Rheumatology (ACR).
METHODS: The literature envolved the period of 1990 to 2005, in the databases Medline, Lilacs, Embase and ISI. The keywords "fibromialgia" and "prevalência" and the correspondents in English "fibromyalgia" and "prevalence" had been used. It was selected 97 articles and after reading the summaries, the ones related to the fibromyalgia prevalence with oher diseases were excluded. Only 30 articles evoked the subject prevalence of the fibromyalgia in the population. The selected articles were grouped in five items: a) the prevalence of fibromyalgia in adult populations; b) prevalence of fibromyalgia in women; c) prevalence of fibromyalgia in children and adolescents; d) prevalence of fibromyalgia in specific populations; e) prevalence of chronic and diffuse pain in the population according to the ACR criteria.
RESULTS: Literature points that the prevalence of fibromyalgia in the general population has values between 0,66 and 4,4%, being more prevalent in women than in men, especially in individuals aged between 35 to 60 years. Studies involving children, adolescents or other special groups are few or inconclusive. The prevalence of chronic and diffuse pain in general population althoug rarily been studied points to values between 11 and 13%.
CONCLUSION:
More studies on prevalence of chronic and diffuse pain must be stimulated, as well as the ones concerning prevalence in the adult population, children and young.

Keywords: fibromyalgia, prevalence, population.


 

 

INTRODUÇÃO

Fibromialgia (FM) é uma síndrome reumática não-articular, de origem desconhecida, caracterizada por dor musculoesquelética difusa e crônica, e presença de múltiplas regiões dolorosas, denominadas tender points, especialmente no esqueleto axial(1). Dentre os sintomas freqüentemente associados à síndrome, podem estar presentes fadiga, distúrbios do sono, rigidez matinal, ansiedade e depressão(2).

Com relação ao diagnóstico, é baseado somente em critérios clínicos, devido à ausência de exames complementares que a identifiquem. Segundo o American College of Rheumatology (ACR), foram estabelecidos os seguintes critérios diagnósticos: dor difusa presente no esqueleto axial e em ambos os hemicorpos, acima e abaixo da cintura; dor em 11 ou mais dos 18 tender points e dor crônica por mais de três meses(3).

A FM afeta , aproximadamente,oito vezes mais mulheres do que homens, provocando impacto negativo sobre a qualidade de vida e atividades da vida diária dos seus portadores(1,4,5). Em alguns países da América do Norte e da Europa, é uma das entidades clínicas com maior índice de incapacidade(6). Reside neste aspecto a importância dos estudos de prevalência, com o intuito de conduzir os sistemas de saúde a um adequado plano de tratamento para esta população.

Esse trabalho teve como objetivo realizar uma revisão da literatura sobre a prevalência da FM na população a partir dos critérios propostos pelo ACR.

 

METODOLOGIA

Esse trabalho foi elaborado a partir de uma revisão da literatura nas bases de dados Medline, Lilacs, Embase e ISI, no período entre 1990 e 2005. As palavras-chave utilizadas foram "fibromialgia" e "prevalência" e suas correspondentes em inglês, "fibromyalgia" e "prevalence". Foram critérios de exclusão: artigos publicados antes de 1990 e os que se referiam à prevalência da FM em doenças.

Somando-se todas as bases de dados, foram encontrados 567 artigos. Após a leitura dos títulos dos artigos, notou-se que alguns deles se repetiram nas diferentes bases e outros não preenchiam os critérios deste estudo. Foram selecionados 97 artigos para a leitura do resumo e excluídos os que não diziam respeito ao propósito deste estudo, sendo a maior quantidade de exclusões referentes à prevalência de FM em determinada doença. Após a leitura dos resumos, foram selecionados 30 artigos que preenchiam os critérios inicialmente propostos e que foram lidos na íntegra (Tabela 1). Na seleção final, foram excluídos os artigos de revisão de literatura e também nove estudos de autorelatos de FM.

 

 

Nos resultados em que se faz referência à população estudada, tomou-se por base os indivíduos que participaram da avaliação inicial (1ª Seleção) e os que efetivamente foram avaliados, de acordo com os critérios de fibromialgia, entre eles a avaliação dos tender points (2ª Seleção), conforme visto nos Quadros 1, 2 e 3.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O objetivo deste estudo foi apresentar e discutir os achados da literatura referentes à prevalência de FM na população geral, através de estudos originais.

Neste contexto, os artigos foram lidos, selecionados criteriosamente e agrupados em cinco categorias: a) prevalência de FM na população geral; b) prevalência de FM no gênero feminino; c) prevalência de FM em crianças e adolescentes; d) prevalência de FM em populações especiais; e) prevalência de dor crônica e difusa, segundo os critérios do ACR.

PREVALÊNCIA DE FIBROMIALGIA NA POPULAÇÃO GERAL

Com o estabelecimento dos critérios diagnósticos da fibromialgia pelo ACR, em 1990(1), os estudos de prevalência desta síndrome tornaram-se mais freqüentes e passíveis de comparação entre si. De modo geral, o objetivo destes trabalhos tem sido estimar a parcela da população que, considerando estes critérios, apresenta FM e, portanto, quantificar indivíduos que possam ter a qualidade de vida comprometida.

Embora os critérios do ACR tenham proporcionado a classificação da síndrome, não há um consenso sobre qual a prevalência de FM na população. Alguns autores sugerem que tal diferença seja resultado das distintas estratégias utilizadas para detecção dos casos de pacientes com FM e dos diferentes critérios aplicados para tal diagnóstico.(7)

O primeiro estudo de prevalência de FM após a definição dos critérios pelo ACR - e o único que não seguiu a nova classificação - foi o de Makela e Heliovaara(8), em 1991. O estudo foi realizado com a população finlandesa, entre os anos de 1977 e 1980, e os dados foram coletados por uma clínica móvel de pesquisa em saúde da população, que selecionou 8 mil pessoas elegíveis. Destes, 7217 participaram da primeira avaliação e 3434 aceitaram participar do exame físico dos tender points. Como na época não havia consenso sobre quais pontos avaliar, seis regiões foram examinadas: músculo trapézio, ombro, cotovelo, punho, joelho e tendão do tríceps da perna, bilateralmente. O diagnóstico positivo para FM foi dado a partir da combinação de dois de seis itens de sintomas (obtidos dos questionários) com pelo menos quatro tender points ou três sintomas e dois tender points, sendo que, em ambos os casos, a dor deveria estar presente por ao menos três meses. Com esta metodologia, foram encontrados 54 sujeitos com FM, indicando uma prevalência de 1,57%. Naturalmente, esta prevalência é questionável pelos critérios diagnósticos utilizados. No entanto, os resultados não diferem muito de alguns trabalhos realizados posteriormente.

Na seqüência, Prescott et al (9) avaliaram a prevalência de FM na população adulta da Dinamarca. Os indivíduos eram provenientes de uma pesquisa nacional sobre saúde, com faixa etária entre 18 e 79 anos e residentes em Copenhagen, totalizando 1595 indivíduos. Destes, 1219 participaram da primeira entrevista, realizada por meio da aplicação de um questionário abordando questões a respeito dos locais de dor e sua duração. Os indivíduos com respostas correspondentes à dor crônica e difusa, segundo os critérios do ACR, foram convidados para o exame clínico - 123 pessoas, das quais 76 (62%) aceitaram a participação e somente 65 estiveram presentes. Os pesquisadores encontraram oito pacientes com FM, todos do gênero feminino, indicando uma prevalência de 0,66%.

Tanto os autores quanto a comunidade científica(10) julgaram esta prevalência subestimada, o que foi atribuído à dificuldade na classificação dos tender points positivos, já que esta depende da sensação de dor do paciente (subjetiva) e da interpretação desta sensação pelo avaliador.

No que diz respeito à metodologia, o estudo de Wolfe et al(4) parece ser o mais próximo dos critérios propostos em 1990. Este fato pode ser atribuído à familiaridade dos pesquisadores com a classificação, uma vez que fizeram parte do estudo multicêntrico de 1990. A população avaliada foi proveniente de um levantamento randômico de uma lista de endereços de residentes em Wichita, Kansas, EUA. As 3006 pessoas contatadas responderam a um questionário enviado por correio e foram classificadas de acordo com o tempo e localização da dor. Uma subamostra, composta por 391 indivíduos, completou a avaliação que consistia em questionários de ansiedade, depressão e capacidade funcional, além da avaliação dos tender points – realizada através de dígito-pressão e dolorimetria em alguns tender points. A prevalência média foi de 2% para a população geral, sendo 3,4% mulheres e 0,5% homens.

White et al(7) encontraram resultados semelhantes aos de Wolfe et al(10) na população adulta canadense não-institucionalizada da cidade de Londres, Ontario. Em levantamento telefônico, 19,5 mil números foram selecionados e, ao final do primeiro contato, 3395 entrevistas foram completadas. Os indivíduos com dor crônica e difusa, segundo critérios do ACR, foram convidados a participar de uma avaliação, incluindo questionários e exame dos tender points. Ao final desta segunda fase, 176 haviam sido avaliados, com confirmação do diagnóstico em 100 destes casos, sendo 86 mulheres e 14 homens, resultando em uma prevalência de 2,7%. Considerando os indivíduos não avaliados com um possível quadro de FM, esta prevalência sobe para 3,3%.

Considerando que a FM é a segunda causa mais freqüente nos consultórios de reumatologistas(11), é natural que os estudos epidemiológicos de doenças reumáticas também identifiquem a prevalência desta síndrome. Nestes estudos, o objetivo passa a ser estimar a prevalência das desordens reumatológicas mais comuns na população geral. Neste sentido, o Programa Orientado para a Comunidade que visa o controle de doenças reumáticas (COPCORD) foi um instrumento unânime nos estudos na Espanha, no Brasil, no México e em Bangladesh.

Na Espanha, a amostra nacional constituiu-se de 2998 indivíduos extraídos das 19 comunidades autônomas do país, com idade maior ou igual a 20 anos e selecionados de forma aleatória. Ao contato, realizado através de carta, 2192 responderam. Todos foram convidados a participar do exame clínico feito por reumatologistas nos postos de saúde. Utilizando os critérios do ACR, a FM foi a quarta desordem reumatológica mais freqüente com prevalência de 2,4%(11).

Na cidade do México, Cardiel et al(13) estimaram a prevalência de doenças reumatológicas avaliando amostras estratificadas de adultos residentes na cidade, com um total de 1169 homens e 1331 mulheres. A prevalência de FM foi de 1,4%, perdendo somente para osteoartrite (2,3%) e lombalgia (6,3%).

O único estudo realizado na América Latina é de Senna et al(14), em Montes Claros, Minas Gerais, Brasil. A metodologia é semelhante à aplicada nos demais estudos de prevalência usando o COPCORD. A amostra foi probabilística por conglomerado, sendo composta de 3038 pessoas, que responderam ao questionário e foram examinadas por um reumatologista. A FM foi a segunda desordem reumatológica mais freqüente, com prevalência de 2,5%.

Nesta mesma linha, Haq et al(11) verificaram que a prevalência de FM foi de 4,4% nas comunidades adultas de Bangladesh, sendo 2,3% na comunidade urbana e 3,2% na rural. Assim como Carmona(12), os autores identificaram a FM como a quarta desordem mais prevalente.

PREVALÊNCIA DA FIBROMIALGIA NO GÊNERO FEMININO

A FM é uma síndrome predominantemente do gênero feminino. Sendo assim, é nesta população que se manifesta um grande impacto na qualidade de vida(5) e, talvez por este motivo, alguns autores tenham escolhido especialmente esta população para estimar a prevalência de FM.

Schochat e Rasp(16) entrevistaram 3174 mulheres adultas (35 a 74 anos) na cidade alemã de Bad Säckingen. O contato inicial foi feito por meio de cartas e, posteriormente, foram convidadas 1022 mulheres para avaliação clínica, as quais foram escolhidas aleatoriamente. Além das questões referentes à dor, os autores avaliaram a qualidade de vida, sintomas da síndrome, dados sociodemográficos e uso de programas de reabilitação. Na amostra respondente da primeira fase, 30,4% não apresentaram dor, 29,8% apresentaram dor aguda e 39,8%, dor crônica. Desta amostra, 13,5% das mulheres tinham dor difusa e crônica. Das 623 pessoas avaliadas, 96 referiram ter dor crônica generalizada (14,7%). Com relação à avaliação dos tender points, 72 mulheres apresentaram mais de 11 tender points positivos, preenchendo, portanto, o critério para FM segundo o ACR. Mesmo com algumas limitações apontadas pelos autores, tais como uma população pequena e o acesso apenas à população feminina, algumas conclusões importantes puderam ser obtidas desse estudo, como o fato de 26,5% das pessoas que preencheram os questionários possuírem dor difusa e 62,3% das pessoas com dor difusa possuírem dor crônica.

Em estudo anterior, Forseth e Gran(17) investigaram a prevalência de FM entre as mulheres da cidade de Arendal, na Noruega. A amostra inicial foi composta de 2498 mulheres entre 20 e 49 anos, das quais 2038 responderam aos questionários postados, os quais continham perguntas sobre dor e cansaço com duração de pelo menos três meses. Foram considerados questionários positivos aqueles que apresentavam pelo menos uma resposta afirmativa dentre as quatro questões propostas, o que representou 57,1% da amostra inicial. Destas, 242 mulheres foram selecionadas aleatoriamente para o exame clínico, que consistiu em novas perguntas sobre dor e cansaço, avaliação dos tender points, segundo os critérios do ACR, tanto com dolorímetro quanto com dígito-pressão e exame de sangue. Ao final, foram encontradas 40 mulheres compatíveis com os critérios diagnósticos do ACR para FM; destas, 34 já haviam procurado um médico devido aos sintomas de dor e cansaço. A prevalência de fibromialgia estimada foi de 10,5% e os autores relacionam esta alta prevalência com a elevada porcentagem de mulheres com dor.

Em estudo recente, Topbas et al(18) procuraram estimar a prevalência de FM entre as mulheres do distrito central de Trabzon, na Turquia. Como a maior parte dos estudos, a seleção dos pacientes foi aleatória, através dos registros das unidades primárias de saúde, resultando em 1930 mulheres entre 20 e 64 anos. A metodologia para a identificação dos indivíduos com dor crônica e difusa foi adaptada de White et al(7), obtendo-se 296 pessoas. Destas, 285 participaram do exame clínico, realizado por um reumatologista. Os autores identificaram 70 casos de FM e a prevalência estimada foi de 3,6%. Como em outros estudos, os autores também verificaram a maior prevalência nas faixas etárias mais elevadas (50 a 59 anos) e em mulheres que possuem núcleos familiares não estendidos, apontando a importância de estudos de prevalência no sentido de propor ações para melhorar a saúde da população turca.

Lundberg e Gerdle(19) investigaram a prevalência de FM entre as mulheres suecas do município de Nikoping que realizam trabalho home care, que estivessem trabalhando, em licença maternidade ou doença, com ou sem dor, além de outras disfunções. Preencheram os critérios de inclusão 643 pessoas e 607 concordaram em participar. Destas, 1,3% estavam em licença maternidade e 1,5% em licença por doença. Foram aplicados questionários contendo dados demográficos e informações sobre o número de filhos. A dor foi avaliada por um mapa de dor e pela Escala Visual Analógica (EVA) e também foram feitas perguntas sobre os sintomas relacionados com a FM, como a dor generalizada (de acordo com o ACR), ansiedade, estresse, síndrome do cólon irritável, edema, rigidez matinal e fadiga generalizada. Posteriormente, três fisioterapeutas experientes avaliaram a mobilidade lombar, a configuração sagital da coluna, a mobilidade articular e os tender points. A prevalência de FM encontrada foi de 2% (12 dos 607 pacientes) e os indivíduos com dor nos quatro quadrantes apresentaram um número significativamente maior de tender points positivos. Os autores também encontraram uma relação positiva entre tender points e intensidade da dor, assim como entre tender points e quantidade de sintomas. A incapacidade avaliada, o número de dispensas médicas e a qualidade de vida também se mostraram, de forma geral, relacionadas aos tender points positivos. É inferido que as lesões relacionadas ao trabalho tenham talvez influenciado os resultados obtidos, assim como o status socioeconômico dos participantes. Provavelmente, a dor aumenta o risco de desenvolver FM, pois dor há mais de seis anos, com mais de quatro sintomas associados, cansaço pela manhã e parestesias, parecem ser fatores predisponentes. De um modo geral, foi encontrada uma prevalência relativamente alta de FM entre as mulheres que trabalham com home care na Suécia e, ao contrário de outros estudos, foi identificado que tender points com diferentes sintomas mostram forte correlação com incapacidade.

Estudo de White et al(7) descreve a prevalência para mulheres e homens com valores iguais a 4,2% e 1%, respectivamente. A média de idade das mulheres foi de 49,2 anos e, em mulheres com idade inferior a 25 anos, a prevalência foi de 1% ou menos, valor este que aumenta até a faixa etária de 55 a 64 anos, regredindo a partir de então. No entanto, é preciso ressaltar que a baixa prevalência entre idosos maiores de 64 anos pode estar relacionada à institucionalização dessa população, que não é contemplada nestes estudos. Em relação aos homens, a prevalência também se mostra inferior a 1% em indivíduos com idades entre 18 e 24 anos, permanecendo baixa também nas faixas etárias mais altas.

PREVALÊNCIA DE FIBROMIALGIA EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

A FM também afeta as crianças, no entanto, de forma menos freqüente que na população adulta. A literatura sobre sua prevalência e sobre o exame dos tender points em crianças saudáveis não está claramente definida, refletindo nos resultados obtidos nos diferentes estudos(20,21).

Em estudo realizado por Buskila et al(20), foram selecionadas 338 crianças saudáveis e em idade escolar para uma estimativa da prevalência de FM e para a avaliação do limiar de dor nos tender points. Todas as crianças foram submetidas ao exame dos 18 tender points mais 4 pontos-controle. Além disso, tanto as crianças como seus pais foram questionados quanto à presença de dor difusa ou dor aguda. Foi encontrada uma prevalência de 6,2%, sendo que foram consideradas portadoras de FM apenas as crianças que preenchiam os critérios diagnósticos estabelecidos pelo ACR. Não houve grande diferença nos resultados entre meninos e meninas, o que não ocorre na população adulta, onde a FM é predominante nas mulheres. No entanto, o próprio autor discute a possibilidade do tamanho da amostra influenciar esses resultados. Os meninos mostraram menor intensidade de dor do que as meninas, e crianças diagnosticadas com fibromialgia tiveram limiar de dor reduzido, tanto nos 18 tender points como nos 4 pontos-controle(1). Neste estudo, algumas limitações observadas poderiam interferir nos resultados encontrados. Assim como observaram Clark et al(21), a dor é um fenômeno muito subjetivo e o relato dos pais poderia diferir do relato das crianças.

Outra crítica apontada foi que, possivelmente, a realização do exame físico e da dolorimetria antes da aplicação do questionário sobre dor poderia trazer certas expectativas, influenciando as repostas dos pacientes. Além disso, Buskila et al(1,20) não selecionaram a amostra a partir dos sintomas de dor, o que é recomendado pelo ACR, avaliando os tender points apenas nos indivíduos que relatam dor difusa.

Posteriormente, em continuação ao estudo realizado em 1993, Buskila et al(22) realizaram um estudo com o objetivo de reavaliar, após 30 meses da primeira investigação, as 21 crianças diagnosticadas com FM e as 7 crianças que tiveram 11 ou mais tender points positivos, sem relato de dor difusa e, portanto, excluídas do grupo com FM. Seis crianças diagnosticadas como portadoras de FM não puderam participar da pesquisa. Os tender points e os pontos-controle foram avaliados pelo mesmo examinador do estudo anterior, e tanto os pais como as crianças foram novamente questionadas quanto à presença e a característica da dor. Diferentemente do estudo anterior realizado pelo autor, nessa nova avaliação as crianças foram submetidas a um questionário contendo informações relevantes sobre a FM, como os distúrbios do sono, fadiga, cansaço matinal, parestesias, dor de cabeça e alterações intestinais.

Com base nos critérios diagnósticos do ACR, apenas quatro das 15 crianças originalmente diagnosticadas com FM ainda apresentavam a síndrome. O número de tender points positivos aumentou em três crianças e permaneceu o mesmo em uma delas, sendo todas meninas. As sete crianças que inicialmente preencheram os critérios dos tender points não desenvolveram FM e duas delas queixavam-se de dor localizada. O autor atribui esses resultados a um melhor prognóstico da FM nas crianças, ao contrário do que é encontrado na literatura sobre a população adulta, e enfatiza a necessidade de mais estudos sobre a FM em crianças e adultos, com o objetivo de avaliar a evolução da síndrome ao longo do tempo(22). Mikkelsson et al(23) realizaram um follow-up de 22 crianças identificadas com FM entre 1756 adolescentes de outro estudo. O seguimento foi feito por examinador cego durante um ano. No início do estudo, a prevalência de FM era de 1,3% e, após um ano, 16 foram reavaliadas, estando a FMpresente em apenas 4 delas, com sintomas de incapacidade e sofrimento.

PREVALÊNCIA DE FIBROMIALGIA EM POPULAÇÕES ESPECIAIS

Buskila e Neumann(24) procuraram estimar a prevalência de FM entre os familiares de indivíduos fibromiálgicos. Foram selecionadas 30 mulheres fibromiálgicas, segundo os critérios do ACR, atendidas pelo Ambulatório de Reumatologia no Hospital Universitário de Beer Sheva, em Israel, e feita uma pesquisa entre seus familiares. A amostra final foi composta de 117 indivíduos, dos quais 26 eram maridos e 91 parentes consangüíneos, incluindo filhos, irmãos e outros graus de parentesco, totalizando 40 mulheres e 77 homens. Todos os indivíduos foram avaliados quanto à presença de FM através do exame físico dos tender points e presença de dor difusa, segundo critérios do ACR. Dentre os familiares consangüíneos, 24 (26%) apresentaram diagnóstico positivo de FM, sendo a mesma superior entre as mulheres (41%) quando comparadas aos homens (14%). Em relação aos maridos, a prevalência encontrada foi de 19%, sugerindo que além da predisposição genética citada pelos autores, a atmosfera familiar também pode predispor à FM.

Andary et al(25) realizaram estudo com atletas de ambos os sexos com pelo menos 18 anos e praticantes de vários esportes durante o período de preparação para competições interuniversidades. Foram inseridas questões sobre saúde e sobre dor no corpo (resposta sim ou não) e realizado exame nos 18 tender points e 3 pontos-controle através da dígito-pressão. Entre 1993 e 1999, 700 indivíduos participaram da preparação física e 641 aceitaram participar do estudo. Da amostra, 6% disseram sim para dor crônica e difusa; 38% apresentaram um ou mais tender points positivos; 62% nenhum tender point. Apenas um atleta preencheu os critérios estabelecidos pelo ACR para FM (nadadora, que sentia-se bem, freqüentava as aulas e continuava treinando, sem nunca ter procurado o serviço de saúde por conta da dor). No entanto, negou sintomas como distúrbios do sono, dor de cabeça, dor de estômago, entre outros. Cinco atletas apresentaram de 5 a 17 tender points positivos, porém não relataram dor. O estudo pode ter subestimado a prevalência em função do medo de os atletas assumirem que têm dor ou por não terem um examinador cego. Afirmam também que a linguagem para a classificação de tender point positivo é difícil. Especula-se a respeito de uma combinação de fatores: o exercício pode ser protetivo para a FM; atletas com muita dor não competem neste nível; adultos jovens têm naturalmente prevalência mais baixa; fatores socioeconômicos, educacionais, genéticos, cognitivos e psicológicos podem ter contribuído para os achados.

White et al(26) realizaram um estudo com 242 adultos religiosos em uma comunidade rural de Londres, Ontário, Canadá, supondo a priori que, se o litígio ou compensações disponíveis têm maior efeito na FM, a prevalência em Amish, uma comunidade religiosa, seria igual a zero. Dos indivíduos recrutados, os que tinham dor crônica e difusa foram examinados para FM. Os resultados foram comparados com os obtidos em pesquisa telefônica aleatória com 492 não-religiosos adultos vivendo em uma comunidade rural e com 3395 não-religiosos previamente estudados em Londres. Destes, 34,3% tinham dor há menos de três meses, 25,4%, dor em membros superiores, 22,5% apresentavam dor em membros inferiores e 28,1%, dores no tronco. A prevalência de FM encontrada foi de 7,3%.

PREVALÊNCIA DE DOR CRÔNICA DIFUSA NA POPULAÇÃO GERAL

Em associação aos tender points, a presença de dor crônica difusa compõe o quadro dos critérios diagnósticos para FM estipulados pelo ACR. Desta forma, Croft et al(27) realizaram um estudo com o objetivo de estabelecer a prevalência de dor crônica difusa em uma amostra da população adulta de Cheschire, Inglaterra, em duas unidades de assistência à saúde. A amostra foi obtida a partir dos cadastros de indivíduos entre 18 e 85 anos de idade. Foi enviado, a cada um deles, por meio de correspondência, um questionário abordando a existência de qualquer tipo de dor, localização e duração da mesma, sensação de tristeza ou depressão, dados sobre capacidade funcional e outros sintomas físicos tais como má qualidade de sono, fadiga relacionada a algum período do dia, sensação de inchaço articular e distúrbios gastrintestinais. Dos 2034 sujeitos cadastrados, retornaram 1319 questionários completos, dos quais 768 foram provenientes de mulheres com idade média de 46 anos. A prevalência de dor crônica difusa encontrada, segundo critérios do ACR, foi de 11,2%. Os autores relatam que este valor é inferior ao encontrado em outros estudos com a população inglesa e isso pode estar relacionado ao pobre retorno dos questionários.

Storzhenko et al(28) realizaram estudo com a população adulta de Yekaterinburg, Rússia. Foram escolhidas, aleatoriamente, da lista de residentes da cidade, 159 pessoas com idade entre 27 e 75 anos. O questionário foi postado e continha questões sobre dor (localização, tempo e intensidade), e desordens psicoemocionais. A prevalência foi de 13,3%, sem diferença entre os sexos, com associação a sintomas psicoemocionais, sendo a idade mais comum de acometimento por volta de 43 anos.

Lindell et al(29) verificaram a prevalência de dor crônica e difusa, segundo o ACR, na população do sudoeste da Suécia entre 1995 e1996 em indivíduos com suspeita de dor crônica difusa. Foram realizados entrevista e exame clínico, incluindo avaliação dos tender points com dolorímetro. De uma coorte de 2425 indivíduos com idade entre 20 e 74 anos, foram identificados 303 com dor crônica e difusa. Destes, 202 foram convidados e 147 aceitaram participar da avaliação. A prevalência de FM foi estimada em 1,3% e a de dor crônica (apenas a presença de dor há mais de três meses), em 4,2%.

 

CONCLUSÃO

A prevalência da FM na população varia entre 0,66 e 4,4% de acordo com o perfil avaliado e a metodologia do estudo. Todos os estudos apontam que a síndrome é mais prevalente em mulheres do que em homens, especialmente na faixa etária entre 35 e 60 anos. Os estudos com crianças e adolescentes e em grupos especiais são escassos e pouco conclusivos. A prevalência de dor crônica difusa na população em geral, segundo os critérios diagnósticos da FM, foi avaliada por poucos estudos com valores entre 11 e 13%. Mais estudos sobre prevalência de dor crônica e difusa devem ser estimulados, assim como os de prevalência de FM na população adulta, em crianças e jovens. Estes estudos podem auxiliar na estimativa do número de pessoas que possam estar sofrendo com a síndrome, além de estimular medidas de saúde pública para esta população.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Amélia Pasqual Marques
Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Rua Cipotânea, 51, Cidade Universitária
São Paulo, CEP 05360-160, SP, Brasil
e-mail: pasqual@usp.br

Recebido em 01/12/05. Aprovado, após revisão, em 03/02/06.