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Revista Brasileira de Reumatologia

Print version ISSN 0482-5004On-line version ISSN 1809-4570

Rev. Bras. Reumatol. vol.57 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2017

https://doi.org/10.1016/j.rbre.2016.07.015 

Artigos originais

Síndrome locomotora em idosos: tradução, adaptação cultural e validação brasileira do instrumento 25-Question Geriatric Locomotive Function Scale

Daniela Regina Brandão Tavaresa  * 

Fania Cristina Santosb 

aUniversidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Programa de Geriatria, São Paulo, SP, Brasil

bUniversidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Serviço de Dor e Doenças Osteoarticulares, Disciplina de Geriatria e Gerontologia (DIGG), São Paulo, SP, Brasil


RESUMO

Objetivo:

O termo síndrome locomotora (SL) designa condições nas quais os idosos apresentam alto risco de incapacidade para deambulação em decorrência de problemas em órgãos locomotores. Para seu rastreio foi criado o 25-Question Geriatric Locomotive Function Scale (GLFS-25). Objetivou-se aqui, traduzir, adaptar transculturalmente para o Brasil e estudar as propriedades psicométricas do GLFS-25.

Método:

Feitas tradução e adaptação transcultural do GLFS-25 que originaram o GLFS 25-P, cujas propriedades psicométricas foram analisadas numa amostra de 100 idosos. Apurados dados sociodemográficos relativos a dor, queda, autopercepção da saúde e funcionalidades básica e instrumental. O GLFS 25-P foi aplicado em três momentos: num mesmo dia por dois entrevistadores e após 15 dias novamente pelo primeiro entrevistador.

Resultado:

O GLFS 25-P apresentou alto valor de consistência interna, segundo o coeficiente Alfa de Cronbach (0,942); e reprodutibilidade ótima, segundo a correlação intraclasses: valores de 97,6% e 98,4%, interobservador e intraobservador, respectivamente (p < 0,01). As concordâncias para cada item do instrumento foram consideráveis (entre 0,248 e 0,673), segundo a estatística Kappa. Na validação, segundo o coeficiente de Pearson, foram obtidas correlações regular e boa para as atividades de vida diária básicas (AVDB) e instrumentais (AIVD), respectivamente (p < 0,01). Encontradas associações estatisticamente significantes com dor crônica (p < 0,001), queda (p = 0,02) e autopercepção de saúde (p < 0,001). A análise multivariada evidenciou risco de SL significativamente maior na presença de dor crônica (OR 15,92, IC 95% 3,08-82,27) e pior autopercepção de saúde (OR 0,23, IC 95% 0,07-0,79).

Conclusão:

O GLFS 25-P demonstrou ser confiável e válido no rastreio da SL em idosos.

Palavras-chave: Idoso; Síndrome locomotora; GLFS-25; Instrumento de avaliação

ABSTRACT

Objective:

The term Locomotive Syndrome refers to conditions in which the elderly are at high risk of inability to ambulate due to problems in locomotor system. For Locomotive Syndrome screening, the 25-Question Geriatric Locomotive Function Scale was created. The objective here was to translate, adapt culturally to Brazil, and study the psychometric properties of 25-Question Geriatric Locomotive Function Scale.

Method:

The translation and cultural adaptation of 25-Question Geriatric Locomotive Function Scale were carried out, thus resulting in GLFS 25-P, whose psychometric properties were analyzed in a sample of 100 elderly subjects. Sociodemographic data on pain, falls, self-perceived health and basic and instrumental functionalities were determined. GLFS 25-P was applied three times: in one same day by two interviewers, and after 15 days, again by the first interviewer.

Result:

GLFS 25-P showed a high internal consistency value according to Cronbach's alpha coefficient (0.942), and excellent reproducibility, according to intraclass correlation, with interobserver and intraobserver values of 97.6% and 98.4%, respectively (p < 0.01). Agreements for each item of the instrument were considerable (between 0.248 and 0.673), according to Kappa statistic. In its validation, according to the Pearson's coefficient, regular and good correlations were obtained for the basic (BADL) and instrumental (IADL) activities of daily living, respectively (p < 0.01). Statistically significant associations with chronic pain (p < 0.001), falls (p = 0.02) and self-perceived health (p < 0.001) were found. A multivariate analysis showed a significantly higher risk of Locomotive Syndrome in the presence of chronic pain (OR 15.92, 95% CI 3.08–82.27) and with a worse self-perceived health (OR 0.23, 95% CI 0.07–0.79).

Conclusion:

GLFS 25-P proved to be a reliable and valid tool in Locomotive Syndrome screening for the elderly population.

Keywords: Elderly; Locomotive syndrome; GLFS-25; Assessment tool

Introdução

A estrutura etária da população brasileira sofreu importantes mudanças nos últimos 50 anos. A expectativa de vida passou de 48 anos em 1960 para 73,4 anos em 2010. Nesse mesmo período, o número de idosos passou de 3,3 milhões (4,7% da população) para 20,5 milhões (10,8% da população). A expectativa é que em 2060 esse valor seja de 73 milhões de idosos, ou 33,7% da população.1

Essa transição demográfica gera impactos importantes na saúde pública.2 Estima-se que o número de idosos com dependência funcional aumente exponencialmente com o envelhecimento da população, o que acarretaria um importante encargo financeiro para a sociedade.3 As doenças do sistema locomotor são as principais causas de incapacidades associadas ao envelhecimento e um dos principais alvos de prevenção.3,4 Dados revelam que 21,5% desses pacientes têm alguma doença do sistema musculoesquelético, como a osteoporose (e fraturas relacionadas), a espondiloartrose e a osteoartrite.5

Para a prevenção da disfunção locomotora, a Associação Ortopédica Japonesa (JOA) propôs em 2007 o conceito de síndrome locomotora (SL) para designar condições sob as quais os idosos tornam-se dependentes de cuidados ou estão em alto risco de se tornar, devido a problemas em órgãos locomotores.6 Foram descritos sete sinais de alarme que indicam alto risco de SL. São eles: não conseguir colocar as meias apoiado em uma única perna; frequentemente tropeçar ou escorregar dentro de casa; precisar segurar no corrimão para subir as escadas; ter dificuldade para fazer atividades domésticas de moderada intensidade; ter dificuldade para carregar 2 kg de compras até em casa; não ser capaz de andar por 15 minutos sem parar; e não conseguir atravessar a rua antes de o sinal ficar vermelho.7

Diversas campanhas têm sido feitas no Japão a fim de divulgar a SL para a população. Recentemente, a JOA informou que apenas 26,6% da população japonesa conheciam a SL, em pesquisa feita na internet. Mesmo entre pacientes em meio ambulatorial, a identificação também foi baixa (24,6%).7

As características específicas dessa síndrome não são totalmente conhecidas. Entretanto, acredita-se ser secundária às principais doenças osteomusculares.6 Alguns dos sinais e sintomas que permitiriam seu reconhecimento precoce são dor, limitação da mobilidade articular e deambulação lentificada.5

Para o rastreamento da SL, os pesquisadores japoneses também desenvolveram um instrumento de avaliação: o 25-Question Geriatric Locomotive Function Scale (GLFS-25). Esse se refere a um questionário autoadministrado com 25 itens, de fácil compreensão pelos idosos, e cada item com graduação de 0 a 4 pontos. O escore final advém da somatória de todos os itens, varia de 0 a 100 e é maior quanto maior o comprometimento físico dos idosos, 16 é o escore de corte para o diagnóstico da SL.3

O GLFS-25 abrange diferentes aspectos do último mês do paciente, com quatro questões sobre dor, 16 a respeito das atividades de vida diárias, três sobre o desempenho social e duas sobre o estado de saúde mental do indivíduo.3

O estabelecimento desse novo conceito sindrômico vem ao encontro do processo de envelhecimento populacional pelo qual o mundo tem passado nos últimos 50 anos. Trata-se, portanto, de um conceito que não se refere às enfermidades tradicionais, mas, sim, de um conceito amplo epidemiológico que se volta ao gerenciamento do sistema de saúde.3 Diante desse momento de transição, a preocupação das entidades de saúde gira em torno de como aumentar a expectativa de vida com saúde e independência funcional.8 Nesse sentido, o rastreio dessa síndrome torna-se crucial, a fim de possibilitar intervenções precoces.3

Objetivou-se, com o presente estudo, a tradução, adaptação transcultural para o Brasil e o estudo das propriedades psicométricas do GLFS-25 em idosos do nosso meio.

Material e métodos

Estudo epidemiológico, observacional, descritivo e analítico, aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de São Paulo/Unifesp (CEP n° 921.390/2014).

Para a tradução e adaptação transcultural do GLFS-25 seguiu-se a metodologia de Guillemin et al. 9 Inicialmente, os itens em inglês do instrumento foram traduzidos para a língua portuguesa por dois tradutores brasileiros independentes, qualificados e cientes dos objetivos da tradução. As traduções obtidas foram comparadas e originaram uma versão que foi novamente traduzida para o inglês e comparada com a versão original, etapa feita por outros dois tradutores de língua materna inglesa, com conhecimento do idioma português e sem ciência dos objetivos propostos.

Na adaptação transcultural obtiveram-se algumas equivalências: 1) Equivalência semântica, baseada na avaliação da equivalência gramatical e do vocabulário, pois muitas palavras de um determinado idioma podem não ter equivalentes em outras línguas; 2) Equivalência idiomática, baseada na pesquisa vasta em dicionários, pois a tradução de certas expressões idiomáticas é difícil e o significado de certas palavras não é fixo nem estável; 3) Equivalência transcultural ou experimental, pois o contexto transcultural de certas expressões deveria apresentar “validade de conteúdo” também na língua portuguesa e para a população do Brasil e dado que a versão do instrumento original seria agora usada num país diferente do qual ele foi criado; 4) Equivalência conceitual, pois muitos itens podem se equivaler semanticamente sem apresentar “equivalência de conceito”. Nessa última etapa, formou-se um comitê de cinco especialistas de diferentes áreas e com experiência em idosos: geriatria, ortopedia, reumatologia, psicologia e fisioterapia. Assim, se obteve a versão final do instrumento em tese: o GLFS 25-P (tabela 1).

Tabela 1 GLFS-25-P, versão traduzida e adaptada transculturalmente para o Brasil 

ESCALA GERIÁTRICA DA FUNÇÃO LOCOMOTORA DE 25 ITENS (GLFS 25-P)
As perguntas a seguir serão sobre a sua condição de saúde e hábitos de vida diários, relacionados às suas costas e
membros (inferiores e superiores). Por favor, responda considerando a sua condição neste último mês.
■ Seguem abaixo perguntas sobre suas dores no corpo no último mês.
1. Você teve dor (incluindo dormência) no seu pescoço ou membros superiores (ombros, braços ou mãos)?
□ Sem dor □ Dor leve □ Dor moderada □ Dor grave □ Dor muito grave
2. Você teve dor nas costas, região lombar ou nádegas?
□ Sem dor □ Dor leve □ Dor moderada □ Dor grave □ Dor muito grave
3. Você teve dor (incluindo dormência) nos seus membros inferiores (quadril, coxa, joelho, panturrilha, canela, tornozelo ou pé)?
□ Sem dor □ Dor leve □ Dor moderada □ Dor grave □ Dor muito grave
4. Até que ponto tem sido doloroso movimentar seu corpo no dia a dia?
□ Sem dor □ Dor leve □ Dor moderada □ Dor grave □ Dor muito grave
Seguem abaixo perguntas sobre seus hábitos de vida diários, considerando o último mês.
5. Até que ponto tem sido difícil levantar da cama ou deitar?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
6. Até que ponto tem sido difícil levantar da cadeira?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
7. Até que ponto tem sido difícil caminhar dentro de casa?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
8. Até que ponto tem sido difícil vestir e tirar uma blusa?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
9. Até que ponto tem sido difícil vestir e tirar as calças?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
10. Até que ponto tem sido difícil usar o banheiro?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
11. Até que ponto tem sido difícil lavar o seu corpo durante o banho?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
12. Até que ponto tem sido difícil subir e descer escadas?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
13. Até que ponto tem sido difícil andar rápido?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
14. Até que ponto tem sido difícil se manter arrumado (a)?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
15. Quanto você consegue andar sem descansar? (por favor, selecione a melhor resposta)
□ Maisde2-3km □ Aproximadamente 1km □ Aproximadamente 300m □ Aproximadamente 100m □ Aproximadamente 10m
16. Até que ponto tem sido difícil visitar seus vizinhos?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
17. Até que ponto tem sido difícil carregar objetos pesando aproximadamente 2 kg (2 caixas de leite ou 2 garrafas de 1 litro cada)?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
18. Até que ponto tem sido difícil usar o transporte público?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
19. Até que ponto tem sido difícil realizar as tarefas simples do lar (cozinhar, limpar, etc.)?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
20. Até que ponto tem sido difícil realizar as tarefas pesadas do lar (limpar o quintal, carregar roupas de camas pesadas, etc.)?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
21. Até que ponto tem sido difícil praticar atividades esportivas (caminhar rápido, nadar, jogar bola, dançar)?
□ Sem dificuldade □ Pouca dificuldade □ Moderada dificuldade □ Muita dificuldade □ Extrema dificuldade
22. Você tem sido limitado (a) de encontrar seus amigos?
□ Sem limitação □ Algumas vezes limitado (a) □ Limitado (a) metade das vezes □ Muitas vezes limitado (a) □ Desisti de todas as atividades
23. Você tem sido limitado (a) de frequentar atividades sociais (encontrar amigos, praticar esportes, lazer e hobbies, etc.)?
□ Sem limitação □ Algumas vezes limitado (a) □ Limitado (a) metade das vezes □ Muitas vezes limitado (a) □ Desisti de todas as atividades
24. Você já se sentiu com medo de cair dentro de casa?
□ Não me senti com medo □ Quase nunca me senti com medo) □ Às vezes me senti com medo □ Quase sempre me senti com medo □ Constantemente me senti com medo
25. Você já se sentiu com medo de não poder andar no futuro?
□ Não me senti com medo □ Quase nunca me senti com medo) □ Às vezes me senti com medo □ Quase sempre me senti com medo □ Constantemente me senti com medo

Para a análise das propriedades psicométricas da versão brasileira recém-originada, aleatoriamente foram selecionados idosos com 60 anos ou mais, de ambos os gêneros, atendidos em nível ambulatorial na Disciplina de Geriatria e Gerontologia da Universidade Federal de São Paulo (DIGG/Unifesp). Foram excluídos aqueles com comprometimentos cognitivo e comportamental, doenças agudas graves ou crônicas descompensadas, déficits sensoriais limitantes e história de fraturas em membros inferiores e/ou coluna nos últimos seis meses. Todos os participantes assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido.

Foram apurados, de todos os participantes, dados sociodemográficos (idade, gênero, estado civil, etnia e escolaridade) e status funcional para as atividades de vida diária básicas (ABVD) e instrumentais (AIVD), segundo os índices de Katz e Lawton, respectivamente. Também, foram coletados dados relativos à frequência de quedas no último ano, à autopercepção de saúde (ruim, regular, boa ou excelente) e à presença de dor crônica (duração de seis meses ou mais), anotou-se para essa última a sua intensidade segundo uma escala de descrição verbal (leve, moderada, grave ou muito grave).

O GLFS 25-P foi aplicado por dois entrevistadores independentes (E1 e E2), num mesmo dia e após 15 dias, sem qualquer intervenção no período, e seguiu-se a terceira aplicação pelo primeiro entrevistador (agora denominado E3). No estudo das propriedades psicométricas do GLFS 25-P, analisou-se primeiramente a sua confiabilidade, segundo a consistência interna e reprodutibilidade, e posteriormente foi feita a sua validação de acordo com o seu construto. A validade de construto, etapa das mais importantes em um processo de validação, envolve a comparação do instrumento a ser estudado com um padrão-ouro estabelecido. Quando esse último está ausente, procede-se à comparação com parâmetros clínicos habitualmente usados.10 Neste estudo, obteve-se a validade de construto por meio da correlação entre o GLFS 25-P e os índices funcionais segundo as ABVD e AIVD.

Na análise estatística, o teste de igualdade de duas proporções foi usado na distribuição da frequência relativa das variáveis qualitativas, o coeficiente alfa de Cronbach na obtenção da consistência interna, os testes t de Student pareado e o índice de correlação intraclasse (ICC) para as reprodutibilidades intra e interobservadores, o coeficiente de Kappa para a reprodutibilidade de cada questão do instrumento e a correlação de Pearson para a validação. Avaliada a associação da SL com dor crônica, com a frequência de quedas no último ano e com os diferentes níveis de autopercepção de saúde, por meio do teste de qui-Quadrado e da análise de regressão logística. Definido o nível de significância em 0,05 (5%).

Resultados

Amostra composta por 100 idosos com média de 82 ± 1,5 anos (entre 61 e 100), na qual predominaram o gênero feminino (73%), a etnia branca (50%), o estado de viuvez (52%) e a baixa escolaridade (média de 5,1 anos, 57% estudaram apenas de um a quatro anos) (tabela 2).

Tabela 2 Caracterização da amostra 

n % p-valor
Idade (anos)
Média (IC) 82 (1,5)
Mín-Max 61-100
60-70 9 9 < 0,01
71-80 28 28 < 0,01
81-90 53 53
> 90 10 10 < 0,01
Gênero
Masculino 27 27 < 0,01
Feminino 73 73
Etnia
Branca 50 50
Parda 39 39 0,118
Negra 11 11 < 0,01
Estado civil
Casado 35 35 0,015
Solteiro 8 8 < 0,01
Viúvo 52 52
Separado 5 5 < 0,01
Escolaridade (anos)
Analfabeto 16 16 < 0,01
1-4 57 57
5-8 11 11 < 0,01
9-11 3 3 < 0,01
> = 12 13 13 < 0,01
ABVD
Média (IC) 5,5 (0,1)
Mín-Max 3 - 6
Independente 96 96 < 0,01
Dependência parcial 4 4
AIVD
Média (IC) 23,6 (0,8)
Mín-Max 11 - 27
Independente 40 40 0,885
Dependência leve 41 41
Dependência moderada 13 13 < 0,01
Dependência grave 6 6 < 0,01

IC, intervalo de confiança; Mín-Max, mínimo-máximo.

Quanto à funcionalidade dos participantes, observou-se um predomínio do status de independência funcional segundo a ABVD (96%, com média de 5,5 ± 0,1 pontos) e de dependência leve (41%, com média de 23,6 ± 0,8 pontos) segundo a AIVD (tabela 2).

Quanto às demais características, 61% tinham dor crônica, considerada leve em 5%, moderada em 33%, grave em 42% e muito grave em 20%; e 15% eram caidores crônicos (duas quedas ou mais no último ano). Para a autopercepção de saúde, 5% referiram-na como ruim, 53% como regular, 36% como boa e 6% como excelente.

A prevalência de SL na amostra estudada, segundo o GLFS 25-P, foi de 63%, com escores médios de 27,6 ± 4,1 para o E1, 27,3 ± 4,4 para o E2 e 28,1 ± 4,2 para o E3. O tempo médio para a sua aplicação de cinco a 10 minutos.

Na análise das propriedades de medidas do GLFS 25-P e com referência, inicialmente, à propriedade confiabilidade segundo a sua consistência interna, altos valores de alfa de Cronbach foram obtidos, de 0,942 para E1, 0,952 para E2 e 0,949 para E3. Para a reprodutibilidade, três análises foram feitas. Segundo o teste t de Student pareado, que comparou as médias do GLFS 25-P nas E1, E2 e E3, não foram encontradas diferenças estatisticamente significantes (tabela 3). Segundo o ICC, foram obtidos ótimos resultados, 97,6% de correlação interobservador (E1 e E2) e 98,4% intraobservador (E1 e E3) (tabela 3). Na análise de concordância entre os entrevistadores para cada item do instrumento em tese, segundo a estatística Kappa, foram obtidos valores consideráveis (entre 0,248 e 0,673) (tabela 4).

Tabela 3 Reprodutibilidades do GLFS-25-P, segundo o teste t de Student e o ICC 

GLFS-25 P E1 E2 E1 E3
Teste t de Student
Média 27,6 27,3 27,6 28,1
Mediana 25 23,5 25 27
Desvio padrão 20,7 22,3 20,7 21,4
IC 4,1 4,4 4,1 4,2
p-valor 0,66 0,304
ICC E1/E2 E1/E3
% 97,60 98,40
p-valor < 0,001 < 0,001

IC, intervalo de confiança.

Tabela 4 Reprodutibilidade do GLFS-25-P, segundo o índice de Kappa 

GLFS E1/E2 E1/E3
Kappa p-valor Kappa p-valor
Pergunta 1 0,512 < 0,001 0,597 < 0,001
Pergunta 2 0,364 < 0,001 0,417 < 0,001
Pergunta 3 0,297 < 0,001 0,46 < 0,001
Pergunta 4 0,396 < 0,001 0,472 < 0,001
Pergunta 5 0,532 < 0,001 0,456 < 0,001
Pergunta 6 0,572 < 0,001 0,508 < 0,001
Pergunta 7 0,532 < 0,001 0,591 < 0,001
Pergunta 8 0,511 < 0,001 0,55 < 0,001
Pergunta 9 0,469 < 0,001 0,488 < 0,001
Pergunta 10 0,642 < 0,001 0,546 < 0,001
Pergunta 11 0,469 < 0,001 0,531 < 0,001
Pergunta 12 0,529 < 0,001 0,611 < 0,001
Pergunta 13 0,497 < 0,001 0,611 < 0,001
Pergunta 14 0,55 < 0,001 0,522 < 0,001
Pergunta 15 0,593 < 0,001 0,56 < 0,001
Pergunta 16 0,248 < 0,001 0,206 0,001
Pergunta 17 0,533 < 0,001 0,652 < 0,001
Pergunta 18 0,641 < 0,001 0,555 < 0,001
Pergunta 19 0,465 < 0,001 0,531 < 0,001
Pergunta 20 0,465 < 0,001 0,561 < 0,001
Pergunta 21 0,575 < 0,001 0,551 < 0,001
Pergunta 22 0,429 < 0,001 0,673 < 0,001
Pergunta 23 0,399 < 0,001 0,484 < 0,001
Pergunta 24 0,438 < 0,001 0,402 < 0,001
Pergunta 25 0,501 < 0,001 0,416 < 0,001

No processo de validação foram apuradas correlações estatisticamente significantes com os índices de funcionalidade nas atividades básicas e instrumentais, com índices regulares para ABVD (maiores do que 45%) e bons para AIVD (maiores do que 60%), segundo o coeficiente de Pearson. Tais correlações foram negativas, ou seja, quanto maiores os escores do GLFS 25-P, menores os índices funcionais para a ABVD e AIVD (tabela 5). Também foram apuradas associações significativas da SL com as presenças de dor crônica (p < 0,001) e de queda (p = 0,02), essas positivas, e, ainda, associação significativa com a autopercepção de saúde, contudo agora uma correlação negativa (p < 0,001), segundo o teste de qui-quadrado.

Tabela 5 Correlações entre o GLFS-25-P e os status funcionais, segundo o coeficiente de Pearson 

ABVD AIVD
E1
Corr (r) -50,30% -62,30%
p-valor < 0,001 < 0,001
E2
Corr (r) -45,90% -61,30%
p-valor < 0,001 < 0,001
E3
Corr (r) -49,50% -63,90%
p-valor < 0,001 < 0,001

Fez-se a análise multivariada incluindo as variáveis que se associaram significativamente com o GLFS 25-P no modelo univariável e obteve-se um risco significativamente maior de SL na presença de dor crônica (OR 15,92, IC 95% 3,08-82,27) e de pior autopercepção de saúde (OR 0,23, IC 95% 0,07-0,79) (tabela 6).

Tabela 6 Regressão logística das variáveis estudadas 

Variável Coeficiente p-valor Odds ratio
Constante 0,0468
Dor crônica 2,7673 0,001 15,92
Queda 0,5437 0,526 1,72
Autopercepção de saúde -1,4506 0,019 0,23

Discussão

O GLFS-25 foi criado no Japão em 2011 e até então ainda não fora traduzido, adaptado transculturalmente ou validado em outras populações, apesar da importância do tema abordado.

Neste estudo, a versão brasileira do GLFS-25 (GLFS-25-P) contou com termos conhecidos e frequentes no nosso meio, de fácil compreensão por idosos de diferentes faixas etárias e graus de escolaridade. O instrumento em tese permite uma importante análise multidimensional do indivíduo que envelhece, pois se compõe de questões relativas à saúde e à locomoção, agrupadas em domínios, a saber: cuidados diários (cinco perguntas), dificuldades relacionadas com o movimento (três perguntas), dor (quatro perguntas), cognição (duas perguntas) e a itens associados às atividades sociais (quatro perguntas). Existe, ainda, um sexto domínio (sete itens), com questões relativas à funcionalidade na vida diária, que já se mostrou fortemente associado aos demais, é assim considerado um domínio ou uma dimensão chave do instrumento.3

Obteve-se uma amostra constituída principalmente por mulheres (73%), de acordo com os dados da literatura científica que apontam para uma feminilização do envelhecimento.11 Também, a presente casuística contou com idosos “muito idosos” (63% dos participantes com 80 anos ou mais), que, assim, representam muito bem a parcela populacional que mais cresce no mundo: a dos longevos.12,13

Na análise das propriedades psicométricas do GLFS 25-P, e inicialmente considerando a sua consistência interna, observou-se um alto valor de alfa de Cronbach em todas as entrevistas (acima de 0,9), semelhantemente ao valor obtido no estudo original de validação do instrumento (0,961).3

No estudo da reprodutibilidade, essa foi ótima. Consideraram-se as correlações intra e interobservadores, não foram observadas diferenças significativas nas análises. E para cada questão do instrumento, as concordâncias obtidas entre os entrevistadores foram consideráveis, segundo a estatística Kappa. Assim, a confiabilidade global do GLFS 25-P foi satisfatória, se considerarmos todas as análises de reprodução.

Ao analisar cada questão do instrumento, notamos que algumas perguntas se assemelham por tratar de um tema específico, como o convívio social nas questões 16, 22 e 23, o que demonstra certa redundância. No entanto, outros temas, como autopercepção de saúde e risco de queda, que se mostraram associados com a SL nesse trabalho, não foram abordados diretamente.

No processo de validação, o instrumento em tese foi correlacionado com índices de funcionalidade, tanto para as atividades básicas como instrumentais da vida diária, usuais em estudos com a população idosa. Até o momento, não se encontra disponível um padrão-ouro para o diagnóstico da SL. Contudo, já foram observadas importantes associações dessa síndrome com a perda de funcionalidade nos idosos.2

Como já demonstrado em estudo anterior, a associação com queda foi observada, ratificou, assim, o rastreamento da SL para a prevenção de fraturas osteoporóticas.14 Também, a dor crônica de etiologia musculoesquelética, como joelho, coluna ou ombros, já foi associada com a SL, o que fortaleceria a necessidade do seu tratamento precoce na prevenção dessa síndrome nos idosos.15 Quanto à autopercepção de saúde, este foi o primeiro estudo a analisar a sua correlação com a SL. A associação significativa da SL com uma pior autopercepção de saúde, como verificado na casuística presente, demonstra um possível impacto negativo da SL na qualidade de vida do indivíduo.

A prevalência da SL entre os idosos abordados foi de 63%, o que traduz uma alta parcela de idosos sob o risco de disfunção locomotora. O rastreio da SL na população idosa poderia auxiliar na implantação de intervenções precoces voltadas para a prevenção dessas disfunções. E para isso a disponibilidade de um instrumento de fácil compreensão e rápida aplicação auxiliaria os profissionais em serviços de grande demanda.

Referente às limitações desse trabalho, destaca-se que não foram feitos testes físicos que também poderiam avaliar o risco da SL, como o stand-up test e o two-step test, como já foi sugerido por alguns autores.16 Contudo, apenas muito recentemente esses mesmos testes foram apontados como novos índices na avaliação do risco da SL, ou seja, foram apontados como índices de risco e declínio da mobilidade, assim como o GFLS-25.14,17

O GLFS 25-P foi considerado uma ferramenta simples e de rápida aplicação, demanda um curto período (cinco a 10 minutos). Não se fez, aqui, a autoaplicação do instrumento, pois os diferentes níveis de escolaridade da população idosa do nosso meio seriam um viés secundário importante. Porém, poderia ser uma forma bastante interessante de aplicação, por exemplo, em salas de espera de consultórios médicos e de outros profissionais da saúde, o que facilitaria a avaliação do risco de disfunções locomotoras no paciente idoso. Casuísticas nesse último sentido seriam de grande valia no nosso meio, preferencialmente se conduzidas longitudinalmente, já que poderiam auxiliar no estabelecimento de relações causais para a SL. E, nesses casos, os estudos também se prestariam a avaliar o impacto de abordagens preventivas, como programas monitorados de atividade física, na prevenção de disfunções locomotoras e institucionalização de idosos.

Em conclusão, GLFS 25-P apresentou adequadas tradução e adaptação transcultural e, na análise de suas propriedades psicométricas, verificou-se que se mostrou confiável e válido para o rastreio da SL em idosos do nosso meio.

Agradecimentos

A Dr. Fabio Freire Jose, Dr. Fabio Teruo Matsunaga, Dra. Thaisa Segura da Motta, Paulo Mateus Costa Affonso e Maria Angela Mello Barreto Guimarães, os expertises que compuseram o comitê de especialistas no processo de adaptação transcultural.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 26 de Janeiro de 2016; Aceito: 23 de Maio de 2016

*Autor para correspondência. E-mail: daniela74_tavares@hotmail.com (D.R.B. Tavares).

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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