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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478

Rev. Bras. Educ.  no.18 Rio de Janeiro set./dez. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782001000300012 

DOCUMENTOS

 

Discurso de Abertura da 24ª Reunião Anual

 

 

Nilda Alves

Presidente da ANPEd. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Centro de Educação

 

 

Aos ex-presidentes da ANPEd,
a quem prestamos nossas homenagens.

 

Iniciamos hoje as comemorações dos vinte e cinco anos de nossa Associação. As instâncias de decisão da ANPEd entenderam que precisávamos de um tema que trouxesse à frente da cena nossa responsabilidade como intelectuais. Ato contínuo, mostrou-se indispensável que, nesse processo, homenageássemos alguns intelectuais que nos indicaram, sempre ou em alguns momentos, pelo seu exemplo, o que significa, de maneira variada, ser intelectual produtivo, que respeita o seu país, ama seu povo e os muitos povos da Terra, que sabe tomar posições políticas oferecendo soluções diversas aos problemas comuns que enfrentamos.

Para começar, colocamos suas assinaturas no material que foi produzido para esta 24ª Reunião Anual. Em seguida, como as comemorações continuam durante todo o ano e culminam na 25ª Reunião Anual, foram criados os Prêmios ANPEd - 25 anos. Com finalidades diversas, esses prêmios buscam tornar claro tanto para a vasta comunidade da área, como para aqueles que estejam interessados na solução dos problemas educacionais em nosso país, o orgulho que temos da influência desses intelectuais sobre nosso pensamento. Estes prêmios levam o nome de Paulo Freire, Maurício Tragtemberg, Florestan Fernandes, Aparecida Joly Gouvea, Anísio Teixeira, Mariazinha Fuzari e Durmeval Trigueiro Mendes. Para as comissões de julgamento, convidaremos colegas com larga trajetória na ANPEd.

Com a lembrança dos nomes de muitos que entre nós militam - e que personifico, nesse momento, unicamente em nosso querido companheiro Victor Valla, adoentado às vésperas desta reunião -, quero homenagear os tantos colegas que, com seu exemplo de integridade, de produção sempre comprometida e de esperança em nossas possibilidades, ajudam-nos a melhor nos aproximarmos de nossos compromissos, do momento presente.

O primeiro desses compromissos que tive o privilégio de compreender bem, no início deste ano, acompanhando a marcha zapatista em direção à cidade do México, é com a esperança. Frances Yates, historiadora inglesa, ajuda-nos a compreender melhor o que isto significa:

Comumente, a história política e religiosa do século XVI, na França, se escreve do ponto de vista de sua separação. A fastidiosa narrativa das campanhas bélicas religiosas foram contadas uma e outra vez; o ódio fanático que animava os partidos rivais, pintado com as mais sombrias cores. Tal quadro é um reflexo verdadeiro dos terríveis acontecimentos que se deram na realidade; mas, sem dúvida, a história como ocorre na realidade não é toda a história, pois não leva em conta as esperanças que nunca se materializaram, os intentos de impedir que as guerras estourassem, os esforços inúteis por superar diferenças com métodos conciliatórios. Esperanças como estas são parte da história, da mesma maneira que os horríveis acontecimentos que as desmentem; ao buscar medir a influência em sua época nos idealistas e amantes da paz, como nossos poetas e acadêmicos, talvez as esperanças sejam tão importantes quanto os sucessos. (In: Gombrich, E. H., Tributos; versión cultural de nuestras tradiciones. México: Fondo de Cultura Económica, 1991, p. 209)

Os sombrios momentos que estamos vivendo... quando, no mundo, os homens da guerra parecem estar ganhando a corrida diante dos homens e mulheres da paz e suas esperanças; quando, em nosso país, os movimentos populares - pelo direito à vida, por melhores condições de trabalho e de educação ou pelo direito à terra - são enfrentados com medidas que levam a piorar a vida dos que portam a esperança, como está acontecendo, nas universidades federais..., nesses momentos, entendemos que a referência a esses homens e mulheres de quem tanto nos orgulhamos serve para que, com as tantas forças sociais desse país e do mundo que entendem que é possível serem diferentes das hegemônicas as opções feitas com relação às necessidades da maioria, possamos traçar alguns caminhos que nos afastem de mais uma guerra - suja como são todas - e nos aproximem da paz e que nos façam encontrar os melhores modos comuns de fugir da miséria vergonhosa de milhões e tecer redes de solidariedade e de ajuda mútua.

Pessoalmente, preciso acreditar que as mulheres americanas de minha geração, que perderam os pais na 2ª Guerra Mundial e os maridos na guerra do Vietnã, não queiram perder seus filhos e se juntarão àqueles e àquelas que nos Estados Unidos da América do Norte e no mundo lutam pela paz. Preciso acreditar que, na Europa, as forças que significaram a possibilidade de asilo político para tantos e tantas de nós da América Latina, na década de 1960, não se deixarão levar pelo medo e lembrarão que há muitos caminhos para se enfrentar a situação atual, e que o grande perigo é a guerra geral, com que tanto sofreram em outros momentos. Não há nenhum lugar que não possa ser atingido, hoje. Essa foi a lição que os atuais e terríveis acontecimentos nos deram. Decididamente, não é com violência que acabamos com a violência.

Em nosso país, saibamos encontrar saídas acordadas que nos levem a não pagar ainda mais as contas desses horrores que se estão armando contra nós. Nesta situação terrível, abrimos nossa 24ª Reunião Anual e os festejos dos 25 anos da ANPEd: "mais que nunca é preciso cantar"... Sabemos bem, porque nossos maiores nos deram muitos escritos sobre isto, acadêmicos ou poéticos, como Cecília Meirelles, que nos ensinou: "E todos acordamos tristes... mas começamos a reconstruir o que, sem nenhuma certeza, somos em alma e esperança."

Boas discussões e bom trabalho para todos nós, dentro desse compromisso com a esperança. Está aberta a 24ª Reunião Anual da ANPEd!

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