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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478

Rev. Bras. Educ.  no.18 Rio de Janeiro set./dez. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782001000300019 

NOTAS DE LEITURA

 

 

Ana Lúcia Valente

Doutora em Antropologia Social pela USP e Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMS

 

 

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Memória Sertão; cenários, cenas, pessoas e gestos nos sertões de João Guimarães Rosa e de Manuelzão. São Paulo: Editoral Cone Sul; Uberaba: Editora da Universidade de Uberaba, 1998.

Quando aceitei o convite para escrever um comentário sobre o livro Memória Sertão, de Carlos Rodrigues Brandão, não tinha a menor idéia do desafio que me esperava. Isso porque, valendo-me das próprias palavras do autor, ao mencionar a experiência de ler anotações manuscritas de João Guimarães Rosa, "para um antropólogo, ler os diários de campo de um outro é um pouco como viajar ao seu coração" (p.16). Ainda mais quando a cena do seu coração contém, como "imagens dos muitos mundos, dos infinitos mundos reais ou sonhados" (p.13), estradas de terra, trilhas de montes que não percorri.

Lembrei-me, então, da conversa com um amigo, sobre o risco que se corre quando se pisa em solo sagrado sem tirar as sandálias... Ou, sem metáforas, quando são tecidas considerações ou opiniões sobre um tema, sem que se tenha um certo domínio de sua discussão. Como viajar no coração de quem pouco conheço, mesmo que partilhemos o mesmo ofício? Mesmo que tenha aprendido a lição de que

[...] o outro sugere ser decifrado, para que os lados mais difíceis de meu eu, do meu mundo, de minha cultura sejam traduzidos também através dele, de seu mundo e de sua cultura. Através do que há de meu nele, quando, então, o outro reflete a minha imagem espelhada e é às vezes ali onde eu melhor me vejo. Através do que ele afirma e torna claro em mim, na diferença que há entre ele e eu.1

Como fazê-lo, se esse exercício de decifração também "incomoda"? Até porque, em sua trajetória de antropólogo nem sempre me reconheça, por ter optado por caminhos teóricos e de vida que não foram os meus?

Tudo indica que dificilmente as mesmas indagações pudessem ser feitas por Brandão no que se refere à intimidade construída com o autor de Grande Sertão: veredas e muitos de seus personagens, especialmente Manuelzão. Depois da leitura desse livro não pairam quaisquer dúvidas sobre a absoluta admiração do autor por Guimarães Rosa, nem que o sertão - "um lugar absolutamente real, desde que seja ilimitadamente indefinível" (p.99) - seja uma imensa paixão partilhada por aqueles que conheceram a sua realidade, fazendo dela terreno sagrado. Por isso, não me parece exagero afirmar que a leitura do livro nos coloca ante um devaneio:

[...] o gesto do poeta, uma escrita que, não narrando [...], não interpretando[...], escreve o que pensa dizendo o que sente.[...] [para quem devaneia] a escrita é carregada de sentidos e de sentimentos de sua imediata vivência. (p.59)

Não por acaso, Brandão, ao mencionar essa vivência do devaneio, lembra a escrita dos amantes,

[...] envolvidos no surto do devaneio desvairado do seu amor, escrevem-se de longe [...], o que é impossível dizer falando quando se está junto [...] porque há uma intensa fala do afeto que só se diz por escrito, mesmo quando para ser lida, depois, diante do outro. (p.59)

E não por acaso, por ser a memória seletiva, é que esse trecho e outros são citados.

Porque a leitura desse livro coloca-nos no campo da poesia, das paixões, dos amores, do sagrado, não explica a dificuldade de comentá-lo e de indicar as idéias centrais. O próprio autor faz uma resenha descritiva e insuperável, no texto introdutório "sobre viver e lembrar, o sertão" (p.11-18). Como todo o livro, escrito com o brilho e a competência dos poetas e dos amantes, brincando com as palavras e acariciando-as sofregamente, esse texto inibiu qualquer pretensão bem-intencionada que tinha para tornar essa nota de leitura mais atrativa. Bem que tentei! E se alguma dúvida há, basta ler essas oito páginas e compará-las ao que me foi possível organizar nas poucas linhas que seguem, com o horror partilhado pelo autor (p.77) de ter sido tão cartesiana.

Um projeto de pesquisa desenvolvido, desde o ano de 1993, chamado O sentimento do mundo, que contou com o apoio do CNPq e da FAEP/UNICAMP, forneceu a base empírica desse livro. Esse projeto, envolvendo um trabalho coletivo, buscou "explorar de diferentes maneiras uma antropologia de sujeitos, de cenários e de destinos" (p.13), a partir de alguns personagens da obra de Guimarães Rosa e seus sertões.

Para este livro sobre a viagem entre a memória e o sertão, o autor produziu quatro escritos: sete visitas à morada da memória; o sertão errante; a memória cúmplice; nós, sertanejos. No primeiro, Brandão estabelece um diálogo com alguns estudiosos que pensaram a memória. Nessa re-visita, o autor afirma colocar-se ante "um punhado de questões apaixonantes" , "diante de pessoas que ordenam os símbolos da memória e recortam as entrelinhas da história de maneiras muito diferentes" (p.93). Trata-se de um texto mais teórico, segundo o autor, um dos raros momentos de um exercício exigido pela mencionada pesquisa. O segundo escrito é construído com trechos de Grande sertão: Veredas, a partir dos quais o autor comenta, medita, viaja sobre os caminhos entre o ser e o sertão. O autor manifesta a sua preferência por esse escrito, de tudo o que produziu em torno do projeto O sentimento do mundo, um convite a mais para o leitor partilhar as suas emoções.

Ao ler memória cúmplice, me veio à mente O ofício de etnólogo, ou de como ter "Anthropological Blues", escrito por Roberto DaMatta.2 queprocura trazer à luz um lado do trabalho de campo reservado aos aspectos 'anedóticos' da pesquisa antropológica. Ali Brandão procura lembrar a sua quase morte, recuperando escritos de campo; anotações dos seus diários de viagem; transcrição de uma entrevista gravada em janeiro de 1972, no dia seguinte ao acontecido; e outras fontes de informação: "aquilo através do que o trabalho do antropólogo quase salta para o acontecimento policial, antes de virar um outro mito dos sertões do Norte" (p.171). Alguns dos estudiosos apresentados no primeiro escrito, e outros, são chamados a pensar, junto com o autor, os caminhos da memória.

O último escrito é iniciado com uma citação de João Guimarães Rosa, que afirma ser a lógica

[...] a força com a qual o homem algum dia haverá de se matar. Apenas superando a lógica é que se pode pensar com justiça. Pense nisto: o amor é sempre ilógico, mas cada crime é cometido segundo as leis da lógica. (p.223)

Com uma lógica tecida pela afetividade, Brandão ordena as falas de João Guimarães Rosa, em cartas, trechos de livros, anotações de viagens e excertos de entrevistas com Manuelzão, entrecruzadas por suas próprias falas e pelas de outros viventes dos sertões do norte de Minas Gerais.

Minas Gerais e Goiás - "os sertões de dentro ou à margem de suas fronteiras" (p.14) - foram adotados por Brandão, mesmo tendo nascido carioca. É, hoje, um antropólogo festejado em todo o país. Não apenas pelos estudos de cultura popular e teorias e práticas de educação popular: seu lugar como pesquisador respeitado está garantido! O que menos se admite é que os seus textos são cativantes e sedutores porque assim ele é. Talvez seja um dos poucos que conseguiram driblar a sisudez da academia, onde muitas vezes se associa ausência de humor/cara feia à seriedade teórica e ao rigor científico e, inversamente, à falta de. Sorriso aberto, simpático, olhos claros e brilhantes, fala alegre, otimismo, um "sei-lá-o-quê" de fé, conversa agradável, a atenção respeitosa ante todo e qualquer interlocutor, escrita prazerosa são suas características. Ao menos essas são as características das quais me recordo, desde que a ele fui apresentada no início da década de 1980, quando Brandão já era referência bibliográfica para os antropólogos neófitos. A partir de então, avalio que toda essa adjetivação positiva sobre o homem e a obra guarda armadilhas e perigos: o leitor seduzido, mas incauto, é levado a imaginar que se pode ser um estudioso/pesquisador diletante para promover a produção do conhecimento ou mesmo a transformação social.

Há seis anos, os quatro textos deste livro foram escritos/organizados. Publicado em 1998, três anos depois, de acordo com as normas de certas revistas científicas, tratar-se-ia de um livro "velho" e não mereceria ser comentado ou resenhado. Afinal, não sendo um lançamento recente, isso não se afinaria às regras do mercado. Ainda bem que nem todas as normas e regras são obedecidas... Muito menos quando se trata de falar sobre a memória, "porque lembrar não é apenas não esquecer. É não poder deixar de recontar para si mesmo" (p.99) e poder comunicar com palavras as lembranças para mim e para o outro. Para Brandão, para tornar a lembrança compreensível, comunicável,

[...] preciso dele, do ouvinte de quem sou narrador de minhas lembranças. Partilhar o sentido, conseguir cúmplices que compartilham comigo não o que eu vivi, mas o que eu preciso "dizer" disso ao outro. Para que eu mesmo creia? Não, ainda. Para que eu mesmo saiba. (p.101)

Essa cumplicidade pode ocorrer a qualquer momento, sem as amarras do tempo. Se houver a disposição de percorrer as estradas de terras e as trilhas de montes do coração do autor. E, nesse trajeto, a própria memória pode ser reavivada: o convite para escrever a resenha, a conversa com um amigo, os textos e os livros lidos, o perfil que construí do autor, em quem pensei e outras entrelinhas do que finalmente escrevi ganham um novo significado.

 

 

1 Carlos Rodrigues Brandão, Identidade e etnia, São Paulo, Brasiliense, 1986, p. 7.
2 In: Edson de Oliveira Nunes (org.), A aventura sociológica, Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 23-35.

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